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  • "Vou para Angola": Jéssica Lima recupera memória familiar de São Tomé para Angola

    "Vou para Angola", Jéssica Lima parte da viagem da avó, que deixou São Tomé e Príncipe com quatro filhos, para interrogar as marcas da migração nas gerações seguintes. A curta documental, com 14 minutos, cruza arquivos e memórias familiares e é apresentada esta sexta-feira, 2 de Outubo, no FESTin, em Lisboa, precisamente no dia em que a avó da realizadora completaria 93 anos.

    Em "Vou para Angola", a cineasta são-tomense Jéssica Lima regressa ao percurso da avó entre São Tomé e Príncipe e Angola para compreender não apenas uma deslocação geográfica, mas aquilo que esse movimento transmitiu às mulheres que vieram depois: a mãe, a tia e, por fim, a própria realizadora.

    Produzida em 2026, a curta documental de 14 minutos integra a programação do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, que decorre em Lisboa de 1 a 11 de Outubro e reúne este ano 60 filmes de diferentes geografias do espaço lusófono. A 17.ª edição coincide com os 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

    A ideia do filme nasceu de uma memória antiga, mas ganhou forma recentemente. Jéssica Lima cresceu a ouvir falar de Angola nos almoços de família: da comida, de Luanda, dos anos que a mãe ali passou até aos nove anos. Quando regressou a São Tomé e Príncipe, depois de viver 11 anos em Inglaterra, uma conversa familiar devolveu-lhe essas histórias e despertou uma curiosidade que vinha da infância.

    “Quis reconectar-me com a minha família, principalmente com a linhagem feminina: a minha avó, a minha tia mais velha, a minha mãe e agora eu”, explica. Ao começar a investigar a partida da avó, percebeu que aquela história íntima pertencia também a uma realidade mais ampla: a circulação de sucessivas gerações de são-tomenses entre as ilhas e Angola.

    A investigação acabou por aproximar a realizadora da própria experiência migratória. Jéssica Lima também saiu cedo do país, no seu caso para estudar artes em Inglaterra, e reconheceu no percurso da avó algumas das questões que acompanhariam mais tarde a sua própria vida: a procura de oportunidades, a adaptação, a saudade e a possibilidade do regresso.

    “Aprendi com ela a resiliência”, afirma. A herança que identifica na avó é sobretudo a capacidade de recomeçar: “Não ter medo de ir à procura de uma vida melhor, mas também não ter medo de regressar ou de começar de novo, tantas vezes quantas forem necessárias.” É uma experiência que a realizadora vê repetir-se na família, primeiro na avó, depois na mãe e agora nela própria.

    Para Jéssica Lima, a migração deixa uma necessidade de adaptação, mas também perguntas sobre pertença e identidade que podem atravessar gerações. Angola surge, por isso, não apenas como o lugar onde a avó viveu, mas como uma geografia que permanece inscrita na memória familiar. A realizadora acredita que ela própria voltará e que as gerações seguintes poderão, de alguma forma, refazer esse caminho.

    Para reconstruir um passado de que restavam relatos fragmentados, recorreu a fotografias guardadas pela avó e a imagens de arquivo de Angola. “As histórias que a minha tia e a minha mãe contavam eram como retalhos, pequenos depoimentos e memórias”, explica. “O arquivo foi essencial para remontar esse quebra-cabeças e interpretá-lo à minha maneira.” As imagens permitem ao filme estabelecer uma ponte entre a Luanda que permanece na memória da família e o presente a partir do qual essa história é interrogada.

    É também nesse movimento do particular para o colectivo que Jéssica Lima situa o seu cinema. A realizadora diz preferir começar por uma experiência concreta, próxima, antes de procurar uma leitura mais ampla. Depois das primeiras exibições, percebeu que espectadores sem ligação à sua família se reconheciam noutra dimensão do filme: a urgência de perguntar aos pais e aos avós pelas histórias que ainda podem contar. Outros reconheceram nas imagens de arquivo a Angola de uma época que conheceram.

    A apresentação no FESTin tem ainda uma coincidência particularmente, uma vez que o filme é projectado em Lisboa, cidade onde Jéssica Lima nasceu, no dia 2 de Outubro, data em que a avó faria 93 anos. Para a cineasta, mostrar esta história num festival dedicado às cinematografias de língua portuguesa levanta a possibilidade de pensar as relações entre países que partilham uma língua, mas sobretudo histórias de circulação, partida e regresso.

    9 min
  • Página de facebook Djudan Buska Nha Familia reúne famílias separadas há décadas

    Há famílias cabo-verdianas que passaram 40, 50 ou 60 anos sem notícias umas das outras. A página de Facebook Djudan Buska Nha Familia, coordenada por Isabel Semedo, tenta reconstruir esses laços através de nomes, fotografias, alcunhas e memórias dispersas por vários países. Cerca de 20 reencontros já foram possíveis, alguns em menos de uma hora.

    Há histórias familiares que ficaram suspensas entre Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Portugal ou Estados Unidos. Algumas começaram com partidas forçadas pela pobreza e pela fome, outras perderam-se com o tempo, a distância e a ausência de meios de comunicação. Décadas depois, uma página de Facebook tenta voltar a ligar essas vidas.

    A ideia nasceu depois de uma viagem de Isabel Semedo a São Tomé e Príncipe. “Toda a gente na sua família tem a história de alguém que partiu para São Tomé e não voltou”, conta. Ela própria não tinha esse percurso na família, mas conhecia desde pequena as histórias de quem tinha partido. Quando chegou ao arquipélago, percebeu a dimensão do problema. “Encontrei famílias, descendentes e pessoas que ainda estão lá. Foi muito, muito marcante. Apesar de tudo o que aconteceu, a palavra saudade é aquilo que mais lhes marca.”

    Dessa viagem nasceu Djudan Buska Nha Familia, “Ajuda-me a encontrar a minha família”, em português. O ponto de partida era simples, criar um lugar onde pessoas separadas por décadas pudessem deixar um nome, uma fotografia, uma localidade ou apenas uma memória. “Têm muita saudade do país e, sobretudo, dos familiares que ficaram por lá e de quem nunca mais tiveram notícias. Uns há 60 anos, outros há 40”, explica Isabel Semedo.

    Por detrás de muitas dessas histórias está uma página dolorosa da história cabo-verdiana. Isabel Semedo recorda a fome de 1947 e o envio de trabalhadores contratados para São Tomé e Príncipe, mas lembra que as separações se estenderam também a Angola, Moçambique e outras geografias da diáspora. “As pessoas foram para lá trabalhar, levaram a vida delas e foram perdendo contacto com os familiares em Cabo Verde.” Hoje, a página recebe pedidos vindos de vários pontos do mundo.

    A procura começa muitas vezes com quase nada. “É como uma agulha num palheiro”, reconhece. Um nome incompleto, uma fotografia antiga, o nome de uma aldeia ou uma referência transmitida oralmente podem ser tudo o que resta. A equipa foi criando, com o tempo, uma rede de contactos em Cabo Verde, São Tomé e na diáspora, tentando cruzar documentos, testemunhos e informações recebidas pelas redes sociais.

    Há um elemento que se revela muitas vezes decisivo, os nomes de casa. “Nós, cabo-verdianos, temos muito isso, o nominho”, explica. “Às vezes é ‘filho de tal’, ‘filha de tal’. E a partir daí temos conseguido encontrar pessoas.” Há famílias que enviam certidões, fotografias e documentos privados na esperança de que uma pista permita reconstruir uma ligação perdida.

    Um desses casos foi o de Elsa, que procurava uma irmã desaparecida do radar familiar havia 40 anos. “Mandaram-me os dados, a fotografia, tudo. Em menos de uma hora conseguimos localizá-la através da página, dos comentários e das partilhas.” A irmã tinha passado por Cabo Verde e vivia em Portugal. “Foi uma história muito emocionante, triste e feliz. São sentimentos que se misturam.”

    Outro reencontro marcou profundamente Isabel Semedo foi o de Manuel que procurava a mãe e os irmãos em São Tomé e Príncipe. Não tinha fotografia e nem sequer conhecia o nome verdadeiro da irmã. Sabia apenas que lhe chamavam “Nuna”. Através de uma segunda mensagem recebida pela página, a equipa percebeu que esse “nominho” correspondia a Valenciana Vaz Moreira. “Através desse Nuna encaixou tudo.”

    Depois de cerca de 60 anos, os irmãos voltaram a encontrar-se. “Nós choramos com eles. Só quem vive é que sente uma coisa destas”, conta Isabel Semedo. Manuel, antigo GNR em Portugal, tinha passado praticamente toda a vida a procurar a família. “Ele disse-me que viajou por vários países sempre com isto na cabeça e que, no dia em que foi jurar bandeira para ser GNR, era o único que não tinha família.” Quando reencontrou a irmã, disse-lhe que tinha sido “o dia mais feliz da vida dele”.

    Mas nem todas as histórias terminam num reencontro. E essa é, para Isabel Semedo, uma das partes mais difíceis do trabalho. “Falamos muito com as pessoas antes de publicar. Não somos profissionais, somos só pessoas que têm vontade e estamos no mesmo barco.” A equipa tenta recolher o máximo de informação possível, mas evita alimentar expectativas que talvez nunca se confirmem. “Dar falsas esperanças também é complicado.”

    Há ainda casos em que a página serve de homenagem a quem procurou a família durante toda a vida e morreu sem conseguir regressar. Noutros, o reencontro torna-se real. Isabel Semedo recorda uma mulher filmada em São Tomé em 2025. A publicação chegou aos familiares, que a reconheceram, reuniram dinheiro e conseguiram levá-la a Cabo Verde. “Ficou lá três meses. Agora já voltou para São Tomé.”

    Para Isabel Semedo, é talvez aqui que reside a força do projecto, em utilizar as mesmas redes sociais tantas vezes associadas ao ruído, à violência ou à desinformação para construir alguma coisa. “As redes sociais podem ser muito perigosas, mas, bem utilizadas, podemos fazer a diferença.” A página também recebe comentários xenófobos ou racistas, que prefere apagar em vez de alimentar confrontos.

    Isabel resume esse espírito com uma expressão crioula: junta mon, juntar as mãos. “Estou sempre a agradecer às pessoas que comentam, que partilham. Isto é um junta mon, é juntar mãos para fazer algo de positivo.”

