
Sign up to save your podcasts
Or


Três anos depois do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023, Gaza continua devastada, a violência agrava-se na Cisjordânia e uma solução política continua distante. O jornalista e analista de política internacional Miguel Szymanski analisa as responsabilidades de Israel e do Hamas, o papel dos Estados Unidos e da Europa, a erosão do direito internacional e a forma como os media europeus têm coberto o conflito.
RFI: Três anos depois do 7 de Outubro, como devemos falar simultaneamente do crime cometido pelo Hamas e da devastação infligida depois à população de Gaza?
Miguel Szymanski: Em primeiro lugar, nesta data em que passam três anos sobre os atentados do Hamas, devemos pensar nas vítimas. Devemos pensar nas 1139 vítimas que o Hamas fez no seu ataque contra Israel. Devemos pensar nos mais de 200 jornalistas assassinados pelo exército israelita desde então, nas 20 mil crianças mortas pelo exército israelita e no total de mais de 70 mil palestinianos assassinados.
Ou seja, as vítimas não podem ser somadas umas contra as outras, nem subtraídas. Mas a desproporção é flagrante. É a desproporção que distingue um atentado terrorista, o massacre de civis que foram os atentados do Hamas, de um genocídio e de uma subsequente limpeza étnica que se está a verificar na Cisjordânia, na Palestina.
As esperanças foram por água abaixo, temos ainda uma guerra no Médio Oriente em curso. Depois dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, que são uma consequência directa desse fatídico 7 de Outubro de 2023. Isso é uma consequência directa porque, imediatamente após estes atentados, os Estados Unidos começaram a colocar o seu porta-aviões no local em que se tornava previsível um ataque contra o Irão, que era algo que Israel, sobretudo Netanyahu, já desejava há muito tempo.
E, por falar em Netanyahu, é talvez bom lembrar que Israel vai ter eleições brevemente, agora em Outubro, e que o partido de Netanyahu, o Likud, tem a sua origem no Irgun, que era um movimento terrorista nos anos 40, que matou centenas de civis árabes, britânicos, crianças, mulheres, civis.
Portanto, isto de olhar para os agrupamentos terroristas tem sempre uma perspectiva histórica. No momento, são movimentos terroristas. Assim era classificado aquilo que deu origem ao actual partido de Netanyahu. Era considerado terrorista pelos britânicos e por muitas organizações internacionais. E, na retrospectiva histórica, para os israelitas é um movimento de libertação, tal como na Palestina não se olha para o Hamas como um movimento terrorista.
Os mortos são, no entanto, aquilo que mais nos tem de chocar, bem como os deslocados e a tentativa actual de Israel de fazer, assumidamente, uma limpeza étnica e de ter varrido da mesa sequer a ideia de reconhecer o Estado da Palestina. Nem o actual primeiro-ministro, nem o seu principal opositor em Israel têm sequer a ideia de aplicar o direito internacional que reconhece o Estado.
Enquanto a tensão internacional permanece centrada em Gaza, continuam, na Cisjordânia, a expansão dos colonatos, as demolições, a violência dos colonos e a fragmentação territorial. Ainda existem condições materiais para um Estado palestiniano viável ou a solução de dois Estados tornou-se sobretudo uma fórmula diplomática para evitar discutir a realidade política que já existe entre o Mediterrâneo e o Jordão?
Ambos os cenários são possíveis e dependem sobretudo da comunidade internacional, porque a comunidade internacional, a começar pela Europa e pelos Estados Unidos, teria, se quisesse, os meios necessários para forçar Israel a cumprir a solução de dois Estados.
Israel não quer essa solução, claramente. Nem o principal partido no Governo, nem o principal partido da oposição querem esta solução. Mas Israel poderia ser obrigado a cumprir o direito internacional, como, por exemplo, se tenta fazer com a Rússia. Tenta-se que a Rússia cumpra o direito internacional e se retraia do território que invadiu na Ucrânia e, para isso, a União Europeia recorreu a mais de 20 pacotes de sanções. Outros tantos os Estados Unidos.
Portanto, há meios de pressionar os países, com maior ou menor eficácia. Menor eficácia no caso da Rússia, porque é uma potência grande de mais e demasiado apoiada pela China, pela Índia, por vários outros países, pelo Brasil, pelos BRICS, pelo Sul Global.
No caso de Israel, não. Israel está isolado e bastava que os Estados Unidos e a União Europeia quisessem obrigar Israel a cumprir o direito internacional para isso acontecer de imediato.
De maneira que, se não acontece, ficamos pelo credo de boca de países como a França, o Reino Unido, a Irlanda, países que entretanto reconhecem a Palestina, incluindo Portugal. Ficamos com o credo na boca porque não se seguem as acções necessárias para impor esta solução. Israel, voluntariamente, não o fará.
O direito internacional foi constantemente evocado pelas Nações Unidas, tribunais, governos, como dizia, e organizações humanitárias, mas revelou uma capacidade muito limitada para proteger civis. O que nos dizem estes três anos sobre a chamada ordem internacional baseada em regras?
Poder-se-ia pensar que foi suspensa. Eu sou menos optimista e acho que está a ser activamente desmantelada, sobretudo por Israel. Mas, numa meta-análise, obviamente graças ao peso dos Estados Unidos.
Os Estados Unidos estão a perseguir os juízes do Tribunal Penal Internacional, que é um tribunal penal que resultou de um acordo assinado pela totalidade dos países da União Europeia, mas que os Estados Unidos não reconhecem. Não só não reconhecem, como não assinaram o Tratado de Roma que o instituiu, como estão activamente a perseguir os juízes, a aplicar-lhes sanções e a dizer que não querem que aquele tribunal funcione.
Foi esse tribunal que declarou que tanto Netanyahu como o seu ministro da Defesa na altura, Gallant, têm de responder por crimes de guerra perante o Tribunal Penal Internacional.
Os Estados Unidos não o querem, como os Estados Unidos não querem que funcionem as outras organizações, como as próprias Nações Unidas. E, por isso, o Presidente dos Estados Unidos criou aquele Board of Peace, um conselho de paz que foi uma tentativa caricata de Donald Trump para criar uma estrutura paralela às Nações Unidas. Não funcionou, não irá funcionar.
Mas o que funcionou foi o desmantelamento, e está a ser o desmantelamento, dessa ordem internacional baseada em regras, que os Estados Unidos querem absolutamente impedir.
Talvez só voltarmos ao início da conversa, quando falámos no atentado do Hamas. Neste momento, temos familiares das vítimas deste atentado, israelitas, cidadãos israelitas, a acusar Netanyahu de não ter protegido os reféns, de ter sabido de antemão dos ataques do Hamas e de nada ter feito.
Temos a imprensa israelita a dizer que Netanyahu não só foi informado de antemão, como foi, durante muitos anos, cúmplice do Hamas, que era indirectamente financiado para evitar sequer que tivessem de negociar uma solução para a Palestina. Porque, enquanto existia o Hamas, Netanyahu tinha um pretexto para dizer: eles são terroristas, portanto, nós não negociamos com terroristas. É por isso que não avançámos com a solução de um Estado palestiniano.
Têm sido truques. E os truques vão mais longe. Como soubemos agora recentemente, por uma entrevista dada até pelo próprio ministro da Defesa, procurado por crimes de guerra, que disse que, no 7 de Outubro, foi aplicado o protocolo Hannibal.
O protocolo Hannibal é um protocolo do exército israelita que diz que, para evitar que se façam reféns ou que sejam retidos militares israelitas, se dispara a matar contra palestinianos, aceitando que também serão mortos israelitas.
Por isso, não se sabe quantos dos 1139 mortos na sequência do ataque do Hamas foram assassinados pelo Hamas. E quantos é que não foram assassinados por Israel? Que percentagem, ao abrigo deste protocolo assumido pelo próprio ex-ministro?
Quem tem hoje legitimidade para decidir o futuro político dos palestinianos? Pode existir uma solução legítima, concebida principalmente por Israel, pelos Estados Unidos, pelos países árabes e pelas potências europeias, sem soberania palestiniana e sem uma representação política palestiniana democraticamente renovada?
Nós sabemos, e ouvimos a explicação por parte da Ucrânia, que não é possível organizar eleições num clima de guerra. Com o clima de guerra na Ucrânia e, no caso da Palestina, com o grau de destruição na Faixa de Gaza e a situação em que vivem as pessoas na Cisjordânia, é praticamente impossível.
Face às agressões permanentes, à terraplanagem, com milhares de pessoas ainda soterradas sob o entulho e os escombros em Gaza, e praticamente sem condições de vida minimamente dignas, é impossível organizar-se qualquer tipo de eleições neste momento na Palestina.
E a comunidade internacional não está a cumprir o seu papel, que seria forçar, mais uma vez, repito, forçar Israel a cumprir as regras elementares do direito humanitário.
Israel não o está a fazer. Assume que quer correr com os palestinianos do seu território. E eu não vejo, enquanto não houver pressão substancial, pelo menos da União Europeia, essa poderia mudar alguma coisa , uma solução.
Tivemos, sim, este Verão passado, a China a cortar praticamente relações com Israel por outras razões. Relações comerciais na área tecnológica, porque Israel estava a exportar equipamentos para a China, que eram equipamentos de espionagem, que estavam camuflados, como os pagers, como os equipamentos electrónicos que distribuíram por centenas de famílias e que mataram centenas de civis porque explodiam nas mãos de quem os usava.
Essas atitudes de Israel, de facto, têm isolado muito Israel na comunidade internacional. Mas continua a ser apoiado pela União Europeia e pelos Estados Unidos e, até que isso mude, a situação dos palestinianos permanecerá periclitante e num nível de condições de vida que são sub-humanas, e não poderá sequer pensar-se na constituição de um Estado.
Por isso, os governantes europeus limitam-se a ter um discurso, enfim, correcto dentro do direito humanitário, mas sem tirarem minimamente as consequências necessárias.
Existe uma ordem política que possa permitir hoje a israelitas e palestinianos viverem com iguais direitos e segurança? Quem, concretamente, está a impedir que isso seja possível?
Em primeiro lugar, quem o está a impedir é o partido que está no Governo de Israel, o Likud, com os partidos com quem tem coligação, estes radicais extremistas, assumidamente genocidas, como Bezalel, o ministro das Finanças que também é ministro dos colonatos, Itamar Ben-Gvir, que é o ministro que também tem estado a proclamar a necessidade de se arranjar uma solução para correr com os palestinianos dos seus territórios.
E depois prossegue, em Israel, para os partidos da oposição, que também não querem esta solução. Internamente, em Israel, ninguém quer uma solução de dois Estados.
Se tirarmos, enfim, os jornalistas do Haaretz que é um jornal israelita com grande projecção internacional, mas que em Israel tem uma faixa de mercado de cerca de 3% a 4%, temos uma ínfima minoria dentro de Israel que reconhece os crimes de terrorismo de Estado de Israel e que os denuncia activamente. Mas é uma minoria ínfima dentro de Israel.
