Neste programa, conversamos com Marta Lança, a autora de “Essas pessoas na sala de jantar”, um livro que conta as histórias de uma vida escrita entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e outras geografias, tendo como fio condutor as mudanças de casa e os encontros com novas pessoas que enchem salas de jantar transformadas em lugares de resistência e comunidades de pensamento e de arte. Este é o seu segundo livro, depois de “infinitas-pessoas-mais-uma”, ambos editados na Tigre de Papel. Marta Lança é jornalista, escritora, programadora cultural e também coordena o portal Buala, uma plataforma dedicada à cultura e ao pensamento sobre o Sul Global.
O livro “Essas pessoas na sala de jantar” é como uma casa, ou melhor, uma sala de jantar repleta de amigos e reinventada a cada nova morada entre três continentes. Mas não é “uma sala de jantar auto-satisfeita”, não. É um convite à viagem, à partilha e aos novos sabores, com pratos cheio de histórias e portas abertas, com sorrisos e cumplicidades, algures em prédios onde – podemos ler – “nos desenrascamos uns aos outros, e dispensamos ovos e coentros, em que crescemos juntos”.
Foi a partir das sucessivas mudanças de casa para “outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente” que a autora quis “encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias”. Através da sua história pessoal, conta o que viu nos países onde viveu, observando com “um olhar para dentro e para fora” capaz de arrombar quartos fechados e mentes quadradas.
Esta é uma história de encontros, de “geografias afectivas múltiplas” e é também um diário de bordo de um mundo em risco de extinção e de um outro a cimentar-se, num “tempo saturado de estímulos e de tecnofascismo” e em que os ecrãs substituíram livros e o brincar na rua.
Escrito com muito humor, o livro é também uma forma de transmissão da memória, offline, um registo proustiano em busca de um tempo perdido em que tanto se ganhou e tanto se foi perdendo. Às memórias pessoais da protagonista, às suas histórias de amizades, de amores, de viagens e experiências noutros países, misturam-se os grandes acontecimentos que marcaram a História e a política do pós-25 de Abril em Portugal até aos dias de hoje no mundo. Tudo acompanhado pelo ritmo dos filmes, dos livros e da banda sonora que também escreveram esses anos.
A partir de Lisboa, Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Baixo Alentejo, as histórias são acompanhadas por reflexões sobre as injustiças sociais, o racismo, as cidades segregadas, o capitalismo desenfreado, a crise da habitação, a especulação insaciável e as rendas insustentáveis, a ecologia em crise, a pobreza, as sempiternas lutas das mulheres e muitas e variadas e repetidas opressões. São também histórias de lugares de resistência, de salas de jantar transformadas em comunidade de pensamento e de arte.
A autora lembra como foi crescer numa Lisboa arrastada pela especulação imobiliária, o que foi a “Geração à Rasca” nos tempos da Troika e lembra que “o fascismo nunca desapareceu no país dos brandos costumes”. Depois, recorda como “ter vinte e um anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”.
Em Cabo Verde, reconheceu “a personalidade telúrica dos habitantes vulcânicos" que tinha conhecido em menina nos Açores, “mas o mais difícil de erradicar permanece: as mentalidades, a anos-luz de descolonizar”. Segue-se Luanda, “mal tinha desembrulhado o grogue, o veludo e a calabaceira de Cabo Verde e partia de novo, desta vez para uma grande metrópole africana da qual afinal não sabia quase nada”. Em Luanda compreendeu que “a mesma cidade onde se luta para conseguir comer ou para facturar milhões, toda a hora é hora de celebrar a vida, porque a toda a hora se pode morrer.”
Em Maputo, o que mais conquistou o seu “coração rebelde eram os concertos de hip-hop, agregadores de jovens desejosos de mudar a sociedade restrita e opressora”, como Azagaia que “confrontava o regime e a geração da independência” com, por exemplo, a música “Quem vendeu a minha pátria?”.