    18 min
  • Kiala: A chancela literária que vai publicar só autores negros

    A chancela Kiala, da editora Vírgula d’Interrogação, nasceu para publicar livros de autores negros em Portugal e para responder a uma subrepresentação no mercado editorial português, conta a criadora do projecto Elga Fontes. "Kiala” é uma palavra com raízes no kimbundu, uma língua Bantu de Angola, e significa "trazer luz ou iluminar”, o que traduz a ideia desta chancela: “trazer luz a vozes que ainda não estão presentes no mercado literário português”. 

    “A Kiala é uma chancela do grupo editorial Vírgula d’Interrogação que pretende publicar livros de autores negros em Portugal”, começa por resumir a sua criadora Elga Fontes, que também é tradutora, revisora e fundadora da oficina editorial Quem Me Lera, o mesmo nome da sua página Instagram em que partilha, há anos, sugestões de livros com milhares de seguidores.

    Quisemos conhecer o projecto de Elga Fontes e convidámo-la a partilhar connosco a história da Kiala. Elga nasceu em Portugal há 31 anos, é angolana por parte da mãe e cabo-verdiana por parte do pai. Licenciou-se em Línguas e Culturas na Faculdade de Letras de Lisboa, fez um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, começou a trabalhar como revisora ainda durante a licenciatura e, pouco depois, entrou no mundo da tradução editorial. Foi, também, durante a universidade que criou a página Instagram #quemmelera para ter “uma plataforma para falar sobre o que lia” e “encontrar outras pessoas que gostassem de ler”.

    A acompanhar esse amor pela literatura, esteve sempre a impressão de uma invisibilidade crónica de autores negros nas estantes das livrarias em Portugal, algo que acabou por ser validado por um trabalho académico que fez e que mostrou isso mesmo. A Kiala acaba por surgir, anos mais tarde, em resposta a essa lacuna e nasce como uma chancela da editora Vírgula d’Interrogação.

    O nome escolhido, "Kiala", vem do kimbundu, uma língua Bantu de Angola, com múltiplos significados, entre os quais “o trazer luz ou iluminar”. “Acho que funciona como metáfora para aquilo que nós queremos fazer que é - num sentido muito figurativo - iluminar, trazer luz a estas vozes que ainda não estão tão presentes no mercado literário português”, acrescenta a editora.

    “Já há alguns anos que, enquanto leitora e enquanto profissional da área, tenho reparado que existe uma sub-representação na presença de autores negros nas estantes das livrarias de Portugal. A Kiala surgiu como uma ferramenta para tentar combater isso”, conta Elga Fontes.

    Questionada sobre as razões dessa ausência de autores negros nas livrarias, Elga diz que “há muitos motivos essencialmente estruturais”, desde logo o facto de o mercado editorial português ser “muito pequenino, muito precário e onde é muito caro fazer livros” e também “é muito difícil vendê-los” devido aos parcos hábitos de leitura. Por isso, as editoras “acabam por apostar naqueles livros que têm mais visibilidade lá fora e mais garantias de poder dar algum lucro e, infelizmente, esses livros, na sua maioria, não incluem vozes fora daquilo que é considerado padrão e normativo”. Depois, acrescenta a editora, o racismo e as feridas abertas do colonialismo são “sem dúvida, dos maiores motivos para o qual existe esta sub-representação de autores negros” em Portugal.

    Para combater também esse racismo, a Kiala tem um “guia de termos a evitar e as alternativas”, já que a própria Elga, também tradutora, chegou a ver uma tradução sua alterada com expressões racistas que foram introduzidas posteriormente.

    O primeiro livro publicado este ano pela Kiala foi uma obra de não-ficção intitulada “Feminismo na Periferia”, de Miki Kendall e, em Novembro, vai ser lançado o segundo “A Morte de Vivek Oji”, um romance de Akwaeke Emezi, uma autora nigeriana não binária. Para 2027, também há três livros fechados. Enquanto editora generalista, o objectivo é publicar vários géneros, estar “atentos ao que é publicado noutros mercados”, nomeadamente a “autores negros que estão a surgir e também as obras que, apesar de já terem alguma relevância internacional, ainda não chegaram a Portugal”.

    “Eu que faço a selecção dos livros, faço esta pesquisa. Também estou muito por dentro do que se faz lá fora, contacto agentes, leio os livros e gosto de me guiar por uma questão que é: Que conversa é que este livro pode iniciar ou continuar em Portugal?”, explica a editora. Quanto às ambições, Elga diz querer muito “que a Kiala consiga construir um catálogo de referência com livros que as pessoas continuem a descobrir ao longo dos anos” e que contribua “para normalizar” a presença de autores negros nas livrarias, ou seja, “entrar numa livraria e encontrar muitos autores negros, de diferentes géneros, diferentes países e com diferentes perspectivas”.

    Oiça a entrevista neste programa.

    11 min
  • Apesar de avanços na prevenção e tratamento, a malária continua a ser endémica na Guiné-Bissau

    Na Guiné-Bissau, apesar dos avanços, o paludismo continua a ser uma doença endémica e uma das maiores preocupações de saúde pública, sobretudo no leste, no sul e no arquipélago dos Bijagós.

    Em entrevista à RFI, a coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, a doutora Vanira Pires de Almada, destaca que, embora o país já esteja a administrar vacinas em crianças e distribuir regularmente cerca de um milhão e meio de mosquiteiros com o apoio do Fundo Mundial, o grande desafio continua a ser a adesão da população ao uso correcto das redes.

    Garantir testes, medicamentos a tempo e recursos humanos no interior profundo são as metas apontadas para caminhar rumo à pré-eliminação da doença.

    O paludismo continua a ser uma das principais preocupações do Ministério da Saúde nas regiões sanitárias de Bafatá, Gabu, Biombo, Bolama, Quinará e Tombali.

    Embora o financiamento da estratégia nacional dependa quase na totalidade do Fundo Mundial, que sofreu cortes em 2024, o programa conseguiu alargar a Quimioprevenção do Paludismo Sazonal (QPS) de três para quatro meses, administrando medicamentos preventivos a cerca de 300 mil crianças menores de cinco anos.

    A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, diz que, apesar de todas as dificuldades, a Guiné-Bissau tem feito progressos assinaláveis.

    "Nos últimos anos, conseguimos avançar e reforçar a prevenção, diagnóstico e tratamento oportuno, ou seja, atempado, e aumentar a utilização das intervenções, como o uso dos mosquiteiros impregnados e ampliar a prevenção do paludismo sazonal nas crianças. Em 2024, conseguimos fazer a extensão da faixa etária no que diz respeito à prevenção do paludismo sazonal na região sanitária de Bafatá, Gabu, Bolama, Tombali, conseguimos fazer a extensão de três meses a 120 meses, mas devido ao corte do fundo não conseguimos progredir ou prosseguir para o próximo ano. Quer dizer, em 2025. Mas conseguimos alcançar o objectivo. Conseguimos dar a cobertura para aquelas crianças naquele ano, cerca de 295.000 crianças. Também é importante destacar que em 2024, praticamente todos os casos suspeitos foram testados e os casos confirmados tiveram o tratamento ou acesso ao tratamento, segundo a política do programa do Paludismo", destaca a responsável.

    Com o apoio do Fundo Mundial, são regularmente distribuídos de forma gratuita mosquiteiros impregnados com insecticidas aos agregados familiares com crianças menores de cinco anos e grávidas. A 6.ª campanha de distribuição entregou cerca de um milhão e quinhentos mil mosquiteiros.

    O problema continua a ser o uso daqueles artefactos, pois muita gente simplesmente se recusa a dormir debaixo dos mosquiteiros.

    "Existem várias razões. Algumas pessoas sentem calor ou desconforto. Outras pessoas não percebem imediatamente o benefício, o porquê de usar mosquiteiro. O mosquito é invisível e a doença pode aparecer dias depois da picada, conforme a epidemiologia nos indica. Também existem crenças na nossa comunidade, hábitos familiares e, em alguns casos, problemas relacionados com a instalação e conservação dos mosquiteiros. Porque há populações que não percebem como instalar ou montar e desmontar um mosquiteiro e em que período deve usar mosquiteiros. Por isso, a nossa abordagem não deve ser apenas distribuir o mosquiteiro. Temos que explicar as razões pelas quais protege, demonstrar como deve ser instalada e utilizar perante a família e há uma mensagem muito simples acerca disso. O mosquiteiro não é apenas para quando há muitos mosquitos. Deve ser utilizado todas as noites e durante todo o ano. Significa que a utilização do mosquiteiro é permanente, segundo a recomendação da OMS", sublinha Vanira Pires de Almada.

    A Guiné-Bissau é um dos países de África que já estão a administrar vacinas de prevenção contra o paludismo em crianças. A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, observa, no entanto, que o combate à doença envolve vários mecanismos que devem ser combinados.

    "O combate ao paludismo não depende de uma única intervenção. O programa aborda esta situação em várias ocasiões. Temos mosquiteiros impregnados de longa duração e acção. Temos diagnóstico precoce e tratamento eficaz dos casos. A prevenção do paludismo durante a gravidez. O programa fornece o tratamento preventivo e intermitente, a administração de ansiedade durante a gestação e depois, actualmente, o programa tem a vacina aprovada e já há implementação contra o paludismo para as crianças menores de cinco anos. Temos uma maior prevenção no paludismo sazonal, que é a que se faz a campanha anualmente durante os meses de pico, quer dizer, de alta transmissão que são são a partir de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro, quatro meses consecutivos ao ano. E cada mês, a criança deve tomar três medicamentos, quer dizer, três dias consecutivos. Isso se faz nas zonas de alta transmissão", explicita a médica.

    Por tudo o que já foi feito, a Guiné-Bissau até pode admitir que caminha para a fase da pré-eliminação do paludismo nas comunidades. A coordenadora do programa nacional de combate à doença elenca as metas que devem ser atingidas, impreterivelmente, nos próximos anos.

    "Se queremos caminhar para a eliminação, precisamos de saber exactamente onde estão os casos e onde persiste a transmissão. E, finalmente, queremos reforçar o papel das comunidades e dos agentes comunitários, porque não conseguiremos eliminar o paludismo apenas através da estrutura sanitária. O apoio do Fundo Global é muito importante, mas o objectivo é utilizá-lo estrategicamente para alcançar os resultados e, simultaneamente, fortalecer o sistema de saúde", conclui a responsável.

    Outros desafios consistem em garantir que os mosquiteiros sejam usados por todos e de forma correcta, que os testes e medicamentos sejam disponibilizados no tempo certo nas comunidades, que os meios de diagnóstico cheguem às regiões do interior profundo da Guiné-Bissau, e que haja recursos humanos e financiamento suficientes para evitar retrocessos.

