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  • Economista guineense Carlos Lopes publica livro com escritos de Cabral-agrónomo

    "To Defend the Earth is to Defend the Human" - "Defender a terra, é defender o ser humano", este era um dos lemas do pai da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, Amílcar Cabral, e este é também o título do livro que compila os seus escritos em matéria de agronomia, que acaba de ser lançado no mês passado com tradução em inglês na África do Sul.

    A obra organizada pelo economista guineense e professor na Universidade da Cidade do Cabo, Carlos Lopes, juntamente com dois outros académicos ligados à mesma instituição, o antropólogo moçambicano, Anselmo Matusse, e a especialista sul-africana em políticas ambientais, Lesley Green, oferece um rosto relativamente desconhecido do revolucionário assassinado no começo do ano de 1973, sem chegar a ver os seus dois países, a Guiné-Bissau e Cabo Verde definitivamente livres.

    Amílcar Cabral é sobretudo conhecido como o ideólogo brilhante do combate contra o colonialismo português e também por um sistema de pensamento extremamente coerente que abrangeu a economia, a educação, a cultura ou ainda a emancipação das mulheres. Cabral, todavia, começou por ser engenheiro agrónomo.

    Jovem estudante em Portugal, ele fez a sua tese de final de curso em 1951 sobre a erosão dos solos no Alentejo e dedicou o texto "aos trabalhadores da terra dos latifúndios, homens de vida incerta que a erosão ameaça".

    "Defender a terra, é defender o ser humano", dizia ele na tese em que descrevia não só a erosão daquele território, mas também falava das condições de vida dos camponeses e da opressão em que viviam. Nas palavras dele, a agronomia saiu dos aspectos técnicos e ganhou uma dimensão societal e também ambiental.

    Nos livros e artigos que escreveu depois sobre esta matéria, sempre com a erosão dos solos como fio condutor, Amílcar Cabral, emitiu ideias vanguardistas para época. Foi dos primeiros a vincar a necessidade de produzir de forma sustentável espécies adaptadas ao meio, a urgência de preservar o planeta, de fincar os pés no chão. Ele diria mais tarde aos seus companheiros de luta que "para mudar a realidade, é preciso conhecê-la primeiro".

    Foi sobre esta faceta de Amílcar Cabral que conversamos com o economista guineense Carlos Lopes, um dos três académicos que organizaram e traduziram as obras de Cabral agrónomo. Ele começa por explicar o que o levou a dar a conhecer este pensador ao público anglo-saxónico.

    RFI : O que os levou a organizar e traduzir para o inglês os escritos de Amílcar Cabral sobre agronomia?

    Carlos Lopes : A motivação principal para traduzir as obras principais de Amílcar Cabral na área da agronomia tem a ver com o facto de que ele, já naqueles anos 50, era um pioneiro na agricultura regenerativa, que agora está muito na moda por causa das mudanças climáticas. Portanto, ele antecipou um pouco os debates de hoje, fazendo até análises sobre a questão do género e agricultura, o papel das mulheres na agricultura. Também vários escritos estão relacionados com a questão da agro-ecologia, o respeito dos solos e como os solos são parte integrante do conjunto dos elementos que vão constituir uma sociedade sã. Nós podemos dizer que Amílcar Cabral era consistente entre os seus escritos políticos e os seus escritos na área da agronomia. Mas o que é interessante é que ele começou primeiro pela agronomia. A sua pesquisa nesta área era uma pesquisa reconhecida. Ele fazia-se publicar pelas revistas mais importantes do seu espaço na altura e, portanto, era um investigador com metodologia, com disciplina. E nós achamos que o público de língua inglesa precisava de saber não só que existia todo esse corpo de contribuições de Amílcar Cabral, mas, sobretudo, que tinha muito a ver com os debates de hoje. Portanto, nós fizemos uma análise detalhada das contribuições para poder trazer à luz o pioneirismo de Cabral.

    RFI : Como é que organizaram a obra?

    Carlos Lopes : Eu tinha participado em 1988, na compilação de todos os trabalhos que Amílcar Cabral na área da agronomia e publiquei-os quando era director do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa da Guiné-Bissau, em colaboração com o então Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa. Foi a primeira vez que os estudos agrários do Amílcar Cabral foram integralmente publicados, fazendo uma colecta de tudo o que tinha sido possível naquela altura encontrar. Acontece que esse volume muito valioso está um pouco esquecido. Está um pouco objecto de arquivo, mais do que propriamente de estudo. Só nós quisemos não necessariamente reproduzir o mesmo trabalho, mas seleccionar uma parte dos trabalhos que têm a ver com os debates contemporâneos de hoje. E, portanto, foi com a ajuda destes dois colegas que são especialistas da área da agricultura e da área dos solos, que nós finalmente conseguimos reunir as capacidades para poder fazer justiça à contribuição de Cabral.

