O português Luís Represas celebrava este ano 50 anos de carreira, tendo sido um dos mais importantes músicos do seu país. Morreu a 22 de Julho, com 69 anos, vítima de doença prolongada. A RFI passou em revista o legado de Represas com o musicólogo luso Pedro Félix.
O Presidente português, António José Seguro, lembrou-o com emoção, descrevendo-o como um "músico de excepção, com um timbre de voz inigualável, que muito contribuiu para a afirmação e defesa da língua portuguesa". Já o Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que a sua canção Timor "fazia chorar as pessoas mais insensíveis".
Foi a voz dos Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril, conhecida por êxitos como Perdidamente ou 125 Azul. Com a separação do grupo, em 1992, Luís Represas iniciou uma carreira a solo, aproximando-se de uma vertente mais pop. Citamos o seu maior êxito, Feiticeira, lançado em 1993, em colaboração com o compositor cubano Pablo Milanés, falecido em 2022.
O musicólogo luso Pedro Félix, em entrevista à RFI, resume-nos o extenso legado de Luís Represas, começando por realçar a sua importância na transição que veio a marcar a música portuguesa.
O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada.
O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto.
Depois, ao longo do tempo, vão-se afastando dessa matriz, eventualmente ainda com eco de uma certa ruralidade, para uma música urbana, com temáticas urbanas novas que, num processo que começa, no Baile no Bosque (1981) e que se prolonga, diria até o disco Sepes (1988), aí com uma certa poesia e até com alguns elementos surrealistas.
Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul.
Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.
E é este legado que consolidam numa carreira, todo um processo de mudança na música popular portuguesa que começa, no pós 25 de Abril, com uma canção de intervenção, que depois se torna progressivamente urbana, com temáticas urbanas denotando influências musicais internacionais e depois se tornam sucessos pop como 125 Azul.
A banda Trovante formou-se em 1976, contribuindo para a actualização da música de intervenção nos primeiros anos do pós-revolução. Mas também trouxe uma abordagem mais moderna à música tradicional, recorrendo a elementos da música folclórica. Como é que os Trovante reflectiram o fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos? O que trouxeram para o repertório musical no pós-25 de Abril?
O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.
Há também a utilização da poesia de poetas mobilizados politicamente.
No último álbum com os Trovante, Luís Represas gravou Timor, música dedicada à luta pela independência do povo timorense. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que esta canção foi um «canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência que despertou consciências». Qual foi a importância desta música na carreira de Luís Represas, nomeadamente para o seu reconhecimento para além de Portugal?
Aqueles anos foram anos de grande mobilização de toda a população pela causa timorense. E Timor tornou-se uma canção, quase diria uma espécie de hino informal ou dádiva de um hino informal para um movimento de autodeterminação que mobilizou toda a gente.
Apelando um pouco à minha idade, lembro-me bem da ocupação do espaço público, com manifestações absolutamente avassaladoras que ocuparam a cidade toda, as cidades todas.
Havia todo um movimento social pela causa e que esta música foi efectivamente o hino informal de todo esse movimento. Acho que é um momento histórico, obviamente, para a carreira de qualquer músico, e para o Luís Represas, em particular.
Depois da separação dos Trovante, Luís Represas lançou-se numa carreira a solo. O que nos pode dizer sobre essa carreira?
A carreira a solo do Luís Represas é também fruto de uma ligação a uma tradição latino-americana, da qual ele falava muito, sobretudo da sua ligação a Cuba.
Eu inscreveria mais numa espécie de continuação do grupo Trovante. A carreira a solo acaba por ser o trabalho dele, quando o grupo acaba por se separar, mas que ainda há este material na sua cabeça que precisa de ser gravado e cantado e tocado ao vivo.
Vejo muito na continuidade de toda esta história dos Trovante.
Luís Represas continuou a sua ligação com a lusofonia. Miragem foi o seu último álbum, de 2024, descrito como uma ponte musical entre Portugal e o Brasil. Como é que analisa este último álbum?
Para já, é muito interessante ver todo o universo de colaborações que Luís Represas estabeleceu: o Ivan Lins ou a Zélia Duncan serão eventualmente os nomes mais visíveis.
De certa forma, também fazem eco de todo um processo global, numa tentativa de criar algo novo a partir de materiais musicais que são identificáveis com determinadas geografias. Neste caso, sobretudo, o Brasil.
Os Trovante passaram pelo rock progressivo, nos seus inícios, e, mais para o final, aproximaram-se da pop. A solo, Luís Represas também esteve mais ligado à pop, a uma canção mais romântica. No fundo, por que género musical ficará Luís Represas conhecido?
Quando digo romântica – preciso esclarecer que não é propriamente romântica no sentido do nacional cançonetista que nós estávamos habituados – é uma nova narrativa modernizada.
A canção 125 Azul é eventualmente a síntese desta visão ternurenta desse sentimento juvenil que começa a emergir. Era algo que no fim dos anos 80, ainda não tinha propriamente uma "voz", e eu acho que, de certa forma, aquela canção é uma síntese desse mesmo processo.
Luís Represas teve rapidamente o reconhecimento da crítica e do público, mas também um reconhecimento institucional, tendo sido condecorado pelo então Presidente português Jorge Sampaio, em 2005. O que significa, para um artista, ter todo este reconhecimento?
Em termos da produção discográfica, aquela dupla do disco Baile no Bosque (1981) e Cais das Colinas (1983) foram eventualmente os primeiros grandes sucessos com grande impacto público. A canção Saudade é um belíssimo exemplo desse período.
E gostava também de lembrar que já o disco Trovante 84 (1984), com os "caravelas" (Xácara das Bruxas Dançando) é um disco de enormíssimo impacto público.
Esse reconhecimento, diria que começa em crescendo no início dos anos 80, obviamente que depois a condecoração é sempre um momento alto em qualquer biografia: é uma espécie de tributo do Estado a reconhecer o peso e o trabalho daquele criador.
Obviamente que não só é um elemento fundamental para a biografia de quem é condecorado, como se torna um marco no contexto da música ou de qualquer produção artística em que é o Estado, todos nós, a reconhecermos que aquela pessoa se distingue na sua produção.
É um marco para os dois lados, para quem atribui a condecoração – todos nós, por via do Presidente da República – e de quem recebe, neste caso o Luís Represas.
O que eu propunha era ouvirem as músicas, toda a carreira do grupo Trovante e do Luís Represas, que isso é que de facto é a grande memória e que nós podemos deixar a um músico, não é? É continuar a ouvir as músicas deles.
Luís Represas deixou perto de cinco décadas de um vasto legado à música portuguesa, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, marcados para Abril de 2027.