    Estas são as preocupações elencadas pela médica Vanira Pires de Almada, coordenadora nacional do Programa de Luta contra o Paludismo na Guiné-Bissau.

    7 min
  • Marta Lança publica memórias entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo e Rio de Janeiro

    Neste programa, conversamos com Marta Lança, a autora de “Essas pessoas na sala de jantar”, um livro que conta as histórias de uma vida escrita entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e outras geografias, tendo como fio condutor as mudanças de casa e os encontros com novas pessoas que enchem salas de jantar transformadas em lugares de resistência e comunidades de pensamento e de arte. Este é o seu segundo livro, depois de “infinitas-pessoas-mais-uma”, ambos editados na Tigre de Papel. Marta Lança é jornalista, escritora, programadora cultural e também coordena o portal Buala, uma plataforma dedicada à cultura e ao pensamento sobre o Sul Global. 

    O livro “Essas pessoas na sala de jantar” é como uma casa, ou melhor, uma sala de jantar repleta de amigos e reinventada a cada nova morada entre três continentes. Mas não é “uma sala de jantar auto-satisfeita”, não. É um convite à viagem, à partilha e aos novos sabores, com pratos cheio de histórias e portas abertas, com sorrisos e cumplicidades, algures em prédios onde – podemos ler – “nos desenrascamos uns aos outros, e dispensamos ovos e coentros, em que crescemos juntos”.

    Foi a partir das sucessivas mudanças de casa para “outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente” que a autora quis “encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias”. Através da sua história pessoal, conta o que viu nos países onde viveu, observando com “um olhar para dentro e para fora” capaz de arrombar quartos fechados e mentes quadradas.

    Esta é uma história de encontros, de “geografias afectivas múltiplas” e é também um diário de bordo de um mundo em risco de extinção e de um outro a cimentar-se, num “tempo saturado de estímulos e de tecnofascismo” e em que os ecrãs substituíram livros e o brincar na rua.

    Escrito com muito humor, o livro é também uma forma de transmissão da memória, offline, um registo proustiano em busca de um tempo perdido em que tanto se ganhou e tanto se foi perdendo. Às memórias pessoais da protagonista, às suas histórias de amizades, de amores, de viagens e experiências noutros países, misturam-se os grandes acontecimentos que marcaram a História e a política do pós-25 de Abril em Portugal até aos dias de hoje no mundo. Tudo acompanhado pelo ritmo dos filmes, dos livros e da banda sonora que também escreveram esses anos.

    A partir de Lisboa, Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Baixo Alentejo, as histórias  são acompanhadas por reflexões sobre as injustiças sociais, o racismo, as cidades segregadas, o capitalismo desenfreado, a crise da habitação, a especulação insaciável e as rendas insustentáveis, a ecologia em crise, a pobreza, as sempiternas lutas das mulheres e muitas e variadas e repetidas opressões. São também histórias de lugares de resistência, de salas de jantar transformadas em comunidade de pensamento e de arte.

    A autora lembra como foi crescer numa Lisboa arrastada pela especulação imobiliária, o que foi a “Geração à Rasca” nos tempos da Troika e lembra que “o fascismo nunca desapareceu no país dos brandos costumes”.  Depois, recorda como “ter vinte e um anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”.

    Em Cabo Verde, reconheceu “a personalidade telúrica dos habitantes vulcânicos" que tinha conhecido em menina nos Açores, “mas o mais difícil de erradicar permanece: as mentalidades, a anos-luz de descolonizar”. Segue-se Luanda, “mal tinha desembrulhado o grogue, o veludo e a calabaceira de Cabo Verde e partia de novo, desta vez para uma grande metrópole africana da qual afinal não sabia quase nada”. Em Luanda compreendeu que “a mesma cidade onde se luta para conseguir comer ou para facturar milhões, toda a hora é hora de celebrar a vida, porque a toda a hora se pode morrer.”

    Em Maputo, o que mais conquistou o seu “coração rebelde eram os concertos de hip-hop, agregadores de jovens desejosos de mudar a sociedade restrita e opressora”, como Azagaia que “confrontava o regime e a geração da independência” com, por exemplo, a música “Quem vendeu a minha pátria?”.

    No Rio de Janeiro, surge a pergunta: “Como se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência?”, onde “a desigualdade continua a ser a espinha dorsal da vida urbana brasileira.” A resposta começa, talvez, nos baile funk na Zona Norte, “uma das maiores expressões da resistência cultural, social e identidade das periferias brasileiras”.

    Mais tarde, o refúgio no Baixo Alentejo, em Portugal, onde uma casa no campo é a possibilidade de “pequenos lugares engendrarem utopias”. Porém, mesmo aí, “a terra é colonizada e posta a render” e nos cafés se percebe “como muita gente desistiu e se deixou manipular pelo populismo e abandono”. No final, regressa às raízes para cuidar de quem dela cuidou e de quem dela cuidará, confessa.

    Consciente de fazer “parte da paisagem da desigualdade montada”, ao longo dessas viagens entre os três continentes, a narradora nunca esquece “o Atlântico que devolve continuamente a memória do terror e da sobrevivência”. Também omnipresente, de viagem em viagem, a comida, das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne nos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, passando pelo amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, sem esquecer o acarajé no Rio e a Cozinha Ocupação. Afinal, “poucas coisas unem tanto as pessoas como partilhar uma refeição”.

    A inspirar as suas páginas sente-se a busca e um enorme respeito pela liberdade, partindo de uma personagem-arquétipo a que chamou Júlia e que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”. Era uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros". "Essas pessoas na sala de jantar" talvez seja "o mapa poético" de Marta Lança, esboçado a partir da "força de todas as que foram reprimidas".

    Marta Lança: "Aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer"

    RFI: Do que fala este livro?

    Marta Lança, Autora de “Essas pessoas na sala de jantar”: “Este livro compila várias crónicas de diversos momentos da minha vida. Quando estava a pensar o que é que ligaria estas histórias, achei que seria o mínimo denominador comum a questão de mudar. Mudar de casa, mudar de cidade, mudar de geografia emocional e de trabalhos, entre eles tem esta questão de cada um que se passa num determinado tempo e espaço. Começa com a casa onde cresci, a casa dos pais, a casa de onde parti para a vida e depois são sucessivas casas como ponto de partida: várias em Lisboa, várias depois com a vida profissional, em que fui viver para os países africanos onde também se fala português, como Cabo Verde, Angola, Moçambique. Depois o Brasil e o regresso a Lisboa, sendo Lisboa também em vários bairros, em vários tempos. Isso é o que coordena.

    Depois, fala de muitas outras coisas. Cada história tem os seus universos, alguns vão-se repetindo, mas é basicamente um livro que tem a ver com o crescer, com o tornar-se uma mulher, tornar-se adulta, e tem esse lado um pouco confessional, autobiográfico - mesmo assim, tentando não expor muito os outros - mas é o devir adulto. Basicamente, é um livro que tem a ver com o crescimento.”

    Por que é que decidiu chamar-lhe “Essas pessoas na sala de jantar”?

    “Porque sempre gostei muito dessa canção de 'Os Mutantes', um grupo brasileiro de movimento Tropicália. A canção chama-se ‘Panis et Circenses’, tem a ver com uma crítica à ditadura militar brasileira. É muito irónico porque enquanto se está a distribuir pão e circo, essa classe média que está entretida na sala de jantar, ocupada em manter-se, em nascer e morrer, e que fica numa certa passividade enquanto o mundo explode, enquanto há uma série de injustiças, há uma classe média que está muito contente com a sua vidinha de privilégio. Então, trouxe este título para falar também dessa tensão que eu própria sinto entre o meu meio, esse meio pequeno-burguês de Lisboa que teve acesso à educação, saúde a seguir ao 25 de Abril. Portanto, somos essa primeira geração em liberdade que pôde uma série de coisas e, ao mesmo tempo, o que é que fazemos com isso? Então, também tem essa questão de tentar politizar-me e ter atenção à abertura para outras realidades do mundo e da minha própria cidade e ter uma participação não passiva, sendo que há esse dentro e fora da sala de jantar. Acho que é uma canção que traduz muito essa vontade também de trazer poesia para a vida, um outro olhar, não aquele convencional, e por isso a escolhi como título.”

    O espaço casa tem um lugar central, mas essas casas vão sendo criadas em diferentes países. Quase parece um paradoxo porque a casa é algo aparentemente estável, seguro, e aqui as suas casas são resultado de viagens e cada cidade é como uma nova casa. Até que ponto é que as casas e as cidades são personagens centrais neste livro?

    “São porque têm um lado de dentro de casa, mas não muito. Então, dentro de casa porque aconteceu que quase todas estas casas, como os leitores vão ver, foram casas partilhadas, casas colectivas onde viviam outras pessoas. Desde o início com a família, o núcleo duro, etc, e depois os amigos, os namorados e, hoje em dia, as casas com crianças quando estamos a criar filhos. Na partilha de casa, sempre achei muito interessante, como uma espécie de laboratório social, como é que as pessoas habitam uma casa, como é que pessoas, além de mim, tornam a casa um lugar habitável, um lugar acolhedor, mas um lugar onde há conflitos com a divisão de espaço, divisão de tarefas.

    Foi interessante que a minha vida suscitou ver várias maneiras de habitar a casa porque fui partilhando casa com pessoas diferentes ao longo da vida e sendo que essas outras cidades, outros bairros, também traziam sempre um microcosmos de realidades diferentes. Então, não são cenários, são participantes dessa observação de costumes, de ponto de partida para ver o que está à volta da casa. Aliás, o livro parte desse interior da casa, mas depois vai muito para fora, sai logo. A narradora - que sou eu - acaba por estar mais interessada no que se passa fora. Tenho algumas observações sobre o dentro de casa, mas o mais interessante será mesmo essa etnografia de ambientes à volta dessas casas, do bairro, dos sistemas políticos, dos assuntos que inquietam naquele momento, como se cristalizasse um certo tempo de observação. É por aí que interessa, é como a casa ser um mirante, um ponto de observação do exterior.”

    Vamos às casas nas diferentes cidades. Por exemplo, Lisboa. Lisboa não é apenas a cidade bonita e multicultural onde cresceu, onde ia ao ballet da Gulbenkian, ao cinema, aos bares do Bairro Alto dançar kizomba e ouvir Os Tubarões. Foi também a cidade onde um rapaz cabo-verdiano, Alcino Monteiro, foi espancado até à morte por um bando de skins no Dia de Portugal, em 1995, um cenário que se repetiria. Olha para este ódio racial que reverbera ainda na própria cidade. Quer-me falar sobre Lisboa?