    RFI : Relativamente aos escritos propriamente ditos de Amílcar Cabral sobre a área da agronomia. Um dos primeiros escritos é a tese de final de curso que ele faz a partir de uma experiência no Alentejo e é a primeira vez que ele vai falar, por exemplo, do fenómeno que vai ser uma constante na sua reflexão, que é a erosão do solo.

    Carlos Lopes : Exactamente. E é por isso que nós escolhemos como subtítulo a relação entre solo, sociedade e liberdade. E escolhemos como título principal do livro "Defender a Terra é defender os Humanos", que é uma frase do próprio Cabral. Os escritos estão de facto vocacionados para quatro países onde ele trabalhou na área da agricultura, começando pelo Alentejo, em Portugal, mas também a Guiné-Bissau, a sua ligação também a Cabo Verde e depois também os estudos que fez sobre Angola. Portanto, dá também uma ideia da universalidade do pensamento de Cabral, porque se adapta a várias realidades muito diferentes, desde uma realidade saheliana como Cabo Verde até, digamos, a uma realidade europeia, uma realidade de África Austral. Portanto, temos aqui uma demonstração de que a questão da erosão dos solos é uma constante do pensamento dele, porque tem a ver justamente com construir essa sociedade sã, por que lutava. Em filigrana, podemos ver já nos escritos de agronomia o pensamento político emergente do Cabral, que depois, mais tarde, vai ter, digamos, todo um reconhecimento como um filósofo, como alguém que contribuiu para a definição do africanismo, como alguém que teve a noção de como é que a cultura podia ser incluída numa luta de libertação nacional. Enfim, ideias muito sofisticadas que começam justamente nessa raiz.

    RFI : Ao dizer que defender a terra é defender o homem, no fundo ele também está a estabelecer um elo directo entre a preservação do solo, a preservação da terra e também a própria preservação do ser humano. Tem uma visão, digamos assim, abrangente do que é a área da agronomia. E não se trata só de questões técnicas, mas também societais.

    Carlos Lopes : Exacto. Hoje em dia está consolidada a ideia de que é preciso fazer resiliência e é preciso ter sustentabilidade. E a nossa noção de sustentabilidade é justamente a durabilidade das condições propícias para a regeneração. E esses elementos, quando nós os ligamos à agricultura, têm a ver directamente com a preservação dos solos. Tem a ver directamente com a ideia de que o solo é uma espécie de termómetro da sustentabilidade. E quer dizer, chegar a essas conclusões nos anos 50, quando praticamente ninguém se preocupava com mudanças climáticas, é conseguir ver que havia uma espécie de necessidade de encontrar ligações entre a produtividade agrícola, o desenvolvimento da agricultura, da economia, mas sempre com um respeito pela durabilidade, pela sustentabilidade. É de facto extraordinário e nós temos que ficar quase embasbacados com essa capacidade de antevisão que ele demonstra nos seus escritos e que agora estão reunidos neste livro.

    RFI : Ao longo dos livros e também artigos que ele escreveu sobre a questão, o que se vê também em filigrana é uma crítica ao colonialismo, na medida em que é um sistema em que se explora a terra de uma forma que é inadequada não só para a própria Terra como também para o próprio homem.

    Carlos Lopes : E temos justamente aí a conexão com o Cabral emergente do ponto de vista político, porque ele olha os ensinamentos técnicos que recebeu. Foi um brilhante aluno do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa e, ao mesmo tempo, era o activista que estava criando o movimento de africanização dos espíritos, ou seja, de uma reinterpretação da realidade africana e há uma compatibilidade total entre as duas vertentes do personagem que é um jovem na altura. Nós estamos a falar de um Cabral que está no final dos seus anos 20, princípio dos seus anos 30. É, portanto, muito jovem e tem esta noção de que uma coisa está ligada à outra.

    RFI : Como é que toda esta construção em torno da agronomia vai depois alicerçar a própria construção ideológica do revolucionário que ele foi?

    Carlos Lopes : Eu vejo mais ou menos duas dimensões que sobressaem. A primeira é de condenar a forma como as políticas, neste caso políticas coloniais para o meio agrícola, não tomam em conta os imperativos sociais. Portanto, está implícito na forma como a infra-estrutura não é feita adequadamente, como a preservação dos solos é desprezada, como o armazenamento não toma em consideração as condições climáticas, as questões de humidade, as questões dos vários fungos, etc. Tudo isso é analisado com o detalhe técnico. Mas enfim, podemos antever que está também ali uma crítica. E o segundo aspecto é a ideia que depois Cabral vai desenvolver no fundamento de que temos que partir das realidades e que, no fundo, é um debate que ele tem com os teóricos da sua geração, que são teóricos que querem adoptar chavões, querem adoptar ideologias que estão construídas à volta de grandes temas, como, por exemplo, a forma como deve ser feito o marxismo. E Cabral recusava um pouco essas etiquetas fáceis porque dizia que tem que se partir da realidade e, portanto, que as pessoas simples não lutam por ideias complexas e abstractas, mas sim para mudar e transformar as suas vidas.

