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Or


A VISEIRA
"Escuto o trovoar do alto estandarte? O que queres?" - Disse o Tempo.
"Quem muda o caminho das ovelhas?" disse o Ideal ao Tempo
- "Não podem descobrir que sou carne, que sou o abismo, que servem a mim!"
"Suponho que você queira realoca-lo – Disse o Tempo.
Eu só os faço seguir.
- Já o vejo! Eis o desvirtuoso." - Disse apontando para as colinas.
Vislumbrando o múltiplo estava a alguém, com sua viseira quebrada, mudando o curso do bando, chamando-os para o novo.
O ideal some de vista no horizonte. O bando para, ajoelha-se.
Com vestes douradas, o Ideal se aproxima do desordeiro.
- Sabe que o tempo desgasta suas coisas.
O humilde homem mantém-se prostrado.
O Ideal troca as viseiras com delicadeza e palavras doces.
Diz: "Te tirei do grande perigo. Grande perigo! Volte agora meu Universo.".
Volta ao horizonte. O bando volta a caminhar em direção ao seu brilho
O Ideal sussura para o Tempo.
- Dá a ele um relógio dourado e afrouxa no punho dele seu ritmo.
- A bateria acaba, diz o Tempo com um leve sorriso.
- Eu troco, replica o Ideal.
O Tempo então segue com sua viseira de pulso. A observa e pensa: “Dura como o ouro, sangra a cada segundo.”
O Tempo ri encarando o brilho, estático e ignorante acerca de que com o bando, o Tempo caminha até ele. “Que divertido é o Ideal. Sangra, e molda humanos.”
Artur Uchôa
QUE PENAS
No meu quintal caiu ontem um passarinho.
Mesmo machucado vi que era belo.
Mesmo magoado seu canto era música.
Lamentei o acaso triste e fiz o melhor que podia.
Recolhi... tratei sem esperanças infantis e tolas.
Velho que sou de tantos desencontros, conhecido da morte, seguia conciliado e respeitoso.
A pobre ave não tinha chances e nem eu esperanças.
Mas era de mim fazer o melhor que podia.
Guardo para mim as minhas tristezas. Aos outros são inúteis.
As nossas tristezas para os outros são como sapatos que se deixa à porta.
Dei-lhe abrigo e bálsamos anestésicos.
Sorri cordial e murmurei com minha voz falha melodias alegres improvisadas.
Dia a dia o pássaro não melhorava, mas também não morria.
O curioso é que se vida por ali não tomava um rumo algo num canto esquecido em mim brotava.
Não que me afete. Velho que sou já gostei e fui gostado. Já tive chapéu preferido. Cão caramelo adoçado e outros tipos de amigo.
Se gosto, gosto e pronto. Se é para chorar, choro e pronto.
Sem mimimi ou eternamente mal-amado.
Deixei que de mim gostassem, fui levando e fui levado.
Cantei seresta, contei segredo.
Amor bom de contar segredo é amor moribundo, não é?
Assim foi, não melhorava e não morria. Até que um dia fui desavisado, quase feliz, para dar-lhe o trato e contar o enredo de sempre de velho chato.
E que dela? A ingrata avezinha.
Na caixa nem uma peninha.
A janela tinha a fresta de ontem alargada.
No muro, o Nestor de dona Guiomar, cor de cartola e com a mesma empáfia, me julgava bem seguro... lambendo a pata.
FBarella
INSTRUÇÕES PARA CHORAR
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela.
O choro médio ou comum consiste numacontração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto.
Duração média do choro: três minutos.
Julio Cortázar
AMPUTAÇÃO
Meu dedo, meu Deus, não me quer mais.
Reclama do anel
do esmalte
do alho
Meu dedo, meu Deus... Não me serve mais.
Macna Legends
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO
Mario Quintana
ESCOTILHA
- Olho pela escotilha do celular e vejo que estou a mais de 3000 mortos de profundidade.
Há muito tempo já não tenho certeza de que a capsula de clausura que me rodea é segura. Não posso afirmar que essa pressão não me afete. Posso estar simplesmente, já intoxicado pela loucura e tendo como manifestação a alucinação de que estou bem.
Estou bem?
- Olho pela escotilha do pc e vejo conhecidos sendo apanhados pelo demônio invisível.
Cada vez mais conhecidos, mais próximos.
Me lembro de aviso que vi num livro: “A maior artimanha do diabo é convencer as pessoas de que ele não existe.”
Pessoas em festas, na praia, de mascaras no que queixo negando a realidade.
Do diabo a jogada de mestre nunca foi tão acertada.
“Isso é politicagem... será que está morrendo isso tudo mesmo?..."
"Tem prefeito dizendo que morreu mais gente pra receber verba extra do governo...”