    “Sim, é interessante ter ido buscar esse exemplo porque essa linha de cor que atravessa a cidade de Lisboa, essa colonialidade ainda estamos a vivê-la, não é? Crescer nos anos 80, numa cidade que estava a urbanizar-se, é o meu ponto de partida: era ali a zona de Carnide, depois assistir ao fenómeno do Colombo, toda essa Lisboa que se queria tornar uma cidade europeia, com a entrada na União Europeia, o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o realojamento dos bairros mais auto-construídos, etc, mas que obviamente foi criando para as margens, foi marginalizando, tornando periféricas uma série de realidades socioculturais e económicas de tornar muitos bairros empobrecidos e pessoas empobrecidas em que a linha de cor coincide. Ou seja, são as pessoas racializadas que acabam por ter esse estigma que vinha de um país a seguir ao 25 de Abril, ainda com uma grande carga colonial, racista, foi mantendo, se calhar um pouco mais com um certo pudor, sendo que agora, com a ascensão da extrema-direita e todo este populismo e instrumentalização do ressentimento voltou a sair à carga e ainda mais estigmatizou estes territórios, estas pessoas, e no livro vou falando desses momentos.

    De facto, o ódio racial foi um momento definidor quando aconteceu esse assassinato do Alcino Monteiro num bairro que eu frequentava, o Bairro Alto, que eu frequentava com os meus amigos. Para nós, que éramos novos, sentir esse medo nas ruas, ali no centro da cidade, e perceber: ‘Afinal isto é terrível. Há pessoas que são um alvo muito mais declaradamente de uma purga, dessa motivação do ódio.’ E acho que isso nunca deixou de existir em Lisboa, aliás, culminou no ano passado com a morte do Odair Moniz, e vamos vendo como a cidade evolui e não resolve essas suas feridas sociais de ódio. E, portanto, acho que isso atravessa de alguma forma o livro. Eu, no lugar de também de um certo activismo anti-racista, mas como é que uma jovem lisboeta branca vai percebendo essas injustiças. Também entrei por aí de uma forma, não aprofundando muito, mas dando a entender que isso é uma realidade que só não vê quem não quer. Podemos estar num certo meio protegidos, mas somos cúmplices desse estado de coisas se mantivermos essa passividade. Portanto, temos de denunciar.”

    Vamos agora a Paris. Conta que “ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Foi para lá estudar, viveu na Cité Universitaire. Fala daquele momento, mas também na continuação das lutas sociais até hoje, com os Coletes Amarelos, as revoltas suburbanas na sequência também do assassínio de jovens de pele negra, a mobilização contra a ascensão da extrema-direita. Que lugar tem para si Paris?

    “Nessa tal geografia de afectos e de crescimento, Paris foi muito importante porque foi esse tal embate político. A minha relação com Paris no livro é no ano de 1997, 98, eu era uma jovem estudante de Erasmus em Paris. E teve esse papel de perceber como o mundo é enorme, como as lutas sociais são muito mais vastas do que a partir de Lisboa e também de perceber que há uma esquerda muito organizada e disseminada nas universidades, nas manifestações e isso foi muito importante de assistir, de acompanhar, de testemunhar esse fervor. Quanto mais organização, até de contestação, também mais se sentia essa tensão de uma cidade a uma escala muito maior do que Lisboa. Eu conto uma manifestação dos ‘chomeurs’ [desempregados] que me impressionou muito, a forma muito combativa e muito radical de confrontar a polícia, etc, e depois Paris sempre continuou a ser uma meca da esquerda europeia com essas outras lutas que se seguiram e mais do que nunca, agora, com a situação política da Europa e de França em particular. Acho que é um bom barómetro da temperatura social, continua a ser.”

    Viveu também em Cabo Verde, que diz que se tornou em “um país exemplar no contexto africano”, graças ao empenho, ao valor atribuído à educação. Diz ainda que o mais difícil de erradicar permanecem “as mentalidades a anos-luz de descolonizar”. Quer falar-nos um pouco sobre Cabo Verde e a sua experiência?

    “Cabo Verde foi também uma transição enorme na minha vida. Ir viver para uma ilha pequenina como São Vicente e fazer uma revista com jovens cabo-verdianos e perceber as questões deles, algumas frustrações e muita vontade de participar, de ter opinião. Então, foi uma experiência que eu acarinho muito. De facto, viver nos sítios, trabalhar nos sítios, ajuda-nos muito a compreender essas tais relações, a sair do postal turístico das férias na ilha do Sal ou da Boavista em que a pessoa não percebe muito mais para além de que é um país maravilhoso, cheio de morabeza, etc. Ao trabalhar com jovens e ao ouvir os artistas, ao fazer também jornalismo de muita escuta, fez com que eu entendesse que há uma grande questão identitária. Portanto, isto é Cabo Verde de 2004, é claro que muitas coisas mudaram, mas havia ali muitas conversas sobre a questão da crioulidade, da situação atlântica de Cabo Verde cultural, da mestiçagem, todas essas heranças de ‘somos mais africanos, somos mais europeus’, toda essa indefinição, que é uma discussão interessante, mas depois, no dia-a-dia, sentia-se que ainda havia um certo racismo em relação a pessoas do continente africano, muito pejorativamente chamados de mandjacos, como se isso fosse um insulto a uma etnia da costa da África, guineense, etc, e sobretudo a geração mais velha tinha um certo preconceito com a questão das pessoas mais negras. Falo também nessas manifestações, de alguns comentários, de algumas tradições como os Mandingas no Carnaval do Mindelo. E acho que sim, há uma mentalidade ainda muito colonizada que vai-se percebendo também em coisas mais recentes. Por outro lado, há uma juventude que reivindica o lado pan-africanista, a herança de Amílcar Cabral como os grandes valores da independência, tudo isso, mas é, mais uma vez, perceber que o contexto de um país é muito mais complexo do que a gente pensa no início.

    “Mal tinha desembrulhado o grogue” - estou a citá-la – “o veludo e a calabaceira de Cabo Verde", partiu de novo, desta vez para "uma grande metrópole africana, da qual, afinal, quase nada conhecia”. Luanda é a cidade onde "a toda a hora é hora de celebrar a vida porque a toda a hora se pode morrer”. Quer falar-nos sobre Luanda?

    “Luanda, essa grande cidade! Foi incrível conhecer Luanda nesse momento que saía há poucos anos de longuíssima guerra civil e ir trabalhar na área da cultura, das artes, em que estava tudo por fazer, havia uma alegria, um entusiasmo, e foi mesmo extraordinário também partilhar casa no bairro da Maianga, uma casa que já é histórica nas lendas urbanas, que é o Sete e Meio. Era um apartamento que dividíamos entre artistas angolanos e eu e uma amiga portuguesa que também trabalhávamos na Trienal de Luanda. Morava lá o Kiluanji Kia Henda, o Orlando Sérgio, o Yonamine, o Ihosvanny, artistas que estavam em grande força na sua carreira como artistas visuais, e o Orlando que é um actor na área do teatro e cinema. Então, era um ponto agregador da cidade, onde fazíamos muitos jantares, muitas conversas na nossa varanda, que também tinha um ponto de observação para as transformações urbanas da própria cidade de Luanda.

    E sim, é uma cidade de contradições, não é? Nessa altura - já não é a realidade actual - havia muita gente a fazer dinheiro porque o petróleo era, de facto, a economia muito efervescente, o crescimento económico era incrivelmente alto e acelerado, mas sabemos que isso depois não se traduziu em melhorias na qualidade de vida do povo angolano, que hoje em dia está bastante sufocado, numa crise enorme. Eu, como estrangeira, mas tentando viver como angolana no dia-a-dia, andar de candongueiro, depois também fiquei lá a trabalhar como professora, ouvi muitas histórias e o que mais me fascinava eram as biografias das pessoas. As pessoas tinham histórias de vida incríveis e apetecia cartografar tudo e escrever tudo, mas depois a realidade era tão veloz e alucinante que era difícil. Então, esses dois textos no livrinho sobre a Luanda dessa época são muito fragmentados, mas era um espelho da própria cidade, dessas vozes todas, dessas contradições e também um grande carinho nas pessoas e, ao mesmo tempo, uma brutalidade porque é a lei da sobrevivência.”

    Em Maputo, foi a música e o ímpeto do hip-hop, nomeadamente as letras do Azagaia, que a conquistaram, ele que tantas denúncias fez contra o regime, contra inclusivamente a geração da independência, contra a exploração do povo, contra o neocolonialismo português. Mais uma vez a atenção e a observação acutilantes da Marta…

    “Gostei muito de ir aos concertos do Azagaia. Foi um privilégio poder ir a vários concertos de hip-hop. Também já tinha frequentado muito o rap angolano, gostava muito também. Na altura, em Angola, ouvia muito o MCK, depois o Luaty Beirão também voltou à cidade e outros. Havia um grande movimento de hip-hop que era um grande escape de denúncia política. Então, era uma forma de entender o que é que os jovens estavam a pensar sobre a sua situação.

    Maputo é uma cidade extremamente musical, havia muitos concertos, muita música ao vivo nos bares e acho que é um dos pontos mais fortes que eu retenho: essa cidade musical. O Azagaia, além de, na altura, me ter chamado a atenção pelas letras tão interessantes, depois, tudo o que suscitou quando ele morreu, o cortejo fúnebre, a repressão e os tumultos todos que houve em Maputo e Matola e na Beira a seguir à morte dele… Aliás, eu tinha escrito esse texto antes de o Azagaia morrer e depois acrescentei mais isso como um questionamento também sobre a geração que fez a independência e a herança que deixou ao país como está actualmente, que ainda tem tanta juventude urbana descontente porque não tem muitos horizontes de expectativa para poder ficar no país com uma vida digna.”

    Também viveu no Rio de Janeiro e começa por falar de um baile funk em que questiona "como é que se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência". O que representou para si o Rio de Janeiro?