    RFI : No começo da nossa conversa, disse que Amílcar Cabral, relativamente a tudo o que tem a ver com a área da agronomia, era um visionário e tem algo muito actual. No que é que ele é actual?

    Carlos Lopes : Hoje em dia nós temos a noção clara de que deve haver uma valorização de tudo o que nós chamamos de "biológico". No fundo, é uma agricultura regenerativa que não destrói e que permite a reprodução sem destruir. Isto está presente nos trabalhos de Amílcar Cabral, como está presente a questão climática, como está presente a questão da sustentabilidade, a questão de género. Portanto, no fundo, podemos dizer que Cabral é como um pai da agro-ecologia africana, sendo que a agro-ecologia hoje em dia é a forma como todos defendem que deve ser feita a agricultura. Estamos em presença de um indivíduo que nos anos 50 já dizia o mesmo. Acho que o facto de ter caído em esquecimento essa contribuição de Cabral e ter sido valorizado mais o homem político, é uma indicação de que os seus escritos não foram seguidos como deveriam. Mas as ideias às vezes têm formas mais abstractas de chegar ao consumo de cada um. E, portanto, acho que foi através dessa ideia de agro-ecologia que nós agora temos o debate que temos.

    RFI : Como é que avalia o estado da Terra neste momento, à luz daquilo que disse Cabral?

    Carlos Lopes : Nós temos uma deterioração muito grande dos solos africanos e muitas vezes, diz-se, e com razão, que a África tem 60% das terras aráveis não cultivadas do planeta. Portanto, tem as maiores reservas. Mas o que não se fala tanto é de que essas terras aráveis estão em degradação muito acelerada. É aquela parte da agricultura que é feita na África. É feita com métodos muito devastadores para o clima, como por exemplo, as queimadas ou todo o ataque as florestas, que é feito sem as necessárias precauções e de uma forma indiscriminada. E temos também uma deterioração no tipo de fertilizantes e outros produtos químicos que utilizam e todos os elementos que mostram que a terra não é sempre respeitada e, portanto, é um debate que não é novo, mas que continua.

    RFI : Numa altura em que nós estamos em plena crise devido àquilo que está a acontecer no Médio Oriente, fala-se muito da crise dos combustíveis, mas o que se fala menos  é da crise de tudo quanto é fertilizantes e adubos que também passam pelo estreito de Ormuz. Isto não será uma ocasião precisamente para reflectir sobre outra forma de praticar a agricultura?

    Carlos Lopes : Sem dúvida. E tal como com a energia. Quer dizer, nós estamos a ver a necessidade de uma transição, não tanto por razões apenas económicas que já eram conhecidas, mas também por razões da própria escassez e complexidade das cadeias globais e, portanto, a necessidade de ter uma certa autonomia torna-se imperativa. Na área da agricultura, há países como o Marrocos, como a Nigéria, que estão muito avançados na produção de fertilizantes e que estão, de facto, a dar a volta um pouco à esta dependência africana nesta matéria e que estão a tentar fazê-lo já com o respeito das regras climáticas que se impõem no mundo de hoje.

    20 min
  • Guiné-Bissau: Carta aberta denuncia situação de líder do PAIGC

    Dionísio Simões Pereira, irmão do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, actualmente sob residência vigiada na capital guineense, redigiu hoje uma carta aberta à comunidade nacional e internacional apelando à acção para pôr cobro ao actual estatuto do seu irmão. Em causa o facto de o antigo primeiro-ministro continuar privado de liberdade desde o golpe de Estado de Novembro do ano passado que interrompeu o processo eleitoral.

    Dionísio Simões Pereira, irmão de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, actualmente, em estatuto de residência vigiada em Bissau começa por se referir a quem é dirigida esta carta.

    A toda a comunidade internacional, mas partindo das autoridades do país, porque efectivamente nós estamos... Não só o Domingos [Simões Pereira] está privado de liberdade, como toda a família que lhe acompanha está condicionada, está limitada.

    Mas, pior do que isso, sem escrúpulos as pessoas colocadas para vigiar a movimentação nas proximidades da residência não adoptam a postura de civilidade, de, pelo menos respeito pelos direitos das pessoas. Portanto, é uma violação dos direitos a todos os níveis, com abusos que vão sendo cometidos à margem da lei.

    Fala em disparos de armas automáticas em dois dias diferentes.

    Pois, com o argumento de que terão sido incidentes involuntários. Mas não são actos de intimidação, de provocação que poderão ter consequências num dado momento. Quer dizer que ninguém deseja, mas isso pode ser a simulação de actos bárbaros e de crimes que poderão estar a ensaiar, a realizar.

    No entanto, como diz nesta carta, o seu irmão não foi formalmente acusado da prática de nenhum crime, não obstante ter sido ouvido pelo Tribunal Militar, não é ?