E enquanto os EUA apoiarem Israel, e vemos o que estão a fazer, com interesses próprios no Irão, percebe-se que a continuação da guerra no Irão dá lucros fabulosos a Wall Street e às petrolíferas. Portanto, aquilo que começou como um erro continua como um negócio.
E, enquanto essa for a bússola da geopolítica das grandes potências, como os Estados Unidos, não há uma solução que se possa prever para a Palestina, a não ser que nós, na Europa, que temos muita influência sobre Israel, façamos pressão.
Mas aquilo que observamos é o contrário: é serem declarados como organizações terroristas, no Reino Unido, por exemplo, aqueles que querem defender os direitos dos palestinianos. Foram presos centenas e centenas de britânicos porque se manifestaram pela organização Acção Palestina, considerada terrorista.
E, mais uma vez, temos esta classificação: quem é que é terrorista? Quem é que quer liberdade e quem é que luta pelos direitos humanos das suas populações, sejam elas na Palestina ou no Reino Unido?
Criticou publicamente a cobertura mediática deste conflito. O que revelou a cobertura europeia do pós-7 de Outubro sobre o estado do jornalismo?
É uma pergunta que se tornou pessoal para mim, porque eu era correspondente do jornal Welt, que é do maior grupo de imprensa europeu, o grupo Axel Springer. E a Welt é a maior televisão privada na Alemanha.
Eu fui durante dez anos correspondente em Lisboa e demiti-me numa carta que enviei também publicamente a vários jornais na Alemanha, por causa do branqueamento sistemático que faziam dos crimes de Israel. E achei que não poderia continuar.
Mas isto é só o meu caso pessoal, porque, se olharmos para todo este grupo, que é dono da televisão da qual eu me demiti, o grupo Axel Springer, que é também dono do Politico, o presidente deste grupo disse claramente que os jornalistas que quisessem criticar Israel podiam ir procurar empregos noutras publicações.
Ou seja, quando me demiti, simplesmente antecipei por alguns meses aquilo que o presidente do grupo Axel Springer viria a dizer: que não se admitem críticas substanciais a Israel.
Eu penso que isso diz bastante sobre o jornalismo. Tendo em conta que este grupo é actualmente o maior grupo de imprensa na União Europeia, diz bastante sobre o jornalismo.
África poderá alcançar a auto-suficiência em combustíveis até 2030, segundo o empresário nigeriano Aliko Dangote. O empresário, que inaugurou, no final de Setembro, uma nova unidade de processamento de petróleo no Quénia, defende que o continente tem condições para reduzir significativamente a dependência das importações de combustíveis. Para o economista angolano Carlos Rosado, a meta é ambiciosa, mas pode ser alcançada. O especialista considera que, com investimentos em infra-estruturas e logística, o continente africano poderá tornar-se praticamente autónomo na produção de combustíveis.
África conseguirá tornar-se auto-suficiente em combustíveis até 2030 ou a falta de capacidade de refinação continuará a obrigar o continente a depender das importações?
Com estas refinarias da Nigéria, já temos 700.000 barris e, para expandir a do Quénia, também são mais 700.000 barris. Em Angola temos em perspectiva mais três refinarias. Angola será auto-suficiente e a Nigéria também já será auto-suficiente. Agora vamos ver, relativamente aos outros países, como é que vai acontecer. Mas eu diria que, de facto, 2030 é uma meta bastante ambiciosa.
Mas ainda há vários desafios, e refiro-me às questões logísticas e à falta de infra-estruturas?
Pois, justamente. A própria construção da refinaria é um desafio, embora tenha corrido relativamente bem Aliko Dangote. Angola, por exemplo, tem a refinaria do Lobito, a maior delas, com 200.000 barris de petróleo, que há muitos anos está em construção. Em Angola, pelo menos em projecto, tem havido avanços e recuos. Portanto, construir uma refinaria leva sempre algum tempo.
Temos uma refinaria que está a ser construída em duas fases, de 100.000 barris, e temos 30.000 em Cabinda, que estamos a construir. Também temos enfrentado vários problemas com as infra-estruturas e a falta de financiamento.
Mas, repito, temos que ser ambiciosos quanto ao petróleo, seja em produção, sejam descobertas para satisfazer as necessidades. A África também está empenhada em transformar as matérias-primas no continente e, portanto, [isso aplica-se também ao petróleo].
Vários especialistas defendem a necessidade de produzir combustíveis mais competitivos face aos produtos importados. O grande problema é que o continente vende o petróleo bruto a um baixo preço e depois vai comprá-lo a um preço superior, quando é transformado…
O baixo preço também não existe, porque o preço do petróleo é internacional. Agora, o que está aqui em causa, efectivamente, é que nós exportamos o petróleo sem qualquer valor acrescentado. E, portanto, se nós, se África, refinar o petróleo, o valor acrescentado que fica no país, em África, fará com que o balanço das divisas também seja positivo, porque, se se refina aqui, a margem que ia para o estrangeiro, para as refinarias estrangeiras, fica em África.
É o caso concreto de Angola. Angola precisa de mais ou menos 150.000 barris por dia, com o nível de desenvolvimento actual. Nós só refinamos 50.000, um bocadinho menos, mas à volta de um terço do que Angola precisa.
E, portanto, isto já acontece há anos. Temos essa capacidade de refinar para satisfazer a procura interna, mas também para exportar para outros países vizinhos. Naturalmente que as infra-estruturas são um desafio, mas essa, creio eu, que deve ser a ambição e que, finalmente, as lideranças africanas estão a perceber: efectivamente, precisamos de transformar as matérias-primas em África. E o petróleo será, naturalmente, a primeira delas.
A crise no Médio Oriente veio mostrar esta urgência?
Claro que sim. Veio criar essa urgência e veio criar a oportunidade. Nós estávamos, enfim, ainda antes, talvez, da crise do Médio Oriente, com a subida de Trump ao poder, perante uma questão da transição energética que foi, de alguma maneira, repensada.
A guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia, digamos, puseram um bocadinho em causa a transição energética, quando já se falava de acabar com os carros a gasolina e a diesel. E, portanto, a transição energética sofreu um forte revés.
África vai precisar de combustíveis durante muito, muito tempo. E, portanto, além da urgência para África por causa da guerra no Irão, há também uma oportunidade para África no negócio da refinação.
Agora, é preciso dizer também que a refinação é um negócio complicado. Portanto, construir refinarias por construir refinarias não me parece que deva ser esse o objectivo, porque elas têm, naturalmente, que ser eficientes, têm que respeitar o ambiente. A qualidade dos produtos refinados também tem que ser boa e cumprir as melhores práticas internacionais.
Mas, sem dúvida nenhuma, a guerra no Médio Oriente abriu uma oportunidade para África, não apenas para a auto-suficiência, mas também para a exportação. O que é, naturalmente, por exemplo, o caso de Angola.
Como disse, nós produzimos 1 milhão de barris por dia. E as refinarias, todas as existentes e em projecto, são 450.000 barris. Portanto, nós só precisamos de um terço da capacidade de refinação e vamos seguramente exportar para os países vizinhos.
Há projectos de pipeline, inclusivamente a possibilidade de os países vizinhos serem eles próprios accionistas de, pelo menos, uma refinaria em Angola. E, portanto, há essa possibilidade. A meta é ambiciosa, mas o mundo é feito de ambição.
Mas isso também mostra que os combustíveis fósseis, como o petróleo, ainda têm um papel importante no sistema energético de muitos países africanos. Isto mostra que África ainda não está preparada para abrir mão dos combustíveis fósseis?
Eu acho que nem África, nem o mundo inteiro. O anúncio da morte do petróleo creio que foi um bocado precipitado. A divisa de Trump é “drill, baby, drill”, não é? Portanto, a transição energética foi posta em “espera”.
Mas África claramente não está [preparada]. África está mais atrasada, embora nós vamos adoptar as melhores práticas. Toda a gente concorda com isso, mas também África está muito longe de preencher a sua quota de poluição.
A poluição não é o problema dos combustíveis fósseis em África. São outros países: os Estados Unidos, a Europa e a China. Nós ainda não preenchemos a nossa quota de poluição e, portanto, eu acredito mesmo que, mesmo que corra bem, a transição energética vai durar ainda algum tempo. Portanto, temos, enfim, muito tempo ainda pela frente para rentabilizar as refinarias que vêm aí.
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais deste domingo no Brasil deixam tudo em aberto para a segunda volta a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva, que obteve 45%. Este é “um cenário de alta polarização” e de duas visões do Brasil, explica Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política” no país e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil. “O futuro do Brasil está em jogo” e decide-se daqui a três semanas. Oiça a análise neste programa.
O Brasil avança para a segunda volta das presidenciais a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu a primeira volta este domingo com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva que obteve 45%. Em reacção aos resultados da primeira volta, Flávio Bolsonaro anunciou “o fim da era do PT”. Lula da Silva admitiu ter estado convencido que ia ganhar as eleições na primeira volta, mas mostrou-se optimista para a segunda volta, que definiu como um "prolongamento".
Para falarmos sobre estas eleições, convidámos Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense e na Universidade do Minho, em Portugal. Para o cientista político, confirmou-se “um cenário de alta polarização” e há duas visões do Brasil em jogo. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política no Brasil” e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil, mas que ainda não tem uma figura para a “sucessão”.
Olhando para os candidatos que foram eliminados nesta primeira volta, politicamente no espectro da direita, à partida poderiam dar vantagem para Flávio Bolsonaro, ainda que Lula da Silva possa tentar atrair eleitores que prefeririam “uma terceira via”. Há, ainda, um factor que pode ser decisivo: a abstenção. “A abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta”, resume Giuliano Braga. “O futuro do Brasil está em jogo” e é impossível fazer apostas sobre quem ganha a segunda volta.
RFI: O que é que explica esta vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, ao contrário do que previam as sondagens?
Giuliano Braga, Professor de Relações Internacionais: “Olhando os números tanto do Flávio Bolsonaro quanto do Lula [da Silva] e dos outros, a gente consegue ver um cenário de alta polarização, com a maioria de um lado, a maioria do outro, e os outros com uma margem muito distante nos 2%. O que explicaria Flávio Bolsonaro? Uma certa avaliação do governo Lula por parte da população brasileira tem um certo peso nessa votação maior. É interessante porque nós vemos uma expressão muito grande do Flávio Bolsonaro no Sul, isso já era mais esperado, mas no Norte foi um dos pontos de grande diferença - era uma zona historicamente mais voltada para o PT, para o Lula.”
As sondagens não apontavam para estes resultados. Foram as sondagens que falharam ou a mobilização eleitoral da direita foi superior ao esperado?
