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Anjos na Lua - de Mancini Jr.
Anjos caminham na lua
pois para eles é difícil o fazer aqui na terra
onde a verdade é sacrificada sempre pelos que mentem
e dizem o que querem que ela seja
em direção hipócrita e conveniente
a favor apenas de si mesmos e do caos que usam
para controlar as paixões de seu gado.
Anjos caminham na Lua
pois por aqui a ganância rege o coração dos homens
buscando ser guiados por capitalismos atrozes
vorazes
sendo devorados pelo que querem consumir
elevando as mãos
no raiar do dia
para pegar a primeira lúz do Sol
mas agarrando apenas as trevas de suas almas
Anjos caminham na Lua
pois por aqui o supremo que fala ao homem
é o santo algoritmo
regendo teus gostos
regendo caminhos
regendo opiniões
regendo julgamentos
regendo atitudes
ou sua falta
importando mais tua selfie, likes e seus iguais gostos
a encontrar no divino google pobres almas reduzidas a dados irrelevantes
no desespero de um reconhecimento vazio
verdades falsas
sabores de compartilhamentos e preconceitos
induzindo bolhas que não se rompem
tão finas
emotivas
e ensanguentadas de ódios
grilhões de suas ignorâncias.
Anjos caminham na Lua
pois a guerra caminha na terra
devastando esperanças de futuros
que vão por caminhos insensatos de poder e dominação
corrompidos
e liberdades falsas
interessando aos poderosos
escravidões consentidas em nome de seus sabores
que os deleitam e a quais servem unicamente.
E assim
em busca de uma lúz nas trevas
deixadas pelo caminho da humanidade
olhos sedentos se voltam para o alto
com suas mãos elevadas em súplicas
egoístas ou benevolentes
sinceras ou induzidas
cheias de bravatas ou humildade
pedindo por uma lúz
pedindo por algo que os guie e os tire do fundo de seus poços
no calar da noite
cheios de esperanças
que veem nos brilhos refletidos
quando Anjos caminham na Lua.
Mancini Jr.
CANÇÃO BONITA – FBarella
Não era noite nem nada. O Sol nem tinha se ido e Mainha o esperava na porta da cozinha totalmente avulsa. Pelada como chegou nesse mundo.
FBarella
#voticontá #fbarella #FarCry6 #cancionbonita #macnalegends
MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA
de KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS
Interpretação: Macna Legends
QUERIA TER MÚSCULOS
Não aqueles dos moços toscos construídos com movimentos inúteis nos ferros da barulhenta academia.
FBarella
AMIZADE
Juliana achava o amigo do marido curioso.
GUINHO
Eu sempre fui atirado, perguntador.
Lá no primeiro dia da creche lembro-me que estava eu a um tanto já de minha mãe que assuntava qualquer coisa com uma outra que eu nunca tinha visto.
Eu corria o olho e anotava tudo, tão novo aquilo.
Atrás de uma mulher alta, muito alta que vestia calças que não eram de jeans estava o outro menino. Outro além de mim entre tantos. Mas esse me chamou a atenção, fitava-me com um terço só de um olho pela perna cumprida da mãe.
- Como você se chama?
O terço de olho se arreganhou e na sequência derrubando a beiçolinha rubi desenhada na cara redondinha e branca que só pão descansando, esperando pra ir ao forno.
“O nome é Wagner.” Acudiu a mãe vara pau.
Wagner! Não podia ser. O pai da Natalia do andar de cima ao nosso era Wagner. Wagnão segundo a Cida, mulher dele que sempre esquecia a chave e o chamava em baixo da nossa lavanderia.
“Wagner não é nome que uma criança possa ter”, encaraminholei.
Cheguei a cobra-lo disso na estreia do lanchinho na creche.
Mas o que ele podia fazer! Não foi consultado.
“E o seu?”
- Fábio!.
Tá certo lá que se tinha adulto com esse nome que era até cantor. Mas servia, funcionava.
Wagner não.
Ele me deixou de canto e foi sofrer na outra ponta.
Como uma criança improvisada com o agasalho do avô que lhe roubava as mãos.
Na mesma semana tinha lá com a gente, a filha da dona Mirtes, dona da escolinha.
Tinha os olhos verdes vivos e o cabelo curto e loiro perfeitamente desarrumado. Coisa que eu só fui encontrar de novo no cinema depois de grande.
O caso é que ela, mesmo adolescida, ajudava no pastoreio da meninada. E por estar entre nós, os pequenos e os adultos na idade, fazia algumas pontes interessantes.
Para minha surpresa ela também se surpreendeu quando leu na lancheira do garoto “Wagner”.
- Wagner! Nossa, pesado esse nome pra criança.
Eu não tinha esse recurso na época mas entendi bem e concordei na hora.
Foi daí, como uma fada de filme de desenho americano que ela fez sua mágica. O rebatizou-o.
Sacudiu o condão e proferiu: Wagner, wagninho... gninho... Guinho!
Pronto, estava salvo.
Agora corria feliz e solto no pátio, com os coleguinhas gritando” Guinho, guinho, guinho..”
Até passar a bola.