     

    Pois, porque ele está neste momento, por aquilo que foi dito na sequência da audiência, e de que, portanto, ele não está sendo acusado de absolutamente nada. E neste momento está sendo perseguido por golpistas. Quer dizer, condenou um golpe. Inventam um álibi. Criam figuras irrealistas, portanto, para serem constituídas bode expiatório. Mas o criminoso vem chamar o outro de criminoso, quando são eles os autores do golpe e que estão, digamos, a instrumentalizar todos os órgãos do país, tanto impedindo o funcionamento do Estado de Direito.

    E aqui se pode perguntar com que legitimidade é que poderão apontar o dedo a alguém que tão pouco esteve envolvido em algum acto de subversão à ordem constitucional?

    E, entretanto, eles que são autores, digamos, de interrupção de um processo eleitoral em que foram derrotados nas urnas. E o crime de Domingos terá sido o facto de ter levado o ex-presidente Umaro Sissoco Embaló à derrota, logo na primeira volta. Portanto um acto humilhante para alguém que estava a dar sinais de que detinha a vontade popular do seu lado, quando na verdade era o contrário.

     

    Portanto, no seu entender, estamos perante um "sequestro político e humano". Estou a citar a carta.

     

    Político e Humano com a conivência da comunidade internacional, a começar pela própria CEDEAO [Comunidade económica dos Estados da África ocidental] ! Que, pelo que se pode verificar neste momento é de que toda a ameaça tanto da aplicação de sanções não vale de nada. Da União Africana não vale de nada.

    E isto talvez com a justificativa, que se tem ouvido nos bastidores, com medo da perda da Guiné, porque já se perdeu três países que constituíram agora o novo bloco dos Estados do Sahel [AES, Aliança dos Estados do Sahel: Burkina Faso, Níger e Mali] e com medo da perda da Guiné [Bissau]. Então vai-se sacrificar o povo da Guiné [Bissau] e a liderança política do PAIGC.

    Portanto, neste momento, digamos que estamos a caminhar para uma saída extremamente perigosa, porque esta prática vigente neste momento no país dá legitimidade a qualquer cidadão para fazer recurso, também à força para a obtenção da liberdade ou o recurso à força para ascender ao poder.

    Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode fazer escola. E se isso fizer escola, todos vamos sofrer. Não será só o povo da Guiné [Bissau], mas a comunidade internacional terá também a sua quota parte de consequências.

     

     

    Portanto, diz que Domingos Simões Pereira está detido há já cerca de 150 dias. Como é que está? Que notícias é que tem dele?

    Não. Ele neste momento está a precisar de fazer os exames médicos. Portanto, por alguns sinais que vai tendo, entretanto, não consegue tão pouco chegar a quem possa dar a cara como a figura chave que lhe mantém nessa situação de privação total de liberdade.

    Não consegue fazer isso, nem no país, nem fora do país, porque tão pouco tem possibilidades de receber pessoas para recolha de amostras para alguma análise clínica.

    Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode descambar em outras práticas para se poder reverter a situação ou que ninguém deseja. Mas também não se poderá considerar que se vai ficar amorfo, parado, inerte, portanto, sem adoptar uma postura que permita reverter esta situação. É inadmissível e inaceitável esta violação dos direitos do cidadão Domingos Simões Pereira.

    Ele não é livre sequer de receber visitas ?

    Tão pouco e até de familiares, primos e a situação de irmãos a serem condicionados a uma situação de aberração total !

    De sublinhar que, nesta missiva, Dionísio Simões Pereira realça o facto de Fernando Dias da Costa ter sido o vencedor das eleições. O candidato que Domingos Simões Pereira acabou por apoiar por ter sido excluído da corrida eleitoral.

    A carta termina com o repto lançado à comunidade internacional e aos observadores das últimas eleições, apelando a que estes tomem posição acerca "da interrupção do processo democrático e da degradação do Estado de Direito". 

    7 min
  • Tiago Rodrigues: “É imperativo sonhar” e questionar o mundo a partir de Avignon

    A 80ª edição do Festival de Avignon decorre de 4 a 25 de Julho e tem, no cartaz, um enorme ponto de interrogação para destacar a importância de questionar o mundo através da arte. O tema acabou por surgir "de uma forma bastante livre", conta Tiago Rodrigues, o director do festival, que apresentou, esta quinta-feira, a programação no Théâtre du Rond-Point, em Paris. Foi aí que conversámos com o encenador e dramaturgo português sobre os nomes que preenchem uma edição em que, mais do que nunca, “é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia”.

    Tiago Rodrigues é o artista português que dirige um dos mais prestigiados festivais de teatro do mundo e que este ano cumpre a 80ª edição. Desta vez, a linha de força de Avignon está estampada no cartaz do evento: de um fundo amarelo solar sobressai um enorme ponto de interrogação. A força das dúvidas e dos questionamentos talvez seja a chave para entrar no espírito de Avignon, a cidade-teatro que abre portas para o mundo durante os dias do festival.