“Uma situação que aconteceu nestas eleições de 2026, ontem, foi uma abstenção acima do normal também. Então teve, além da questão política - claro, da mobilização tanto de um lado quanto do outro, mas aparentemente a mobilização do lado do Flávio Bolsonaro foi mais eficaz do que a mobilização do lado do Lula - nós tivemos uma abstenção de mais de 20%. Mais de 20% para o Brasil é muita coisa, dado que a gente está numa eleição que é obrigatória e o não voto confere multa. Foi uma característica muito própria, mais uma mobilização muito concentrada e coordenada da direita, principalmente ao nível dos estados.”
Essa abstenção pode definir alguma coisa em termos da segunda volta?
“A abstenção, na verdade, a tendência que a gente observa – embora a eleição de 2022 tenha sido uma excepção - mas a tendência que a gente observa é que geralmente a abstenção aumenta da primeira volta para segunda volta. A abstenção poderia vir a calhar a algum dos lados, mas a abstenção é um factor incontrolável, é uma surpresa tanto para um lado quanto para o outro. A abstenção é um factor que poderia vir a calhar, mas é um factor que ninguém consegue controlar, até porque ninguém deveria controlar a abstenção dado o princípio da democracia. Por isso, a abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar aí um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta.”
E a reserva de votos dos candidatos agora eliminados? Como são mais à direita, mais do campo conservador, vão automaticamente para Bolsonaro? Ou é possível Lula recuperar terreno, inclusivamente tendo em conta esta abstenção?
“A segunda volta traz um aspecto muito interessante a nível de análise política porque o período entre a primeira e a segunda volta é um período de intensas negociações. Na verdade, é o período em que os candidatos que vão disputar a segunda volta tentam trazer para os seus lados os outros candidatos. Neste caso, nesta eleição específica, do jeito que aconteceu, nós temos um período de negociação muito interessante, porque nós estamos negociando 2%, então são de dois em dois por cento. Os candidatos que ficaram abaixo são ali mais do espectro da direita. Agora, o convencimento de Lula deveria também ser para atrair eleitores desse eleitorado que quis ficar fora dos pólos da polarização, apostar em uma possível terceira via para reconhecerem na continuidade do governo o projecto de país.
No caso, Bolsonaro tem uma vantagem, dado que dois dos menos votados, o Renan Santos e o candidato próximo dele, já têm uma aliança declarada. Lula deveria negociar com o Augusto Cury nesse cenário, que é um candidato que não se colocou muito em lados, ele quis-se mostrar mesmo como uma terceira via. Por isso, o desafio de negociação de Lula vai ser muito intenso, porque Bolsonaro, de certa forma, com esses candidatos de baixo, tem uma vantagem já.”
Os dois candidatos representam visões totalmente opostas para o Brasil. Desde 2018 que os brasileiros se dividem entre o "bolsonarismo" e o "lulismo". Que duas visões são estas para o Brasil?
“Do lado do Flávio Bolsonaro, nós teríamos uma continuidade da sua visão de Brasil vinda ou demonstrada através do governo do seu pai, como uma priorização, por exemplo, do mercado financeiro, do agro-negócio, que é uma base política deles, políticas mais conservadoras, dado que também é uma outra base política muito importante para o Flávio Bolsonaro. A nível internacional, uma aproximação muito directa e muito declarada com os Estados Unidos de Donald Trump, por isso, uma aproximação mais clara, fazendo uma ode à chamada “onda laranja” na América Latina, com o Milei na Argentina, com o novo presidente do Equador, entre outros que se vêm unindo cada vez mais nesse espectro. O Flávio Bolsonaro já declarou abertamente unir-se a esse espectro também.
Olhando para o outro lado, o lado do Lula da Silva, nós temos as políticas sociais mais fortes como sendo um dos principais pilares de campanha dele. A questão do mercado financeiro e da exteriorização do comércio do Brasil, ou seja, a abertura de parceiros comerciais. No plano internacional, uma continuidade do pragmatismo: o Brasil, sob Lula, buscou ter um pragmatismo para surfar as relações Estados Unidos e China principalmente, que são dois parceiros muito importantes para o Brasil. Por causa disso, nós temos aí um outro espectro, principalmente a nível internacional, mas a nível doméstico, com políticas mais progressistas e outras medidas que fazem uma certa ode à sua base política e ideológica também.”
Lula da Silva falou da questão também da soberania do Brasil em relação aos Estados Unidos.
“Pois é. Isso foi um ponto-chave, principalmente na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi um dos pontos-chave do seu discurso, o discurso de abertura, que foi aquela questão de o Brasil não ser quintal de ninguém. Por isso, faz uma ode a esse reforço da soberania nacional. E também, de certa forma, fez uma referência à corrida política com Bolsonaro, fazendo uma crítica directa a Flávio Bolsonaro, dada a sua fala de aproximação automática com os Estados Unidos.”
O que é que este resultado da primeira volta diz sobre o mérito de Flávio Bolsonaro, ele que foi empurrado pelo pai para esta candidatura? O que é que também nos diz sobre o pai dele? Em caso de hipotética vitória, será que podemos antever um Presidente por procuração, visto que o pai está condenado e a cumprir 27 anos de prisão? Flávio Bolsonaro também disse que uma das primeiras medidas seria libertar o pai da prisão domiciliária. Que é que isto antevê para a própria família Bolsonaro?
“Isso acaba sendo uma criação, uma consolidação de uma próxima dinastia política no Brasil. O sobrenome Bolsonaro foi o principal chamariz do candidato Flávio Bolsonaro, além de ter tido uma história como senador e tal, mas o nome da família Bolsonaro falou mais alto nessas eleições, principalmente nas sondagens. Essa questão do nome, da dinastia, acabou sendo importante. Presidente por procuração é uma questão um pouco mais difícil até porque o Bolsonaro pai, além de preso, ele também tem um certo estado mais debilitado de saúde, então, não o vejo muito como um Presidente por procuração.
Flávio tem uma base sólida de apoio, uma negociação ali muito consolidada para este pleito eleitoral, mas existem os processos correntes e agora nós temos mais uma polémica que estourou próximo das eleições, que é o caso do Banco Master e que ele estaria relacionado. Isso ainda não foi provado, mas claro que gerou um sismo porque o nome de um dos candidatos estava envolvido em algo, mas, aparentemente, de acordo com as eleições, esse sismo que se previa não teve tanto impacto dado que o candidato Flávio Bolsonaro conseguiu manter-se em liderança no primeiro turno. Então, o nome da dinastia Bolsonaro, a gente já consegue identificar a força dele. Para o eleitorado tradicional bolsonarista e outros também que querem, de certa forma, uma mudança de governo, o nome acabou falando mais forte do que essas polémicas e isso é muito ilustrativo, muito interessante para analisar essa questão da força do nome em relação à reputação, em relação a notícias e tal.”
Só para acrescentar, houve outras pessoas da família, a Michelle Bolsonaro, mulher de Jair Bolsonaro e madrasta de Flávio, foi eleita senadora, Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio, também foi eleito senador, Jair Renan, outro irmão, foi eleito deputado federal. Mas queria agora que olhássemos agora para Lula da Silva, candidato a um quarto mandato não consecutivo, com 80 anos, e uma das figuras políticas mais importantes dos últimos 40 anos no Brasil. Porém, parece que houve um desgaste e ele está em risco de não ser reeleito...
“Pois é, o Lula é uma das figuras mais emblemáticas da política brasileira nos últimos 40 anos e agora, ao disputar um quarto mandato, busca continuar esse legado na política. Mas o Lula da Silva acaba enfrentando um desafio que a gente falava, o da dinastia Bolsonaro, que é que uma dinastia tem intrínseca o conceito de sucessão. E a sucessão é justamente um dos pontos mais fracos do Lula porque o Lula concentra muito o poder político em si, na sua figura. Uma das principais críticas dos eleitores de esquerda é que é uma figura que não tem uma sucessão clara.
O Lula tem 80 e poucos anos, vai disputar um mandato de quatro anos e se a vitória vier para Lula, provavelmente seria um último mandato. Esse mandato também, caso o Presidente Lula continue o seu governo, deveria ser um mandato visando a sucessão, ou seja, visando a ascensão de uma nova liderança dentro do seu espectro, para garantir uma permanência política desse espectro político. Como essa figura de sucessão ainda não existe, ainda não é clara, foi também um dos pontos que os eleitores acabaram se questionando. Ou seja: ‘Eu vou votar em um Presidente, mas qual é a garantia que esse Presidente vai permanecer o mandato todo?’ ou ‘O que vem depois?’ pode ter sido um factor de dissuasão de votos por causa dessa questão. Ou seja, é uma figura emblemática, é uma figura que centraliza muito o poder e é uma figura também que centraliza muito a imagem do espectro mais centro-esquerda no Brasil. Então, tem os seus desafios, tem as suas questões e, principalmente, a sucessão acaba sendo um dos principais factores de fraqueza desse espectro.”
Como é que olha para o futuro do Brasil daqui a três semanas? Consegue antever alguma coisa? Está preocupado?
“O futuro do Brasil, claro, está em jogo entre um e outro, entre um lado e o outro. Foi uma primeira volta muito apertada, então, prever acaba ficando muito difícil com isso. Se fosse uma minha primeira volta um pouco mais alargada, seria um pouco mais fácil de prever, mas tão apertado do jeito que foi, é muito difícil cravar um dos dois nomes. Vejo sim com certa preocupação, tanto de um lado quanto do outro. Acho que uma continuidade do governo Lula teria essa questão da sucessão como um dos principais pontos críticos. E o lado de Flávio Bolsonaro nós já tivemos essa ode a uma participação muito próxima dos Estados Unidos, algo que poderia colocar a soberania do Brasil em questão. Ou seja, tanto de um lado, quanto do outro, tem preocupações, mas cravar um nome específico, dizer um nome específico para um vitorioso, eu não vou arriscar porque a primeira volta foi tão apertada que acho que ninguém deveria arriscar nessa questão porque vai ser bem difícil.”
Ou seja, está tudo em aberto?
“Exacto. Ou seja, está tudo numa questão de ver o que vai acontecer porque 47% e 45% é muito próximo dado que os outros estão na mão ali com três ou dois por cento, ou seja, vai ser uma uma rodada de negociação muito intensa, muito forte, e que vai depender bastante do talento dos dois candidatos, de nomes, de interesses, entre outras coisas. Ou seja, as negociações vão ser bem intensas nesse período de três semanas.”
Em Cabo Verde, os preços dos combustíveis subiram mais de 56 por cento no espaço de apenas 12 meses. Com o litro da gasolina e do gasóleo cada vez mais próximo da fasquia dos duzentos escudos cabo-verdianos -cerca de dois euros- a pressão sobre a economia nacional continua a aumentar.
As novas tabelas entraram em vigor no início deste mês de Outubro. A escalada dos preços nos mercados internacionais explica grande parte deste agravamento, mas há também um factor interno determinante: a protecção governamental que cobria o sistema de preços deixou de ser generalizada. Este mês, a medida de mitigação do executivo abrange exclusivamente o gás butano, que registou um encargo adicional de cinco por cento.