    “Comecei o texto com esse episódio do baile funk porque também tive a sorte de poder frequentar as comunidades faveladas da Zona Norte do Rio de Janeiro. E sim, são zonas da cidade, territórios muito permeáveis à violência, seja do tráfico de droga, seja da própria polícia. Na altura, havia operações de pacificação dos morros e, no entanto, eram sempre bastante ameaçadoras para a população trabalhadora dessas comunidades. E havia uma banalização dessa violência que acho que todos sabemos com os filmes e as notícias que nos chegam. Portanto, é viver numa guerra aberta e isso é muito desgastante para os moradores. Depois conto também como é que algumas figuras, como um estudante de mestrado, se sentia uma excepção no seu contexto de jovem negro, periférico, pobre, mas como as políticas de discriminação positiva, as quotas, são muito importantes no contexto do Brasil para furar essa repetição da pobreza e, portanto, também como é que a partir dali se estava a pensar a questão da cidade, do asfalto e da periferia, todas essas divisões de uma sociedade tão classista, tão racista… Algumas opções vão-se repetindo ao longo dos textos, mas com novos figurantes e novas reflexões, penso eu.”

    Acaba por haver alguns temas e até injustiças que se repetem ou que dialogam entre as cidades onde viveu?

    “Exacto e a procura da alegria, que citou, é mesmo uma força de resistência nestes lugares, não é uma alegria alienante, é uma alegria que tem o seu peso, da sua dor, dessas feridas todas da história, da história da escravatura, da história da pobreza, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ‘estamos aqui, continuamos, sobrevivemos e transformamos a dor em alegria, uma alegria de não nos vão apagar, aqui continuamos’. Essa lição dessa alegria sobrevivente, para uma europeia, é mesmo importante, porque eu acho que em Portugal, por exemplo, se cultiva muito o lamento, o queixume, mas é um queixume que depois não muda nada, é um queixume quase de apaziguamento. Acho que esses países, como eu digo, abaixo do Equador, nos davam uma lição de vida nesse sentido que é: ‘Vamos para a frente, resistimos’ e, cada vez mais, confrontacionais e a desejarem uma outra vida com todo o seu sentido crítico. Portanto, é uma alegria que também traz a crítica ao estado de coisas.”

    Outro aspecto é a comida, que de viagem em viagem também é omnipresente, seja na sala de jantar, seja na rua, no café, no restaurante. Das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne da casa dos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, em Lisboa, ao amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, ao acarajé no Rio e à Cozinha Ocupação… Escreve: “Poucas coisas unem tantas pessoas como partilhar uma refeição”. Porquê tanto sabor neste livro?

    “Muito bem visto! E também o grande ensopado de borrego no Alentejo!”

    É verdade, não falámos do Alentejo, mas também é bom deixar aos leitores a possibilidade de descobrir outras geografias e sabores…

    “Exactamente. A refeição partilhada é também ligada à ideia das pessoas na sala de jantar que estão a partilhar o seu momento, a distribuição de comida, a vontade de experimentar coisas novas e como cada lugar também com os seus sabores, porque é uma forma de convívio, não é? E esse é outro grande tema do livro: o convívio entre pessoas diferentes e uma refeição pode pôr na mesma mesa pessoas de realidades muito diferentes e estarem unidas pelo prazer de comer, de descobrir e também como os novos sabores traziam novas realidades. Quando estou a apontar para esses frutos tropicais, estou a aprender novos léxicos e novas realidades e, portanto, quis trazer essas diversas comidas.”

    Esses sabores não são só gustativos, também há os sabores auditivos, porque a música também está muito presente no livro. É como uma banda sonora em pano de fundo…

    “É porque a música também é uma forma de conhecermos realidades novas. Acho que todos nós temos sempre as nossas músicas electivas. Por exemplo, ouvir música em Angola ou Moçambique ou Brasil, é a partir das letras e das sonoridades que nos trazem as tais outras realidades. E depois também as músicas que nos formaram, a nossa forma de olhar o mundo e de viver a História é feita das partilhas das universidades, das leituras, dos filmes, mas muito a partir da música. A música tem um pendor educativo, formativo muito forte em todos nós e eu queria prestar essa homenagem a tudo o que a música trouxe à minha vida, só que era difícil estar a escolher entre tantas músicas e tantos autores e então fui referindo de acordo com o que eu ia ouvindo em cada fase de vida.”

    Num dos capítulos fala do “Lobo da Mata” e conta um episódio terrível. Recorda a francesa Gisèle Pelicot quando disse que “a vergonha tem de mudar de lado” e também escreve, “nos anos 90 a consciência feminista era de nicho e o ‘girl power’ era mais slogan do que força colectiva” e que ainda hoje “em vários países, ser mulher continua ser quase um acto ilegal”. Porque decidiu escrever o “Lobo da Mata” e falar sobre a sua própria história?

    “Porque nós criamos mais empatia, relação com um assunto, quando nos implicamos nele, e todas as mulheres, sem excepção, terão histórias de abusos, desconfortos no mínimo, e situações em que se sentiram com medo ou discriminadas pelo facto de serem mulheres. Acho que temos a sorte de estarmos em países onde há alguma protecção, mas até precisamente pela Gisèle Pelicot em França, sabemos como histórias tão hediondas podem estar aqui ao voltar da esquina.

    Eu queria trazer algumas reflexões feministas porque, tal como a música, o feminismo também é uma forma de conhecer, de aprender muito para tentar ambicionar um mundo onde haja mais igualdade nas questões de género, mas mais do que a igualdade, acredito num feminismo que não é necessariamente a luta pelo poder, mas é outra forma de convivência entre as pessoas que não passe por esta competição, por estas relações de poder, por este ímpeto bélico e destrutivo que o mundo patriarcal nos tem proporcionado e por ele chegámos aqui, a este estado de coisas tão devastador e sem futuro quase. E, portanto, o feminismo seria uma grande opção entre homens e mulheres de outro tipo de comunhão, de partilha, de uma paz social que poderia vir através do feminismo.

    Esse ‘Lobo da Mata’ é uma história na Caparica, na adolescência. Não é uma história que seja assim o grande trauma porque eu quis também passar esse lado, de como eu encontrei as minhas ferramentas para viver com isso e para transformar essa história numa espécie de alívio e de força pessoal, mas claro que cada mulher lida com isso de maneiras diferentes, com os seus próprios traumas e fantasmas. Mas acho que sim, acho que foi importante escrevê-la, não no sentido terapêutico, mas para partilhar alguns episódios que todas temos e, depois, a partir daí, o que é que suscitou como preparação para a vida porque qualquer mulher terá passado por isso.”

    Fala numa mulher no livro que é uma personagem-arquétipo daqueles tempos. Chamou-lhe Júlia que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”, uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros. A força de todas as que foram reprimidas.” O que é feito dessa Júlia? Este livro é esse “mapa poético”?

    “Sim, acho que sim. Essa Júlia é um arquétipo, não é uma pessoa real, mas sim um conjunto dessas vontades todas reprimidas e de alguém que pôde experimentar, pôde errar, pôde implicar-se em cada situação e fazer com que as coisas aconteçam, sair da tal sala de jantar auto-consolada para que a vida nos aconteça porque não podemos estar só à espera de uma mudança se não nos implicarmos nela. Essa Júlia ainda está aqui presente, pelo menos tenho-a comigo, como alguém que me faz lembrar: ‘Olha, aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer.’ E é preciso celebrar essa liberdade de circulação, de podermos ser quem queremos, de podermos até mudar em qualquer fase de vida para procurar essa pessoa que nos vamos tornando em cada momento, mas não ficar a achar que isso é garantido porque as liberdades nunca estão garantidas. É também essa inquietação. A Júlia é essa inquietação que me persegue e que certamente outras pessoas se identificarão com ela.”

    38 min
  • Falta um milhão de enfermeiras obstetras /parteiras para salvar 4,3 milhões de vidas por ano

    O mundo tem falta de quase um milhão de enfermeiras obstetras/parteiras. A evidência, apresentada pela Confederação Internacional de Parteiras (International Confederation of Midwives) mostra que com mais um milhão de enfermeiras obstetras / parteiras seria possível prevenir 67% das mortes maternas, prevenir 64% das mortes neonatais e prevenir 65% dos nados mortos, e, assim, salvar até 4,3 milhões de vidas por ano até 2035.

    Para responder a este desafio, o 34.º Congresso Trienal da Confederação Internacional de Parteiras, o maior encontro mundial de enfermeiras obstetras /parteiras, juntou mais de três mil profissionais do sector em Lisboa.

    No evento organizado pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, durante cinco dias, enfermeiras obstetras/parteiras, investigadores, educadores, decisores políticos e parceiros de todo o mundo estiveram reunidos para partilhar conhecimento e evidência científica, discutir desafios de saúde à escala global, fortalecer a profissão de enfermeira obstetra /parteira, promover a saúde sexual, reprodutiva, materna, neonatal e adolescente.

    Para nos ajudarem a perceber a situação que se vive em Portugal e na Guiné-Bissau, a RFI falou com a vice-presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), Isabel Ferreira, e com a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstetras da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes.

    Se em relação a Portugal, apesar da excelente formação das enfermeiras obstetras, é apontada a existência de uma vontade dos decisores políticos para reduzir os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde e empurrar os utentes para fora do SNS, fazendo crescer o negócio de privados; em relação à Guiné-Bisssau, as situações sócio-política e económica do país são indicadas como elementos que impossibilitam que os profissionais prestem melhores cuidados de saúde materna, neonatal ou infantil.

    A vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira, começa por nos explicar quais as regiões do planeta onde a falta de enfermeiros obstetras / parteiras tem um impacto maior.

    Vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira:

     

    Se pensarmos em termos de mortalidade materna e infantil, a situação assim mais intensa, estamos a falar dos países subdesenvolvidos, e, essencialmente, ali na região da Ásia, África, são as regiões mais afectadas e que faria mais diferença.

    Mas outros países e outras regiões têm outro tipo de desafios. Então, também precisamos de mais parteiras, se calhar não tanto em quantidade, mas, às vezes, até em termos mais de autonomia das suas funções, por exemplo. Porque alguns países como Portugal e muitos países aqui da Europa, enfrentam o problema do excesso de medicalização, que está inclusive agora a trazer questões graves de morbilidade e até de mortalidade.

    Por exemplo, aqui em Portugal, estamos a assistir a um crescimento da taxa de mortalidade materna, o que nos assusta. Portanto, tem sido sustentado nos últimos anos e estamos ainda à procura das causas, mas acredita-se muito que o excesso de medicalização poderá estar na gênese deste aumento. Aqui, o trabalho dos enfermeiros obstetras poderia ser muito diferenciador.

     

     

    Qual é, então, o retrato que nos pode fazer da condição dos enfermeiros obstetras em Portugal?