    Tiago Rodrigues assume que “o questionamento” acabou por se impor como um tema natural desta edição porque todos os espectáculos e eventos programados deixam no ar perguntas que são antídotos contra as “respostas simplistas” que “criam a violência” dos tempos que correm. O encenador e dramaturgo sublinha que juntar pessoas no mesmo espaço para fazerem perguntas através da arte “é uma coisa absolutamente essencial e cheia de futuro”. Talvez por isso o teatro é hoje ainda mais urgente e “claro que não está em vias de extinção”, avisa.

    Aos comandos do festival desde 2023 e reconduzido para um segundo mandato até 2030, Tiago Rodrigues alerta que “é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia”, exemplificando com o medo que o assola quando vê artistas como o libanês Ali Chahrour a viver sob bombardeamentos em Beirute.

    Mas vamos à programação do festival, que já divulgámos esta quarta-feira depois da apresentação no espaço La FabricA, em Avignon. Um dia depois, Tiago Rodrigues foi ao Théâtre du Rond-Point, em Paris, para a conferência de imprensa do lançamento desta edição e a RFI teve a oportunidade de falar com ele. Começámos por abordar os nomes lusófonos e o director do festival aponta, desde logo, a artista brasileira Carolina Bianchi como “a grande revelação nos últimos anos no teatro mundial”, lembrando que ela foi a grande aposta de Avignon em 2023 (o primeiro ano programado por Tiago Rodrigues). A encenadora, actriz e escritora vai estrear o terceiro capítulo da trilogia Cadela Força, três anos depois de ali ter apresentado o primeiro capítulo, “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, que ganhou o Leão de Prata da Bienal de Veneza. Por outro lado, haverá dois dias de maratona teatral de 10 horas em que as três peças poderão ser vistas de seguida: “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, “The Brotherhood” e “Uma Luz Cordial”.

    Sobre Christiane Jatahy e Wagner Moura, que vão apresentar "Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo", Tiago Rodrigues lembra que “Christiane Jatahy é uma artista muito amada pelo público do festival” e que, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, “neste momento, o actor brasileiro mais conhecido no mundo” e que regressa ao teatro 16 anos depois “com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de actor”.

    Este ano acabam por ser poucos os artistas lusófonos, mas fica a promessa que, depois de portugueses, cabo-verdianos e brasileiros terem estado em edições anteriores, “os artistas moçambicanos, angolanos e guineenses” também poderão vir a ter o seu palco em Avignon.

    Continuando o seu projecto de convidar línguas para o festival, Tiago Rodrigues justifica a escolha do coreano como “uma vontade de viajar até longe”, depois do inglês, espanhol e árabe que são mais próximas do público francês e internacional. Daí que um quarto da programação seja constituída por artistas da Coreia do Sul e uma das convidadas de honra, que inspira dois espectáculos, é a Nobel da Literatura Han Kang. De resto, mais de metade dos projectos são dominados por artistas mulheres com “propostas absolutamente extraordinárias”.

    Fique, agora, com a entrevista em que o director do Festival de Avignon se mostra ainda muito “preocupado com o que está a acontecer em Portugal, nomeadamente em Lisboa”, algo que descreveu como “uma espécie de cerco à liberdade de criação” e “um grande abandono da verdadeira democratização” do acesso às artes e à criação.

    RFI: Na apresentação da programação, falou na vontade de que o festival seja uma “festa de questionamentos” e o cartaz apresenta um grande ponto de interrogação. Quais são as linhas de força que cosem as entrelinhas desta edição e até que ponto o questionamento é uma delas?

    Tiago Rodrigues: “O questionamento foi uma forma bastante livre de darmos um tema a este festival, de relembrarmos ao público que este festival - que faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo - ao chegar à octogésima edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, perguntar o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival, mas também dizer que hoje, quando defendemos a importância das artes, do teatro, da dança na vida das pessoas, muitas vezes dão-nos a entender que estamos a defender qualquer coisa que está em vias de extinção ou qualquer coisa que é antiga e que estamos a tentar ainda fazer sobreviver não se sabe bem porquê, quando o que nós defendemos é uma coisa absolutamente essencial e cheia de futuro, que é a possibilidade de nos reunirmos em sociedade, pessoas juntas fisicamente no mesmo espaço para fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte. E é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos a nós, os artistas, mas também ao público, que é isso que nós fazemos aqui. Num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas, nós queremos colocar as boas perguntas. Perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência. Eu acho que as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que duplica a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita, esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos.”

    Há três artistas brasileiros em destaque nesta edição: Carolina Bianchi, Christiane Jatahy e Wagner Moura. Comecemos por Carolina Bianchi, que foi revelada no primeiro ano de Tiago Rodrigues à frente do Festival de Avignon, em 2023. O que nos traz Carolina Bianchi?