Um aumento que não apanhou de surpresa o sector das pescas. Suzano Vicente, Presidente da Associação dos Armadores de Pesca de Cabo Verde, sublinha que o cenário já era previsível diante da conjuntura actual.
"Já era esperado na actual conjuntura. É expectável que, no fim de cada mês, haja este aumento do preço do combustível, uma vez que existe um mecanismo automático de fixação de preços. Enquanto este mecanismo não for alterado ou suspenso, a situação vai continuar exactamente da mesma forma”, afirmou Suzano Vicente.
Perante este cenário, os armadores não exigem a eliminação das competências do Governo na gestão dos preços, mas reclamam medidas urgentes para proteger o sector, tanto na pesca artesanal como na industrial.
A Associação dos Armadores já tinha proposto formalmente a reactivação de um fundo autónomo ou de um mecanismo de compensação semelhante ao regime social aplicado à electricidade. No entanto, a complexidade burocrática inviabilizou a resposta no imediato.
"Enviámos uma proposta baseada no modelo de tarifa social de electricidade para famílias de baixo rendimento. Mas, pelo diálogo com a administração, percebemos que esse caminho seria mais moroso. Exigiria uma deliberação em Conselho de Ministros e uma série de pareceres técnicos prévios. Tempo é algo que os armadores não têm, e o próprio Governo reconhece essa urgência.
Por isso, estamos a trabalhar numa alternativa mais rápida. Vamos apresentar uma proposta directamente à ministra da tutela para que a medida seja implementada através de uma portaria ministerial, accionando directamente o Fundo Autónomo de Pesca. É uma via juridicamente mais simples e muito mais célere”, disse.
Sem uma intervenção directa do Estado, o sector alerta para o risco iminente de paragem das embarcações. Os combustíveis representam um dos maiores custos operacionais na actividade extractiva e a escalada contínua torna a navegação insustentável.
Para além do gasóleo dos barcos, há um efeito em cadeia que fragiliza ainda mais a cadeia de frio: a produção de gelo, indispensável para a conservação do pescado a bordo.
"Se este aumento continuar de forma exponencial mês após mês, vai chegar um momento em que a actividade se torna inviável. Se a situação já é crítica agora, nos próximos meses será praticamente impossível continuar a ir ao mar.
O combustível afecta também a produção de gelo. Em São Vicente, por exemplo, um 'grau' de gelo já custa cerca de vinte mil escudos. A exploração já é extremamente onerosa e o aumento dos combustíveis encarece a electricidade e, por arrastamento, a aquisição do gelo. Não temos como fugir a estes custos encadeados, a menos que o Governo decida subsidiar directamente às fábricas de gelo para conter o impacto”, avança.
Ao contrário de outros sectores económicos, os armadores e pescadores afirmam estar impossibilitados de reflectir a subida dos custos operacionais no preço final do peixe vendido ao consumidor.
"Não existe um preço fixo para o pescado. O mercado funciona exclusivamente com base na lei da oferta e da procura. Se houver muito peixe no mercado, o preço baixa; se houver pouca captura, o preço sobe. Sem um preço de referência, os armadores não conseguem repassar o aumento dos custos do combustível e do gelo para o consumidor final”, afirmou.
Como solução estrutural para este problema de comercialização, a Associação dos Armadores voltou a insistir na urgência de colocar em funcionamento o sistema nacional de lotas. Embora o regime jurídico e o regulamento já estejam aprovados em decreto-lei, a infra-estrutura e a operação prática continuam por concretizar.
"A implementação da lota é uma reivindicação antiga. É o sistema que vai regular e disciplinar a primeira venda do pescado, permitindo ter um preço de referência na lota. O enquadramento legal já existe, mas falta pôr o sistema a funcionar no terreno. É uma das prioridades que vamos levar à reunião com a tutela”, afirmou.
Existe também uma diferenciação histórica que o sector das pescas pretende ver corrigida: a equiparação da pesca à marinha comercial no consumo de combustíveis. Os armadores argumentam que a marinha de comércio tem receitas previsíveis e rotas fixas, ao passo que a pesca é uma actividade sazonal e dependente das condições meteorológicas.
A longo prazo, a transição para energias alternativas ou motores eléctricos é vista com prudência, dada a insularidade e a dependência de tecnologia importada. A resposta mais imediata para a eficiência energética passa pela modernização da frota nacional.
"As soluções tecnológicas alternativas, como os motores eléctricos, ainda não oferecem garantias de autonomia e eficiência para as deslocações das nossas embarcações. Dependemos do mercado internacional e do custo dos equipamentos.
O caminho mais viável passa pela renovação da frota. Por exemplo, a aquisição de navios atuneiros de maior capacidade — uma embarcação de trezentas toneladas com um motor de mil cavalos de potência consegue capturar muito mais pescado do que dez barcos pequenos de duzentos e cinquenta cavalos. Aumenta-se a eficiência no consumo de combustível, reduz-se o número de embarcações em operação e optimiza-se a rentabilidade e a segurança dos marinheiros”, afirmou.
A urgência das medidas pedidas pelos armadores ganha dimensão quando se olha para o peso do sector no país. De acordo com os dados oficiais mais recentes, a pesca representa cerca de 20,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde e é responsável por 19,5 por cento do emprego nacional.
Sem um acordo rápido entre o executivo e os operadores económicos sobre a compensação dos combustíveis e o apoio à produção de gelo, o sector alerta para o risco de paralisia numa das principais alavancas económicas e sociais do arquipélago.
Na Guiné-Bissau, o Alto Comando Militar, que levou a cabo o golpe de Estado de Novembro do ano passado, em comunicado, anunciou esta quinta-feira que não estão reunidas as condições de segurança para garantir o regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló. Um regresso que estava anunciado para o dia 04 de Outubro e depois do porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, ter garantido que qualquer cidadão nacional poderia regressar ao país. Em entrevista à RFI, o analista político guineense Fodé Mané admite que a decisão de impedir o regresso do ex-presidente pode fazer parte de uma estratégia de vitimização de forma a reforçar a solidariedade em torno de Sissoco Embaló.
RFI : Como analisa esta reviravolta?
Fodé Mané, analista político guineense: Primeiro, esta situação não é clara para qualquer pessoa atenta. Sobre os órgãos que estão a gerir a transição, ora aparece o Governo, ora aparece o Estado-Maior General das Forças Armadas, ora aparece o Conselho Nacional de Transição, ora o Alto Comando, que tinha surgido em Novembro a anunciar golpe de Estado, e desapareceu até há duas semanas, a tomar alguma decisão.
Isso cria alguma confusão em termos de quem é que manda realmente, qual é a personalidade. E tudo indicava que todos eram submetidos às orientações do comando, mas depois vimos situações que nos criam outras dúvidas.
Por exemplo, na terça-feira, dia 29 de Setembro, houve movimentações um pouco anormais, que levaram com que as pessoas ficassem com um certo susto.
As movimentações de que está a falar têm a ver com o desmantelamento da unidade anti-golpe, que é uma força especial que foi criada durante o mandato do Sissoco Embaló?
Aquilo não está claro se é a unidade anti-golpe, porque depois viram-se movimentações que não eram normais, pessoas a saírem de um sítio para outros em viaturas, outros a pé...
Não se sabe o que é que se está a passar. Depois de criar aquele pânico, veio o Ministério do Interior dar uma conferência de imprensa a dizer que se tratavam de movimentações normais nos quartéis.
Então, não se falou de desmantelamento, mas circularam notícias de que algumas pessoas estariam retidas junto ao Estado Maior das Forças Armadas. Tudo isto torna a situação um pouco confusa.
No meio de tudo isso surgiu o porta-voz, não é só do Conselho Nacional de Transição, mas de todo este regime que é o "Nando Vaz".
O Fernando Vaz?
Sim, a garantir que Umaro Sissoco vem e tem condições. E, surpreendentemente, vimos o comunicado à imprensa com aqueles pontos onde podemos destacar a situação a dizer que não foram reunidas as condições, a retomada da proibição de concentrações e manifestações.
Isso nos levou a pensar nas movimentações que houve nas duas últimas semanas: recolha de nomes, organizações de eventos para irem receber Sissoco. Com a sua declaração, alguns órgãos de comunicação social a dizer que vem no dia 04 [de Outubro]. Então, houve este comunicado que até no início, no meu caso, pensei que era fake news. Só depois de ouvir o porta-voz do Alto Comando confirmar aqueles pontos essenciais do comunicado, e ainda alargando, mas com alguns pormenores.
A situação não é clara, mas pode Umaro Sissoco Embaló estar a perder aliados na Guiné-Bissau?
Eu não consigo afirmar que se trata de perda de aliados. Eu estou a ver isso noutra perspectiva: de que pode ser uma estratégia de tentar controlar a situação e também ter o apoio de alguns parceiros.
Não consigo ver isso na perspectiva de que Umaro está a perder aliados, porque são pessoas colocadas, indicadas, que até hoje - há sinais - de que recebem orientações de Umaro Sissoco Embaló. As pessoas muito próximas do Umaro continuaram a ser nomeadas, os que eram adversários continuam a ser restringidos no sistema e continuamos a ver maior liberdade de actuação por parte dos apoiantes.
Mas quando o Sissoco Embaló anunciou o regresso dele à Guiné-Bissau, tinha que ter a certeza absoluta de que esse regresso era viável ou não?
Será que realmente tinha a intenção de regressar? Nós sabemos que, por vezes, na política, uma das formas de obter a solidariedade é vitimizar-se. Vimos isso no passado, com Nino Vieira, com Carlos Domingos Gomes... Aí, esta vitimização provoca solidariedade, porque nesta situação do Umaro, o que é que vai no pensamento dos seus apoiantes? Que o actual poder é ingrato para com o Umaro. Foram instalados, apoiados, promovidos pelo Umaro, mas agora não estão dispostos a protegê-lo. Vai provocar uma solidariedade para com ele. Pode ser essa estratégia.
Eu duvido que haja realmente uma intenção de voltar naquela circunstância, pode haver intenção de voltar, porque onde qualquer pessoa se sente melhor é no seu país, mas naquela circunstância, daquela forma, organizando uma recepção apoteótica, eu duvido se é a intenção dele.
Ou seja, essa estratégia da vitimização pode corroborar a encenação deste regresso abortado de Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, simplesmente para que ganhe mais solidariedade e possa voltar posteriormente?
Pode ter esta dimensão de tentar granjear a solidariedade e criar um certo desgosto para com o regime instalado, que sabe que é um regime de pessoas muito fiéis. Mas também pode ser uma forma de distrair, das pessoas se concentrarem noutros assuntos que não da própria situação que está a ser vivida neste momento.
Mas esse regresso de Umaro Sissoco Embaló também não podia confirmar a seguir o regresso do Domingos Simões Pereira?