    Isabel Ferreira:

     

    A profissão de parteira, de enfermeiro obstetra, está ligada inicialmente à enfermagem. Portanto, são 4 anos de enfermagem, depois 2 anos a trabalhar como enfermeiro e depois tira-se uma formação de mais 2 anos para se aceder, então, à formação diferenciada de formação de enfermeiro obstetra. Então, é uma formação altamente diferenciada, o enfermeiro obstetra é preparado para diversas situações em autonomia.

    O que acontece é que, depois, na prática, quando vamos para os diferentes locais, nem sempre lhe é permitido exercer essas funções. Então, temos locais do país em que as mulheres têm a sorte de ter um profissional que consegue oferecer-lhes toda a diversidade de serviços, foi preparado para isso, e outros locais em que os próprios hospitais ou instituições limitam a autonomia do enfermeiro obstetra, não lhes permitem trabalhar em tudo aquilo que eles estão preparados para trabalhar.

    Aqui, esta limitação da autonomia, esta falha na gestão de cuidados, está a fazer com que, se calhar, por exemplo, há serviços hospitalares, como aqui na região de Lisboa, que estão a ser encerrados, estão a negar acesso às grávidas em trabalho de parto, quando têm lá profissionais altamente qualificados para as receber e que são impedidos de o fazer, que são os enfermeiros obstetras.

     

    Qual a razão para não ser permitido aos enfermeiros obstetras trabalharem?

    Isabel Ferreira:

    Tem a ver com este modelo biomédico e hierarquizado dos nossos sistemas de saúde. Portanto, estamos a tentar já há alguns anos alterar e trabalhar mais em equipa, em interdisciplinaridade, mas o sistema está muito focado ainda no poder médico e, portanto, há uma dificuldade em reconhecer as competências dos outros profissionais que não médicos.

    E não é só a questão dos enfermeiros obstetras, é a questão dos enfermeiros no geral, a questão dos psicólogos, dos nutricionistas e, portanto, temos que agora ultrapassar isso, esta questão dos egos e dos poderes e começarmos todos a trabalhar em interdisciplinaridade com as forças de cada um.

    Porque todos têm muito para oferecer e, se nós trabalharmos com as forças de cada um, vamos ter muito mais tempo para fazer o nosso trabalho. Não andamos a fazer o trabalho dos outros, cada um fazendo o seu trabalho, quem vai ganhar vão ser as mulheres, vão ser os nascidos e vai ser a população em geral.

    Os meios de comunicação social, de algum tempo a esta parte, têm dado conhecimento de uma quantidade de partos que acontecem em ambulâncias. A que é que isso se deve?

    Isabel Ferreira:

     

    Nos últimos dois anos foi dramático o aumento dos partos que acontecem efectivamente em trânsito nas ambulâncias, o que implica um risco muito grande. Às vezes, vão para a comunicação social dizer que os bombeiros estão preparados, os bombeiros estão tão preparados para acompanhar um parto como eu estou preparada para apagar um incêndio. Também tenho formação, mas obviamente que não se compara com os bombeiros, não se pode comparar um bombeiro com uma enfermeira obstetra. Portanto, está a ameaçar a saúde das mulheres.

    O que é que está a acontecer? O que aconteceu é que aumentaram o número mínimo de médicos que se considera essencial para manter o serviço aberto.

    Então, agora têm menos médicos e estão a fechar serviços, que ainda que tenham médicos, fecham os serviços porque não têm aquele número que eles acham que é o mínimo, o que não faz sentido.

    Então, para isso mais valia criarmos unidades de cuidados na maternidade, por exemplo, unidades só com enfermeiros obstetras que recebem pelo menos as mulheres que não têm complicações e que não têm que viajar 100 quilómetros ou andar a bater à porta de 3 ou 4 hospitais até serem admitidas finalmente no serviço, que é isso que está a acontecer. As mulheres ligam para o SNS 24, às vezes leva um tempo enorme para ser respondido, às vezes enganam-se a orientar e às vezes é só a terceira vez é que encontram um hospital onde vão ter o seu bebé.  

    E claro, nesta procura e em trabalho de parto, às vezes o parto acontece nas condições que não são devidas, que são em ambulâncias. Isto não faz sentido em termos de experiência de nascimento, que também é uma coisa muito importante, mas também implica riscos acrescidos. Portanto, temos que repensar nas nossas políticas de saúde, e aqui os enfermeiros obstetras em Portugal, claramente poderão fazer uma diferença muito grande para ajudar a eliminar o problema que estamos a viver.

     

    Esses serviços que são encerrados, condicionantes que são colocadas às famílias, às grávidas, não haverá depois pessoas que perante essas dificuldades vão procurar serviços privados?

    Isabel Ferreira:

     

    Sim, neste momento, principalmente na Grande Lisboa, estamos a ver essa clivagem. Estamos a ver claramente que as pessoas que têm seguros de saúde, com estas dificuldades todas, ... Quer dizer, eu entro em trabalho de parto, nem sequer sei para onde é que vou.

    Esta instabilidade está a fazer com que as pessoas vão essencialmente para os hospitais privados. O hospital, neste momento, que tem mais partos do país é um hospital privado e aqui da região de Lisboa. Portanto, no público, principalmente aqui nesta região centro, no público vão essencialmente as pessoas que têm menos capacidades económicas, que têm mais dificuldades ou dificuldades sociais ou então as pessoas que ainda que tendo dinheiro têm, por exemplo, uma patologia grave.

    Porque, ainda assim, o público é aquele que oferece acompanhamento mais diferenciado. Portanto, o privado mediante uma grande complicação vai encaminhar para o hospital público.

    Então, estamos com uma sobrecarga muito grande do público. Só tem grandes situações de grandes complicações e de grandes emergências ou então situações de questões sociais também mais intensas.

     

    Podemos dizer que existe um desenho político nas opções que estão a ser tomadas?

    Isabel Ferreira:

     

    Eu não tenho dúvida nenhuma e nota-se uma grande diferença com as variações políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. Estamos a falar da saúde da população, não devia ter cor, a população, as pessoas deviam estar em primeiro lugar e não os ideais e os poderes. Portanto, isto é importante falar, tirar o elefante da sala. Vamos estar todos juntos e tentar solucionar este problema que está a tornar-se muito, muito grave.

    Estamos a falar do momento em que a mulher dá à luz, em que as crianças chegam a este mundo, mas o trabalho da enfermeira obstetra, principalmente em Portugal, não fica reduzido a esse momento?

     

    Isabel Ferreira:

    Não, o enfermeiro obstetra tem competências para acompanhar a mulher em todo o seu ciclo vital, desde o seu nascimento, a primeira menstruação, a educação sexual nas escolas, a educação menstrual, a fertilidade, toda a saúde feminina no global, a gravidez, o parto, o apoio à amamentação e depois também na altura da menopausa, ou seja, é um acompanhamento global e continuado da saúde da mulher.

     

    A enfermeira obstetra em Portugal tem formação para lidar com todas essas situações, agora a questão é: é devidamente aproveitada em Portugal ou é mais reconhecida quando sai de Portugal para países que procuram precisamente o nível de formação que as enfermeiras obstetras portuguesas têm?

    Isabel Ferreira:

     

    Há uma grande diversidade de ofertas de cuidados no nosso país. Há locais em que não é permitido de facto que o enfermeiro obstetra exerça a total capacidade que tem e outros em que há realmente bastante autonomia, isto faz com que alguns enfermeiros obstetras estejam a emigrar e vão para outros países exactamente fazer aquilo que não lhes estão a deixar fazer cá em Portugal, o que é uma pena.

    Quer dizer, estamos a investir dinheiro e tempo a formar estes profissionais altamente competentes e depois não aproveitamos as suas competências, de tal forma que alguns até se sentem desmotivados e vão emigrar e são aproveitados por outros países.

    Nós temos muito assédio dos outros países para os enfermeiros obstetras portugueses pela qualidade da nossa formação e aqui em Portugal não estão a aproveitar. Por exemplo, agora, este governo lançou uma directiva para as situações de grávidas que não estão a ser acompanhadas no Serviço Nacional de Saúde porque não há médicos de família para as acompanhar, os enfermeiros obstetras lançaram-se à frente, nós estamos disponíveis, nós queremos apoiar, nós temos conhecimento e o governo disse, sim senhor, vamos numa directiva para vocês acompanharem em full, mas vamos criar uma comissão para operacionalizar isto.

    Criaram uma comissão, colocaram médicos que estão a boicotar, que estão a dizer, “ah, muito bem, vamos fazer isto, mas tem que ter um médico de família”, um médico de família que não existe, portanto, é morrer na praia, como se costuma dizer.

    Não faz sentido, ou vamos fazer uma diretciva para cumprir ou fazer uma diretiva só para fazer publicidade, é que não. Portanto, queremos saber o que é que se passa, porque é que está a ser tão difícil para estas equipas que se mobilizaram, que têm os profissionais de saúde para apoiar estas mulheres que não estão a ter resposta, não estão a ser acompanhadas e não estão a deixar de trabalhar. Temos que perceber o que é que está a acontecer.

     

     

     

    Titina Lopes Gomes é a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas da Guiné-Bissau. Pode elucidar-nos sobre a importância de participar no maior encontro mundial de enfermeiras obstétricas parteiras.

    Presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes :

     

    Este congresso é muito importante para qualquer organização, e então para a Guiné-Bissau, porque neste momento, posso dizer, estamos na fase embrionária, porque a associação foi criada recentemente, em 2016, e temos várias dificuldades.

    Este congresso ajudou muito, porque é uma forma de partilhar a mensagem, é uma forma de unificar a voz, é uma forma de saber como é que outras organizações, ou associações de ordem, estão a trabalhar em outros países. Posso dizer que além do benefício que dá para a associação, também, foi muito importante para mim.

    Adquiri conhecimento, criei amizade com outras pessoas de outros países, assistimos diferentes sessões, tanto em inglês como em francês, foi muito, muito importante para nós.

    Como estamos na fase, como eu disse, fase embrionária, porque foi criada recentemente a Associação de Parteiras da Guiné-Bissau, entrei em contato com colegas de Portugal para nos poderem ajudar na elaboração de alguns documentos. A nossa Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstétricas ainda não tem o Código Dentológico. E também em relação ao regulamento, que devia ser baseado, ou então de acordo com regras de outros países mesmo.

