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A corrida à Gronelândia e a fragmentação da ordem internacional


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A Gronelândia voltou ao centro do debate internacional após o recente ataque norte-americano à Venezuela. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido na ideia de que o território é vital para a segurança norte-americana, reacendendo uma discussão antiga sobre a importância estratégica da maior ilha do mundo. Território autónomo sob soberania da Dinamarca, a Gronelândia assume, actualmente, um papel central num tabuleiro geopolítico cada vez mais complexo.

Em entrevista à RFI, Céline Rodrigues, investigadora em Relações Internacionais no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA), sublinha que o interesse norte-americano pela ilha não é novo. “A Gronelândia, ao longo da história tem tido altos e baixos na sua importância e relevância para os Estados Unidos”. No final do século XIX, Washington chegou mesmo a ponderar a aquisição da Gronelândia e da Islândia, tentativa que voltou a repetir-se em 1910, quando os Estados Unidos propuseram à Dinamarca uma troca territorial envolvendo uma das ilhas das Filipinas, proposta recusada por Copenhaga.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a região voltou a ganhar relevância estratégica. Segundo a investigadora, “o Presidente Truman acabou por fazer uma oferta de um valor muito elevado que a Dinamarca também rejeitou”. A lógica geoestratégica mantém-se, agora reforçada pelas alterações climáticas e pelo degelo do Árctico.

O que nós verificamos é que esse glaciar irá permitir o acesso a um grande número de recursos naturais”, explica Céline Rodrigues, apontando para a existência de terras raras, diamantes, ferro, urânio, petróleo e gás. Recursos que despertam o interesse não apenas dos Estados Unidos, mas também da China e da Rússia, num contexto em que as novas rotas marítimas do Árctico podem encurtar significativamente as ligações comerciais globais.

No entanto, a investigadora alerta para as limitações práticas dessa exploração. “Não é certo que a região seja economicamente viável, até porque o terreno tem muito pouco de infraestruturas, de estradas, de ferrovia. É um terreno muito difícil.” Mesmo quando são identificados locais com potencial, “até o momento da produção, consideram que podem passar cerca de dez anos”.

A questão da soberania dinamarquesa surge como um dos pontos mais sensíveis. “No caso de se verificar a perda de território da Gronelândia, a Dinamarca deixa de ser um país considerado ártico”, o que teria consequências profundas no seu posicionamento europeu e no seio da NATO. A própria Dinamarca, recorda Céline Rodrigues, passou a considerar os Estados Unidos “como uma ameaça à sua soberania”.

A investigadora questiona ainda a narrativa da segurança nacional invocada por Trump. “Se essa segurança nacional fosse uma questão primária, deveria reforçar também, então, no próprio Alasca”, tendo em conta a proximidade com a Rússia e os exercícios militares conjuntos russo-chineses na região.

Uma eventual intervenção militar norte-americana na Gronelândia colocaria a União Europeia perante um cenário para o qual, segundo Céline Rodrigues, não está preparada. “Como é que a Europa, União Europeia poderá defender a Dinamarca e a Gronelândia?”, questiona, sublinhando a distância geográfica e a limitada capacidade militar europeia. Um conflito deste tipo poderia representar “uma alteração completa da ordem mundial à qual nós estávamos habituados a viver”.

A investigadora admite que este cenário colocaria em causa não só o projecto europeu, mas também a própria NATO. “Se falamos no fim da União Europeia também devemos falar no fim da NATO”, afirma, lembrando a contradição de os Estados Unidos poderem atacar um aliado que, simultaneamente, contribui para a indústria militar norte-americana, como acontece com a aquisição de aviões F-35 pela Dinamarca.

Quanto à Rússia, a investigadora considera que uma agressão à Gronelândia apenas reforçaria ambições já existentes: “Eu acho que eles já estão bem claros”, referindo-se aos apetites expansionistas de Moscovo, visíveis noutras regiões do Árctico e do norte da Europa.

No pano de fundo surge também o interesse económico de Donald Trump, já evidente no discurso sobre a Venezuela. “Neste momento, o facto de fazer referência à segurança interna, tal como o fez inicialmente com a Venezuela, replica-se aqui”, afirma a pesquisadora, sublinhando o peso das reservas de petróleo e gás na definição da política externa norte-americana.

Para Céline Rodrigues, o mundo atravessa um período de profunda incerteza. “A ordem mundial, tal como a conhecemos até agora, já não existe. E coloca em causa o direito internacional.

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