Entramos na segunda e derradeira semana de campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe. Depois de ouvirmos os candidatos à governação do arquipélago, a palavra é dada a outras vozes do país, nomeadamente a sua diáspora em Portugal.
Nestes últimos anos, o fenómeno da emigração são-tomense acentuou-se ao ponto que segundo o Banco Mundial, "as saídas do país aumentaram mais de 100%" desde 2020 e, por exemplo, "só em 2023, 24.156 pessoas deixaram o território nacional".
Segundo a mesma instituição, Portugal tem sido o destino preferencial desta emigração, devido aos laços históricos e também em virtude do acordo de mobilidade em vigor no seio da CPLP, calculando-se que residam actualmente mais de 40 mil são-tomenses em terras lusas.
Numa população que se eleva actualmente em cerca de 200 mil habitantes, esta onda de emigração representa um fenómeno significativo para São Tomé e Príncipe.
Foi neste âmbito que conversamos com algumas figuras conhecidas da diáspora em Portugal, a activista são-tomense Solange Salvaterra Pinto, o dirigente da ACOSP, Associação da Comunidade de São Tomé e Príncipe, António Cádio dos Anjos Paraíso, assim como o economista e professor universitário, Armindo Espírito Santo.
Em entrevista à RFI, este último não esconde a sua desilusão com o sistema existente no seu país de origem. "Eu vejo São Tomé como um sistema caótico. Um sistema em que os que dirigem o país, não fizeram nenhuma aprendizagem nos últimos 50 anos da independência. Um sistema em que os dirigentes políticos simplesmente não se empenharam para valorizar o homem são-tomense. (...) Investem em si próprios e nas suas próprias famílias", lamenta o estudioso.
"Quando vou a São Tomé e Príncipe, ponho a mochila nas costas, vou visitando, vou vendo as pessoas, vou procurando saber o que pensam. São questões que eu coloco. Visito as escolas. Vejo, portanto, como é que os professores actuam junto aos alunos, as carências que existem, como é que transmitem os conhecimentos, que matéria transmitem aos alunos. São coisas que observo e eu vejo que nada mudou. Não há um projecto para desenvolver São Tomé e Príncipe", diz Armindo Espírito Santo para quem o fenómeno da emigração de são-tomenses é "uma fuga".
"Vamos ser realistas, também os contextos insulares, como é o caso de São Tomé e Príncipe, são contextos em que as condições em geral são precárias. Porém, quando se sabe governar, essas situações de precariedade podem ser diminuídas, sabendo governar", considera o universitário ao referir que alguns emigrantes que se estabelecem em Portugal "dizem claramente que só vêm porque não conseguem um meio de vida satisfatório em São Tomé".
Uma viagem com destino incerto Com ou sem formação universitária, os jovens que emigram para Portugal, por vezes, sem grandes apoios à sua espera, dizem que não conseguem vislumbrar um futuro em São Tomé e Príncipe, refere a activista Solange Salvaterra Pinto.
"Quando se fala com os emigrantes, o que eles apontam e o que dizem é que em São Tomé, não há perspectivas, eles não conseguem sonhar. Em São Tomé não conseguem vislumbrar um futuro melhor e a solução é mesmo vir para Portugal para ver se conseguem melhores condições de vida, para chamar a família e, quem não tem família, para ver se consegue crescer em Portugal e formar a sua família aqui. Porque acham que aqui têm mais oportunidades a nível de educação, a nível de saúde", explica a activista.
"Depois, há um outro fenómeno que é preciso também não esquecer. É que grande parte dos jovens que vêm para Portugal à procura de melhores condições de vida, não as encontram porque vêm sem uma rede de apoio. Conseguem pagar o seu bilhete de passagem, conseguem pagar o visto, vêm para Portugal, conseguem ficar em casa de familiares e amigos durante algum tempo, mas depois, como ainda não têm trabalho e não conseguem ajudar em casa da família ou dos amigos, eles acabam por ir viver para a rua. Temos alguns jovens, não diria muitos, mas temos alguns jovens -para o nosso universo já são muitos- que eu diria que são quase como sem-abrigo, porque eles dormem na Gare do Oriente, que é a estação de comboios aqui do Oriente (em Lisboa) e para se alimentar, ficam sempre à noite à espera da sopa que as associações vão levar para os sem-abrigo ou para aquelas pessoas que não têm condições de se alimentar convenientemente", realça Solange Salvaterra Pinto.
Ao esboçar um retrato dos emigrantes são-tomenses que conseguem encontrar emprego, todos descrevem um cenário de precariedade.
O economista Armindo Espírito Santo diz que "a esmagadora maioria sobrevive. A larga maioria tem salário mínimo. O salário mínimo permite pagar o quê? Pagar a renda da casa. E os poucos que têm casa, contam os tostões para sobreviverem. Até têm que pedir ajuda a terceiros para sobreviverem. É nessas condições que vivem e alguns vivem numa situação de elevada precariedade, de miséria".