    Como eu disse, entrei em contato com a Associação de Enfermeiras Obstétricas de Portugal, até peguei o contacto do vice-presidente, que é a Isabel, entrei em contacto com a Associação de Burkina Faso, com a Associação de Quénia, com o presidente da Confederação, da Associação da zona de CEDEAO, na África Ocidental. São contactos que fiz durante o Congresso para nos poder ajudar a organizar os documentos e para poder ajudar melhor a crescer a classe.

     

    Qual o tipo de trabalho que desenvolvem enquanto profissionais e quais os principais obstáculos que enfrentam na Guiné-Bissau?

    Titina Lopes Gomes:

     

    Eu acho que pode ser diferente com outros países, por exemplo, Portugal. Na Guiné-Bissau, as parteiras, ou enfermeiras obstétricas ou enfermeiras de curso geral, trabalham directamente com grávidas, fazem consulta pré-natal, fazem o parto. São as parteiras ou enfermeiras treinadas que fazem o parto aqui na Guiné-Bissau.

    Só quando tem um parto complicado ou tem necessidade de uma cesariana é que chamamos o médico. Mas se é um parto normal, é feito pelas parteiras ou então enfermeiras obstétricas ou enfermeiras de curso geral treinadas para isso.

    Em relação aos obstáculos, realmente temos vários obstáculos, principalmente o fraco treinamento ou capacitação, porque realmente os técnicos precisam ser treinados ou então capacitados sempre.

    Mas isso não acontece porque no país, com a situação sócio-política, temos dificuldade em termos de parceiros para poder ajudar a preparar ou então em treinar regularmente os técnicos que trabalham ligados com saúde materna, neonatal e infantil.

    A outra dificuldade é em termos de materiais ou consumíveis. Às vezes, você faz um procedimento que precisava de usar equipamento de proteção individual, mas às vezes carece dessas proteções.

    Estamos a trabalhar, muitas das vezes, expostos a qualquer doença, porque não temos disponibilidade de medidas de proteção individual. Também a nível do país, temos fracos recursos humanos, afetação de recursos humanos nas regiões. Temos recursos humanos mais concentrados a nível de cidade.

    A nível rural, às vezes você encontra dois, três técnicos, quatro técnicos num centro de saúde e não tem médico. Eles é que fazem tudo e tudo mesmo. Consulta de criança, de adulto, a vacinação, a nutrição, tudo no pacote.

    É feito pelo enfermeiro ou então parteira nas estruturas a nível de regiões. Outra coisa ,em relação aos obstáculos, uma enfermeira ou uma parteira é colocada na região, às vezes fica lá 15, 20 anos sem ser movimentada, às vezes tem um problema de saúde para ser transferida para a zona onde pode ter acesso aos cuidados, às vezes temos dificuldade nisso.

    Outra dificuldade mesmo, nós técnicos de saúde aqui na Guiné-Bissau, às vezes você fica doente. Essa doença pode ser da origem do serviço, mas você carece de oportunidade de poder ir fazer uma consulta no exterior, por exemplo. Se tem um problema, você quer fazer uma consulta em Portugal, você tem dificuldade de ter acesso de chegar.

    Muitos técnicos aqui morrem sem conseguir ter o acesso a visto para ir fazer a consulta em Portugal.

     

    18 min
  • Luís Represas (1956-2026) representou uma "passagem na área da música popular em Portugal"

    O português Luís Represas celebrava este ano 50 anos de carreira, tendo sido um dos mais importantes músicos do seu país. Morreu a 22 de Julho, com 69 anos, vítima de doença prolongada. A RFI passou em revista o legado de Represas com o musicólogo luso Pedro Félix.

    O Presidente português, António José Seguro, lembrou-o com emoção, descrevendo-o como um "músico de excepção, com um timbre de voz inigualável, que muito contribuiu para a afirmação e defesa da língua portuguesa". Já o Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que a sua canção Timor "fazia chorar as pessoas mais insensíveis".

    Foi a voz dos Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril, conhecida por êxitos como Perdidamente ou 125 Azul. Com a separação do grupo, em 1992, Luís Represas iniciou uma carreira a solo, aproximando-se de uma vertente mais pop. Citamos o seu maior êxito, Feiticeira, lançado em 1993, em colaboração com o compositor cubano Pablo Milanés, falecido em 2022.

    O musicólogo luso Pedro Félix, em entrevista à RFI, resume-nos o extenso legado de Luís Represas, começando por realçar a sua importância na transição que veio a marcar a música portuguesa.

    O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada. 

    O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto.

    Depois, ao longo do tempo, vão-se afastando dessa matriz, eventualmente ainda com eco de uma certa ruralidade, para uma música urbana, com temáticas urbanas novas que, num processo que começa, no Baile no Bosque (1981) e que se prolonga, diria até o disco Sepes (1988), aí com uma certa poesia e até com alguns elementos surrealistas.

    Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul.

    Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.

     E é este legado que consolidam numa carreira, todo um processo de mudança na música popular portuguesa que começa, no pós 25 de Abril, com uma canção de intervenção, que depois se torna progressivamente urbana, com temáticas urbanas denotando influências musicais internacionais e depois se tornam sucessos pop como 125 Azul.

    A banda Trovante formou-se em 1976, contribuindo para a actualização da música de intervenção nos primeiros anos do pós-revolução. Mas também trouxe uma abordagem mais moderna à música tradicional, recorrendo a elementos da música folclórica. Como é que os Trovante reflectiram o fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos? O que trouxeram para o repertório musical no pós-25 de Abril?

     O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.

    Há também a utilização da poesia de poetas mobilizados politicamente.

    No último álbum com os Trovante, Luís Represas gravou Timor, música dedicada à luta pela independência do povo timorense. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que esta canção foi um «canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência que despertou consciências». Qual foi a importância desta música na carreira de Luís Represas, nomeadamente para o seu reconhecimento para além de Portugal?

    Aqueles anos foram anos de grande mobilização de toda a população pela causa timorense. E Timor tornou-se uma canção, quase diria uma espécie de hino informal ou dádiva de um hino informal para um movimento de autodeterminação que mobilizou toda a gente.

    Apelando um pouco à  minha idade, lembro-me bem da ocupação do espaço público, com manifestações absolutamente avassaladoras que ocuparam a cidade toda, as cidades todas.

    Havia todo um movimento social pela causa e que esta música foi efectivamente o hino informal de todo esse movimento. Acho que é um momento histórico, obviamente, para a carreira de qualquer músico, e para o Luís Represas, em particular.

    Depois da separação dos Trovante, Luís Represas lançou-se numa carreira a solo. O que nos pode dizer sobre essa carreira?

    A carreira a solo do Luís Represas é também fruto de uma ligação a uma tradição latino-americana, da qual ele falava muito, sobretudo da sua ligação a Cuba.

    Eu inscreveria mais numa espécie de continuação do grupo Trovante. A carreira a solo acaba por ser o trabalho dele, quando o grupo acaba por se separar, mas que ainda há este material na sua cabeça que precisa de ser gravado e cantado e tocado  ao vivo.

    Vejo muito na continuidade de toda esta história dos Trovante.

    Luís Represas continuou a sua ligação com a lusofonia. Miragem foi o seu último álbum, de 2024, descrito como uma ponte musical entre Portugal e o Brasil. Como é que analisa este último álbum?

    Para já, é muito interessante ver todo o universo de colaborações que Luís Represas estabeleceu: o Ivan Lins ou a Zélia Duncan serão eventualmente os nomes mais visíveis. 

    De certa forma, também fazem eco de todo um processo global, numa tentativa de criar algo novo a partir de materiais musicais que são identificáveis com determinadas geografias. Neste caso, sobretudo, o Brasil.

    Os Trovante passaram pelo rock progressivo, nos seus inícios, e, mais para o final, aproximaram-se da pop. A solo, Luís Represas também esteve mais ligado à pop, a uma canção mais romântica. No fundo, por que género musical ficará Luís Represas conhecido?

    Quando digo romântica – preciso esclarecer que não é propriamente romântica no sentido do nacional cançonetista que nós estávamos habituados – é uma nova narrativa modernizada.

    A canção 125 Azul é eventualmente a síntese desta visão ternurenta desse sentimento juvenil que começa a emergir.  Era algo que no fim dos anos 80, ainda não tinha propriamente uma "voz", e eu acho que, de certa forma, aquela canção é uma síntese desse mesmo processo.

    Luís Represas teve rapidamente o reconhecimento da crítica e do público, mas também um reconhecimento institucional, tendo sido condecorado pelo então Presidente português Jorge Sampaio, em 2005. O que significa, para um artista, ter todo este reconhecimento?

    Em termos da produção discográfica, aquela dupla do disco Baile no Bosque (1981) e Cais das Colinas (1983) foram eventualmente os primeiros grandes sucessos com grande impacto público. A canção Saudade é um belíssimo exemplo desse período.

    E gostava também de lembrar que já o disco Trovante 84 (1984), com os "caravelas" (Xácara das Bruxas Dançando) é um disco de enormíssimo impacto público.

    Esse reconhecimento, diria que começa em crescendo no início dos anos 80, obviamente que depois a condecoração é sempre um momento alto em qualquer biografia: é uma espécie de tributo do Estado a reconhecer o peso e o trabalho daquele criador.

    Obviamente que não só é um elemento fundamental para a biografia de quem é condecorado, como se torna um marco no contexto da música ou de qualquer produção artística em que é o Estado, todos nós, a reconhecermos que aquela pessoa se distingue na sua produção.

    É um marco para os dois lados, para quem atribui a condecoração – todos nós, por via do Presidente da República –  e de quem recebe, neste caso o Luís Represas.

    O que eu propunha era ouvirem as músicas, toda a carreira do grupo Trovante e do Luís Represas, que isso é que de facto é a grande memória e que nós podemos deixar a um músico, não é? É continuar a ouvir as músicas deles.

    Luís Represas deixou perto de cinco décadas de um vasto legado à música portuguesa, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, marcados para Abril de 2027.

    Mateus Santa Rita

    16 min
  • Luís Represas (1956-2026) deixa legado de cinco décadas à música popular portuguesa

    O músico português Luís Represas morreu nesta quarta-feira aos 69 anos, vítima de doença prolongada, deixando para trás uma longa carreira que faria cinco décadas este ano. Foi a voz de Trovante, banda que ajudou a renovar a música de intervenção do pós-25 de Abril, e na sua carreira a solo, teve grandes êxitos pop. Luís Represas também marcou os espíritos além das fronteiras portuguesas, como testemunha Timor, canção de 1996 dedicada à luta pela independência do povo timorense.

