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  • MLSTP preconiza aposta no turismo e cortes nas despesas públicas

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Neste sábado, ouvimos Américo Barros, líder e cabeça de lista do MLSTP - Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, que preconiza uma aposta no turismo, melhorias nomeadamente no sector da saúde e economias nas despesas públicas.

    RFI: Pretende realizar economias nas despesas públicas. De que forma pensa concretizar esse objectivo?

    Américo Barros: De 2018 a 2022 eu fui governador do Banco Central de São Tomé e Príncipe e tínhamos como despesas para a importação de combustíveis fósseis. Nós estávamos anualmente entre os 40, 60, 70 milhões de Dólares por ano. Portanto, no processo de transição energética, pretendemos obviamente começar cortes por aí. E depois, mesmo na administração pública, constatamos que temos vários sectores que gastam desnecessariamente com viagens, consumo de energia fora do horário. Portanto, é um conjunto de levantamentos que nós fizemos e, portanto, vamos começar pelo corte de compra de combustível.

    RFI: E, portanto, isto significa a implementação de uma política mais favorável relativamente a energias renováveis. O que é que pretende fazer sobre este aspecto, uma vez que acabamos de atravessar uma grande crise energética no país ?

    Américo Barros: Como sabe o MLSTP de 2018 a 2022, nós tínhamos começado um processo de transição energética, mas temos até hoje painéis solares no nosso porto que não foram levantados até hoje por uma questão política. Então, este processo de transição energética, nós estamos virados para a energia fotovoltaica. Por outro lado, também gostaria -e eu vou fazer todo o forcing- para que apostemos também em hídricas. E daí já respondíamos a duas situações ao mesmo tempo. Além da energia, nós iríamos também proporcionar água potável. E temos também, é claro, que criar barragens. São Tomé e Príncipe é um país que tem água em abundância. Eu vejo o exemplo de Cabo Verde, nem um terço, nem um quarto de água tem como São Tomé e Príncipe. Portanto temos que começar a construir mais barragens.

    RFI: O que é que pretende fazer relativamente à questão da saúde?

    Américo Barros: Nós ainda nos deparamos com doenças que já não deveriam fazer parte do sistema de saúde no nosso país. Nós temos doenças, por exemplo, de origens hídricas, porque a água vem com micróbios e, portanto, as águas precisam ser tratadas. É aí o outro papel importante que nós teríamos que desempenhar relativamente ao tratamento de águas. Agora, a primeira coisa que vamos fazer é dar continuidade ao projecto que está em curso desde 2014, que seria a construção de um hospital de referência com o fundo ‘Kuwait Fund’. Esperamos iniciar esse projecto, mas também nós gostaríamos de chamar à responsabilidade social todas as empresas que trabalham no país para, no capítulo Responsabilidade Social, apetrechar melhor os postos de saúde nas comunidades, nos distritos, além da área com equipamentos e medicamentos. Tudo isto constitui prioridade para nós. Portanto, essas empresas terão que apoiar São Tomé e Príncipe na construção de alguns centros de saúde fora da capital. Portanto, a saúde para nós é uma prioridade, porque no nosso projecto nós temos o turismo como o pilar fundamental no processo de desenvolvimento económico. E turismo, para ser um turismo de qualidade, todas as outras áreas são fundamentais : a saúde, infra-estruturas. Sabemos o desafio que temos pela frente, porque tudo constitui prioridade, Então temos que eleger prioridade das prioridades para, no curto prazo, os primeiros anos da nossa governação avançarmos.

    RFI: Como é que vê precisamente a questão do turismo?

    Américo Barros: Actualmente, contribui com cerca de 14% para o PIB. Os dados actuais apontam -são estimativas- que vai baixar para cerca de 11%. Mas o que nós queremos, na verdade, é que o turismo tenha uma maior contribuição no processo de desenvolvimento económico de São Tomé e Príncipe. Gostaríamos que o nosso turismo, um dia, fosse, à semelhança das outras ilhas do Atlântico, e que o turismo colabore com cerca de 40% no PIB. Portanto, vamos ter que trabalhar, vamos ter que organizar o país e, obviamente, todos os sectores que são transversais, também merecerão a nossa atenção para que, quando o turista venha a São Tomé, ele possa, obviamente, convidar mais e mais turistas para o nosso país. A questão da saúde é fundamental. Vem um turista, apanha, por exemplo, o paludismo, que é uma doença que tivemos aqui durante muito tempo. Ele terá dificuldades porque não temos um hospital em condições para responder. Isso afecta o turismo. Temos que resolver o problema da saúde. Basicamente, nesses sectores todos teremos que trabalhar, na construção de resorts, bons hotéis e tentar também fazer um levantamento para vermos quais são os principais locais onde nós podemos beneficiar e tirar algum proveito estratégico, porque nós estamos muito bem localizados. Temos que explorar mais isto.

    RFI: São Tomé e Príncipe foi também designado pela UNESCO como Reserva da Biosfera. Até que ponto é que o imperativo de desenvolver o turismo não poderá também colidir com o objectivo de proteger o meio ambiente em São Tomé e Príncipe? Como fazer com que esses dois imperativos possam a conviver?

    Américo Barros: A protecção do meio ambiente é uma questão que não se discute, é fundamental. Portanto, eu acho que o desenvolvimento do turismo em nada colide com a protecção ambiental. Fomos classificados como Reserva da Biosfera. Vamos ter que manter este valor que nos foi atribuído, mas temos de tudo fazer para promover a entrada de mais e mais turistas no nosso país.

    RFI: Relativamente ao pelouro da Educação, quais são os vossos planos?

    Américo Barros: Nós primeiramente temos que motivar a classe docente. Os nossos professores andam muito desmotivados. Os salários praticados na área da docência não motivam ninguém a dar aulas. O meu pai mesmo foi professor mais de 50 anos e hoje está reformado e ganha cerca de 120 Euros. Quer dizer, isso não motiva ninguém a continuar a investir nessa profissão de professor. Então nós vamos começar por aí. Vamos ter obviamente que fazer alguns ajustes, aumentos salariais, principalmente para a classe docente e para a Saúde. Nós não temos médicos especialistas por falta de motivação em termos de salário. Nós também temos um grande projecto, que é a questão de instituir a língua inglesa, francesa e mandarim a partir da primeira classe do primeiro ciclo. Hoje, é a partir do nono ano. Mas queremos logo, ao sair da primária, introduzirmos já essas três línguas para que os nossos alunos amanhã sejam bem preparados e poderem competir com qualquer um. Porque hoje, sem conhecer línguas é muito difícil conseguir um emprego razoável e que tenha um bom salário. Então, temos que começar a investir também em línguas no nosso país. E também começar a incentivar os estudantes, aqueles que são mais pobres, que depois de concluir o ensino médio, tenham dificuldades de ir ao ensino superior porque as propinas são muito caras. Então nós decidimos que o governo vai ter que subsidiar isto. Ninguém pode deixar de estudar por ser pobre. Nós vamos mudar isso. Então o governo tem que cortar nalgum lugar e proporcionar ao nosso povo, ensino universitário gratuito, ensino público. Para o ensino privado, aí sim, temos que ver como é que vamos, obviamente, colaborar com a bolsa de estudo.

    RFI: Américo Barros, por último, tem-se assistido nestes últimos anos a uma forte onda de emigração de jovens são-tomenses para fora, nomeadamente para Portugal. O que é que pretende fazer para conseguir fixar a população e dar-lhe perspectivas?

    Américo Barros: Realmente, hoje São Tomé e Príncipe tem mais do que 45 mil habitantes em Portugal e não só, na Europa. E para nós é um motivo de nos preocupar. Isso porque grandes quadros técnicos profissionais foram embora. Vidreiros, carpinteiros, marceneiros. Já não temos. Quase todos foram embora. E também com formação superior. É isso que eu digo. Temos que trabalhar para motivarmos a juventude e, para motivar a juventude, ela tem que ter melhor qualidade de vida e para ter a melhor qualidade de vida, tem que ter um bom salário. Não se estuda nem faz um doutoramento para vir ganhar 500 Euros, por exemplo. Ninguém fica contente. Se tiver uma oportunidade fora do país, é claro que vai. Pedreiros, carpinteiros, canalizadores, em São Tomé a ganhar, por exemplo, 200 Euros, chegam em Portugal e ficam a ganhar 1200 ou 1500 Euros em função da sua colocação. Ele pretende ficar lá. Então, o que temos que fazer é criar condições internas. E mesmo na questão do crédito ao sector produtivo, atribuir créditos com taxa de juros bonificados, podendo chegar mesmo a 0% para ver se nós motivamos essa classe jovem, essa classe empresarial a continuar no país. Muitos empresários também vão se embora. Então temos é que apostar no sector privado e vamos continuar com a nossa política e esperamos reforçá-la a partir de 27 de Setembro.

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  • Partido 'Nossa Terra' quer privatização da EMAE e aposta em turismo de excelência

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe em está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Nesta sexta-feira, ouvimos Abnildo Oliveira, líder e cabeça de lista do partido Nossa Terra, na oposição. Rosto conhecido da vida política são-tomense por ter ocupado outros cargos, Abnildo Oliveira preconiza a privatização da Empresa de Água e Electricidade e uma reforma do sector da justiça.

    RFI: Quais são as prioridades do vosso programa?