Por sua vez, Solange Salvaterra Pinto fala da "vida de qualquer imigrante com poucos estudos ou como ou com algum estudo, mas que chega de um país desconhecido. As mulheres estão quase todas nas limpezas ou estão a trabalhar nos restaurantes, nas cozinhas ou são camareiras de hotéis. E os homens, a maior parte deles, estão a trabalhar nas obras. Mas depois, é preciso também ter grande atenção que já não há obras de vulto em Portugal como havia há uns anos atrás. Então acaba por, não diria 60%, mas 40% se houver famílias, são as mulheres que conseguem levar o rendimento para casa porque há pouco trabalho para os homens".
As contas por pagar e a ajuda a enviar Para além da escassez de empregos, os emigrantes são-tomenses fazem frente, como o resto de boa parte da população de Portugal, aos desafios de pagar as contas e sobretudo garantir o seu alojamento, diz o dirigente da ACOSP, António Cádio dos Anjos Paraíso.
"Se o salário é baixo, em termos de habitabilidade, tem que então agregar-se duas ou três pessoas, às vezes alugar uma casa ou um quarto e depois alguma coisa que lhes resta, tem também transporte, a despesas da saúde, alimentação e se há algo que fica, é para mandar também para São Tomé e Príncipe, porque muitos deixaram os familiares. De facto, é uma precariedade que podemos dizer que, nos últimos tempos, nós estamos numa encruzilhada", diz o líder associativo.
Segundo dados do Banco Central de São Tomé e Príncipe, apesar de os emigrantes são-tomenses não terem capacidade para injectar muito dinheiro dentro da economia do seu país de origem, as suas remessas, ainda assim, representam anualmente 4 a 5% do Produto Interno Bruto são-tomense. Para as famílias que ficaram no arquipélago, são uma ajuda importante sublinha Solange Salvaterra Pinto.
"Em termos de remessas, então não sei se será tão rentável. Mas para as famílias, acaba por ser muito importante, porque mesmo que a pessoa esteja cá a trabalhar nas obras ou a trabalhar na cozinha, ela consegue mandar 50 ou 100 Euros para a sua família em São Tomé e Príncipe. Ela já está a ajudar imenso a família e ela consegue mandar medicamentos. Já está a ajudar imenso, porque ela consegue mandar roupa e materiais escolares para as crianças que estão em idade escolar. Acaba por ser uma grande valia e uma grande ajuda para as famílias. E quando as famílias vêem-se assim nestes termos protegidas, acaba por ser também menos encargo e menos preocupação para o Estado. Podem não enviar remessas, mas compensam de outra maneira", sublinha a activista.
Emigrante também é cidadão Frequentemente esquecidas nos actos eleitorais, sejam de que origem forem, as diásporas não deixam de ser também parte das forças vivas de um país. António Cadió dos Anjos Paraíso evoca o sentimento de abandono que têm os emigrantes com quem está em contacto na sua associação.
"As pessoas quando chegam aqui, também vêm revoltadas com a forma em que está a ser dirigido o país. 'Eu não quero voltar mais'. Eu digo "meus amigos, a nossa terra nunca nos fez mal. É importante que nos saibamos organizar. Nós temos que ter espírito patriótico. Porque é de lá que nós somos. E de facto, quando aparece cá, muita das vezes, um dirigente quando é a altura da campanha eleitoral e vem falar, eu como dirigente associativo, já propus muitas das vezes, nós temos que sentar, ter um plano, sobretudo a malta que está na diáspora. Isto porquê? Essa malta nova veio para vender a sua força de trabalho. Mas daqui algum tempo vamos estar idosos. Quando vamos regressar São Tomé e Príncipe, qual é a estrutura que está lá à nossa espera? São questões que a médio e longo prazo, vamos ter graves problemas. E mesmo quem está a dirigir em São Tomé e Príncipe não tem essa visão", constata o líder associativo que ao ser questionado sobre as eleições legislativas de 27 de Setembro, diz esperar apenas "mais do mesmo".
Também na óptica de Solange Salvaterra Pinto, a descrença é o sentimento que predomina entre os são-tomenses de Portugal. "A maior parte das pessoas está muito desacreditada da política, está muito desacreditada da classe política, está muito desacreditada dos homens e mulheres que fazem política em São Tomé e Príncipe, porque uma das razões que os levou a sair de São Tomé e Príncipe é justamente a razão que eu indiquei, que não há perspectiva. Essa perspectiva, quem devia garantir o bem-estar do são-tomense e fazer com que eles não tivessem vontade de sair do país é a classe política, porque é o governo que tem as linhas mestras para o país", diz Solange Salvaterra Pinto.
Ainda assim, a activista dá ênfase à importância de todos, dentro e fora do país, exercerem o seu direito de voto e não caírem na tentação de não se deslocarem às urnas. "Se nós não votarmos, alguém vai votar por nós. Então, se nós temos esse direito, é primordial que nós votemos, mas que votemos com consciência e que votemos nos partidos ou que escolhamos as pessoas que nós sabemos que vão ser uma mais-valia nas nossas comunidades. (...) Porque quer votemos quer não votemos, no dia 28 de Setembro, nós teremos um partido ganhador, com maioria relativa ou com maioria absoluta. Teremos um partido ganhador que vai formar o próximo governo ou sozinho, ou em coligação", remata a activista são-tomense.