    “Carolina Bianchi foi uma aposta do festival em 2023, na primeira edição que eu programei, porque acreditava que seria um grande acontecimento para o teatro europeu e mundial descobrir o trabalho de Carolina Bianchi que era um trabalho que estava muito discretamente escondido na cidade de São Paulo, que não rodava muito, que não era muito conhecido mesmo no Brasil. Tivemos a oportunidade de a desafiar a começar um projecto, uma trilogia. Ela sonhava fazer uma trilogia com três espectáculos consagrados à questão da violência e, sobretudo, a violência sobre as mulheres. O primeiro episódio é consagrado a essa violência na história da arte e na performance. O segundo no teatro e o terceiro na literatura mas como também a escrita pode ser uma forma de libertação, de emancipação. Ao ouvir essa ideia, dissemos imediatamente: ‘Vem fazer o primeiro espectáculo no Festival de Avignon’. O que aconteceu a seguir é do conhecimento geral. Carolina Bianchi, depois desse espectáculo, ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival. Criou o segundo capítulo entretanto, “Brotherhood”, e nós tínhamos combinado desde há muito que ela encerraria esta trilogia de novo em Avignon. A grande sorte que temos é que encerra com um espectáculo que será absolutamente fenomenal, “Uma Luz Cordial”, mas também conseguimos preparar, pela primeira vez, a hipótese de ver a trilogia seguida. São dez horas de teatro, uma grande aventura que tem ocupado esta artista durante quase cinco ou seis anos da sua vida e vamos poder ver não só a estreia mundial do último capítulo da trilogia, mas também, pela primeira vez, toda a trilogia seguida no Festival de Avignon, com cerca de 20 intérpretes brasileiros liderados por esta grande artista. É uma grande revelação dos últimos anos no teatro mundial.”

    E em relação a Christiane Jatahy, que já esteve em Avignon, e Wagner Moura, o que é que eles trazem ao festival?

    “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos, com as suas adaptações de repertório e desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica, televisiva, neste momento é, sobretudo, talvez o actor brasileiro mais conhecido no mundo com a nomeação ao Oscar, com o Globo de Ouro que ganhou e com a Palma de Ouro em Cannes que ganhou pelo filme “O Agente Secreto”. E é muito comovente ver Wagner Moura regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de actor. Aqui, Christiane Jatahy e Wagner Moura escreveram juntos, inspiraram-se do “Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, autor norueguês, e pegando na história do “Inimigo do Povo”, onde o protagonista acabou de anunciar que as águas de uma vila termal estão contaminadas e, portanto, ao salvar a saúde das pessoas, condenou economicamente essa cidade, ele é acusado de ser inimigo do povo. O que vemos nesta peça é que imediatamente a seguir a esta história há um julgamento e nesse julgamento há vários testemunhos, nomeadamente o do Dr. Stockmann, interpretado por Wagner Moura e escrito por Wagner Moura com Christiane Jatahy, que defende que não é inimigo do povo, pelo contrário, enquanto outros defendem que ele é inimigo do povo. Será o público a decidir o resultado deste julgamento e o espectáculo tem dois finais em função da decisão do público.”

    Em termos de lusofonia, não há muitos mais nomes lusófonos. Porquê?

    “Porque o Festival de Avignon é uma página em branco onde nós tentamos responder às mesmas questões com respostas diferentes todos os anos. Evidentemente, a língua portuguesa, nem que seja pela minha presença na direcção do festival, tem estado mais presente do que no passado na história do Festival de Avignon, com artistas portugueses, cabo-verdianos e brasileiros também. Este ano, a presença da língua portuguesa está defendida por duas grandes artistas brasileiras e no futuro voltará a estar defendida por, não sei, artistas angolanos, moçambicanos, guineenses, porque não? Portanto, a língua portuguesa tem essa riqueza de poder ter artistas, nomeadamente no teatro e na dança, que merecem ser descobertos e mostrados no Festival de Avignon. Certamente que a cena lusófona - e não só lusófona, também a cena especificamente portuguesa - continuará a ter presença no Festival de Avignon. Este ano não tem, porque nem todos os países podem estar todos os anos no festival.

    Há países, por exemplo, como a Coreia do Sul, que, através do convite à língua coreana como língua convidada, este ano regressa ao Festival de Avignon depois de 25 anos de ausência. Há 25 anos que não havia um artista coreano no festival. O mundo é grande, o festival também é muito grande, mas não é tão grande como o mundo. E, portanto, embora gostássemos de fazer um festival que tivesse artistas de todos os países do mundo todos os verões, esse sonho terá que ficar para mais tarde. Por agora, queremos ter todos os artistas do mundo, mas um festival de cada vez.”

    Até porque o Tiago Rodrigues foi reconduzido até 2030 na direcção do festival, não é?