E o diabo faz as contas direitinho, não mata a todos que afeta, faz dos descrentes assintomáticos um caminho, um atalho, um túnel e pega assim até aquele mais precavido na fresta de um mínimo vacilo.
- Olho pela escotilha do presente e vejo, aqueles que não posso abraçar e beijar por agora e o pior é não saber até quando e se quando.
Medo que o diabo os leve ou me leve.
Gente minha que a situação não dá outra alternativa que não seja sair no breu dessa meia noite eterna com um trapo amarrado na cara e um pote improvisado de álcool-gel na bolsa para honrar as contas do fim do mês.
- Olho com meu olho cético e marejado pela escotilha da história e vejo sem acreditar. Que fizemos para merecer esse lugar? A pior situação possível com a pior pessoa possível no controle dos nossos destinos.
Me olho pela escotilha do espelho e vejo, a cada tossida sem sentido um desespero. Espero que seja só o excesso de cigarro. Um velho na fila do benefício tosse continuamente, quando arruma um breve espaço para respirar é providente e anuncia: “Enfisema pulmonar, minha filha.”
A senhora um pouco mais atrás comemora fazendo o sinal da cruz. “Graças a deus.”
FBarella
PALAVRAS
Primeiro era ninguém e silêncio.
Alguém ouviu? Saímos do nada e já estamos no outro?
Mudo, ausência de sentido ou plateia.
Logo depois, anotou para não esquecer.
Descreva / desenhe / dite / agrida o silêncio / Grite
Faça uma lista, circunde, aponte. Puxe uma seta, adorne, grife... faça iluminuras
Cacetinhos voadores. Carinhas tristes
Protocole, fotocopie. Reconheça firma e assine.
Papelzinho em branco. Silêncio.
Quem escreve é o que? Maluco quieto falando sozinho?
“Me lave” escrito na poeira de um vidro.
C e L em meio a um coração talhado a canivete.
Um exame médico dando positivo.
Papel fino de linho / Papel de saco de cimento.
Planta baixa, lápide. Buraco cheio.
Outro no ventre a caminho.
Bilhetinho que só diz “sim”.
100 longos anos de solidão.
Recadinho de batom no espelho.
“Carpe Diem” escrito errado na nuca da menina chata.
Mal conselho
Pastor Improvisado, de beabá magro, tropeçando na escrita sagrada, na garagem da sua casa alugada, enfiado num terno emprestado.
“Ó glória..” apela ele repudiando a palavra ingrata.
Já o menino não erra. Devotado e comprometido. Aplicado no catecismo, alcança a graça várias vezes.
Sem medo de ser punido.
FBarella
CLAUDIONOR
Da rua de trás, no alto, inverto a varanda de paisagem:
Vejo os quintais desnudos, vento nos varais. Bagunça, mofo, mato.
Um velotrol há muito esquecido esmaecido das suas cores vivas por sol e lua.
Uma parte de algo que eu sei que é parte, sem saber o que é o todo, se esconde parcialmente debaixo do plástico azul cheio de poças da última chuva.
A tarde cai em silêncio e da porta aberta ninguém sai.
Intimidades urbanas.
Uma Juliana corta as unhas dos pés ouvindo qualquer coisa no celular.
O cachorro surge num ponto, cruza o espaço e some no outro. Não sei de onde veio nem para onde foi.
Uma velha enxuga a testa com o pulso enquanto água as plantas com a mangueira.
As tetas grandes descansam sobre a barriga parcialmente vistas pela roupa larga nas mangas.
Roupa de ficar em casa, roupa de quintal. Ou não, já vi dessas na calçada, atendendo sem pudor o portão.
O homem negro, de lábios grossos, sentado no arremedo de escada, parado no tempo exceto pelo cigarro que a fumaça dança.
Ouve muito atento de dentro da casa algo que nem sei se é com ele ou sobre ele.
Sei que nem pisca. Como fosse sua empreita, figurar um novo Portinari.
O gato se avisa da criança indiscreta, pelada do meio pra baixo, em curso e aperta o passo para parar um pouco a adiante para nada,
fingindo avistar um real perigo eminente.
Um santo sem cabeça, um ferro de antena vermelho de ferrugem, uma peça de fusca.
Flagro Claudionor. Esguio, branco como uma vela, a cabeleira preta emoldurando a cara vermelha curtida de cachaça que me flagra de volta.
Finjo que não o vi e aperto o passo olhando para um falso algo a minha frente.
De canto de olho, vejo-o me escoltando com o olhar e saudando com um sorriso cínico.
Toalha enrolada esquecida no pescoço, mãos na cintura projetando o quadril pra frente.
O pau branco com a cabeça igualmente vermelha perdido na pelagem longa, densa e negra.
A rua acaba, atravesso para a outra calçada.
Ali nunca mais passo, intimidade demais.
Urbanidades muito desnudas para voyeres não tão casuais.
FBarella
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