No Rio de Janeiro, surge a pergunta: “Como se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência?”, onde “a desigualdade continua a ser a espinha dorsal da vida urbana brasileira.” A resposta começa, talvez, nos baile funk na Zona Norte, “uma das maiores expressões da resistência cultural, social e identidade das periferias brasileiras”.
Mais tarde, o refúgio no Baixo Alentejo, em Portugal, onde uma casa no campo é a possibilidade de “pequenos lugares engendrarem utopias”. Porém, mesmo aí, “a terra é colonizada e posta a render” e nos cafés se percebe “como muita gente desistiu e se deixou manipular pelo populismo e abandono”. No final, regressa às raízes para cuidar de quem dela cuidou e de quem dela cuidará, confessa.
Consciente de fazer “parte da paisagem da desigualdade montada”, ao longo dessas viagens entre os três continentes, a narradora nunca esquece “o Atlântico que devolve continuamente a memória do terror e da sobrevivência”. Também omnipresente, de viagem em viagem, a comida, das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne nos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, passando pelo amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, sem esquecer o acarajé no Rio e a Cozinha Ocupação. Afinal, “poucas coisas unem tanto as pessoas como partilhar uma refeição”.
A inspirar as suas páginas sente-se a busca e um enorme respeito pela liberdade, partindo de uma personagem-arquétipo a que chamou Júlia e que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”. Era uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros". "Essas pessoas na sala de jantar" talvez seja "o mapa poético" de Marta Lança, esboçado a partir da "força de todas as que foram reprimidas".
Marta Lança: "Aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer"
RFI: Do que fala este livro?
Marta Lança, Autora de “Essas pessoas na sala de jantar”: “Este livro compila várias crónicas de diversos momentos da minha vida. Quando estava a pensar o que é que ligaria estas histórias, achei que seria o mínimo denominador comum a questão de mudar. Mudar de casa, mudar de cidade, mudar de geografia emocional e de trabalhos, entre eles tem esta questão de cada um que se passa num determinado tempo e espaço. Começa com a casa onde cresci, a casa dos pais, a casa de onde parti para a vida e depois são sucessivas casas como ponto de partida: várias em Lisboa, várias depois com a vida profissional, em que fui viver para os países africanos onde também se fala português, como Cabo Verde, Angola, Moçambique. Depois o Brasil e o regresso a Lisboa, sendo Lisboa também em vários bairros, em vários tempos. Isso é o que coordena.
Depois, fala de muitas outras coisas. Cada história tem os seus universos, alguns vão-se repetindo, mas é basicamente um livro que tem a ver com o crescer, com o tornar-se uma mulher, tornar-se adulta, e tem esse lado um pouco confessional, autobiográfico - mesmo assim, tentando não expor muito os outros - mas é o devir adulto. Basicamente, é um livro que tem a ver com o crescimento.”
Por que é que decidiu chamar-lhe “Essas pessoas na sala de jantar”?
“Porque sempre gostei muito dessa canção de 'Os Mutantes', um grupo brasileiro de movimento Tropicália. A canção chama-se ‘Panis et Circenses’, tem a ver com uma crítica à ditadura militar brasileira. É muito irónico porque enquanto se está a distribuir pão e circo, essa classe média que está entretida na sala de jantar, ocupada em manter-se, em nascer e morrer, e que fica numa certa passividade enquanto o mundo explode, enquanto há uma série de injustiças, há uma classe média que está muito contente com a sua vidinha de privilégio. Então, trouxe este título para falar também dessa tensão que eu própria sinto entre o meu meio, esse meio pequeno-burguês de Lisboa que teve acesso à educação, saúde a seguir ao 25 de Abril. Portanto, somos essa primeira geração em liberdade que pôde uma série de coisas e, ao mesmo tempo, o que é que fazemos com isso? Então, também tem essa questão de tentar politizar-me e ter atenção à abertura para outras realidades do mundo e da minha própria cidade e ter uma participação não passiva, sendo que há esse dentro e fora da sala de jantar. Acho que é uma canção que traduz muito essa vontade também de trazer poesia para a vida, um outro olhar, não aquele convencional, e por isso a escolhi como título.”