    “Tenho a grande sorte de ter sido reconduzido para um segundo mandato que começará após este festival. Este é o meu último festival do primeiro mandato, mas estou já a preparar os próximos quatro festivais até 2030. Sem dúvida que até 2030 não faltarão artistas de língua portuguesa.”

    O que é que o incitou a convidar a língua coreana?

    “A vontade de viajar até longe esteve na origem deste convite à língua coreana. É a quarta língua que convidamos para o Festival de Avignon. Começámos com o inglês, depois com o espanhol, duas línguas globais, mas de origem europeia. A terceira língua foi o árabe, uma língua de origem não europeia, mas muito presente na Europa e muito presente na França, aliás, onde é a segunda língua mais falada. Portanto, estas três línguas, por serem globais e também, por uma certa proximidade, por serem línguas que nos dizem coisas quando somos público do Festival de Avignon, que é um público maioritariamente francês, e o internacional, maioritariamente europeu, merecia ser provocado pela distância. Então, começámos a procurar as línguas asiáticas, que poderia ser interessante de propor e percebemos que a língua coreana, sendo uma língua que só é falada numa península, é também uma espécie de soft power através do K-pop, da música popular, através do K-drama, das séries televisivas coreanas que são muito populares no mundo inteiro.”

    Da Prémio Nobel da Literatura...

    “Da Prémio Nobel da Literatura. Mas por trás dessa presença global, há um grande desconhecimento, por exemplo, do teatro e da dança da Coreia. Portanto, fomos pesquisar, fomos muitas vezes à Coreia do Sul, a várias cidades, descobrimos muitos artistas e compusemos aquilo que corresponde a um quarto da programação do festival, com artistas coreanos. Há muito teatro, muito teatro documentário, muita dança, muitas formas tradicionais como o pansori ou outras formas populares de circo, de música, de teatro, de dança, mas actualizadas com uma leitura contemporânea. E também a literatura porque Han Kang [Prémio Nobel da Literatura] estará no Festival de Avignon, será uma das figuras centrais do festival. Haverá uma grande leitura de partes do seu romance, dirigida por Julie Deliquet, pela actriz Isabelle Huppert e pela actriz coreana Hyeyoung Lee, que juntas lerão, em francês e coreano, partes do romance de Han Kang em presença da própria Han Kang. Haverá espectáculos que adaptam outros romances de Han Kang. E haverá também encontros e entrevistas públicas com a Prémio Nobel e ela será uma das grandes presenças da língua convidada.”

    Há um nome lusodescendente de uma grande percussionista da cena electro-pop francesa, Lucie Antunes, que vem com Mathilde Monnier, uma presença conhecida em Avignon. São duas mulheres fortes, guerreiras, como o nome de um dos álbuns de Lucie Antunes. Também está programada Rébecca Chaillon, que faz espectáculos muito fortes. Nesta edição há mais mulheres a dirigirem projectos do que homens. Qual é a mensagem subjacente?

    “É a mensagem natural de que não é difícil fazer uma programação que eu considero de grande, grande, grande qualidade, tendo uma grande maioria de mulheres à frente dos projectos. Não queremos passar outra mensagem que aquela de dizer que deveria ser perfeitamente normal haver muitas programações em muitos festivais do mundo onde há uma maioria de mulheres, porque há enormemente artistas mulheres que fazem projectos absolutamente extraordinários. A mensagem termina aí e depois as conclusões são tiradas pelas pessoas. Foi sem esforço que chegámos a uma programação maioritariamente feminina e por pura paixão pelo trabalho proposto por estas artistas. Quando fomos fazer as contas no final, porque gostamos sempre de poder perceber até que ponto é que estamos a respeitar a nossa vontade de paridade, percebemos que estávamos muito para lá da paridade. E ainda bem que sim, porque artistas como por exemplo Lucie Antunes e Mathilde Monnier, que vão colaborar nesse espectáculo “Silence”, são grandes artistas. Uma vem pela primeira vez ao Festival de Avignon, a Lucie, a Mathilde Monnier é a artista - depois do fundador do festival Jean Vilar - que mais vezes se apresentou no Festival de Avignon. Mas temos também toda uma geração de grandes encenadoras francesas, como Rébecca Chaillon, Jeanne Candel, Marion Siéfert, Tiphaine Raffier, que vêm marcar presença no festival e mostrar como uma boa parte da pujança, da qualidade e da diversidade do teatro francês passa pelas encenadoras.”

    No seu primeiro ano na direcção do Festival de Avignon, em 2023, disse-nos que quando se vem a Avignon pela primeira vez, sai-se transformado. Que utopias ainda faltam cumprir em Avignon? No mundo tão complicado em que vivemos hoje, ainda é possível sonhar?