    Abnildo Oliveira: Nós temos uma visão política assente na reforma do Estado em vários sectores, no domínio da defesa, no domínio da terra, no domínio da saúde, educação e particularmente no domínio da justiça, que é necessário que nós possamos dar garantias de segurança jurídica aos investimentos, sejam nacionais, mas sobretudo estrangeiros, para nós dinamizarmos a nossa economia. Porque se nós não investirmos fortemente de forma sustentável na economia do país, teremos poucas receitas para cobrir as despesas no sector social, como a saúde e a educação.

    RFI: O partido que tem estado no governo negociou com o Banco Mundial e o FMI para haver um envelope reservado para dinamizar o país. E o Banco Mundial e o FMI preconizaram precisamente uma série de reformas, nomeadamente na administração Pública, portanto uma diminuição dos custos e também um aumento dos impostos. O que é que acha dessas preconizações?

    Abnildo Oliveira: Primeiro, temos que saudar todas as parcerias. Nós precisamos manter e dinamizar a nossa parceria com o Banco Mundial e FMI e os programas que temos com essas instituições. Mas nos últimos anos, o crescimento económico de São Tomé e Príncipe foi fraco e o país continuou muito exposto às crises externas. Este acordo com o FMI, por si só, não vai ajudar a nossa economia. O aumento de impostos para uma população que já vive com um salário mínimo de cerca de 50 Euros, não sei se isto vai fazer com que a população tenha melhor saúde, melhor educação e sobretudo, garantir o básico que é a energia em casa, que é a comida na mesa e termos um governo limpo. Logo na nossa perspectiva, o aumento de impostos, mais uma sobrecarga à nossa população, não vejo isso, na minha opinião, neste momento, como uma medida de política que facilita o bem-estar da população. É verdade que nós temos que alargar a nossa base tributária. O que nós devemos fazer, sobretudo, é levarmos uma política, uma reforma, para que possamos fazer uma transição, diminuir aquilo que é a economia informal para a economia formal. Acreditamos que nessa transição para a economia mais formal, conseguiremos, obviamente, ter uma base tributária mais alargada, mas não sobrecarregar a população com mais impostos.

    RFI: Falou da necessidade de haver comida na mesa e também energia em casa. A energia foi uma das questões mais prementes destes últimos meses, devido à crise que o país atravessou. Como é que vê precisamente esse aspecto? O que é que prevêem no vosso programa?

    Abnildo Oliveira: A energia que nós produzimos hoje, ela não é suficiente. Ela não tem qualidade necessária e ela não é sustentável. Logo, se hoje ela está aquém das nossas capacidades de consumo, projectando o país para um desenvolvimento acelerado e sustentável, sobretudo no turismo que é um turismo de excelência, vai requerer um esforço adicional da parte do Estado no investimento no sector da energia. Para isso, vamos ter que abrir as possibilidades. Por essa razão, falamos há pouco tempo, daquilo que é dar as garantias jurídicas para a atracção de investimento externo no país por esta via. Temos como investir no sector da energia e há muitos parceiros interessados em investir no nosso sector de energia. Acredito eu que, desta forma, poderemos ter energia mais sustentável e satisfazer as necessidades, porque não podemos construir um Estado para daqui a um ano, dois anos. Temos de ver a construção de um Estado para daqui a dez, vinte anos.

    RFI: Ou seja, o que está a dizer, é que preconiza a intervenção do capital privado no sector da energia.

    Abnildo Oliveira: Obviamente, esta é a nossa visão e assumimos com coragem. O Estado, por si só, não vai assegurar. Não podemos continuar com o 'Estado Providência'. Nós preconizamos a diversificação das fontes de produção de energia, mas temos que dar um passo um pouco mais para a frente, na medida em que havendo uma possibilidade de parceria público-privado e, se for o caso, também avaliando as propostas até à privatização do sector energético.

    RFI: Outro pelouro que é sempre considerado uma prioridade é a saúde para todos os são-tomenses. Quais são as vossas preconizações?

    Abnildo Oliveira: Nós elegemos como o centro catalisador da nossa economia um turismo de excelência. E São Tomé e Príncipe, já de algum tempo a esta parte, é consensual da parte de todos os são-tomenses que façamos destas ilhas um centro de prestação de serviços. O nosso grande potencial é o turismo, até porque nós recentemente fomos classificados como o país da Biosfera da UNESCO. Todo o país é um elemento catalisador para o nosso turismo, mas levarmos o país para um estágio de turismo de excelência não seria compaginável sem o respaldo de um sector de saúde a um nível que dê confiança não só aos que nos visitam, mas também aos próprios são-tomenses. Logo, há a necessidade de olharmos para o sector da saúde como um elemento a par da energia. Da mesma forma que temos a necessidade de investir no sector da energia, temos de investir no sector da saúde ao mesmo nível, não só do ponto de vista das infra-estruturas, mas sobretudo na questão da formação e capacitação dos médicos. Sem descurar o assegurar do abastecimento permanente dos medicamentos e consumíveis necessários à nossa população.

    RFI: Nestes últimos anos tem-se constatado uma forte onda de emigração da população jovem, que constitui também a faixa maioritária no país. Como é que pensa fazer com que se possa reter essa população?

    Abnildo Oliveira: O Estado, por si só, não vai garantir empregos a toda a população, todos os jovens. A nossa visão é transformar realmente São Tomé e Príncipe como um centro de prestação de serviço, investindo num turismo de excelência. Obviamente que isto traz consigo uma aposta em diversos sectores. Para isso, nós propomos uma Zona Económica empresarial, uma Zona Tecnológica de Informação e também uma zona de educação e pesquisa, uma zona médica, uma zona de alta produção agro-alimentar e sem falar da zona de lazer e turismo. Acreditamos que nesses seis pontos da nossa visão, essas zonas especiais que nós propomos, serão catalisadores da criação de postos de emprego para manter e fixar os que cá estão e também abrir possibilidades para que os que saíram possam regressar e ter a possibilidade de trabalhar. Porque não basta só regressar, é necessário regressar e ter também como garantir o sustento das suas famílias. Quando olhamos para o sector da educação, é verdade que nós temos acesso à educação e muita gente sabe ler e sabe escrever. Mas estamos a falar da questão da qualidade. E nós propomos transformar São Tomé e Príncipe num país bilíngue. Estamos a falar numa questão de visão, um turismo de excelência. Logo, nós são-tomenses, precisamos falar muito bem a língua oficial portuguesa. E precisamos também de uma segunda língua. E a nossa aposta, tem que ser o inglês. Dito isto, claro que nós temos que fazer um investimento sério no sector da educação, no sector da defesa. Nós temos três ramos das Forças Armadas, nós estamos mais virados para o exército e temos uma guarda costeira. Mas é necessário ver, tendo em conta a nossa realidade enquanto ilhas, enquanto arquipélago, olharmos para São Tomé e Príncipe daqui a dez, vinte anos. E a nossa visão é uma aposta pela Marinha. Se nós olharmos para o custo que isto tem para a nossa realidade hoje presente, vamos cruzar os braços e não vamos fazer nada. Mas para quem quer deixar um legado para os seus filhos, tendo em conta que a nossa zona marítima, as nossas riquezas, estão mais no mar, então a nossa visão passa por olhar para as Forças Armadas, mas pela componente da Marinha, sem negar os custos que isto tem por detrás. Mas temos que assumir com coragem, por essa razão que nós colocamos em cima da mesa 'reforma com coragem'. Porque é disto que São Tomé e Príncipe precisa e não podemos olhar o país daqui a um ano, daqui a dois anos. Temos que olhar o país daqui a cinco, dez anos para deixarmos um bom legado para os nossos filhos e os nossos netos.

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  • ADI no poder quer dar realce à saúde e ao incremento da economia

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Nesta quinta-feira, ouvimos Vasth Santos, secretária-geral da ADI -Acção Democrática Independente no poder, e candidata na lista encabeçada por Américo Ramos, líder do partido e primeiro-ministro cessante. Ao fazer um balanço positivo da governação do seu partido, apesar das divisões internas, Vasth Santos refere que o programa da ADI dá especial realce à saúde e às melhorias económicas.

    RFI: Qual é o teor do vosso programa?

    Vasth Santos: Nós dividimos o nosso programa em sectores e um deles é a saúde, como parte do sector social e melhorar, claro, as nossas finanças, o sector económico do país. Mas o enfoque mesmo é a melhoria da saúde.

    RFI: Qual é o balanço que a ADI faz enquanto força que esteve a governar o país, apesar das tribulações que houve pelo meio?

    Vasth Santos: Poderia ser 100% positivo se não tivesse essas tribulações internas, porque vimos que foram quatro anos de uma legislatura muito conturbada, onde viu-se claramente que a divisão interna e o problema interno da ADI estendeu-se a toda a governação, estendeu-se para o Parlamento, onde criou um bocadinho de perturbação, onde não se pôde cumprir por completo a agenda do ADI enquanto governação. Mas em termos gerais, foi positivo porque nós conseguimos continuar muitas coisas boas que nós começamos desde o governo passado. Não permitimos, claro, que a instabilidade que se instalou dentro da ADI fosse perturbar todo o resto do programa, mas conseguimos sim. Posso dizer que foi um balanço positivo, foi uma governação conturbada, mas conseguimos manter o equilíbrio e seguir algumas coisas que havíamos projectado no início dessa legislatura, que teve dois momentos. Um momento até Janeiro de 2025 e o segundo momento, de Janeiro de 2025 a agora, até ao fim dessa legislatura. Então podíamos fazer mais, mas fizemos um bom, um bom caminho até agora. O balanço de governação é bom.

    RFI: Como é que encaram este período eleitoral, dado que Patrice Trovoada apelou ao boicote do escrutínio?