Lembrei disso porque na fila do caixa do banco lá estava eu anotando tudo e anotei o nome na targeta de plástico que tinha o nome do funcionário.
Wagner.
O caixa que me atendeu foi o do lado. Vanessa.
Devia dez, dei cinquenta, a gaveta não deu conta. Vanessa se estica e solicita ao vizinho.
- Guinho, troca pra mim, uma de dez, duas de vinte.
FBarella
A ENCERADEIRA
Na sala um silêncio constrangedor das pessoas em volta da enceradeira parecia que nunca ia ter fim. Dr Bastos olhava para os dois rapazolas a sua frente tentando entender o estranho clima que tomava a cena.
- Ficamos assim Dr Bastos, levo o aparelho, assim que meu pai arrumar trago de volta no mesmo dia.
Dr. Bastos enrolou a ponta do bigode observando de canto de olho o moleque mais novo que veio junto mas não dizia nada.
Horas antes o debate tinha sido intenso. Augusto não tinha nenhum problema em ajudar o pai levando e buscando os aparelhos que concertava. O que lhe quebrava a figura eram as vezes quem o caçula Joca era incumbido de ajuda-lo.
- Faço duas viagens se for o caso pai.
- Vá logo e não discuta, todos precisam ajudar, além do mais seu irmão não está fazendo nada.
A implicância com Joca não era picuinha pouca. Entre os irmão havia um bom humor e brincadeiras quase sempre sadias. Mas, como em todo grupo, alguns são menos e outros mais. Augusto era o mais sério dos irmãos e Joca seu extremo oposto. Não faltavam histórias em que Joca havia levado as brincadeiras a um novo patamar.
Certa vez, por exemplo, tanto provocou seu irmão mais velho que esse acabou lhe dando um bofete na boca. Joca recuou e começou um choro manhoso cuspindo o que a primeira vista parecia pedaços de dente quebrado. O irmão entrou em desespero, uma coisa era uma briguinha de irmãos, a outra era causar um dano desses. O castigo seria duro demais. Partiu acudir em desespero o caçula que vendo o desespero do irmão começou a rir. Os pedaços cuspidos eram na verdade macarrão cru que ele tinha o hábito de roubar da cozinha e comer como petisco.
O grande problema de Augusto com Joca era “a cara”. Joca tinha descoberto uma “cara” que desconcentrava e causava um riso descontrolado no irmão. Uma expressão, que se bem colocada, no instante certo era irresistível. O aprimoramento da aplicação era o momento. Quando não se podia rir, quanto mais solene a situação, ali era o ponto e Augusto sabia disso e por isso evitava a todo custo que o irmão o acompanhasse em situações de trabalho.
Dr Bastos já tinha adiantado que o seu filho mais velho tinha tentado ele mesmo descobrir o defeito da máquina. Sem sucesso.
Augusto firmou os braços pra carregar o aparelho e num puxão seguro levantou-o, só o cabo.
Voltou o mais rápido que pode a peça no lugar tentando disfarçar o desacerto desistindo na sequencia ciente que teria que pegar uma parte de cada vez. Suas faces brancas mudaram na hora para um vermelho intenso que era tão vivo que um tio já tinha o apelidado de “tomate”
- Como eu disse ao seu pai o Junior...
Agora era questão de vida ou morte, não poderia olhar para Joca em hipótese alguma. Sabia que estaria a espreita, somente aguardando, tranquilo, paciencioso, fazendo “aquela cara”.
Sem lhe dirigir o olhar tentou uma última manobra entregando-lhe o cabo da enceradeira.
Frustrado abaixou-se para pegar a parte que faltava o mais rápido que podia. Ergueu com firmeza e segurança pela parte do cabo que havia restado. O corpo do aparelho veio quase todo, exceto pelas três escovas perfeitamente alinhadas no chão.
Augusto olhou desconsolado para aquelas três rodelas dispostas tão simetricamente e percebeu a sua total falta de chances contra aquela situação. Alias todos olhavam para as três rodelas, como se fossem reticências materializadas causadoras daquele constrangedor silêncio.
- É... (lançou Joca)
Augusto derrotado suspirou profundo e olhou para cara de Joca.
FBarella
TRAFICANTE DE AFETOS
Lá no fim do beco isolado, num canto que ninguém vai, vaza uma cerca violada de alambrado. Passo com cuidado para não agarrar na roupa e ando um pouco numa picada de mato alto de pontas aloiradas pelo sol. O vento manso dá vida e movimento ao caminho deitando a relva em ondas.
A trilha dá numa árvore velha e anã quebrada em sua figura que a faz parecer uma senhora curvada apoiada com as mãos nos quartos.
Embaixo dela um banco improvisado onde está Jonathan olhando longe para os quintais dos velhos barracões abandonados onde não acontece quase nada, exceto pelas aves nos fios e telhados velando o entardecer.
- Jonathan? - nem sei se é esse o seu nome , aliás quem sabe o que é verdade por esses dias. Quem é que pede documento a amigos recentes para checar se história bate?
O que sei é que seus olhos gateados de baixo das sobrancelhas grossas e bem desenhadas parecem ignorar minha presença.
- Oi Vanessa.