O espaço casa tem um lugar central, mas essas casas vão sendo criadas em diferentes países. Quase parece um paradoxo porque a casa é algo aparentemente estável, seguro, e aqui as suas casas são resultado de viagens e cada cidade é como uma nova casa. Até que ponto é que as casas e as cidades são personagens centrais neste livro?
“São porque têm um lado de dentro de casa, mas não muito. Então, dentro de casa porque aconteceu que quase todas estas casas, como os leitores vão ver, foram casas partilhadas, casas colectivas onde viviam outras pessoas. Desde o início com a família, o núcleo duro, etc, e depois os amigos, os namorados e, hoje em dia, as casas com crianças quando estamos a criar filhos. Na partilha de casa, sempre achei muito interessante, como uma espécie de laboratório social, como é que as pessoas habitam uma casa, como é que pessoas, além de mim, tornam a casa um lugar habitável, um lugar acolhedor, mas um lugar onde há conflitos com a divisão de espaço, divisão de tarefas.
Foi interessante que a minha vida suscitou ver várias maneiras de habitar a casa porque fui partilhando casa com pessoas diferentes ao longo da vida e sendo que essas outras cidades, outros bairros, também traziam sempre um microcosmos de realidades diferentes. Então, não são cenários, são participantes dessa observação de costumes, de ponto de partida para ver o que está à volta da casa. Aliás, o livro parte desse interior da casa, mas depois vai muito para fora, sai logo. A narradora - que sou eu - acaba por estar mais interessada no que se passa fora. Tenho algumas observações sobre o dentro de casa, mas o mais interessante será mesmo essa etnografia de ambientes à volta dessas casas, do bairro, dos sistemas políticos, dos assuntos que inquietam naquele momento, como se cristalizasse um certo tempo de observação. É por aí que interessa, é como a casa ser um mirante, um ponto de observação do exterior.”
Vamos às casas nas diferentes cidades. Por exemplo, Lisboa. Lisboa não é apenas a cidade bonita e multicultural onde cresceu, onde ia ao ballet da Gulbenkian, ao cinema, aos bares do Bairro Alto dançar kizomba e ouvir Os Tubarões. Foi também a cidade onde um rapaz cabo-verdiano, Alcino Monteiro, foi espancado até à morte por um bando de skins no Dia de Portugal, em 1995, um cenário que se repetiria. Olha para este ódio racial que reverbera ainda na própria cidade. Quer-me falar sobre Lisboa?
“Sim, é interessante ter ido buscar esse exemplo porque essa linha de cor que atravessa a cidade de Lisboa, essa colonialidade ainda estamos a vivê-la, não é? Crescer nos anos 80, numa cidade que estava a urbanizar-se, é o meu ponto de partida: era ali a zona de Carnide, depois assistir ao fenómeno do Colombo, toda essa Lisboa que se queria tornar uma cidade europeia, com a entrada na União Europeia, o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o realojamento dos bairros mais auto-construídos, etc, mas que obviamente foi criando para as margens, foi marginalizando, tornando periféricas uma série de realidades socioculturais e económicas de tornar muitos bairros empobrecidos e pessoas empobrecidas em que a linha de cor coincide. Ou seja, são as pessoas racializadas que acabam por ter esse estigma que vinha de um país a seguir ao 25 de Abril, ainda com uma grande carga colonial, racista, foi mantendo, se calhar um pouco mais com um certo pudor, sendo que agora, com a ascensão da extrema-direita e todo este populismo e instrumentalização do ressentimento voltou a sair à carga e ainda mais estigmatizou estes territórios, estas pessoas, e no livro vou falando desses momentos.