    Vasth Santos: É um desafio bom e eu acredito que o povo são-tomense já atingiu uma maturidade política boa para não seguir esse apelo. Temos estado a constatar a maturidade do povo. Quando vamos ao terreno, conversamos com as pessoas. Eu acredito piamente que o nível de maturidade que atingimos do povo não vai responder a esse apelo, que é um apelo infeliz, porque em democracia não pode um democrata apelar às pessoas para não irem às eleições, não irem à assembleia de voto, a boicotar as eleições. Nós acreditamos na maturidade política do povo são-tomense e acreditamos que esse apelo não surtirá efeito e o povo não seguirá o apelo. Estamos a fazer todo o trabalho democrático de sensibilização para que este apelo não tenha a sua correspondência.

    RFI: Relativamente ao balanço que fazem da vossa governação, quais são os aspectos que gostaria de destacar relativamente àquilo que foi conseguido?

    Vasth Santos: Nós conseguimos três coisas, para mim, que mexem com a vida da sociedade: primeiro, nós conseguimos manter a estabilidade política, permanecer numa estabilidade onde houve envolvência de todos os outros partidos. Nós conseguimos, com o apoio e grande empenho do primeiro-ministro, ministro das Finanças, conter o aumento do valor do combustível, apesar de todo o cenário internacional. Nós conseguimos avançar e já está na fase final o concurso para a construção do Hospital de Referência. Um processo que vem desde 2017, creio eu. E é um processo que também não concluiu atempadamente por causa mesmo da questão da instabilidade política. Então, nós estamos a fazer coisas que respondem à expectativa do povo.

    RFI: Durante também o mandato da ADI no poder, tiveram o apoio do Banco Mundial e do FMI que fazem preconizações relativamente à governação e um dos aspectos é, designadamente, mais impostos.

    Vasth Santos: É tudo uma questão de governação. Acredito que o Governo, na pessoa do ministro das Finanças e do primeiro-ministro, têm sabido lidar com essa situação, com essas exigências do Banco Mundial. E atempadamente, conforme as nossas finanças permitirem alguma dessas obrigações, vamos fazendo as outras e vamos conciliando.

    RFI: Outro aspecto que também esteve no centro das atenções nestes últimos meses, foi a crise energética que atravessaram. Como é que encaram o futuro relativamente à questão energética? Como é que vão fazer com que se possa resolver definitivamente esse problema?

    Vasth Santos: Pronto, com o apoio do Banco Mundial, nós, graças a Deus, com a estabilidade política, também temos em carteira, já num processo quase final da instalação de quase metade da produção de energia limpa, quase metade da necessidade que temos de produção de energia limpa, para diminuir os custos com aquisição de combustível e da forma actual de produção de energia. Nós passamos por um período conturbado de quase 11 meses, se eu não estou em erro. Foi mesmo conturbado, mas nós conseguimos fazer aquisições de novos geradores. Mas nós sabemos que a aquisição de gerador, por si só, não resolve o problema de energia. Só estanca por um período porque os custos com a aquisição do combustível são muito elevados. Mas nós estamos a trabalhar e acredito que, nos próximos meses, já estará instalado no país para a produção de metade da energia que nós precisamos de forma limpa e energias renováveis. Então, esse é um dos caminhos que nós projectamos e estamos a conseguir concluir para a melhoria da energia em São Tomé e Príncipe, que vai baixar também provavelmente os custos e estancar a deficiência que temos com a produção.

    RFI: Nestes últimos meses também São Tomé e Príncipe foi considerado pela UNESCO como reserva da Biosfera, o que é uma responsabilidade para São Tomé e Príncipe. Como preservar o vosso meio ambiente reconhecidamente excepcional?

    Vasth Santos: É um desafio e um desafio que eu acredito que nós que estamos no governo e o governo também tem programas para mantermos o equilíbrio entre as nossas necessidades de construção e manter a nossa reserva da biosfera intacta, para que nós continuemos a ser uma reserva completa a nível mundial. Mas é um desafio que estamos, com a ajuda dos parceiros, a tentar manter.

    RFI: Enquanto a ADI esteve no poder, esse período coincidiu com uma saída bastante importante de cidadãos são-tomenses para fora. Como pensam fazer com que a população se possa fixar no país?

    Vasth Santos: Estamos a tentar trabalhar numa nova forma de governação, criar parcerias internas e externas, de forma a estimularmos e criarmos mais incentivo, tanto no empreendedorismo jovem como nalgumas empresas, para que possam entrar e criar empregos para a juventude de forma a estimularmos mais jovens, principalmente essa camada juvenil a ficar em São Tomé. É uma questão de tempo e nós temos esse projecto, tudo no nosso plano de governação, para os próximos anos. Agora estamos à espera que o povo volte a dar confiança à ADI, para continuarmos e executarmos.

    RFI: Como Vasth Santos encara esse período eleitoral em que é também candidata nas legislativas?

    Vasth Santos: É um período bastante delicado para o povo são-tomense, de muito diálogo interno, de muita conversação, onde requer de nós, principalmente de nós, os candidatos a deputados e os líderes políticos, muita maturidade, muito diálogo. Estamos todos a trabalhar para São Tomé e Príncipe com o interesse que São Tomé e Príncipe se desenvolva. E então o nosso apelo é mais em união e em paz. Que vença o melhor. E claro, eu gostaria que vencesse o meu partido para nós darmos continuidade ao nosso programa de governação e implementar os que ainda temos em carteira. Eu, enquanto mulher, deputada e líder política, também apelo a toda a população e irmos às assembleias de voto e votarmos e que esse período eleitoral corra em concórdia, muita paz, que saibamos que a democracia é ouvir o outro e discutirmos ideias, debatermos ideias, sem agressões, sem violência. Um apelo à paz completo. O nosso país é bonito e pequeno. Nós somos todos primos. Precisamos de nos unir e nos entender em nome de São Tomé e Príncipe.

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  • MDFM quer maior abertura a iniciativa privada, nomeadamente para energia

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Nesta quarta-feira, ouvimos Moisés Viegas, líder e cabeça de lista do MDFM - Movimento Democrático Força da Mudança, na oposição. Entre as medidas preconizadas por esta formação, destaca-se uma maior abertura à iniciativa privada, nomeadamente no que tange à empresa de Água e Electricidade.

    RFI: Quais são as prioridades para o país a seu ver?

    Moisés Viegas: Por que é que nós não conseguimos dar a resposta a nível da questão do desemprego? Porque o Estado é o maior empregador, para não dizermos praticamente o único empregador. Uma economia que quer ser funcional, não pode ser refém do Estado. Nós temos que criar condições para que efectivamente o sector privado possa dinamizar. Claro que temos que criar condições a nível de grandes infra-estruturas e abrir o país para que efectivamente, quer nacional e quer as pessoas que vêm do estrangeiro, possam ter o mercado livre para fazer os seus investimentos. Nós falamos muito da questão do turismo. É preciso criar algumas infra-estruturas essenciais, como, por exemplo, a própria estrada. Se nós tentamos ligar agora a Zona Sul, que é muito forte em turismo e também agricultura, as estradas estão completamente degradadas e é preciso começarmos por aqui. Necessariamente, eu tenho que pensar nas vias de comunicação que vão fazer essa comunicação entre o meio rural e o meio urbano.

    RFI: Um dos pontos que também tem sobressaído muito nestes últimos meses é a questão da energia, dado que o país conheceu uma grande crise de energia. O que é que pensam fazer relativamente a esse aspecto?

    Moisés Viegas: O problema da energia em São Tomé é muito profundo e qualquer país que vive à base dos geradores, não vai conseguir ter sustentabilidade energética. É preciso nós pensarmos em fontes de energia primeiro, que têm um custo mais baixo, energias sustentáveis. Também a energia que nós neste momento utilizamos, que é à base de geradores é que tem contribuído, de certa forma, também para que haja aqui um espaço para a corrupção, desde o desvio de combustível, desvio das peças, sobrefacturação sobre as peças. Portanto, se nós continuarmos a depender da energia à base de gerador e sem transparência, teremos sempre o problema de energia. Eu entendo que a empresa EMAE (Empresa de Água e Electricidade) não deveria ser gerida pelo Estado.

    RFI: Mas está a falar de uma privatização ou de uma parceria público privado?

    Moisés Viegas: Eu vou pela privatização, porque eu entendo que quem deve gerir, fazer negócio, são os privados. O Estado está aqui para supervisionar, cobrar impostos e exigir, de certa forma, a qualidade do serviço.

    RFI: Relativamente a outros aspectos, mencionou, nomeadamente a saúde. Falou-se muito ultimamente da questão de se fazer um hospital de referência. Qual é o vosso ponto de vista sobre esta questão?

    Moisés Viegas: Pensar num hospital de referência não é mau, porque se tivermos um hospital de referência, isso de facto vai ajudar de certa forma, quer a impulsionar a própria economia, mas também a dar suporte ao turismo que nós tanto pregamos. Mas tem aqui um 'porém'. Eu não posso de maneira nenhuma pensar num hospital de referência, quando eu não consigo manter o hospital que eu tenho. Se conhece São Tomé, o Hospital Ayres de Menezes, que é o único que nós temos neste momento a nível de São Tomé, a cama onde dorme o paciente foi a cama que nós herdamos do colono. Até a botija de oxigénio é uma botija que já tem décadas. Portanto, eu não posso pensar num hospital de referência quando eu não tenho a capacidade de reformar e organizar aquilo que tenho na mão. E você também não pode pensar num hospital de referência sem investir nos recursos humanos, que é outro ponto também 'chave' a nível da saúde. Estou a falar, por exemplo, a nível dos médicos. Precisamos de mais especialistas. Daí que eu entendo que nós devemos descentralizar os serviços. A descentralização, já temos em alguns distritos. Mas precisamos criar melhores condições nesses postos médicos a nível distrital, para poder descongestionar um pouco o Hospital Ayres de Menezes. E a nível do Ayres de Menezes, precisamos de fazer uma reforma profunda para um melhor serviço para os utentes. Nós temos o problema dos cuidados básicos essenciais. E temos problemas até de medicamentos. Falta de coisas básicas, muitas vezes como álcool, como oxigénio, como luvas. Portanto, é preciso nós darmos uma atenção a tudo isso, mas acima de tudo, é preciso que haja uma administração transparente.