Não abre portas. Porquê? Porque o Domingos Simões Pereira foi na base de um despacho judicial e inclusive esse despacho pode-se inventar. Pode-se continuar a dizer que deve voltar, como se fez no passado, com a ameaça de detenção. Logo, está condicionado. Esta é a forma de impedir o seu regresso.
É diferente da forma de impedir Umaro, que é dizer que não temos segurança. Mas para o regime, o regresso de Domingos é mais incómodo que o regresso de Embaló.
Este desmantelamento da unidade anti-golpe foi, segundo uma fonte do Estado Maior General das Forças Armadas, uma intervenção que procurou reforçar o controlo sobre a segurança presidencial. Estamos a falar aqui da segurança de Horta Inta-a. Também houve uma reunião dos régulos de Biombo, portanto cidade natal de Ilídio Vieira Té, primeiro-ministro de Transição, onde os líderes tradicionais manifestaram a sua preocupação para com a segurança e a integridade física de Ilídio Vieira Té. O que é que isto quer dizer?
O Ilídio já está a ter alguma pretensão de se enraizar e a única base étnica que ele podia invocar é na região de Biombo. Mas onde os resultados das eleições de 2025 e do referendo mostram que não tem o grosso dos apoiantes e o único meio que ele tem utilizado é injectar meios económicos, aliciar algumas pessoas. Há uma pretensão dele emergir como um líder diferente daquela que podia ser a indicação do Sissoco.
Eu acho que também pode ser uma estratégia de, mais tarde, em nome de uma conciliação, dizer que a situação já está controlada.
E depois há pessoas também que estão a sentir-se no processo de partilha de acesso aos recursos, não é por acaso que o Alto Comando apareceu em Novembro de 2025 e voltou em Setembro de 2026. Quantos meses? Porquê do seu surgimento? Isso dá algum sinal de que há pessoas que entendem que estão a perder o protagonismo dentro dessa estrutura, principalmente alguns militares. Porque desmantelamento e desarmamento não são confirmados. Não há atitudes que mostram que essas pessoas foram hostilizadas, é uma forma de trabalhar com contra-informação.
Pode Ilídio Videira Té estar, neste caminho, a preparar terreno para apresentar a candidatura à Presidência da República?
Isso, sem dúvida, é a sua pretensão. Foi anunciado, criou o seu partido e está a tentar aliciar as pessoas dos outros partidos para irem juntar-se com ele, utilizando os postos na administração pública. Então, é uma forma de aproveitar esta sua posição de primeiro-ministro e ministro das Finanças - quem gere os recursos - para poder enraizar-se melhor.
A concretizar-se esta candidatura de Ilídio Vieira Té, é fazer face a Umaro Sissoco Embaló?
É fazer face a Umaro Sissoco Embaló se ele realmente não estiver atrás da sua candidatura. Eu coloco sempre esta dúvida: se não é uma candidatura alternativa, se ele [Umaro Sissoco Embaló] não conseguir.
A primeira volta das eleições no Brasil acontece no dia 4 de Outubro e tanto Lula da Silva como Flávio Bolsonaro podem ter um resultado entre 35 a 40% dos votos, colocando-os numa situação de empate técnico que se pode arrastar até à segunda volta a 25 de Outubro. Lula da Silva, com a promessa da proibição das apostas desportivas tenta atrair o votos das mulheres e dos evangélicos indecisos.
O Brasil vai a votos para a primeira volta das eleições presidenciais já no domingo. Como principais candidatos apresentam-se Luiz Inácio Lula da Silva, que se candidata ao seu quarto mandato à frente do país, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro e escolhido pelo ex-Presidente que está a cumprir uma pena de 27 anos em prisão domiciliária por ter tentado impedir a tomada de posse de Lula da Silva em 2022.
Os dois estão tecnicamente empatados nas sondagens e prevê-se uma segunda volta no dia 25 de outubro. Nesta última semana, os candidatos estão a tentar seduzir eleitores ainda indecisos, como explica Filipe Mauro, professor de Civilização Brasileira na Universidade de La Rochelle, em França.
"Há mais ou menos 7% a 6% de indecisos, que é o volume historicamente de indecisos numa eleição presidencial brasileira. A componente sociológica é que é interessante. São, a maior parte das vezes, mulheres e são também jovens. Esse eleitorado é particularmente difícil de migrar para um voto bolsonarista. É lá que a campanha de Lula tenta ainda extrair alguns votos que vão ser decisivos. Por isso é que nessa última semana foi anunciada, por exemplo, a proibição dos sites de apostas desportivas. Eles são um público particularmente sensível a esse tipo de medida, já que nós temos um volume inédito de homens e, sobretudo, homens de uma classe social inferior, que vivem uma situação muito grande de endividamento devido às apostas", explicou o académico.
Nas sondagens, apesar de haver mais de 10 candidatos a esta eleição, são Lula da Silva e Flávio Bolsonaro que parecem prontos a disputar uma segunda volta, situando-se os dois entre 35% a 40% dos votos. Para Filipe Mauro, Lula da Silva pôs em marcha nos últimos quatro anos uma "reforma tributária absolutamente inédita", mas o seu Governo mostrou-se "analógico" face a uma extrema-direita bolsonarista que chega ao eleitor directamente via o WhatsApp e outras redes sociais. Quanto às promessas de Flávio Bolsonaro, em caso de vitória, podem abalar as bases do sistema político e da justiça no Brasil.
"Como programa de governo [Flávio Bolsonaro], apresenta uma ameaça às instituições brasileiras, na medida em que prometeu subir a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de seu pai, que hoje está preso e condenado por tentativa de golpe de Estado. Tem uma visão económica ultraliberal. É o que manifesta, em todo o caso, a sua equipa económica, muito simpatizante do que se vê na Argentina de Milei e também com uma relação muito próxima ao actual governo americano a Donald Trump. Uma posição de alinhamento automático, inclusive no que diz respeito à gestão do subsolo brasileiro, muito rico em terras raras e que vem sendo cobiçado por mineradoras americanas e, enfim, em todo o caso, por sectores importantes da economia americana", concluiu o professor e investigador.
A Guiné-Bissau assinalou recentemente os 53 anos da proclamação unilateral da independência, em 24 de Setembro de 1973. Um momento que marcou a afirmação do país como Estado soberano perante a comunidade internacional. Mais de cinco décadas depois, o activista do movimento político Firkidja de Púbis, Yussef, considera que o país vive actualmente sob "uma ditadura militar" e defende "a mobilização dos guineenses para lutar contra o actual regime".
Passados 53 anos da proclamação unilateral da independência, como caracteriza o actual momento político da Guiné-Bissau?
Em 2026, a Guiné-Bissau vive uma ditadura militar. Nós temos as Forças Armadas da Guiné-Bissau, diria eu, mais as milícias que foram criadas pelo senhor Sissoco Embaló, que assumiram o controlo do Estado. Toda a estrutura do senhor Umaro Sissoco Embaló , seja militar, seja política, está neste momento no controlo do Estado da Guiné-Bissau.
O objectivo é manter o povo da Guiné-Bissau num colete-de-forças, tendo como finalidade «pacificar» o país. Mas pacificar não no sentido de criar condições para o progresso, mas pacificar um pouco à laia do que os portugueses fizeram durante as primeiras décadas do século XX: pacificar para explorar, pacificar para oprimir.
Umaro Sissoco Embaló anunciou que vai regressar ao país e que se vai candidatar às eleições presidenciais, que terão lugar no dia 6 de Dezembro. O antigo Presidente da Guiné-Bissau, que foi afastado do poder há quase um ano, na sequência de um golpe de Estado militar, assim o descreveu na altura. Ele tem condições para regressar ao país? Quem é que assegura esse regresso e quem são os aliados?
É preciso ser rigoroso nos termos. Na Guiné-Bissau, em Novembro de 2025, não houve um golpe de Estado. Na verdade, houve um golpe de Estado contra a soberania popular. O que aconteceu foi um conluio entre o senhor Sissoco Embaló que se viu derrotado nas eleições presidenciais, e a entourage militar que sempre o apoiou.
As milícias do Estado, encabeçadas pelo senhor Horta N’Tam e pelo senhor Tomás Djassi tomaram a si, perante a necessidade de dar um passo atrás, a teatralidade de mostrar à comunidade internacional que teria havido um golpe de Estado, para que os militares assumissem o poder e, durante este período de transição, modificassem a Constituição para que fosse ao encontro dos desejos do senhor Umaro Sissoco Embaló e das forças económicas nacionais e internacionais que o apoiam.
Criou-se todo um teatro na Guiné-Bissau. E o senhor Embaló volta no sentido em que as condições objectivas foram garantidas para o seu regresso. Estamos a falar da modificação da Constituição e do novo simulacro de eleições que irá acontecer em Dezembro.
Sissoco Embaló pode contar com o apoio do primeiro-ministro, Ilídio Vieira. e do general Horta N’Tam, Presidente de Transição da Guiné-Bissau? O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Ilídio Vieira, criou também um partido político, o Partido Popular Guineense. A criação deste partido pode mostrar uma ambição de também se apresentar às presidenciais?
Eventualmente, sim. Não consigo dizer com toda a propriedade, porque não tenho as informações. Eu não faço parte da entourage do senhor Ilídio Vieira Té, até porque não conheço as suas intenções.
Mas, repare: entre estes indivíduos, o que os motiva, na verdade, nem é propriamente um projecto de sociedade, uma ideologia ou, melhor dizendo, aquilo que os une é a ambição pessoal e a apropriação das riquezas da Guiné-Bissau.
Então, é possível que, tendo em conta esta falta de unidade política e ideológica, esta falta de unidade ética ou moral, possa haver divergências no seu seio. Hoje pode-se acreditar que é o senhor Sissoco Embaló que está na dianteira; amanhã, por ambições, pode ser o senhor Ilídio Vieira Té; num outro dia, pode ser o senhor Tomás Djassi, no outro dia, também pode ser o senhor Horta N’Tam que acredita que, tendo em conta um conjunto de variáveis, tem mais condições para continuar no poder do que o senhor Sissoco Embaló na Guiné-Bissau.
No país, há um grupo que quer o progresso, que quer realmente ir ao encontro do Programa Maior, que foi redigido durante a luta de libertação: desenvolvimento, saúde, educação, infra-estruturas, desenvolvimento do nosso potencial enquanto povo.
E depois existe um outro grupo, do qual fazem parte, não obstante eventuais contradições que possam existir entre eles, o senhor Sissoco Embaló, o senhor Tomás Djassi, o senhor Horta N’Tam e até o senhor Nuno Nabian
Quem é que lidera o grupo que quer o desenvolvimento do país?
Aconteceram eleições em Novembro de 2025. A comunidade internacional sabe quem ganhou as eleições. Eles expressaram que o que aconteceu na Guiné-Bissau foi um falso golpe de Estado na sequência daquelas eleições.