De facto, o ódio racial foi um momento definidor quando aconteceu esse assassinato do Alcino Monteiro num bairro que eu frequentava, o Bairro Alto, que eu frequentava com os meus amigos. Para nós, que éramos novos, sentir esse medo nas ruas, ali no centro da cidade, e perceber: ‘Afinal isto é terrível. Há pessoas que são um alvo muito mais declaradamente de uma purga, dessa motivação do ódio.’ E acho que isso nunca deixou de existir em Lisboa, aliás, culminou no ano passado com a morte do Odair Moniz, e vamos vendo como a cidade evolui e não resolve essas suas feridas sociais de ódio. E, portanto, acho que isso atravessa de alguma forma o livro. Eu, no lugar de também de um certo activismo anti-racista, mas como é que uma jovem lisboeta branca vai percebendo essas injustiças. Também entrei por aí de uma forma, não aprofundando muito, mas dando a entender que isso é uma realidade que só não vê quem não quer. Podemos estar num certo meio protegidos, mas somos cúmplices desse estado de coisas se mantivermos essa passividade. Portanto, temos de denunciar.”
Vamos agora a Paris. Conta que “ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Foi para lá estudar, viveu na Cité Universitaire. Fala daquele momento, mas também na continuação das lutas sociais até hoje, com os Coletes Amarelos, as revoltas suburbanas na sequência também do assassínio de jovens de pele negra, a mobilização contra a ascensão da extrema-direita. Que lugar tem para si Paris?
“Nessa tal geografia de afectos e de crescimento, Paris foi muito importante porque foi esse tal embate político. A minha relação com Paris no livro é no ano de 1997, 98, eu era uma jovem estudante de Erasmus em Paris. E teve esse papel de perceber como o mundo é enorme, como as lutas sociais são muito mais vastas do que a partir de Lisboa e também de perceber que há uma esquerda muito organizada e disseminada nas universidades, nas manifestações e isso foi muito importante de assistir, de acompanhar, de testemunhar esse fervor. Quanto mais organização, até de contestação, também mais se sentia essa tensão de uma cidade a uma escala muito maior do que Lisboa. Eu conto uma manifestação dos ‘chomeurs’ [desempregados] que me impressionou muito, a forma muito combativa e muito radical de confrontar a polícia, etc, e depois Paris sempre continuou a ser uma meca da esquerda europeia com essas outras lutas que se seguiram e mais do que nunca, agora, com a situação política da Europa e de França em particular. Acho que é um bom barómetro da temperatura social, continua a ser.”
Viveu também em Cabo Verde, que diz que se tornou em “um país exemplar no contexto africano”, graças ao empenho, ao valor atribuído à educação. Diz ainda que o mais difícil de erradicar permanecem “as mentalidades a anos-luz de descolonizar”. Quer falar-nos um pouco sobre Cabo Verde e a sua experiência?
“Cabo Verde foi também uma transição enorme na minha vida. Ir viver para uma ilha pequenina como São Vicente e fazer uma revista com jovens cabo-verdianos e perceber as questões deles, algumas frustrações e muita vontade de participar, de ter opinião. Então, foi uma experiência que eu acarinho muito. De facto, viver nos sítios, trabalhar nos sítios, ajuda-nos muito a compreender essas tais relações, a sair do postal turístico das férias na ilha do Sal ou da Boavista em que a pessoa não percebe muito mais para além de que é um país maravilhoso, cheio de morabeza, etc. Ao trabalhar com jovens e ao ouvir os artistas, ao fazer também jornalismo de muita escuta, fez com que eu entendesse que há uma grande questão identitária. Portanto, isto é Cabo Verde de 2004, é claro que muitas coisas mudaram, mas havia ali muitas conversas sobre a questão da crioulidade, da situação atlântica de Cabo Verde cultural, da mestiçagem, todas essas heranças de ‘somos mais africanos, somos mais europeus’, toda essa indefinição, que é uma discussão interessante, mas depois, no dia-a-dia, sentia-se que ainda havia um certo racismo em relação a pessoas do continente africano, muito pejorativamente chamados de mandjacos, como se isso fosse um insulto a uma etnia da costa da África, guineense, etc, e sobretudo a geração mais velha tinha um certo preconceito com a questão das pessoas mais negras. Falo também nessas manifestações, de alguns comentários, de algumas tradições como os Mandingas no Carnaval do Mindelo. E acho que sim, há uma mentalidade ainda muito colonizada que vai-se percebendo também em coisas mais recentes. Por outro lado, há uma juventude que reivindica o lado pan-africanista, a herança de Amílcar Cabral como os grandes valores da independência, tudo isso, mas é, mais uma vez, perceber que o contexto de um país é muito mais complexo do que a gente pensa no início.