    RFI: Outro dos pelouros, também considerados 'chave' é a questão da educação. Qual é o vosso plano relativamente a este aspecto?

    Moisés Viegas: O MDFM tem uma visão de que a educação a nível de pré-escolar até pelo menos o oitavo ano, devia ser gratuita. O Estado devia criar condições para que do primário até ao oitavo ano, as crianças poderiam estudar gratuitamente. O Estado devia assumir essa responsabilidade. E podia aqui aliviar também os pais e criar uma oportunidade igual para todas as crianças. Porque, por incrível que pareça, em muitas comunidades, vai encontrar crianças que deviam estar na escola e não estão, porque os pais alegam não terem condições para poder matricular e dar o seu acompanhamento. Mas também eu entendo que a educação é muito mais do que isso. Temos que olhar para os professores. Eu penso que devemos dar uma atenção especial aos professores.

    RFI: Paralelamente, outro assunto que também está a ganhar cada vez mais importância é a protecção do meio ambiente, dado que nestes últimos meses São Tomé e Príncipe foi reconhecido como Reserva da Biosfera pela UNESCO. Portanto, isto significa também que, de facto, vai haver alguma pressão a nível internacional para São Tomé e Príncipe também fazer algo relativamente a este aspecto.

    Moisés Viegas: Nós entendemos que o facto de nós sermos reconhecidos como a reserva da biosfera, isso devia incutir a nós mais responsabilidade e a forma também como nós olhamos para o nosso país. Temos que dar uma melhor atenção ao nosso meio ambiente e, para isso, é preciso nós investirmos na descentralização, como é óbvio. Existem as câmaras distritais, mas é preciso que o governo central não deixe às câmaras de forma abandonada, porque muitas vezes as câmaras podiam fazer mais na perspectiva da organização, do saneamento do meio, cuidar melhor do ambiente, a limpeza das praias. Mas, por incrível que pareça, às vezes passa um ano e a Câmara não recebeu o financiamento que vem do governo central, que é do Estado. Claro que essa Câmara fica impossibilitada de exercer melhor o seu papel e cuidar melhor do seu distrito. Mas cuidar do ambiente é muito mais do que isso. É a responsabilidade de cada cidadão assumir-se como um protector do ambiente. Para que isso possa acontecer, é preciso investir mais em formação, em capacitação e acima de tudo, na informação. Porque muitos são-tomenses não sabem o que é que significa a Reserva da Biosfera.

    RFI: Outro dos assuntos que regressam invariavelmente nas campanhas eleitorais é a questão das reformas institucionais e nomeadamente no sector da justiça. O que é que o MDFM pretende relativamente a este aspecto?

    Moisés Viegas: A reforma a nível da justiça, ela está bastante atrasada, mas é muito mais profunda do que aquilo que muitas vezes nós falámos. Enquanto a justiça for ditada pelos políticos, nós estaremos sempre à mercê e não conseguiremos fazer as mudanças que nós precisamos. Eu entendo que São Tomé e Príncipe, no momento que nós estamos a viver, é preciso que haja a segurança jurídica, quer para o cidadão comum, quer para o investidor e quer até para a própria instituição. Nós entendemos que não devia ser o Parlamento, por exemplo, a indicar os juízes, por exemplo. Não devia ser, por exemplo, os políticos a nomearem os directores e o presidente da PJ, os comandantes da polícia. Na nossa perspectiva, isso devia ser feito pela carreira. A pessoa faz uma carreira e ascende a essa posição. Lança-se um concurso público e aquele que, na nossa perspectiva, estiver melhor preparado e cumprir os requisitos predefinidos, está em condições de exercer a sua função sem depender do político ou da orientação política.

    RFI: Todas as medidas que está a propor têm que ser financiadas de alguma forma. O FMI e o Banco Mundial têm fornecido algum financiamento ao país e têm feito também preconizações, nomeadamente de que haja uma maior tributação.

    Moisés Viegas: É verdade que a questão da tributação é um assunto que é preciso analisarmos com alguma ponderação. Quem paga o imposto é o povo e quanto mais aumentarmos a tributação, de certa forma deixamos o povo mais pobre. Eu penso que qualquer governo -e o MDFM estando no governo sob a minha liderança- teremos a sabedoria de analisar com a FMI, com os parceiros, renegociar e também sempre apresentar a nossa posição, desde que isso não deixe o nosso povo cada vez mais pobre. Essa é a nossa posição.

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  • PCD quer reforma da justiça, diversificação da energia e mais atenção com saúde

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Nesta terça-feira, ouvimos João Bonfim, líder e cabeça de lista do PCD - Partido da Convergência Democrática, na oposição. Ao defender reformas nomeadamente no sector da justiça, João Bonfim insiste igualmente sobre a necessidade de diversificar as fontes de energia e cuidar melhor das unidades de saúde ou ainda das estradas.

    RFI: Quais são as prioridades do vosso programa?

    João Bonfim: Recordo a situação das estradas nacionais, das ruas da cidade capital, que estão praticamente em estado de profunda degradação. Sem falarmos da questão da energia e da água que ocuparam o topo das nossas prioridades. Para além disso, os tradicionais sectores da saúde e da educação, especialmente para nós, a questão da educação terá uma importância muito grande, na medida em que nós precisamos, através da educação, defender o presente e preparar o futuro. Em relação à saúde, verificamos que há muitas doenças consideradas doenças curáveis no mundo, mas que matam em São Tomé e Príncipe, já não por haver falta de profissionais, mas faltam os meios de diagnóstico e faltam os medicamentos. Por esta razão, nós definimos estes sectores como sendo os prioritários no nosso projecto de governação.

    RFI: Detalhando agora alguns dos sectores, mencionou nomeadamente a questão da saúde. Disse que não é por falta de quadros. No entanto, alguns números vêm dizer o contrário. O facto de haver uma emigração massiva nestes últimos anos, fez com que vários quadros, nomeadamente no sector da educação e no sector da saúde, saíssem do país. E neste momento, o país enfrenta uma carência de quadros nestes sectores.

    João Bonfim: Pode se tratar de uma falsa questão. Na educação é bem mais evidente do que no sector da saúde. Os professores estão a abandonar o sistema educativo porque eles são mal remunerados e são dificilmente seguidos e apoiados. No sector da saúde, a situação não é tão igual. Eu dou-lhe um exemplo muito concreto. Estive a reunir-me com a população num distrito e estava uma senhora enfermeira presente e ela tomou a palavra para me dizer 'eu própria, já pedi até aos próprios doentes para se rebelarem, porque eu estou desesperada. Eu tenho gente doente que aparece aqui na minha instituição de saúde e eu sei que eu posso fazer alguma coisa por esta pessoa, mas nem sequer tenho um medicamento básico, como é o paracetamol, por exemplo'. Isto é triste e deprimente também para os profissionais de saúde, isso pode conduzir a alguma desistência. Mas o nosso principal problema, confesso, não está na falta de quadros.

    RFI: Relativamente a outro sector que enumerou no seu programa, falou nomeadamente da questão da energia, que foi um assunto bastante comentado nestes últimos meses devido à crise que o país atravessou. Quais são os vossos projectos?

    João Bonfim: O nosso projecto, sobretudo na área da energia, é fazer uma opção muito clara para a produção de energia por via de energias renováveis. O nosso país, claro, situado na linha do Equador, com grande disponibilidade de Sol e sendo um país de geografia limitada, o nosso país tem todas as condições para tirar o máximo proveito das energias limpas, das energias renováveis, designadamente da energia fotovoltaica. Nós conseguimos obter energia fazendo até -porque não?- instalações particulares, nos edifícios públicos, nalgumas habitações particulares, tudo isso de modo a que tenhamos a possibilidade de ter energia limpa. Mas também podemos utilizar e devemos recorrer à energia eólica. Devemos pensar profundamente nestas opções porque elas são um conhecimento de que o mundo dispõe e está, neste momento, também ao alcance de todos os países. Mas há também a possibilidade de recorrermos à produção energética por via dos cursos de água. Já há muito que se fala no aproveitamento dos vários cursos de água para criarmos uma rede de barragens que possam promover a acumulação de água que serviria para produção de energia, mas que serviria também para a distribuição à população e para utilização na agricultura, para a rega. E isso, o nosso país não tem feito. Mas são meios que estão ao nosso alcance. Todo o nosso sistema de distribuição e de gestão da energia foi apontado para uma população de 70 mil habitantes à data da independência. De lá para cá, e no preciso momento, a nossa população triplicou. Passámos de 70 mil para 210 mil. As propostas têm de ser outras. Queremos apostar muito na descentralização da distribuição e da gestão da energia. E nós queremos apostar numa separação do sector da água e do sector da energia, para que cada um deles, com o conjunto de problemas que enfrentam, possam estar mais concentrados nos problemas próprios, em vez da confusão que temos actualmente.