O povo da Guiné-Bissau escolheu um candidato como seu representante, independentemente das divergências que possam existir com esse mesmo candidato a nível de projecto de sociedade. O povo da Guiné-Bissau deve ser soberano. Aquilo pelo qual se deve lutar é pelo respeito pela decisão popular do povo da Guiné-Bissau neste momento da sua história política. E é a partir daí que nós devemos começar a luta política.
Enquanto não existir esse respeito pela soberania do voto, pela soberania da decisão popular, eu creio que nós estamos, ao fim e ao cabo, perante uma grande fábula.
O líder da oposição da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, actualmente em Lisboa, considerou o anúncio do regresso de Sissoco Embaló “chocante” e motivo de “inquietação”, questionando se existem garantias de igualdade e de segurança para todos os participantes no processo eleitoral. O senhor considera que essas garantias são para todos?
Evidentemente que não. Criou-se na Guiné-Bissau, de uma forma explícita, uma situação de excepção, em que existe esta ideia de que o Estado são estes senhores. Não existe lei na Guiné-Bissau neste momento. A Constituição que foi aprovada, na verdade, é um mero papel, porque não existe qualquer legitimidade. O referendo que aconteceu recentemente não pode ser chamado referendo. Aquilo é um simulacro, porque não existiam pré-requisitos.
Ou seja, nós estamos numa situação de excepção. Não existe actividade política na Guiné-Bissau. Ou, pelo menos, a oposição não pode exercer qualquer actividade política. Como é que vamos falar seriamente de eleições, de referendo, de reconciliação, se não existem essas prerrogativas mínimas de um debate político na Guiné-Bissau?
Mas a oposição será capaz de se unir para estas eleições? Domingos Simões Pereira pode contar com o apoio de quem? Onde é que se vai posicionar Fernando Dias?
Não lhe consigo dizer de forma cabal. Eu creio que o fundamental é encarar a situação de frente. Isto é: existe, neste momento, um poder militar na Guiné-Bissau. Um poder bélico. Estão fortemente armados e colocaram um colete-de-forças no povo da Guiné-Bissau. Colocaram o povo da Guiné-Bissau numa grande prisão a céu aberto.
E, perante esta situação concreta, objectiva, é preciso que a oposição se organize para lutar de forma consequente contra esta situação. Não me parece que a retórica possa resolver este conflito, tão-pouco. Penso que as eleições, tendo em conta o contexto que existe na Guiné-Bissau, não poderão resolver este conflito.
Quais são as garantias de credibilidade e transparência do acto eleitoral, quando a Comissão Nacional de Eleições é constituída, na maioria, por membros do Conselho Nacional de Transição?
O Supremo Tribunal de Justiça da Guiné-Bissau é um órgão que está ao serviço do regime. A Comissão Nacional de Eleições, idem, aspas. Os militares têm armas e não só assassinam activistas na Guiné-Bissau, como, por exemplo, o nosso irmão e camarada Vigário Balanta, como aprisionam líderes da oposição, como, por exemplo, aconteceu com o senhor Domingos Simões Pereira.
Apropriam-se das sedes dos partidos políticos da oposição, não permitem que os sindicatos exerçam a sua tarefa e não permitem qualquer liberdade de expressão no país. Perante estas condições, podemos falar de eleições livres, democráticas e transparentes? Obviamente que não.
Aquilo de que, na minha óptica, a oposição tem de se consciencializar é que, perante esta força, somente uma força social maior pode colocar em causa o estado de coisas.Isso implica, forçosamente, não obstante as dificuldades, a organização popular, a mobilização popular e, ao mesmo tempo, convocar solidariedades internacionais para lutar, de facto, contra este regime.
São Tomé e Príncipe foi a votos no passado domingo, nomeadamente para eleger 55 deputados. Nesta segunda-feira, a Comissão Eleitoral anunciou resultados preliminares colocando o MLSTP, na oposição, em posição dianteira, mas com uma vantagem de apenas algumas centenas de votos em relação à ADI no poder, havendo agora indicação de que estariam numa situação de quase empate.
A abstenção, o apelo ao boicote do escrutínio, os critérios para a indigitação de um governo e o futuro relacionamento institucional com quem irá governar, foram alguns dos assuntos que a RFI abordou em entrevista exclusiva nesta terça-feira com o Presidente São-Tomense, Carlos Vila Nova.
RFI: Qual é a avaliação que faz da forma como decorreram as eleições?
Carlos Vila Nova: É um exercício que se vai tornando cada vez mais frequente em São Tomé e Príncipe. Há cerca de 35 anos, optámos por viver em democracia e temos feito de cada acto eleitoral uma forma de consolidar a democracia em São Tomé. Nos últimos actos eleitorais, felizmente, vamos melhorando. Prevaleceu a serenidade neste concretamente, no dia 27 de Setembro. Penso que optou-se por muito mais mensagens do que outro tipo de comunicação. Por vezes a comunicação costuma ser mais folclórica, mais músicas, enfim. Há várias formas e em todas elas, o apelo à serenidade e à estabilidade. Portanto, foram panos de fundo que me deixaram bastante agradado. E quando vejo por parte dos observadores também que para São Tomé e Príncipe, não foram poucos, que quase os requisitos todos foram cumpridos e que, portanto, a transparência também faz parte, a Comissão Eleitoral Nacional já se pronunciou, embora não seja sua competência definir os mandatos. Já se pronunciou, o que mostra também celeridade. Também há algum profissionalismo e os meus apelos também têm sido sempre neste sentido e estou positivamente agradado com o acto eleitoral.
RFI: Apesar dos apelos para uma grande participação dos eleitores. Estas eleições foram marcadas por uma abstenção de mais de 62%. Como é que interpreta este dado?
Carlos Vila Nova: Bom, aí já não há regozijo. Pelo contrário, os apelos foram muitos, mas também, se recuarmos a actos eleitorais anteriores, a abstenção, sempre foi muito elevada. É verdade, desta vez ultrapassou. Mas quando nós olharmos para aquilo que é todo o processo eleitoral, nós olhamos para os progressos que temos feito em matéria de consolidação dos dados eleitorais. Repare que nas eleições presidenciais de 19 de Julho foi quando nós conseguimos fazer uma reconciliação entre os registos eleitorais, os dados existentes de forma electrónica com a Comissão Eleitoral Nacional. Nas presidenciais detectou-se um bocado mais de problemas técnicos e essa parte foi melhorada. Mas eu creio que a emigração também afectou. Não tenho a certeza, mas é algo que nesta legislatura vamos ter que trabalhar muito, entrar na lei eleitoral, fazer melhorias. Eu próprio pedi aos nossos parceiros da União Europeia que recebi para nos acompanharem neste processo, porque, ao que tudo indica, nem toda a movimentação emigratória para fora de São Tomé e Príncipe tomou-se em conta e os registos continuam nos cadernos eleitorais em São Tomé. Isto já é de si um motivo. E depois, politicamente, também houve apelos. Isto é antidemocrático. Deixe-me dizer-lhe que não vejo como é que alguém em perfeito estado normal, possa fazer apelo à abstenção. Portanto, não só é antidemocrático, mas é incorrer em erro enganar pessoas, eleitores. Nem todos nós temos o mesmo discernimento, mas temos de lidar com a questão. E nós vamos lidar positivamente com a questão. Eu tenho esperança que nesta legislatura conseguiremos, porque as forças políticas activas entenderam que não é um apelo que se faça. Tanto é que todos eles apelaram à votação em massa. Não aconteceu. Vamos lidar com a questão. Vamos olhar para ele e tentar corrigir para que os próximos actos sejam melhores.
RFI: Precisamente, falou do apelo ao boicote a estas eleições. Pensa que Patrice Trovoada pode tirar algum benefício político desta situação?
Carlos Vila Nova: Bom, eu nem consideraria boicote, porque quando num acto eleitoral um partido político quer boicotar, não é desta forma. Portanto, eu olho para os partidos políticos, para os seus dirigentes, para os seus representantes e não vejo a pessoa que falou. Portanto, não, não me diz nada.
RFI: Ontem, a Comissão Eleitoral Nacional deu os primeiros resultados. São resultados provisórios destas eleições. E desde então, os partidos políticos têm andado a especular sobre o número de mandatos que têm, respectivamente. Inicialmente falou-se do MLSTP estar à frente e de ter mais mandatos do que a ADI. Depois, evoluiu para um empate e agora é um quase empate. Como é que avalia a forma como actuaram estes partidos políticos desde ontem?
Carlos Vila Nova: Com alguma precipitação. Mas pronto, não vou entrar em muitos pormenores quanto a isso. Mas reconheço que com alguma precipitação da parte e de outra. Na mensagem que eu fiz à Nação, apelei à serenidade. A serenidade também diz aguardar calmamente pelo anúncio dos resultados. Eles ainda não são oficiais. A Comissão Eleitoral fez o seu papel, anunciou e nota-se que realmente há uma aproximação entre dois dos principais partidos. Há uma diferença. Respeitei. Agora cabe ao Tribunal Constitucional de facto, quem tem a competência de validar não só os mandatos, o vencedor das eleições e a partir deste momento, trabalharemos na Constituição, na formação e na organização de todas as instituições que foram democraticamente eleitas para que elas entrem em funcionamento. Falo da Assembleia Nacional, a sua composição, e dos governos. Sobretudo o Governo central, que é uma emanação directa do resultado das eleições. Portanto, eu penso que nos próximos dias, há um prazo legal a cumprir, o Tribunal Constitucional vai se pronunciar e a partir daí nós saberemos exactamente quem é o vencedor. Quais são os mandatos distritais, nacionais, para então constituirmos os órgãos democraticamente eleitos.
RFI: Não receia que, dado o nervosismo que há entre certos partidos políticos, possa haver também alguma suspeita em relação ao Tribunal Constitucional que, ao longo deste processo, foi acusado de alguma parcialidade política?
Carlos Vila Nova: Tem sido comum. Mas repare que eu dou-lhe um exemplo: qualquer cidadão individual ou, digamos, qualquer entidade individual ou colectiva, mas que encontra resposta nos culpados, que os terceiros são sempre os culpados dos seus problemas. Não é verdade. A lei não existe só quando ela nos é favorável. Ela existe para com serenidade, aceitarmos as decisões dos tribunais. E quando não concordamos, temos que encontrar espaço para recorrer e interpretar. Mas tudo quanto vier a acontecer, para responder directamente à sua pergunta, nada disso não poderá ser resolvido se continuarmos com o espírito aberto. O engajamento para o diálogo. Resolve-se tudo isso. Portanto, as suspeições, elas podem existir, mas é preciso respeitar as instituições e agirmos com base nas decisões que são de lei.
RFI: Neste processo todo, tendo em conta que há um quase empate, pelo menos por enquanto, tem havido contactos políticos entre as várias forças para construir eventuais coligações para formar governo. Como é que vê precisamente esta perspectiva? Quais vão ser os seus critérios para aceitar uma ou outra coligação para governar?