“Mal tinha desembrulhado o grogue” - estou a citá-la – “o veludo e a calabaceira de Cabo Verde", partiu de novo, desta vez para "uma grande metrópole africana, da qual, afinal, quase nada conhecia”. Luanda é a cidade onde "a toda a hora é hora de celebrar a vida porque a toda a hora se pode morrer”. Quer falar-nos sobre Luanda?
“Luanda, essa grande cidade! Foi incrível conhecer Luanda nesse momento que saía há poucos anos de longuíssima guerra civil e ir trabalhar na área da cultura, das artes, em que estava tudo por fazer, havia uma alegria, um entusiasmo, e foi mesmo extraordinário também partilhar casa no bairro da Maianga, uma casa que já é histórica nas lendas urbanas, que é o Sete e Meio. Era um apartamento que dividíamos entre artistas angolanos e eu e uma amiga portuguesa que também trabalhávamos na Trienal de Luanda. Morava lá o Kiluanji Kia Henda, o Orlando Sérgio, o Yonamine, o Ihosvanny, artistas que estavam em grande força na sua carreira como artistas visuais, e o Orlando que é um actor na área do teatro e cinema. Então, era um ponto agregador da cidade, onde fazíamos muitos jantares, muitas conversas na nossa varanda, que também tinha um ponto de observação para as transformações urbanas da própria cidade de Luanda.
E sim, é uma cidade de contradições, não é? Nessa altura - já não é a realidade actual - havia muita gente a fazer dinheiro porque o petróleo era, de facto, a economia muito efervescente, o crescimento económico era incrivelmente alto e acelerado, mas sabemos que isso depois não se traduziu em melhorias na qualidade de vida do povo angolano, que hoje em dia está bastante sufocado, numa crise enorme. Eu, como estrangeira, mas tentando viver como angolana no dia-a-dia, andar de candongueiro, depois também fiquei lá a trabalhar como professora, ouvi muitas histórias e o que mais me fascinava eram as biografias das pessoas. As pessoas tinham histórias de vida incríveis e apetecia cartografar tudo e escrever tudo, mas depois a realidade era tão veloz e alucinante que era difícil. Então, esses dois textos no livrinho sobre a Luanda dessa época são muito fragmentados, mas era um espelho da própria cidade, dessas vozes todas, dessas contradições e também um grande carinho nas pessoas e, ao mesmo tempo, uma brutalidade porque é a lei da sobrevivência.”
Em Maputo, foi a música e o ímpeto do hip-hop, nomeadamente as letras do Azagaia, que a conquistaram, ele que tantas denúncias fez contra o regime, contra inclusivamente a geração da independência, contra a exploração do povo, contra o neocolonialismo português. Mais uma vez a atenção e a observação acutilantes da Marta…
“Gostei muito de ir aos concertos do Azagaia. Foi um privilégio poder ir a vários concertos de hip-hop. Também já tinha frequentado muito o rap angolano, gostava muito também. Na altura, em Angola, ouvia muito o MCK, depois o Luaty Beirão também voltou à cidade e outros. Havia um grande movimento de hip-hop que era um grande escape de denúncia política. Então, era uma forma de entender o que é que os jovens estavam a pensar sobre a sua situação.
Maputo é uma cidade extremamente musical, havia muitos concertos, muita música ao vivo nos bares e acho que é um dos pontos mais fortes que eu retenho: essa cidade musical. O Azagaia, além de, na altura, me ter chamado a atenção pelas letras tão interessantes, depois, tudo o que suscitou quando ele morreu, o cortejo fúnebre, a repressão e os tumultos todos que houve em Maputo e Matola e na Beira a seguir à morte dele… Aliás, eu tinha escrito esse texto antes de o Azagaia morrer e depois acrescentei mais isso como um questionamento também sobre a geração que fez a independência e a herança que deixou ao país como está actualmente, que ainda tem tanta juventude urbana descontente porque não tem muitos horizontes de expectativa para poder ficar no país com uma vida digna.”