    RFI: O FMI e o Banco Mundial têm apoiado São Tomé e Príncipe, fazendo algumas preconizações. Entre essas, preconiza uma reforma da administração pública e também mais impostos.

    João Bonfim: A questão dos impostos é uma questão que tem que ser encarada, tem que ser discutida, porque o país é óbvio em qualquer lado. É preciso que, numa economia liberalizada também como aquela que nós defendemos, o Estado dificilmente arrecadará receitas através da participação em empresas. Não haverá tantos recursos da construção do Tesouro público a partir dos dividendos. Por isso, os impostos são a via preferencial para que o Estado possa construir o seu tesouro, através do qual fará investimentos na saúde, na educação, nas infra-estruturas, como, por exemplo, as estradas. Há dias aí, alguém me falou do seguinte: 'Se vocês forem governo, por favor acabem com o IVA'. E disse-lhe que infelizmente isso não pode acontecer porque o IVA, aparentemente parecendo ser um imposto cego, é o imposto actualmente mais generoso de que o Estado pode beneficiar. A única questão aqui a haver é uma avaliação dos montantes a cobrar e uma definição de áreas e de serviços que podem ficar isentos da cobrança do IVA. Os cidadãos, obviamente, não gostam de ouvir falar do pagamento de impostos, mas os impostos são a via preferencial que tem o Estado e os governos para constituírem o Tesouro público, que, por sua vez, é necessário para o investimento na saúde, na educação, com a aquisição de medicamentos e dos equipamentos de diagnóstico e outros, no sistema de saúde, na educação para sustentar as escolas públicas, embora nós não consideremos que toda a educação tenha de ser exclusivamente pública. Estamos disponíveis para encarar a possibilidade de haver uma intervenção do capital privado no sistema educativo. Os impostos são, de facto, um mal necessário, infelizmente.

    RFI: Outro dos assuntos que regressa sempre em qualquer campanha eleitoral é a questão das reformas institucionais e nomeadamente no sector da justiça.

    João Bonfim: O sector da Justiça é efectivamente um grande problema que nós enfrentamos. A nossa proposta para o sector da Justiça é ter uma formação muito sólida no sector da Justiça. Mas também não podemos dizer que seja exclusivamente por falta de formação que a nossa Justiça tem conhecido os problemas que são do domínio público. A questão é que há muita interferência política no funcionamento da Justiça. Por isso, o nosso lema principal para a justiça é a não politização da justiça e a não judicialização da política. Como é que vamos resolver isso? Introduzindo os mecanismos de inspecção no sistema judicial, recorrendo também à ajuda e à cooperação externa. Porque os compromissos que muitos agentes da nossa justiça têm com a actividade política prejudicam a administração da Justiça com toda a qualidade e, sobretudo, com confiança pela parte dos cidadãos. Os cidadãos não têm muita confiança na Justiça. Muitas vezes, o resultado de uma sentença decorre de uma encomenda, digamos assim.

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  • 'Movimento Basta' quer saúde preventiva, energias sustentáveis e reformas institucionais

    A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.

    Nesta segunda-feira, ouvimos Levy Nazaré, líder e cabeça de lista do Movimento Basta, na oposição. Rosto conhecido da vida política são-tomense por ter ocupado vários cargos, Levy Nazaré defende uma política de saúde preventiva, um investimento nas fontes de energia sustentáveis e reformas institucionais.

    RFI: Qual é o programa do ‘Movimento Basta’?

    Levy Nazaré: Primeiro, acima de tudo, é preciso um consenso nacional para se alterar a Constituição, mas não no sentido de criar um novo regime presidencialista. São reformas constitucionais que ajudam ao melhor funcionamento das próprias instituições do Estado. Mas para isso, é preciso consenso político. Nós também temos a reforma da Assembleia Nacional pela dimensão da Assembleia. Com 55 deputados, penso eu que hoje não se justifica termos tantos deputados. É preciso profissionalizar de facto a Assembleia Nacional, reduzindo o número de deputados, dar as condições necessárias para órgãos de soberania, melhorar os salários. A questão da mobilidade dos deputados, para que haja maior produtividade, nós propomos reduzir para 25 ou 30 deputados, não mais. Há a questão da reforma da Justiça. Também já se falou muito da reforma da Justiça, que é um cancro para o nosso desenvolvimento. Eu defendo sempre que a Justiça tem um papel muito importante a desempenhar para o São Tomé e Príncipe que se pretende, um São Tomé e Príncipe mais desenvolvido, mais justo, mais equitativo. Não pode ter a nossa justiça tão lenta, tão burocratizada, tão politizada como nos últimos tempos nós fomos assistindo. Nós precisamos de apoio dos nossos parceiros para permitir que haja uma cooperação a nível da Justiça, de modo que venham magistrados nos ajudar aqui ditar o direito. Não é para sempre e de uma forma transitória. Estabelece-se no espaço de cinco a dez anos, de forma que venham magistrados para um ou dois anos, porque eles não são de cá, eles não conhecem as pessoas, eles não têm relações familiares numa sociedade tão pequena. Para não entrar no vício, não pode durar muito tempo: dois anos, depois vem outro e assim sucessivamente. Por isso, essa é uma das propostas que nós temos. Não podemos ser só para umas coisas e outras coisas, não sermos soberanos.

    RFI: Nestes últimos meses, o país foi submetido a alguma pressão devido aos cortes de energia, tornando de facto esta questão, uma questão crucial. Quais são os vossos planos?

    Levy Nazaré: Aquilo que os nossos parceiros do Banco Mundial e não só, os nossos parceiros de Bretton Woods, têm sempre nos proposto. É essa a solução. Nós temos que renovar a nossa fonte energética. Não podemos continuar com energia a diesel, com geradores permanentemente. Esse tipo de energia também está dependente das variações do preço dos combustíveis no mercado internacional. Até há casos mesmo, como sabe, de ruptura de combustíveis por algum tempo na nossa sociedade. Logo, é preciso investir nas energias renováveis. Já há um processo a decorrer para a energia com painéis solares, mas também temos condições para energia eólica. Nem toda a energia tem de ser energia limpa, mas coadjuvado também com alguns geradores, caso haja um ou outro problema.

    RFI: Falou de energias limpas. Isto é uma transição para a questão ambiental. Há também uma expectativa internacional relativamente a São Tomé e Príncipe, que nestes últimos anos foi reconhecida, nomeadamente pela sua qualidade natural pela UNESCO. O que é que se pretende relativamente à questão ambiental em São Tomé e Príncipe?

    Levy Nazaré: Todo o território nacional já é património da Biosfera, como sabe. É transformar esse património num exemplo para o mundo e termos políticas de desenvolvimento sustentável e que esse desenvolvimento não venha pôr em causa as nossas condições de fauna e flora. Só que temos também de ter a capacidade de dizer aos nossos parceiros "ok, nós não podemos mais continuar, por exemplo, a desflorestação, a tirar areias nas praias para a construção. Então nós precisamos de ajuda nesse sentido'. Mas o grande problema que o país tem hoje é como tratar os resíduos. Nós importamos muito plástico. Há muito lixo. E como é que nós vamos transformar esses resíduos em fonte de energia e tornar a ilha mais limpa, mais consentânea com todas as políticas ambientais? Quer a ilha de São Tomé, quer a ilha do Príncipe estão a passos gigantes rumo a uma economia de turismo sustentável. Daí os desafios que nós também temos nessa área de tratamento dos resíduos.

    RFI: Relativamente também à questão do acesso à saúde. Isso é uma questão que é universal. Como tornar a saúde mais acessível a todos?

    Levy Nazaré: Temos que direccionar a nossa política de saúde acima de tudo, numa saúde preventiva. Estamos com uma política de saúde mais curativa, isto é, quando acontece os problemas, as pessoas já estão doentes, já estão enfermas, já estão hospitalizadas e nós agora temos que encontrar formas para curar essas pessoas, logo, direccionarmos a nossa política para uma saúde preventiva. Logo, eu aproveito já para falar da questão de água potável, porque muitas das nossas doenças são de origem hídrica, não havendo água potável para toda a população, para melhorar a questão do imunização da população, faz com que possamos diminuir os custos e os problemas que nós temos na saúde. É um desafio grande, mas tudo isso também tem a ver com o próprio desenvolvimento do país. Para nós, temos condições para construir o tal hospital de referência que tanto se fala também aqui, entrando também o turismo. O nosso Sistema Nacional de Saúde hoje não é consentâneo com o turismo que se pretende, o desenvolvimento do turismo que se preconiza. Logo, temos que criar todas as condições para termos um sistema Nacional de Saúde que dê resposta não só a toda a população nacional, em primeiro lugar, mas todos aqueles que nos visitam também. Também começar a formar técnicos especializados, não só médicos, como enfermeiros em todas as áreas de especialidade que o país precisa. Tem acontecido, já agora, não só nesta área, mas em todas. Mas já que estamos a falar de saúde, muitos enfermeiros, muitos técnicos de saúde, por questões que o país atravessa, têm emigrado, logo é preciso criar uma política para reter os nossos quadros, não só de saúde, como todas as áreas. Dar-lhes formação, termos mais técnicos especializados para darmos resposta aos desafios que o país enfrenta e que há-de enfrentar no futuro.

    RFI: Como financiar todas estas medidas que está a propor?