Carlos Vila Nova: Vejo como bom tom essa aproximação entre os partidos. Portanto, demonstra algum espírito de concertação e de diálogo que é bom. Não quer dizer que todos os contactos sejam traduzidos em resultados concretos. Pela minha parte, acompanho desde já com muita atenção. Se puder influenciar alguma coisa, todos os partidos sabem que estou à disposição para o fazer, mas a entrada em acção do Presidente da República é exactamente quando tiver o anúncio oficial dos dados, convidar o partido vencedor, ter uma conversa e pedir -eu sempre disse- a sustentabilidade do Parlamento. Ela tem que ser garantida. Antes de nomear o próximo governo, não é de todo factível que o próximo governo, no primeiro embate, seja um governo praticamente com os pés na rua. Não faz sentido. Nós não estaríamos a promover aquilo que todos apelamos, que é a estabilidade, um princípio de coesão nacional, um princípio de diálogo onde as pessoas conversem, tragam os problemas e pensem todos o país. Eu não vi nenhuma força política desde as eleições de 19 de Julho para as presidenciais e agora em Setembro, que não usasse um slogan que reflectisse ou colocasse São Tomé e Príncipe em primeiro lugar. Todos. E então temos que na prática demonstrar isso. Portanto, o próximo governo será uma emanação da sustentabilidade parlamentar que me for garantida.
RFI: O que espera do futuro governo com o qual vai trabalhar, senhor Presidente?
Carlos Vila Nova: Lealdade institucional. A primeira das condições. Espírito aberto para o diálogo permanente. Disponibilidade para trabalhar e coragem para reformar. Vamos ter que, de facto, introduzir muitas reformas para melhorar o funcionamento do país e a capacidade, ao nível da Assembleia, de se discutir honestamente, com sinceridade, as grandes questões do país. E não escondo, inclusive, a possibilidade de a revisão constitucional neste quadro, nesta legislatura. Através do diálogo.
RFI: Uma das reformas que enunciou como sendo prioritárias quando tomou posse para o seu novo mandato foi precisamente a Justiça. Como é que encara essa reforma?
Carlos Vila Nova: A justiça, de facto, tem sido meu denominador comum durante cinco anos. Foi onde eu mais intervim. Foi onde eu mais trabalhei, foi onde eu mais contribuí. Continuarei. Cheguei a fazer conselhos de Estado temáticos sobre a Justiça. Reuniões de alto nível. Várias delas. Mas repare. Ela é tão transversal, ela é tão importante para o Estado de Direito democrático e para a atracção de investimentos no nosso país que todos nós temos que nos dedicar. E foi também com bastante satisfação que eu vi nos programas e nas mensagens de muitos partidos políticos também o apelo à contribuição para melhorar a Justiça. Portanto, conto com o próximo governo para que juntos possamos melhorar ainda mais. Não é uma situação que pontualmente há um assunto concreto que se resolva. Ela é abrangente. Nós vamos ter que abordar de forma que ela seja mais célere, ela seja mais justa e que ela possa, sobretudo, ser mais orientada para a solução dos problemas, para o bem do país e do seu povo e dos investimentos.
RFI: Tem havido muitos problemas aqui em São Tomé e Príncipe, nomeadamente no que tange ao fornecimento da electricidade, à saúde, ao acesso a água potável. O que é que pensa que se pode fazer juntamente com o futuro novo governo?
Carlos Vila Nova: Sabe se ao longo desses anos tivéssemos pensado o país mais, digamos, nas pessoas, muitos destes problemas estariam resolvidos, porque São Tomé e Príncipe, como Estado, não é diferente de qualquer outro Estado. A nossa dimensão territorial não retira a capacidade de sermos um Estado com todas as suas instituições, todos os seus dados estatísticos, Mas a verdade é que há descontinuidade governativa. Houve diferentes interrupções, um factor que nos prejudicou bastante nos últimos anos. Em democracia, já temos conseguido uma estabilidade governativa melhor. Os últimos governos têm cumprido o seu mandato. Espero que este também o faça e que haja uma continuidade das acções do Estado. Eu recordo-me já com alguns dirigentes da oposição, com dirigentes ainda do actual governo, ter pedido uma lista de todos os projectos em curso, sobretudo no domínio das infra-estruturas, no domínio da saúde e da educação, para que, de facto, nós olhemos um bocado mais para dentro e não termos aquele apetite de criar coisas novas quando temos coisas em curso e que podem resolver o problema das pessoas. Isto é um primeiro passo. O segundo é preciso adaptar os recursos disponíveis às necessidades mais prioritárias das pessoas, das populações e do país. E é possível. A energia em concreto é algo que ao longo destes anos todos não conseguimos resolver. Mas é por aí. Não pode haver uma divergência de fundo entre as diferentes forças. O facto de eu estar na oposição, eu não posso estar contra um programa que o governo que está no poder queira fazer e que vá resolver o problema. Tenho que encontrar a forma de dar a minha contribuição. Eu também costumo dizer que o poder crítico dos cidadãos não deve ser usado para bloquear. Ele deve ser usado para construir. E é isso que eu espero. Sem a transição energética, este país não dará passos nenhuns. Sem olharmos devidamente para a saúde, repare, o nosso sistema Nacional de Saúde não é propriamente o que está em causa. É olharmos para o sector, porque o sistema que eu até considero bom em termos sustentabilidade económico-financeira e social para garantir. Este sistema a educação, nós temos índices muito bons, internacionalmente reconhecidos, mas será que a qualidade do ensino é aquela que desejamos? Portanto, são coisas que, dentro do poder, fora do poder, as forças políticas, que são o alicerce da democracia, têm que encontrar pontos de convergência para nós podermos avançar neste processo.
RFI: Todo o país tem recebido o apoio do FMI e do Banco Mundial, que também fazem, preconizações. Até que ponto é que o futuro governo não vai estar bastante condicionado pelas preconizações das instituições internacionais?
Carlos Vila Nova: Temos parceiros multilaterais que nos têm acompanhado ao longo desses anos, assim como os bilaterais. Há um conjunto, um quadro próprio que temos que respeitar para que possamos continuar a ter esses parceiros ao nosso lado. Não creio que qualquer que seja o governo que venha, que ponha directamente em causa, pode rever, pode encontrar outros mecanismos e, como digo, pode e deve sempre conversar. Se fechámos as portas do diálogo, então aí não avançaremos para lado nenhum. E este diálogo tem que ser com os parceiros e internamente também. Eu velarei para que internamente se abra um novo capítulo na história deste país, que é um diálogo mais permanente, mais sincero, mais directo. E depois, a partir daí, encontrarmos pontos de convergência para termos uma estratégia que possa pôr o país na rota do desenvolvimento.
RFI: Por fim, senhor Presidente, qual é o seu apelo neste momento político que o país está a viver?
Carlos Vila Nova: Serenidade, Confiança. O futuro é nosso. Depende de nós. Vamos construí-lo.
O MLSTP, principal partido de oposição, chegou à frente nas legislativas deste domingo 27 de Setembro de 2026 em São Tomé e Príncipe, com uma diferença de algumas centenas de votos face à ADI, no governo.
Enquanto o MLSTP reivindica pelo menos 26 mandatos, a ADI no poder, veio afirmar esta tarde que existe a possibilidade de “um empate técnico” a 24 mandatos com o MLSTP.
Outro dado destas eleições, de acordo com a Comissão Eleitoral Nacional, a taxa de abstenção situou-se quase nos 59%, ou seja no mesmo nível constatado nas presidenciais de 19 de Julho.
Dados preliminares que analisamos com o sociólogo são-tomense Olívio Diogo.
RFI: Como analisa na globalidade os primeiros resultados divulgados hoje?
Olívio Diogo: Primeira coisa que tenho que falar sobre as eleições é dizer que elas correram de forma ordeira. Mais uma vez, o povo são-tomense mostrou que está muito evoluído positivamente para aquilo que diz respeito às eleições, naquilo que diz respeito à votação e que a partir do momento que as pessoas votam, elas transformam o dia da eleição numa festa. Não há nenhum tipo de conflito. Não há incidente e se houver algum outro caso, são casos naturais que acontecem em qualquer eleição, como em qualquer parte do mundo. Mas eles mostraram que estão bastante maduros para a questão das eleições. A outra questão tem a ver com aquilo que foram as abstenções que aconteceram. Esta abstenção acontece sobretudo porque as pessoas ficam cada vez mais cansadas daquilo que é a votação. Eu estive em alguns círculos eleitorais. Eu vi que as pessoas estavam ali, estavam perto do local da votação, mas não iriam votar porque estavam a participar da festa. É que os governantes, qualquer um deles, já não estão a trazer para si aquilo que acham que vai melhorar as suas condições de vida.
RFI: Relativamente ainda á abstenção, esta abstenção, a taxa é mais ou menos semelhante àquela que foi constatada durante as presidenciais de 19 de Julho. Outro dado é que, entretanto, há algumas semanas, houve um apelo ao boicote a estas eleições legislativas. Como é que deve ser interpretada esta taxa de abstenção?
Olívio Diogo: É verdade que mesmo antes do período eleitoral, houve um apelo ao boicote pelo ex-primeiro ministro Patrice Trovoada para que as pessoas não fossem às urnas. Quando nós falámos com as pessoas aqui, nós percebemos que este boicote pode não ter sido a causa fundamental das pessoas não irem votar, mas este boicote aproveita a oportunidade que as pessoas estão tão desencontradas com aquilo que os políticos fazem e as pessoas vêem que as suas vidas não estão a ser melhoradas. Mas é preciso também dizer que esta abstenção tem dois ou três aspectos ainda que são importantes falar sem falar da questão dos boicotes, sem falar que as pessoas estão desinteressadas em irem votar. é que esta forma de votação que nós estamos a ter agora, é uma votação diferenciada, todos os indivíduos que têm 18 anos, eles não precisam ir fazer a inscrição. Portanto, há muitos jovens com 18 anos que nem sabem que estão inscritos no caderno eleitoral. Outro aspecto tem a ver com o facto de estes dados terem sido extraídos e muitas pessoas não sabem em que local estão inscritas. O terceiro aspecto muito importante também, que se deve frisar, tem a ver com a emigração. Esta eleição a que estamos a assistir agora é uma eleição que apanhou esta vaga de emigração. É uma emigração de pessoas que muitas delas estão sem as suas condições de vida regularizadas. Elas não sabem sequer que poderiam votar no exterior.
RFI: Este voto maioritário no MLSTP é um voto de adesão ao projecto do MLSTP ou de rejeição ao partido da situação?