Também viveu no Rio de Janeiro e começa por falar de um baile funk em que questiona "como é que se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência". O que representou para si o Rio de Janeiro?
“Comecei o texto com esse episódio do baile funk porque também tive a sorte de poder frequentar as comunidades faveladas da Zona Norte do Rio de Janeiro. E sim, são zonas da cidade, territórios muito permeáveis à violência, seja do tráfico de droga, seja da própria polícia. Na altura, havia operações de pacificação dos morros e, no entanto, eram sempre bastante ameaçadoras para a população trabalhadora dessas comunidades. E havia uma banalização dessa violência que acho que todos sabemos com os filmes e as notícias que nos chegam. Portanto, é viver numa guerra aberta e isso é muito desgastante para os moradores. Depois conto também como é que algumas figuras, como um estudante de mestrado, se sentia uma excepção no seu contexto de jovem negro, periférico, pobre, mas como as políticas de discriminação positiva, as quotas, são muito importantes no contexto do Brasil para furar essa repetição da pobreza e, portanto, também como é que a partir dali se estava a pensar a questão da cidade, do asfalto e da periferia, todas essas divisões de uma sociedade tão classista, tão racista… Algumas opções vão-se repetindo ao longo dos textos, mas com novos figurantes e novas reflexões, penso eu.”
Acaba por haver alguns temas e até injustiças que se repetem ou que dialogam entre as cidades onde viveu?
“Exacto e a procura da alegria, que citou, é mesmo uma força de resistência nestes lugares, não é uma alegria alienante, é uma alegria que tem o seu peso, da sua dor, dessas feridas todas da história, da história da escravatura, da história da pobreza, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ‘estamos aqui, continuamos, sobrevivemos e transformamos a dor em alegria, uma alegria de não nos vão apagar, aqui continuamos’. Essa lição dessa alegria sobrevivente, para uma europeia, é mesmo importante, porque eu acho que em Portugal, por exemplo, se cultiva muito o lamento, o queixume, mas é um queixume que depois não muda nada, é um queixume quase de apaziguamento. Acho que esses países, como eu digo, abaixo do Equador, nos davam uma lição de vida nesse sentido que é: ‘Vamos para a frente, resistimos’ e, cada vez mais, confrontacionais e a desejarem uma outra vida com todo o seu sentido crítico. Portanto, é uma alegria que também traz a crítica ao estado de coisas.”
Outro aspecto é a comida, que de viagem em viagem também é omnipresente, seja na sala de jantar, seja na rua, no café, no restaurante. Das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne da casa dos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, em Lisboa, ao amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, ao acarajé no Rio e à Cozinha Ocupação… Escreve: “Poucas coisas unem tantas pessoas como partilhar uma refeição”. Porquê tanto sabor neste livro?
“Muito bem visto! E também o grande ensopado de borrego no Alentejo!”
É verdade, não falámos do Alentejo, mas também é bom deixar aos leitores a possibilidade de descobrir outras geografias e sabores…
“Exactamente. A refeição partilhada é também ligada à ideia das pessoas na sala de jantar que estão a partilhar o seu momento, a distribuição de comida, a vontade de experimentar coisas novas e como cada lugar também com os seus sabores, porque é uma forma de convívio, não é? E esse é outro grande tema do livro: o convívio entre pessoas diferentes e uma refeição pode pôr na mesma mesa pessoas de realidades muito diferentes e estarem unidas pelo prazer de comer, de descobrir e também como os novos sabores traziam novas realidades. Quando estou a apontar para esses frutos tropicais, estou a aprender novos léxicos e novas realidades e, portanto, quis trazer essas diversas comidas.”