    Levy Nazaré: No nosso programa, também falámos da política fiscal. Primeiro, é preciso uma política fiscal que seja mais abrangente possível e não apenas ficar circunscrita ao sector formal. Nós temos uma informalidade muito grande na nossa economia. É preciso políticas tributárias específicas para massificar a tributação com taxas únicas para todo o sector informal. É preciso trazer o sector informal para sector formal. Baixar a taxa de imposto que nós temos, também uma política fiscal que não ajuda o surgimento de novos empresários ou aqueles que já estão no mercado para desenvolver. É preciso dar mais atenção àquelas pessoas que decidam enveredar por esse caminho que é do empresariado. É preciso um esforço interno, reduzir as despesas públicas. Melhor gestão das nossas finanças e dos apoios que nós recebemos. O combate à corrupção. É preciso investir na agricultura. Nós não temos terra suficiente para ter uma agricultura competitiva, mas nós temos uma marca que é a marca, o nome 'São Tomé e Príncipe'. Logo, desenvolver uma agricultura doméstica para abastecer o mercado interno, depois uma agricultura de transformação para exportação, mas exportar já produtos 'gourmet'. Já está a começar. Há pequenas células. E também direccionado para o mar, porque em vez de nós termos acordos de cooperação com a União Europeia, com o Japão, a China e outros países, de pesca nos nossos mares e que nós nem temos capacidade de controlo desta mesma pesca, porque não pedir apoios para termos aqui internamente pequenas empresas de transformação de pescado, como acontece com alguns países como Cabo Verde, que eu sei. Logo, todas essas políticas são políticas que poderão ajudar a encontrarmos formas de financiar esse desenvolvimento de que se falou. É preciso trabalharmos também mais. Nós temos um horário de trabalho da função pública, por exemplo, que não é compatível com as exigências do mundo moderno hoje. Mas tudo isso também, tem a ver com a própria reforma da nossa administração pública, que também faz parte do nosso programa.

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  • Paraíso leva a Braga um debate sobre afrodescendência, memória e futuro

    Braga recebe a  4.ª edição do festival Paraíso, dedicada ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Cinema, música, dança, gastronomia e conversas servem de ponto de partida para pensar memória, representatividade e pertença. Para o coordenador do festival, Nuno Abreu, o objectivo é criar um espaço onde diferentes comunidades possam não apenas assistir, mas também participar na construção das narrativas.

    O Paraíso regressa a Braga com uma pergunta que atravessa toda a programação: o que fazer, no presente, com aquilo que se herda do passado? Na  4.ª edição, o festival escolheu colocar “Passado e Futuro na Afrodescendência” no centro de dois dias de cinema, dança, música, gastronomia e reflexão.

    Para o coordenador de Assessoria de Imprensa, Conteúdos e Acessibilidade do Paraíso, Nuno Abreu, juntar estas duas temporalidades não significa apenas olhar para trás e imaginar o que vem depois. Significa, sobretudo, interrogar o presente. “Todos os anos elegemos um tema associado às questões afrodescendentes. Este ano escolhemos passado e futuro porque queremos propor uma reflexão colectiva”, explica.

    Essa reflexão começa em Braga e com quem vive na cidade. O festival procura envolver estudantes, investigadores, artistas, agentes culturais e organizações locais na própria construção da edição. “Queremos pensar as formas de existir daquilo que recebemos desta herança que é a afrodescendência e pensar nas realidades que queremos construir e que, neste momento, já estão a ser construídas.”

    Entre os participantes estão representantes da Secção de Estudantes Africanos da Universidade do Minho, agentes culturais residentes na região e organizações que trabalham com comunidades migrantes e afrodescendentes. Para Nuno Abreu, esta ligação ao território é essencial. “O Paraíso quer demonstrar essa realidade: as pessoas que trabalham cá, que vivem cá e que querem mostrar à população e às comunidades o trabalho que tem sido feito para que a nossa sociedade seja o mais justa possível.”

    Mas programar culturas afrodescendentes envolve também um risco: transformá-las numa sucessão de manifestações artísticas apresentadas a partir de fora, como se fossem apenas objectos de exposição. É precisamente isso que o festival procura evitar. Em vez de construir toda a programação a partir de uma direcção central, o Paraíso entrega parte da curadoria a pessoas e organizações ligadas aos temas em discussão.

    “O que fazemos desde o início é convidar pessoas e organizações para fazerem a curadoria das várias áreas, tanto no pensamento como na mediação e nas artes de palco”, explica Nuno Abreu. “Convidamo-las para idealizarem aquilo que querem fazer, quem querem convidar e sobre o que querem conversar e discutir.”

    É também desta lógica que nasce, por exemplo, a curadoria de cinema entregue a Kitty Furtado, que escolheu uma obra da realizadora Vanessa Fernandes e participa na construção da conversa em torno do filme. A opção responde, segundo Nuno Abreu, a uma questão mais profunda de representatividade. “Talvez por falta de representatividade de artistas afrodescendentes nos teatros nacionais, nós convidamos sempre pessoas e organizações para fazerem a curadoria destes elementos.”

    A  4.ª edição cruza-se com as comemorações dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma associação que nasce precisamente de países ligados por uma história marcada também pelo colonialismo português. Nuno Abreu não foge à contradição. Pelo contrário, considera-a matéria para discussão. “Todas as contradições interessam para a construção de pensamento. Queremos que o Paraíso seja um espaço plural em termos de perspectivas sobre o que é a afrodescendência e também sobre o que é a afrodescendência lusófona.”

    A própria língua entra, assim, no debate. “O que é que a nossa língua representa para toda a gente? E o que representam outras línguas, como os crioulos dos vários países africanos de língua oficial portuguesa?”, questiona. Para o responsável, memória e futuro não precisam de aparecer como forças incompatíveis. “Falamos sobre o que são as heranças e sobre o que são as construções do futuro. Elas podem, se calhar, andar de mão dada.” 

    Também não é indiferente que esta conversa aconteça em Braga. Se grande parte dos debates sobre racismo, imigração ou afrodescendência tende a concentrar-se em Lisboa, o Paraíso nasceu precisamente da vontade de descentralizar essas discussões. “A maior parte da população afrodescendente reside em Lisboa, mas em Braga também reside, também existe”, lembra Nuno Abreu. “É preciso perceber se estas pessoas estão felizes cá, se usufruem culturalmente dos espaços, se são artistas ou investigadores e que espaço é que essas pessoas têm.”

    A questão, sustenta, é perceber como se vive a experiência afrodescendente fora da capital. “É importante Braga estar no mapa com um programa artístico como este e conseguir perceber de que forma todas estas pessoas vivem uma cidade como Braga e não uma capital.” 

    Essa preocupação conduz a outra palavra central do festival: acessibilidade. Não apenas no sentido físico de entrar num espaço cultural, mas também no sentido económico e simbólico de sentir que esse espaço é para todos. Cerca de 80% da programação do Paraíso é gratuita. Conversas, sessões de cinema e outras actividades podem ser frequentadas sem compra de bilhete. “Não é obviamente só uma população afrodescendente que tem dificuldade em comprar um bilhete para ir a um espectáculo. Uma população portuguesa que não seja afrodescendente também tem”, lembra Nuno Abreu. Por isso, acrescenta, “o Paraíso tem-se pautado por ser um evento maioritariamente gratuito, para que o número máximo possível de pessoas, de qualquer nacionalidade, que vivam em Braga sejam bem-vindas”.

    A ambição vai além de aumentar o público. “Queremos que partilhem este espaço, que espero que seja seguro. Um espaço de liberdade para pensar, para conhecer e para sonhar.” O festival concentra-se em dois dias, mas Nuno Abreu rejeita a ideia de que o sucesso possa ser medido apenas pelo número de pessoas que atravessam as salas durante esse período. “Sucesso na área das artes é sempre um pouco discutível”, reconhece. “Obviamente, temos vindo a assistir a um número cada vez maior de pessoas nas acções do Paraíso, mas talvez o mais importante seja existir continuidade.”

    É essa continuidade, considera, que impede que as questões debatidas no festival desapareçam quando se desmonta o palco. Artistas de diferentes nacionalidades, conversas, espectáculos e criações continuam a integrar a programação cultural da cidade ao longo do ano.

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  • “Há um antes e um depois do 11 de Setembro”, conta jornalista que cobriu os atentados

    Henrique Mano foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero depois do ataque de há 25 anos às Torres Gémeas, em Nova Iorque, no qual morreram cerca de três mil pessoas. À hora dos atentados, a 11 de Setembro de 2001, o repórter já estava no Jornal Luso-Americano de Newark e contou-nos como foi cobrir o trágico acontecimento que mudou o mundo e a sua própria vida na cidade onde vivia e ainda vive. “Há um antes e um depois do 11 de Setembro”, resume o jornalista.

    Já passou um quarto de século desde os ataques que são considerados como um momento de viragem na história contemporânea. A 11 de Setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas da Al-Qaeda, com dois deles a colidirem de forma intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, que acabariam por desabar algum tempo depois. O terceiro avião de passageiros colidiu com o edifício do Pentágono, nos arredores de Washington, e o quarto caiu num campo no estado da Pensilvânia, depois de alguns passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controlo do aparelho. Morreram cerca de três mil pessoas nesse dia e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então. A queda dos edifícios libertou uma nuvem tóxica e provocou um desastre ambiental urbano sem precedentes nos Estados Unidos, ao qual foram expostas quase 500 mil pessoas e cujo impacto ainda perdura.