A boca fina, tonalizada de púrpura mostra que estou enganada. Me encolho como uma tartaruga assustada enfiando a cabeça no cachecol. Ele sorri depois de falar meu nome, e quando sorri sua pinta perfeita se estica em cima dos lábios. Agora ele me fita como antes fitava o nada, com a mesma contemplação e intensidade.
Tento me inventar para parecer mais segura. Quem eu sou de verdade não me ajuda em nada, não me sinto confortável. Tudo em vão, ele parece que sabe de mim tudo e tudo que eu possa dizer ou fazer parece estar descrito num roteiro que ele leu e releu até decorar.
- O que vai ser hoje? O de sempre?
Finjo não ter pressa para responder e agir com tranquilidade. Em vão.
Ele me olha, seu casaco de couro marrom surrado me olha, seu jeans cinza me olha e seus sapatos sem meia me olham.
Tiro do bolso o dinheiro amassado em forma de canudo cujo o valor traz consigo a resposta.
Ele recolhe a taxa com uma quase indisfarçável frustração.
Já de pé, o casaco é dobrado com cuidado e colocado no banco. Ele fica de costas e se afasta um pouco para me dar privacidade. Tiro a minha jaqueta e o cachecol e os coloco ao lado do dele.
- Está pronta?
Aceno que sim com a cabeça.
Jonathan volta, abre os braços só um pouco, só para que eu possa entrar. Vou de passinhos curtos até minha testa tocar o seu peito. Ele guia minhas mãos frias e tímidas até suas costas e se fecha e mim. Deito finalmente meu rosto de lado, ouço seu coração calmo, sua temperatura viva. Ele sabe exatamente o momento e me aperta. As lágrimas começam a sair, tantas que não se distinguem. Minha voz embargada pelo choro se esconde na paisagem. Apego-me a ele, como se minha vida dependesse disso. Quero esmaga-lo, que faze-lo entrar e mim ou eu nele. Quero que sinta meus seios como se fossem dele. Doloridos por ele.
O tempo passa, um sinal no celular toca. Ganho 10 segundos de bônus.
Me recomponho e parto.
A noite me espera na saída do beco. Mascaras descartáveis pelo chão e ambulâncias gritando apressadas retomam a realidade.
FBarella
CARTA À CIDA
Olá, Cida!
Fiquei sabendo dos seus sentimentos e não pude deixar de te escrever como forma de te apoiar.
Começo te parabenizando pela pessoa que você foi e é, e de cara te adianto que por incrível que pareça, estão todos bem.
Sei o quanto você é uma pessoa "família" e sei que está sendo difícil esse novo momento em que o ninho está se esvaziando. Porém te convido a tentar um novo olhar sobre estas coisas novas.
O seria ser mãe? Talvez seja essa uma resposta fácil e alguém diga. “A Cida é mãe do Matheus”, mas é aí que, quem não sabe da história não pode saber do real valor dessa pergunta.
Agir como mãe pode ser um puro instinto biológico manifestado no processo de gestação. Mas e quando esse sentimento totalmente convertido em ação é gestado na alma de uma menina em favor de seus irmãos?
Sim, seus irmãos, crianças como você, com demandas tão diferentes, tão urgentes e complicadas.
Quem joga nas costas de uma menina tanta responsabilidade? Quais as chances disso dar certo?
Três vidas além da sua, três pessoas, não seria de se estranhar que se desvirtuassem, que sofressem, que se desviassem do caminho e da correção. Se não todos pelo menos um ou outro.
Pois é, a vida jogou nas suas costas essa complicadíssima missão. E você poderia ter feito diferente, você poderia ter ido até certo ponto do caminho, ter segurado como desse até constituir a sua própria família. Ninguém poderia dizer um “a” se você decidisse cuidar só dos seus, do seu filho Matheus, do seu marido e de você mesma. Ninguém poderia te censurar. Escapar daquela situação em que todos foram jogados já seria um grande feito.
Mas você foi além, muito além, escapar não bastava, nunca foi para você uma opção. Você se salvou e salvou a todos. Foi mãe muito antes de poder ser, foi mãe dos seus irmãos.
Cuidou de cada um, proveu e promoveu um espirito de lar a essas pessoas.
E nessa empreita você teve absoluto sucesso. Ninguém se desviou, ninguém ficou pelo caminho.
A prova disso é que sim, estão todos bem.
E é agora que eu te convido a analisar os resultados disso. Todos estão bem, todos são pessoas de bem e autossuficientes, todos terão a chance de ser felizes e bem-sucedidos.
Essa chance foi dada a eles por você. Pela sua coragem, por sua fibra e empenho.
Estão todos bem, e ao meu ver, essa é a sua grande vitória.
Agora é hora de relaxar e aproveitar um pouco. Se a casa hoje está mais vazia, curta o silêncio e a paz, cuide-se sem culpa. Tudo que podia ser feito você fez com perfeição.
Só não acostume-se demais, pois seus meninos logo voltarão, em barulhentos e felizes almoços de domingo.
E nesses, não em todos, mas um ou outro faço questão me convidar.
Um forte abraço do seu fã e amigo.
Barella
FBarella
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