Esses sabores não são só gustativos, também há os sabores auditivos, porque a música também está muito presente no livro. É como uma banda sonora em pano de fundo…
“É porque a música também é uma forma de conhecermos realidades novas. Acho que todos nós temos sempre as nossas músicas electivas. Por exemplo, ouvir música em Angola ou Moçambique ou Brasil, é a partir das letras e das sonoridades que nos trazem as tais outras realidades. E depois também as músicas que nos formaram, a nossa forma de olhar o mundo e de viver a História é feita das partilhas das universidades, das leituras, dos filmes, mas muito a partir da música. A música tem um pendor educativo, formativo muito forte em todos nós e eu queria prestar essa homenagem a tudo o que a música trouxe à minha vida, só que era difícil estar a escolher entre tantas músicas e tantos autores e então fui referindo de acordo com o que eu ia ouvindo em cada fase de vida.”
Num dos capítulos fala do “Lobo da Mata” e conta um episódio terrível. Recorda a francesa Gisèle Pelicot quando disse que “a vergonha tem de mudar de lado” e também escreve, “nos anos 90 a consciência feminista era de nicho e o ‘girl power’ era mais slogan do que força colectiva” e que ainda hoje “em vários países, ser mulher continua ser quase um acto ilegal”. Porque decidiu escrever o “Lobo da Mata” e falar sobre a sua própria história?
“Porque nós criamos mais empatia, relação com um assunto, quando nos implicamos nele, e todas as mulheres, sem excepção, terão histórias de abusos, desconfortos no mínimo, e situações em que se sentiram com medo ou discriminadas pelo facto de serem mulheres. Acho que temos a sorte de estarmos em países onde há alguma protecção, mas até precisamente pela Gisèle Pelicot em França, sabemos como histórias tão hediondas podem estar aqui ao voltar da esquina.
Eu queria trazer algumas reflexões feministas porque, tal como a música, o feminismo também é uma forma de conhecer, de aprender muito para tentar ambicionar um mundo onde haja mais igualdade nas questões de género, mas mais do que a igualdade, acredito num feminismo que não é necessariamente a luta pelo poder, mas é outra forma de convivência entre as pessoas que não passe por esta competição, por estas relações de poder, por este ímpeto bélico e destrutivo que o mundo patriarcal nos tem proporcionado e por ele chegámos aqui, a este estado de coisas tão devastador e sem futuro quase. E, portanto, o feminismo seria uma grande opção entre homens e mulheres de outro tipo de comunhão, de partilha, de uma paz social que poderia vir através do feminismo.
Esse ‘Lobo da Mata’ é uma história na Caparica, na adolescência. Não é uma história que seja assim o grande trauma porque eu quis também passar esse lado, de como eu encontrei as minhas ferramentas para viver com isso e para transformar essa história numa espécie de alívio e de força pessoal, mas claro que cada mulher lida com isso de maneiras diferentes, com os seus próprios traumas e fantasmas. Mas acho que sim, acho que foi importante escrevê-la, não no sentido terapêutico, mas para partilhar alguns episódios que todas temos e, depois, a partir daí, o que é que suscitou como preparação para a vida porque qualquer mulher terá passado por isso.”
Fala numa mulher no livro que é uma personagem-arquétipo daqueles tempos. Chamou-lhe Júlia que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”, uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros. A força de todas as que foram reprimidas.” O que é feito dessa Júlia? Este livro é esse “mapa poético”?
“Sim, acho que sim. Essa Júlia é um arquétipo, não é uma pessoa real, mas sim um conjunto dessas vontades todas reprimidas e de alguém que pôde experimentar, pôde errar, pôde implicar-se em cada situação e fazer com que as coisas aconteçam, sair da tal sala de jantar auto-consolada para que a vida nos aconteça porque não podemos estar só à espera de uma mudança se não nos implicarmos nela. Essa Júlia ainda está aqui presente, pelo menos tenho-a comigo, como alguém que me faz lembrar: ‘Olha, aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer.’ E é preciso celebrar essa liberdade de circulação, de podermos ser quem queremos, de podermos até mudar em qualquer fase de vida para procurar essa pessoa que nos vamos tornando em cada momento, mas não ficar a achar que isso é garantido porque as liberdades nunca estão garantidas. É também essa inquietação. A Júlia é essa inquietação que me persegue e que certamente outras pessoas se identificarão com ela.”