    Neste programa, falamos com Henrique Mano, editor do Jornal Luso-Americano de Newark, que foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero e que ajudou a identificar vítimas luso-americanas. Esta sexta-feira, o jornalista vai cobrir uma cerimónia inédita em Newark, “um pequeno Portugal”, que vai lembrar as vítimas dos atentados, nomeadamente as de ascendência portuguesa, paralelamente às homenagens que vão decorrer em Nova Iorque.

    “A cidade de Newark é onde está concentrada a grande comunidade portuguesa na costa leste dos Estados Unidos, é uma espécie de pequeno Portugal. Uma das vítimas portuguesas nasceu aqui, cresceu aqui. Eu digo aqui porque estou na redacção do jornal e o jornal está também sediado em Newark. O vereador português de Newark, o Michael Silva, pela primeira vez, vai fazer uma cerimónia do içar da bandeira, que é uma tradição americana, para lembrar as vítimas não só luso-americanas, mas todas as vítimas dos atentados. Eu vou estar ocupado a fazer a cobertura desse evento”, conta Henrique Mano.

    Há 25 anos, quando os aviões embateram nas Torres Gémeas de Nova Iorque, a cidade onde vivia e vive, o repórter “tinha acabado de chegar à redacção”, em Newark, nos arredores de Nova Iorque. “Nesse dia já não consegui regressar a Nova Iorque porque os acessos da cidade estavam todos interrompidos. Não havia comboios, os túneis estavam fechados. Portanto, só no dia seguinte, logo de manhã, consegui apanhar um comboio e fui para Nova Iorque. Fui imediatamente para a zona do Ground Zero tentar sobretudo auscultar a comunidade portuguesa que havia ali nos bairros de Soho e Tribeca - que estavam literalmente à sombra das Torres”, acrescenta. A partir daí, o jornalista e a equipa do jornal Luso-Americano ajudaram na identificação das nove vítimas portuguesas e lusodescendentes dos atentados, ajudando a compor uma lista oficial que até hoje é usada pelas autoridades portuguesas e norte-americanas.

    Há memórias que continuam muito presentes e são dificilmente imagináveis: “Morreram ali quase 3.000 pessoas no espaço de uma hora. Isto é difícil de explicar às pessoas, mas dos escombros das duas torres emanava um cheiro a morgue - estavam ali 3.000 corpos - que se manteve na ilha toda de Manhattan, para aí, durante uma semana. Nós em casa, dentro de casa, sentíamos este cheiro. Para além do aspecto prático de termos percebido que, em uma hora, as nossas vidas tinham mudado completamente, as medidas de segurança, a forma como viajamos, tudo isso. Há um antes e um depois do 11 de Setembro.”

    Na terça-feira, o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, anunciou a divulgação de dezenas de milhares de documentos que mostram que a cidade não revelou tudo o que sabia sobre a toxicidade do ar após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Nos anos seguintes, mais de 9.400 pessoas morreram de doenças relacionadas com a exposição à área, de acordo com um programa federal de monitorização médica. Após a nuvem de poeira inicial que se seguiu ao colapso do World Trade Center, meses de poluição e poeira persistente causaram cancros que ainda afectam milhares de nova-iorquinos.

    "Estes documentos mostram o que a cidade sabia sobre o ar tóxico em redor do Ground Zero, quando o soube e como agiu para limitar a responsabilidade", disse o autarca de Nova Iorque, Zohran Mamdani numa conferência de Imprensa após a divulgação online de 170 mil páginas de documentos sobre preocupações com a saúde, a qualidade do ar e a resposta da cidade aos ataques. A divulgação faz parte de um acordo com a 9/11 Health Watch, um grupo de defesa das vítimas que interpôs uma ação judicial para obrigar a cidade a tornar os documentos públicos. "Durante 25 anos, quatro Administrações municipais diferentes ocultaram do público, do Congresso dos EUA e da Câmara Municipal documentos que mostravam o que a cidade realmente sabia sobre o perigo dos produtos químicos tóxicos no sul de Manhattan e no oeste de Brooklyn após o colapso do World Trade Center, mesmo enquanto as autoridades municipais continuavam a afirmar ao público que o ar era 'seguro e aceitável'", disse o director do grupo, Benjamin Chevat, em comunicado.

    Como milhares de pessoas, Henrique Mano também se expôs e continuou a fazer as suas reportagens no local, sem nunca ter colocado qualquer máscara. Conta até que conheceu um bombeiro lusodescendente que “trabalhou no Ground Zero durante seis meses na operação de recuperação dos restos mortais, a identificar pedaços de corpos que encontravam” e que “teve que se reformar prematuramente porque contraiu uma doença pulmonar associada ao 11 de Setembro”.

    “[As autoridades] não alertaram. A documentação agora prova que até as companhias de seguros estavam cientes do perigo e optaram por fazer segredo disso. Portanto, nem sei se não é matéria criminal. Não sei como é que as autoridades vão agora lidar com o assunto, mas isso tem sido muito falado agora, nesta semana dos 25 anos”, acrescenta o jornalista.

    Oiça a entrevista neste programa.

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  • Angola aposta no espaço para reforçar soberania digital

    Angola quer transformar o investimento no espaço numa ferramenta de soberania digital, desenvolvimento económico e formação. Em Paris, onde participa na Cimeira Internacional do Espaço, o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, defendeu a criação de capacidades nacionais, sem abdicar da cooperação, e destacou as aplicações dos satélites nas comunicações, agricultura e protecção dos oceanos.

    Angola chegou à Cimeira Internacional do Espaço, em Paris, com uma ambição que ultrapassa a presença de um satélite em órbita. O objectivo, segundo o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, é adquirir progressivamente conhecimento, infra-estruturas e recursos humanos que permitam a Angola reduzir dependências e construir aquilo a que Luanda chama “soberania digital”.

    “Temos um programa espacial nacional, temos um satélite de comunicações em órbita e estamos a trabalhar num satélite de observação da Terra”, explicou Mário Oliveira. “Estamos a trabalhar no sentido de criarmos capacidades próprias e de interagir com aquilo que se passa um pouco por todo o mundo, particularmente em África.”

    O ministro refere-se ao ANGOSAT-2, utilizado nas telecomunicações, e ao futuro ANGEO-1, primeiro satélite angolano dedicado à observação da Terra. O projecto ANGEO-1 arrancou oficialmente em Março nas instalações da Airbus Defence and Space, em Toulouse, e integra a estratégia angolana de reforço da capacidade tecnológica nacional.

    Para o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, porém, soberania digital não significa produzir tudo dentro das fronteiras. Significa sobretudo adquirir capacidade para dominar e gerir as tecnologias utilizadas pelo país. “Passa não só pelo ecossistema de satélites, mas também por todo o ecossistema de comunicações, aplicações e formação”, afirma.

    É precisamente na formação que o governante coloca uma das maiores apostas. “Estamos fortemente empenhados em formar jovens angolanos para que possam ser os angolanos a gerir e a criar plataformas”, sublinha. A intenção é diminuir gradualmente uma dependência tecnológica que reconhece existir. Num território extenso e com populações dispersas, os satélites e a fibra óptica são apresentados como instrumentos para levar comunicações a regiões onde a instalação de redes convencionais é pouco atractiva comercialmente.

    O representante angolano destaca projectos destinados a aumentar a cobertura móvel, levar Internet a localidades remotas e equipar escolas públicas com salas de informática. “Temos estado a levar Internet e comunicações a zonas recônditas do país, a escolas públicas situadas nas vilas e nas aldeias”, afirma.

    A tecnologia espacial é também associada à diversificação económica. “O Governo tem estado a apostar muito no agronegócio, na agro-indústria e na agricultura”, lembra o ministro. “A agricultura hoje já não se faz como nos anos 60 e 70. Exige muita tecnologia, exige acesso à Internet.” É nesse contexto que o ministro angolano vê os investimentos em satélites e fibra óptica como infra-estruturas que podem servir também os produtores agrícolas, dando-lhes acesso a comunicações, informação e serviços digitais. “Temos estado a levar essas facilidades aos nossos empresários agrícolas”, explica.

    A participação em Paris serve para procurar conhecimento fora do país. Angola tem contactos previstos com diferentes actores do sector, entre os quais a Agência Espacial Africana, a Agência Espacial Portuguesa e a Airbus Defence and Space. Para o ministro, não se trata de substituir incapacidade interna por soluções estrangeiras, mas de acelerar a aprendizagem.

    “O ecossistema das tecnologias exige troca de experiências. Nós começámos o nosso programa espacial há relativamente pouco tempo”, afirma. No plano africano, considera que a criação da Agência Espacial Africana oferece uma oportunidade adicional: “África tem estado junta à procura do seu espaço no ecossistema de satélites.”

    Com Portugal, Mário Oliveira destaca a relação entre as respectivas estruturas espaciais. “Temos uma boa relação ao nível do nosso Gabinete de Gestão do Programa Espacial e da Agência Espacial Portuguesa. Sempre que podemos estar juntos, conversar sobre as nossas ideias, sobre os nossos projectos e sobre aquilo que pode ser o intercâmbio entre nós, essas oportunidades são bem-vindas.”

    A França ocupa também uma posição importante. É em parceria com a Airbus que está a ser desenvolvido o ANGEO-1, e jovens angolanos deverão deslocar-se para formação especializada. “Está a chegar, nos próximos dias, uma equipa de jovens angolanos que vai fazer mestrado e formação ao nível dos satélites”, anunciou o ministro.

    O objectivo é fazer com que o investimento em equipamentos seja acompanhado pela criação de conhecimento dentro do país. “Sem formação podemos fazer todos os programas que quisermos”, mas será difícil assegurar a sustentabilidade, reconhece. Angola pretende, por isso, avançar também para formação especializada no ensino superior nacional.