Olívio Diogo: O MLSTP, para quem acompanha as eleições em São Tomé e Príncipe, de algum tempo a esta parte, sabe que o MLSTP tem um número mais ou menos de votos que não se altera muito e portanto o MLSTP fez o seu papel de garantir que este número de votos seja aplicado. E por outro lado, trabalhou para que aumentasse mais um ou dois, o número deputados. Portanto, aqui há duas coisas. A primeira coisa é dizer que isto foi claramente um boicote ao Américo Ramos e as pessoas não se encontraram com aquilo que o Américo Ramos fez durante o seu mandato de dois anos. A população não se entendeu com Américo Ramos e certamente a forma como se tornou líder do Partido da Acção Democrática Independente e ele não conseguiu criar uma empatia com a população, que era uma empatia com aquilo que são as necessidades básicas da população. Se reparar, o MLSTP não cresceu muito. Foi a ADI que baixou significativamente. A ADI tinha nas últimas eleições 30 deputados e saiu de 30 deputados para ter agora 22 ou 23 que ainda não sabemos. Mostra claramente que foi a ADI que perdeu e que o grande perdedor destas eleições é inevitavelmente, o Américo Ramos, o primeiro-ministro em funções.
RFI: Patrice Trovoada, pode retirar algum dividendo político deste cenário?
Olívio Diogo: Naturalmente que Patrice Trovoada vai tirar dividendos políticos deste cenário, por ter apelado ao boicote às eleições, apelado ao aumento da abstenção e a abstenção vir equilibrada, como foi já nas eleições presidenciais, demonstra claramente que a sua palavra, a sua imagem e a informação que ele quis passar foi encaixada sobretudo naquelas pessoas que são fidedignas àquilo que é a política de Patrice Trovoada. Essas claramente não foram votar e essas claramente disseram que continuam com ele independentemente daquilo que venha a contar. Portanto ele pode perfeitamente bem tirar dividendos disto.
RFI: Ainda não se sabe exactamente como é que se repartem os mandatos, uma vez que é o Tribunal Constitucional que deve dar esta informação. O MLSTP reivindica pelo menos 26 mandatos, o que é muito próximo da maioria absoluta. Mas não tendo a maioria absoluta, para que partido é que se vai virar naturalmente para eventualmente formar uma coligação?
Olivio Diogo: No que diz respeito ao facto de ser o Tribunal Constitucional a fazer o mosaico natural de número de mandatos que cada partido deve ter, isto leva a entender que o MLSTP, tendo em conta que isto é uma realidade, está a fazer pressão para dizer ao Tribunal Constitucional que este resultado são resultados que dificilmente se alteram. Mesmo que a ADI queira governar, teria que fazer uma coligação, mesmo que o MLSTP queira governar teria que fazer uma coligação. Perguntava-me anteriormente com quem é que se deve fazer esta coligação. Todos os partidos estão abertos e disponíveis porque eles sempre disseram o mesmo. O Basta e qualquer um destes partidos tiveram um ou dois deputados, estão disponíveis para o fazer. Essa coligação passará inevitavelmente pelo MCI-PS/PUN porque está em melhores condições. Nenhum partido poderá governar sem fazer uma coligação com esta formação. Isto é impossível, a não ser que haja uma coligação entre o MLSTP e a ADI para governar, o que eu acho que não acontece. A coabitação que deve haver entre o Presidente da República e uma cor política contrária é uma coabitação que nós, os observadores daquilo que se passa dentro da nossa política, acreditamos que sim, porque não podemos esquecer que estas duas forças, quer o MLSTP quer a ADI, apoiaram o Carlos Vila Nova a ser reeleito Presidente da República e agora não vejo razão para que o Carlos Vila Nova venha se opor à possível ascensão de uma dessas forças políticas.
Leão XIV passou o terceiro dia da sua deslocação a França em Lourdes, onde a agenda ficou marcada por dois temas particularmente sensíveis para a Igreja: o fim da vida e os abusos sexuais cometidos no seu seio. Entre os peregrinos que se deslocaram a Lourdes, a paz foi uma das principais intenções.
No santuário de Nossa Senhora de Lourdes, o Papa defendeu o desenvolvimento dos cuidados paliativos e da investigação médica, rejeitou a ideia de uma "morte programada" e lembrou que os doentes e as pessoas com deficiência não são um peso para a Igreja.
"Sei que, para alguns de vós, devido a determinadas patologias e a dores por vezes insuportáveis, o horizonte pode parecer sombrio, incerto e sem saída. Mas nenhuma lei humana deve fazer-vos perder a certeza da vossa dignidade", afirmou Leão XIV. "Em nome dessa dignidade inalienável da pessoa humana, a tentação de provocar a morte sob o pretexto de uma falsa compaixão deve ser firmemente rejeitada. É impossível considerar normal provocar a morte. O que é legal não é necessariamente moral."
O Papa foi ainda mais longe ao afirmar que "ninguém tem o direito, com base em algoritmos laboratoriais, de decidir sobre a vida de determinados embriões ou de determinadas pessoas idosas". E deixou uma afirmação peremptória: "Nunca a medicina deverá tornar-se na serva de uma morte programada."
Durante a visita a Lourdes, Leão XIV abordou também os abusos sexuais cometidos na Igreja. Num encontro à porta fechada com os bispos franceses, exortou a Igreja de França a prosseguir a sua acção perante o "flagelo" dos abusos sexuais e, durante a missa dominical, lançou um apelo à conversão para curar as feridas provocadas pelos erros cometidos no seio da própria Igreja.
"É hoje e não amanhã que nos devemos converter", afirmou. "Essa exigência da conversão envolve a própria Igreja na sua peregrinação terrena. Ela deve ter coragem de viver essa conversão em primeiro lugar, para curar as feridas profundas, as infidelidades e os desvios causados pelos erros cometidos em seu seio."
Leão XIV pediu ainda à Igreja que reconheça as suas próprias falhas: "Devemos colocar-nos humildemente sob o olhar purificador do Senhor, reconhecer as nossas próprias falhas, o que é indispensável para o nosso progresso espiritual".
O tema dos abusos sexuais continua a ser particularmente sensível para a Igreja francesa, cinco anos depois de um relatório ter estimado em 330.000 o número de vítimas menores no seio da Igreja desde 1950.
Em Lourdes, Leão XIV manteve também um encontro privado com sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero. No final da reunião, durante uma conferência de imprensa, as vítimas descreveram um Papa simples e disponível para as ouvir, manifestando esperança de que o encontro possa representar o início de um processo de mudança.
Entre os peregrinos que se deslocaram a Lourdes, a paz foi uma das principais intenções. Nuno, que vive em Lourdes, considerou a visita do Papa um acontecimento raro para a comunidade local. "Como somos católicos, temos o gosto de receber o Papa na nossa vila. Esperemos que acabem com a guerra e que tenhamos mais paz."
Questionado sobre os erros cometidos pela Igreja, nomeadamente os abusos sexuais, reconheceu: "Sim, sim, isso é verdade." Sónia, a esposa, defendeu a necessidade de enfrentar directamente os abusos: "Eu penso que sempre existiram essas coisas na Igreja, não é? Só que agora é mais falado. E eu acho que se tem de lutar mesmo contra isso. Enfrentar o problema."
Edivânia veio de Carcassonne para ver o Papa e levou consigo um pedido pela paz. "A paz no mundo. Que acabe a guerra e que todo o mundo abra o coração para Jesus." Para esta peregrina, Lourdes representa sobretudo uma mensagem de fé: "A grande mensagem que ela deixou para nós: escutar sempre o Filho dela, Jesus, sempre rezar o terço e fazer sacrifício pela conversão dos pecadores."
Neuza, que já no sábado tinha passado o dia inteiro no santuário, este domingo chegou às cinco da manhã e não escondeu a emoção quando o Papa passou mesmo à sua frente: "Eu senti uma alegria tão forte que eu queria dar um beijo nele, mas não deu. Ele parou aqui, pegou em duas crianças, deu um beijo nelas. Foi uma emoção muito grande."
Carlos, vive em França há cerca de dez anos, viu pela primeira vez um Papa. "Sente-se uma alegria muito grande para as pessoas católicas como eu. E foi bom ver o Papa. Nunca tinha visto o Papa em toda a minha vida. Então, foi bom vê-lo." Entre os pedidos que trouxe a Lourdes estão "ter sucesso na vida como qualquer pessoa", mas também "que o mundo tenha um pouco menos de guerras e que sejamos um pouco mais compreensivos do que o que somos hoje em dia".
Para o padre Vítor Gomes, sacerdote da paróquia de Orthez, na diocese de Bayonne, a visita de Leão XIV foi marcada por uma mensagem de paz e também pela preocupação com as vítimas de abusos. "Para nós é uma grande felicidade e uma grande alegria. Uma mensagem de paz, de fazer Igreja e também um pensamento para as vítimas que sofreram muito."
Sobre o encontro do Papa com as vítimas, considera que "é muito importante, para dizer que nem todos os padres são assim, e para dizer também a compaixão da Igreja pelas vítimas que ficam marcadas toda a vida".
Oliver, estudante brasileiro que vive actualmente em Portugal, fez questão de viajar até Lourdes depois de saber da visita do Papa. "Quando soube que ia passar o semestre em Portugal e soube que o Papa viria a Lourdes, eu tive de vir para cá. Fiz questão de passar aqui o fim-de-semana com ele e participar em todos os eventos."
Sobre a mensagem de Leão XIV, fala em esperança. "São palavras de muita esperança também para os jovens, para o povo francês e também para o mundo. De continuar firmes na Igreja, na fé, nunca desistir." E acrescenta que o Papa colocou como intenção "que cessem as guerras do mundo".
Questionado sobre o papel da Igreja no combate aos abusos sexuais, Oliver considera que a instituição deve continuar a actuar. "A Igreja sempre tem de lutar contra todas as violências. Tem lutado. É difícil. A Igreja é santa. Os homens não." Na sua perspectiva, é necessário "acolher e punir o que acontece e tentar prevenir".
José e Amália, um casal português residente em França há décadas, também se juntaram aos peregrinos. "Somos portugueses a 100%, mas vivemos em França, o meu marido há mais de 50 anos. Gostamos muito de vir a Lourdes." Sobre a mensagem do Papa, dizem ter ouvido sobretudo um apelo à união e à paz: "Ele fala da paz, que as pessoas sejam unidas e falou que a miséria deve acabar e que todo o mundo viva em paz."
José destacou a importância das palavras de Leão XIV num mundo marcado pelos conflitos. "Eu acho que ele é um Papa moderno. Um Papa moderno que quer a paz. Que não haja guerra. Porque vivemos num tempo muito difícil." E recorda a experiência pessoal da guerra: "Eu já fiz a guerra, sei o que é tudo isso, fiz a guerra na Guiné. E sei o que é o bem e o mal-estar. E é triste sofrer. Matar pessoas inocentes. É triste. É triste."
O domingo de Leão XIV terminou em Lourdes com uma procissão de velas entre a gruta de Massabielle, local onde, segundo a tradição católica, ocorreram as 18 aparições da Virgem Maria a Bernadette Soubirous, em 1858, e a grande esplanada do santuário.
From the publisher's feed
De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners

0 Listeners