Ser mulher e gostar de homens heterossexuais é um desafio. Sem meias palavras, é, sim, um desafio. Já cunharam esse termo, né, o "heteropessimismo". Mulheres heterossexuais sem perspectivas de futuros relacionamentos. Ofélia, como eu, como você, como sua amiga, sua irmã, sua tia, sua mãe e sua avó, se apaixonou. Acreditou no amor romântico, porque assim lhe foi ensinado, e caiu na maior falácia de todos os tempos: a de que o casamento é o fim e que aquele cara que você escolheu, e que te escolheu, é sua metade. Não, não existe a metade. Ninguém completa ninguém, ninguém muda ninguém, e ser mulher é uma foda. E essa é só a primeira das inúmeras fodas. Porque esse país ainda guarda os recortes de raça e de classe, e nunca, jamais, podemos esquecer desses recortes. Ofélia amou esse cara, perdidamente. Entrou na arapuca de cuidar desse cara, como tantas outras. E, apesar da decisão de largá-lo ter sido dolorosa, porque a paixão (e a narrativa da Disney) ainda imperava, a sensação da escolha de ir embora é de alívio. Ter como nossa maior responsabilidade nós mesmas é um desafio mas, antes de mais nada, se temos a possibilidade de sair de um relacionamento ruim, assim, sem depender do cara, podendo organizar a nossa vida e lidando apenas, com a saudade, é, na verdade, um grande privilégio. Se você, cara ouvinte, minha amiga, ou mera desconhecida, está num relacionamento desequilibrado e tem o privilégio de poder sair, por favor, saia agora. Já diria Déia Freitas, você não é, e não precisa ser, ONG de macho. E eu sei, cara ouvinte, que ficar sozinha parece desesperador, principalmente, porque nos convenceram de que uma mulher sozinha é uma mulher fracassada. Mas eu quero te dizer, eu mesma, Helena (e não Ofélia), que a solidão é desafiadora, mas, ao mesmo tempo, é libertadora! Você não merece aceitar migalhas em troca de companhia. Você se basta, mulher. Você se basta. Vamos juntas e vamos com tudo!