    “Estamos a preparar-nos para, juntamente com o Ministério do Ensino Superior, podermos ter em Angola uma formação específica nesta matéria”, adianta. “Temos grandes ambições. É para isso que estamos aqui, junto dos melhores e dos maiores.”

    A estratégia estende-se agora também ao Atlântico. Angola assinou durante a cimeira a adesão à iniciativa Space4Ocean, que procura utilizar tecnologias e dados espaciais na protecção dos mares e na exploração sustentável dos recursos oceânicos. “Temos uma costa extensa e hoje falamos muito da economia azul no país”, explica. A adesão vai permitir, segundo o governante, conhecer tecnologias já utilizadas por outros Estados “em defesa do mar, da costa e da própria economia marinha” e integrá-las no trabalho que Angola desenvolve nesta área.

    A Cimeira Internacional do Espaço decorre a 9 e 10 de Setembro no Grand Palais, em Paris, reunindo responsáveis políticos, agências, cientistas, astronautas e empresas de dezenas de países para discutir a transformação de um sector que adquiriu uma dimensão económica e estratégica crescente.

    12 min
  • Festival Paraíso cruza memória, reparação e futuro na afrodescendência

    Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, este ano dedicado ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Entre cinema, música, dança, gastronomia e conversas, o encontro propõe interrogar as heranças coloniais e imaginar outros futuros. Para a curadora Kitty Furtado, olhar o passado é também um exercício de reparação e de transformação do presente.

    No festival Paraíso, passado e futuro não aparecem como extremos de uma linha do tempo. Encontram-se, sobrepõem-se e ajudam a interrogar o presente. A 4.ª edição do encontro, em Braga, parte das experiências afrodescendentes para pensar aquilo que permanece do passado colonial, mas também aquilo que pode ser reconstruído a partir dele.

    É nesse cruzamento que surge um filme realizado por Vanessa Fernandes em 2015, escolhido por Kitty Furtado, crítica cultural, investigadora e curadora do festival. “A escolha deste filme tem precisamente a ver com essa relação que estabelece entre o presente, um futuro possível e o passado”, explica.

    A obra aborda a mutilação genital feminina, mas fá-lo também através daquilo que não se diz. Para Kitty Furtado, o filme mostra como determinadas tradições atravessam gerações e continuam a condicionar vidas muito depois de a sua origem se ter perdido no tempo.

    “É um filme que nos fala muito de leis, de tradições que vêm de um passado que se perde no tempo e que, de forma silenciosa, penetram as nossas vidas hoje e condicionam, neste caso, a vida de mulheres negras”, afirma. Há, acrescenta, uma transmissão que acontece através da ausência de palavras: “Fala-nos disto também através dos silêncios que se instalam nas famílias e da transmissão silenciosa desse passado.”

    Onze anos depois, a curadora considera que esse silêncio não desapareceu. Pelo contrário. “No caso português, é até mais silencioso hoje do que em 2015. Em 2015 estávamos a começar a conseguir falar sobre isto”, observa, criticando uma abordagem que, na sua perspectiva, tende a reaparecer sobretudo pela via da criminalização das comunidades e das mulheres afectadas.

    Mas a distância entre 2015 e 2026 não se mede apenas na forma como se fala deste tema. Kitty Furtado vê também uma mudança mais ampla no clima político e social português. Recorda um período em que persistia a ideia de que Portugal seria uma excepção numa Europa em transformação e em que ainda era comum negar a existência de racismo no país. “Hoje já não há vergonha, já não há pudor nos discursos racistas, nos discursos de ódio”, afirma. “Estamos num outro Portugal que nós sempre soubemos que existia, que sempre existiu.”

    Essa mudança no modo de olhar a sociedade conduz directamente a uma das ideias centrais do trabalho de Kitty Furtado: o conceito de Black Gaze. A investigadora evita traduzir a expressão simplesmente por “olhar”, porque considera que a palavra portuguesa não contém toda a dimensão política que lhe atribui. “Gaze implica essa relação de poder entre quem olha e quem é olhado. Implica a construção de um discurso sobre aquilo que se olha e implica uma duração do olhar”, explica.

    Durante séculos, argumenta, a cultura visual foi construída a partir de uma posição dominante. “O discurso da visualidade foi sempre construído por pessoas brancas, maioritariamente homens brancos, que se arrogam o direito de compreender e de dizer o que é o mundo.”

    O Black Gaze altera essa relação porque transfere o poder de enquadrar e narrar para quem durante muito tempo apareceu sobretudo como objecto de representação. “Quando dizemos Black Gaze, é o olhar daquele que sempre foi olhado. Ora, isto altera toda a mundivisão.” E essa inversão, sublinha, não transforma apenas quem olha. Transforma também aquilo que passa a ser visível. Permite “humanizar este outro que foi desumanizado”, recuperar histórias sistematicamente apagadas e “reformular, ressignificar a história tal como a conhecemos”.

    Nem sempre são necessárias narrativas extraordinárias. Muitas vezes, diz Kitty Furtado, basta deslocar o ponto de vista: “São as mesmas histórias de família, as mesmas histórias de viagem, os mesmos dramas amorosos. A matéria humana é a mesma. A perspectiva é que é outra.”

    É também dessa mudança de perspectiva que nasce a relação entre memória e reparação. Para a investigadora, não são dois processos separados. A memória é reconstruída a partir do presente e, no caso das populações negras, essa reconstrução enfrenta um problema adicional: a ausência ou destruição de grande parte do arquivo. “É um arquivo muito delapidado. Foi muitas vezes queimado, foi muitas vezes invisibilizado, mas, mais do que invisibilizado, foi mesmo destruído”, sublinha.

    Perante essas lacunas, reconstruir a memória implica juntar fragmentos, estabelecer relações e imaginar aquilo que desapareceu entre os documentos que sobreviveram. “É preciso ligar momentos deste arquivo, os documentos deste arquivo, imaginar o que está entre eles através desse exercício de fabulação crítica.”

    Esse gesto de reconstrução já é, para Kitty Furtado, uma forma de reparação. “Este exercício de reconstrução da memória, este exercício de pensamento sobre um passado, é, em si mesmo, um acto de reparação. De reparação histórica, de auto-reparação.” E essa auto-reparação, sustenta, não pode ser delegada em quem produziu a violência. “O trabalho de reparação dessa interioridade é nosso, não pode ser do perpetrador. Temos de ser nós a fazer esse exercício de auto-reparação.”

    O problema surge quando conceitos como reparação, representatividade ou decolonialidade entram no vocabulário das instituições sem alterarem necessariamente o seu funcionamento. Museus, universidades e bienais apropriaram-se progressivamente desta linguagem, mas Kitty Furtado alerta para a distância entre reconhecer uma crítica e transformar uma estrutura. “A alteração discursiva não implica uma alteração política, de facto”, afirma.

    Na sua leitura, instituições historicamente construídas dentro de relações de poder têm também uma grande capacidade de absorver os discursos que as contestam. “Conseguem fazer sobre si próprias um discurso muito elevado, de boas intenções, de capacidade de autocrítica, de construção de um mundo cada vez melhor, mais igualitário, cada vez menos violento. Mas essa construção fica no plano meramente discursivo.”

    Kitty Furtado aponta desigualdades persistentes no sistema prisional, no acesso à habitação, na organização das cidades e no funcionamento da justiça. “As coisas continuam como sempre foram, mas o discurso vai mudando para que tudo possa continuar na mesma.”

    O paradoxo estende-se às próprias instituições culturais. A crítica ao colonialismo entra hoje em museus, universidades e bienais que, historicamente, também participaram na construção das narrativas que agora são questionadas. Para Kitty Furtado, essa entrada pode produzir dois efeitos contraditórios. “Por um lado, corre realmente o risco de ficar numa gaveta muito bem arrumadinha” e até de funcionar como uma forma de legitimação: “Já reparámos, já nos corrigimos, agora somos diferentes.”

    Mas não é apenas isso que acontece. “O acesso a estes discursos, a discussão que estes eventos proporcionam, chega cada vez a mais pessoas”, reconhece. E a presença crescente de pessoas racializadas dentro dessas instituições tem permitido, segundo a investigadora, “uma alteração subtil no próprio funcionamento”, nomeadamente pela entrada de outros públicos, outras memórias e outras formas de produzir conhecimento. É neste ponto que o Paraíso se desloca do passado para o futuro, embora Kitty Furtado questione a própria ideia de que estes dois tempos possam ser rigorosamente separados.

    A curadora rejeita a expectativa de que artistas e intelectuais negros tenham de regressar permanentemente ao colonialismo, ao racismo ou ao trauma para legitimarem a sua criação. “Há uma geração de artistas africanos e afrodescendentes que está precisamente a negar fazer esse regresso ao arquivo”, observa. O afrofuturismo é uma das expressões dessa ruptura. Não porque abandone o passado, mas porque propõe outra relação com o tempo. “Há uma ideia de tempo circular em que passado, presente e futuro estão sempre a ser. Nós somos agora o resultado de um passado e uma semente de futuro.”

    É talvez aí que se encontra uma das ideias mais fortes desta edição do Paraíso: não pensar a memória apenas como aquilo que ficou para trás, nem o futuro como uma promessa distante. Entre os dois existe um presente em curso, onde cada gesto de criação pode também reconstruir aquilo que foi apagado. Nas palavras de Kitty Furtado, trata-se de pensar cada pessoa como “esse ponto no tempo que congrega todos os pontos do tempo”.

    15 min

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