
Sign up to save your podcasts
Or


No final do ano passado, essa poesia "me chamou". Não gravei porque ainda não havia completado o ciclo de quatro estações pandêmicas, que veio agora em março de 2021. Um ano em casa para muitos de nós. Um ano sem show, sem teatro, sem cinema, sem encontros e sem abraços. Todos nós perdemos alguém ou estamos nos perdendo de nós mesmos: do que fomos, de alguma antiga alegria. Com quase 3 mil mortes por dia no Brasil é preciso seguir sobrevivendo, em casa. Fotografando o entardecer, fazendo pão, cultivando plantas ou adotando um cão. O poeta paulista Carlos Felipe Moisés (1942-2017) publicou "Carrego as Estações Comigo" no livro "Círculo Imperfeito". Já dissemos "vai passar". Só não imaginamos o quanto demoraria.
Um ano de pandemia e como anda nossa saúde mental? Pesquisas recentes da USP e Universidade de Ohio mostram que o Brasil lidera os casos de depressão e ansiedade no período. Mas a necessidade de isolamento social não é a única detonadora dos índices de 63% de ansiedade e 59% de depressão entre entrevistados. No caso da Universidade de São Paulo, a conclusão é que em lugares onde não houve ações concretas de enfrentamento à crise sanitária, os números foram os piores. Para atravessar o tormento e a distopia, vamos nos agarrar à poesia da brilhante Hilda Hilst. Experimente a nova textura sonora do podcast e ouça o extra após a assinatura.
O país do Carnaval não teve folia. Em 2021 não botamos nosso bloco na rua, não enchemos nossos corpos de glitter, não nos fantasiamos e o samba, suor e cerveja ficaram em casa. Mais uma alegria em suspenso neste país que mergulha na dor das mais de mil mortes por dia e segue na tristeza de ser governado por um "presidemente", como bem definiu Augusto de Campos. O que nos resta é carnavalizar com poesia de Carlos Drummond de Andrade.
São Paulo, a maior cidade do Brasil também é uma das mais desiguais. Na semana que se encerra, vimos mais alguns capítulos de uma história que se repete: quem tem poder tira cobertores de quem dorme embaixo de marquises e espalha pedras onde pessoas sem lar se abrigam na temporada das chuvas. Mas é nessa mesma Essepê que o incansável Padre Júlio Lancellotti acolhe todos os dias quem mais precisa. Seu ativismo é atitude e destrói paralelepípedos que personificam a opressão. Que não tenhamos medo e que sejamos eternos, como escreveu a poeta Cecília Meireles, uma das maiores da literatura brasileira, escolhida para homenagear o pároco do povo.
A impotência do homem diante das forças da natureza era tema recorrente na escrita do suíço Charles Ferdinand Ramuz (1878 - 1947). Em 1903, ele publicou os seus primeiros poemas, num livro intitulado "Le Petit Village". Os conflitos pelos quais o poeta e escritor passou no século passado sempre atravessam os tempos. Chegamos em 2021 entre o alívio da vacina para conter a pandemia e o desespero de habitar o país apontado como o pior no enfrentamento ao coronavírus. Seguimos, mas se pudéssemos, certamente, muitos de nós fugiríamos.
Que poesia caberia na enigmática literatura de Clarice Lispector? Foi com essa inquietação que atravessamos as comemorações do centenário de uma das escritoras mais importantes do Brasil. Ela teve uma vida abreviada - morreu em 1977 aos 56 anos - e uma obra intensa, que foi traduzida em 32 línguas. A partir de "Perto do Coração Selvagem", os leitores mergulharam em textos envolventes, existenciais e universais. Clarice rompeu com estruturas de gêneros literários e nunca escreveu poemas. Não importa. O pernambucano João Cabral de Melo Neto, outro escritor de mão cheia, desempenhou muito bem este papel.
“Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira pra matar”, disse Millôr Fernandes. Com traços e aforismos certeiros, ele atravessou um período extremamente sombrio na história do Brasil: a ditadura militar. Por isso, o carioca multifacetado é o escolhido para iluminar esse final do interminável 2020 onde está difícil ter esperança. Os anúncios das vacinações para frear a epidemia do novo coronavírus pelo mundo acenderam a luz vermelha no Brasil por causa da falta de planejamento e de respostas eficientes do governo. Não tem cor de máscara como ritual possível para trazer de volta nosso bom e velho otimismo.
Nesta semana, o futebol mundial perdeu um dos seus gigantes: o argentino Maradona, Camisa 10 da Seleção e grande campeão da Copa do Mundo de 1986. Sua partida, precocemente aos 60 anos, também abalou quem é avesso ao esporte pelo tanto que ele representou. O gênio da bola era um rebelde necessário. Roubo um trecho de Galeano para tentar explicar o motivo de tanta admiração: “Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses”. Para este episódio, um poeta argentino, que também fez de suas lutas a base para o encantamento de milhões de leitores: Juan Gelman, que é dos nomes mais expressivos das letras latino-americanas. Ouça até o fim porque a trilha é de Gotan Project, com Cecilia Roth declamando Gelman. Muita poesia para Maradona! Hasta las vista!
Por que não discutimos o racismo nosso de todos os dias? Como romper as estruturas perversas do racismo estrutural? O que as esferas de poder têm a ver com a opressão sistemática? O que nós temos a ver com essa desumanização? Mais um 20 de novembro no qual as brutais desigualdades nos atravessam e a morte de João Alberto Silveira Freitas, por espancamento de um segurança e um policial num Carrefour de Porto Alegre, não pode ser silenciada. Gritemos com a poesia da mineira Conceição Evaristo, uma das mais notáveis de nossos tempos. Gritemos com a artista peruana Victoria Santa Cruz. Gritemos por João Alberto, Marielle, Zumbi, Amarildo, Dandara, Kauan, Agatha, Cláudia e tantos outros!
O descaso do poder diante do apagão no Amapá. O descaso do poder diante da pandemia, da natureza e, principalmente, do povo brasileiro. Nosso desalento não pode impedir a insurgência. Drummond escreveu, certa vez, que lutar com palavras é uma luta vã, mas precisamos perseverar. Aos 94 anos, o amazonense Thiago de Mello, poeta e tradutor de mão cheia, usa a máquina de escrever e as ideias para mudar o mundo, para humanizar o mundo. Traduzido em mais de 30 idiomas, ele mostra porque todos nós podemos ascender as luzes.
From the publisher's feed