    Luís Represas celebrava este ano cinco décadas de carreira, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto marcados para Abril de 2027. Foi o vocalista de Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril que reflectia do fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos.

     

    Voz dos Trovante

    Trovante contribuiu  para a actualização da música de intervenção, utilizando também elementos da música folclórica, numa abordagem moderna à música tradicional, tal como explica à RFI o musicólogo Pedro Félix.

    O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada. 

    O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto.

    A canção "Engrenagem" do álbum Chão Nosso, foi um exemplo dos inícios de Trovante, com elementos da música de intervenção e da música folclórica:

    O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.

     

    Carreira a solo

    Em 1993, Luís Represas inicia a sua carreira a solo, aproximando de uma vertente mais pop, como ficaram marcadas os últimos anos de Trovante.

    Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul.

    Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.

    A música Feiticeira (1993), com a participação do compositor cubano Pablo Milanés, é uma das mais emblemáticas do período solo de Luís Represas.

     

    Pela causa timorense

    Em 1996, gravou a canção Timor, dedicada à luta pela independência do povo timorense, importante no seu reconhecimento internacional, especialmente no mundo lusófono.

    O Presidente timorense, José Ramos-Horta, em declarações a Miguel Martins, conta como esta canção foi um canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência. 

    Uma das manifestações culturais, musiciais que teve mais  impacto, e que fez chorar corações foi a canção "Timor", de Luís Represas. A letra é bonita, é de partir o coração e fazer chorar as pessoas mais insensíveis, ou fazer reflectir as pessoas mais sensíveis.

    Luís Represas veio a Timor-Leste, obviamente depois da independência, várias vezes. Era uma pessoa extraordinária: a simplicidade das grandes pessoas !

    A perda dele cria uma grande tristeza para aqueles que o conheceram e para aqueles que se habituaram a ouvir a letra "Ai Timor"

    Para além de ter sido reconhecido pela crítica e o público, conheceu também o reconhecimento institucional, com a condecoração com a Ordem de Mérito da República Portuguesa, em 2005, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio. 

     

    Ouça aqui na íntegra a entrevista ao musicólogo Pedro Félix sobre o legado musical de Luís Represas.

    Mateus Santa Rita

    6 min
  • 30 anos da CPLP: Marcolino Moco exprime "uma certa desilusão"

    A CPLP, Comunidade dos países de língua portuguesa, assinala hoje 30 anos de existência. Uma organização confrontada com múltiplo desafios e fragilizada pela suspensão da Guiné-Bissau na sequência do golpe de Estado de Novembro passado. O antigo Primeiro-Ministro angolano Marcolino Moco foi o primeiro secretário executivo da organização lusófona e fez um balanço à RFI destas três décadas de existência do bloco lusófono.

    Marcolino Moco começa por afirmar a sua grande decepção relativamente ao desempenho da CPLP.

    Eu tenho uma ideia de uma certa desilusão. Porque eu tinha a ideia inicial de que essa CPLP podia ser um impulsionador, sobretudo na área de reafirmação dos valores que constituíram o histórico dos países que constituem a CPLP: Portugal mais as suas ex-colónias, mais o Brasil.

    Portanto trabalhar em mais-valias que poderiam resultar deste histórico. Mas isso não tem sido possível, por várias razões, entre as quais eu costumo sublinhar especialmente o maior desperdício de energias para uma actividade meramente formal, diplomática ou formal entre os Estados.

    Portanto, aquela ideia de que, especialmente os países africanos poderiam adquirir vantagens, uma espécie de recomposição daqueles aspectos positivos que resultaram da nossa história, isso não se tem conseguido porque na relação entre Estados há muito formalismo. O problema do respeito das soberanias de cada um é tão forte que se desprezam as mais-valias que poderiam beneficiar às populações.

    Embora se fale muito até hoje dos males da colonização. Mas havia muitos aspectos positivos que poderiam ter sido recuperados e que não o foram. Pelo contrário, continuamos, especialmente nos países africanos, a perder valores éticos, sobretudo na área política, em que, por exemplo, as eleições são praticamente uma inutilidade.

    Talvez com a excepção de Cabo Verde, onde as eleições são um factor de estabilização, são factor de escrutínio da acção dos políticos governantes. Mas isso não acontece nos outros países, especialmente continentais africanos, com casos graves: em Angola, começou por Angola, que é o meu país, da Guiné-Bissau. São casos muito graves e também de Moçambique.

    A suspensão da Guiné-Bissau da CPLP, onde um ex-secretário executivo da CPLP está desde a semana passada em prisão preventiva, com os golpistas a assumirem o poder, não pode ser fatal à sobrevivência da organização?

    Talvez não seja fatal, porque vai-se continuar a trabalhar na base do formalismo e não na base de algo que seja útil para estabilizar politicamente todos os Estados. Possivelmente a Guiné-Bissau, Angola também, a situação não é, como muita gente pensa, boa, óptima. E também temos acompanhado aspectos negativos em Moçambique.

    Na sua opinião, a CPLP deve ser mais exigente na defesa da democracia e dos direitos humanos nos Estados-Membros?

    Ora, nem mais. Em relação a esse aspecto, a CPLP não actua por causa do tal respeito à soberania e por causa da defesa de interesses de algumas pessoas, tudo agentes do Estado. Veja que, pelo contrário, foi associado um país muito pior em termos de respeito dos direitos humanos, da democracia, da preocupação dos dirigentes do seu Estado, em relação ao bem-estar social das suas populações. Estou-me a referir à Guiné Equatorial, por exemplo, que por nenhuma razão que se invocasse deveria fazer parte da CPLP, tanto pelo respeito aos direitos humanos como por outros aspectos do regime.

    Este Estado foi atraído pela CPLP, indiciando que o tal ideal da democracia, o ideal ético, de uma política ética não tem grande significado perante perante nós, elites políticas. Eu também faço parte das elites políticas, dos nossos Estados. E veja este caso da Guiné-Bissau. Um dirigente que até também foi secretário da CPLP, detido arbitrariamente de forma vergonhosa e tanto quanto eu saiba, a CPLP está impotente para actuar.

    A expulsão é uma coisa que não não tem grande relevância. Mas eu pensaria que haveria atitudes anteriores. Essas situações deviam ser promovidas para darmos maior utilidade à nossa organização.

    Daqui a 30 anos, o que eu gostaria que se dissesse da CPLP?

    Eu sou professor ainda e às vezes digo muita coisa que é politicamente incorrecta. Devemos começar primeiro por reconhecer que as nossas independências foram muito mal conduzidas. Não houve reflexão. Foram rejeitadas ideias de Constituição de transições mais úteis. Eu não estou a preconizar um regresso ao passado, uma recolonização, mas pelo menos uma capacidade de olhar para o presente, fazermos uma retrospectiva correctiva do que aconteceu e não permitirmos efectivamente muitas coisas que estão a acontecer hoje nesses países, que tiveram o seu surgimento graças à presença de Portugal aqui em África. Independentemente dos aspectos negativos que possam ter acontecido.

    Tenho para os amigos muito próximos dito que podíamos ter independência, mas sem descolonizar. Acho que isso é politicamente incorrecto, sobretudo para quem não reflectiu, como eu tenho reflectido. Mas nós temos exemplos positivos de uma prática desse tipo. Onde houve independência sem descolonização. Portanto, as instituições estão preservadas.

    Quando se fala em descolonização, normalmente pensa-se que é afastar o branco da administração e deixá-lo sair, se for possível. Mas nos nossos Estados, onde se realizou uma descolonização precipitada, onde constituímos essas pátrias com pessoas de todas as proveniências e depois 74-75, montámos um esquema mental completamente errado. Aquele êxodo que houve aqui nos nossos países. É talvez por isso que justamente Cabo Verde é um exemplo onde não houve êxodo, com uma parte da população retendo as elites com conhecimento, etc. Hoje vão, digamos, se estabilizando melhor. E aqui onde houve o êxodo da população branca em grande quantidade, estávamos pobres em tudo, a partir da própria moralidade, da própria ética, passando pelas prioridades que são traçadas por pessoas mal preparadas. Eu também me incluo nesse aspecto, porque também ocupei funções. De modos que é isso que eu lamento que a CPLP, 30 anos depois, não possa ter contribuído para, digamos, remediar esses problemas.

    Era Marcolino Moco, primeiro secretário executivo da CPLP, no dia em que a organização assinala três décadas de existência.

    10 min
  • Peça “Nasr et Dinn” leva “liberdade, tolerância e muita ternura” ao Off Avignon

    A peça de teatro “Nasr et Dinn” revisita o universo de uma personagem lendária do mundo oriental, famosa pelas suas histórias curtas que misturam humor e sabedoria popular. O espectáculo está no Festival Off Avignon até 25 de Julho e fomos conversar com a actriz Valérie da Mota sobre a peça infantil que aborda temas como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico.

    Quem foi Nasreddine Hodja e por que é que as suas histórias continuam a ecoar com os dias de hoje e a serem transformadas em peças de teatro? Foi o que fomos perguntar a Valérie da Mota, actriz e fundadora da companhia de teatro Va Sano Productions, que está pela segunda vez no Festival Off Avignon, agora com a peça “Nasr et Dinn”. O espectáculo revisita o universo desta personagem lendária do mundo oriental, conhecida pelos seus contos morais e divertidos.

    Interpretada e encenada por Valérie Da Mota e Romans Suarez Pazos, a peça acompanha as aventuras de Nasr, de Dinn e do seu inseparável burro numa viagem repleta de encontros, questões inesperadas e respostas irreverentes.

    “Estas histórias ensinam-nos a liberdade, a liberdade de estar, a liberdade de crer. Para as crianças, é muito importante saber que você pode ser diferente e que não há nenhum problema, e também para os adultos. Estas histórias também falam da felicidade de estar aqui e não pensar sempre no dia de amanhã, e também falam da fé (...) Temos histórias que falam do poder, histórias que falam de dinheiro e histórias que falam da liberdade”, conta-nos Valérie da Mota, numa esplanada junto ao Collège de La Salle, onde é apresentada a peça “Nasr et Dinn” no âmbito do Festival Off Avignon.

    Há teatro, música ao vivo, desenho digital e muito humor neste trabalho que parte dos contos de Nasreddine Hodja para abordar temas universais como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico. “Eu acho que é importante trazer personagens que trazem esta ideia de liberdade, de tolerância, uma personagem também com muita ternura. E o riso que pode trazer sabedoria”, sublinha Valérie da Mota.

    Oiça a conversa neste programa. 

    12 min

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