    “Não só é possível, como é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia. Eu hoje, nesta apresentação, pude mencionar o choque com que vi as mensagens expressas por Ali Chahrour, um artista libanêsa que esteve o ano passado presente no festival e que está neste momento em Beirute sob bombardeamentos, e pude exprimir a minha perplexidade, o meu medo, o meu choque e, ao mesmo tempo, perante isto, é absolutamente imperativo sonhar e concretizar os sonhos. E propor sonhar a outros. É por isso que nós falamos desta ideia de questões no festival. Questões podiam ser aqui um sinónimo de sonho.

    No Festival de Avignon eu diria que há ainda muitas coisas que eu gostaria de conseguir fazer até 2030. A batalha essencial, que é aquela que dá sentido ao facto de acompanharmos a criação artística, de defendermos a liberdade artística, de procurarmos meios para os artistas poderem trabalhar, é de conseguir completar, aperfeiçoar, prolongar a aventura do acesso democrático às artes. A democratização do acesso à criação continua a ser a enorme aventura não só em Avignon, mas no mundo inteiro e, porque estou a falar em português, em Portugal. A mim preocupa-me muito o que está a acontecer em Portugal, em muitas cidades, nomeadamente em Lisboa, onde é completamente inesperado o que é uma espécie de cerco à liberdade de criação, ingerências políticas, mas também um grande abandono da verdadeira democratização. O acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso. Se fosse fácil, não era um serviço público. A cultura é um serviço público porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar.”

    16 min
  • Dois anos na RCA: Joseph Figueira Martin regressa a Portugal após pressão diplomática

    O investigador luso-belga Joseph Figueira Martin foi libertado na terça-feira, 7 de Abril, após quase dois anos de detenção na República Centro-Africana, na sequência de uma mediação diplomática liderada por Portugal com o apoio da Bélgica e de instituições europeias. O caso, marcado por acusações contestadas e condições de detenção severas, termina com um desfecho humanitário, embora persistam dúvidas sobre os contornos da detenção.

    A libertação de Joseph Figueira Martin, detido desde Maio de 2024 na República Centro-Africana (RCA), foi anunciada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, numa comunicação que classificou como uma “batalha difícil” de quase dois anos.

    O chefe da diplomacia portuguesa destacou o esforço concertado de várias instituições nacionais e internacionais: “Houve aqui um trabalho conjunto muito grande. Isto deve-se ao esforço de todos os órgãos de soberania, dos serviços diplomáticos, das Forças Armadas e também das autoridades belgas, que trabalharam connosco em estreita cooperação.”

    Paulo Rangel sublinhou, ainda, a relevância das condições humanitárias na decisão final: “A situação humanitária era de facto muito difícil. As condições de detenção eram extremamente duras. Foi essa a razão pela qual lhe foi concedida uma medida de clemência.” Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português, foram realizadas “várias missões discretas” com o objectivo de garantir a libertação do investigador.

    Joseph Figueira Martin tinha sido capturado no sudeste da RCA por forças associadas ao grupo Wagner, permaneceu detido em Bangui durante mais de 22 meses, incluindo em instalações descritas como severas. Em Novembro de 2025, foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados por alegados crimes contra a segurança do Estado,  acusações sempre rejeitadas pela família.

    O eurodeputado socialista português Francisco Assis saudou o desfecho, destacando o papel da diplomacia portuguesa e das instituições europeias: “Foram feitas várias diligências, sobretudo pelos governos de Portugal e da Bélgica. Essa acção diplomática bem-sucedida permitiu alcançar este resultado, que nos deixa profundamente satisfeitos.”

    Francisco Assis considerou que o Parlamento Europeu actuou de forma adequada: “O Parlamento Europeu fez o que tinha que fazer, pugnou pelo respeito pelos direitos humanos e pela defesa dos cidadãos europeus. Agiu de forma responsável e correcta.”

    O eurodeputado português salientou, ainda, o carácter humanitário da decisão das autoridades centro-africanas: “Houve uma atitude de clemência que saudamos. Este é o momento para celebrar a libertação, não para fazer outras avaliações.”

    A decisão de libertar o antropólogo aconteceu depois da tomada de posse do Presidente da RCA para um novo e terceiro mandato, o que, segundo Paulo Rangel, poderá ter facilitado o gesto, embora enquadrado num compromisso previamente assumido de considerar razões humanitárias após o encerramento do processo judicial.

    O caso mobilizou a União Europeia, levantando preocupações quanto à segurança de cidadãos europeus em regiões instáveis e ao papel crescente de actores externos, como a Rússia, na região. Ainda assim, Francisco Assis relativizou leituras geopolíticas mais amplas: “Este caso é um caso em si mesmo. É positivo quando razões humanitárias prevalecem.”

    Joseph Figueira Martin encontra-se actualmente sob observação no hospital militar em Lisboa, depois de ter regressado a Portugal a bordo de um avião militar. Apesar do desfecho, permanecem por esclarecer as razões exactas da sua detenção e os termos concretos do acordo que conduziu à sua libertação, num processo que expôs fragilidades mas também a capacidade de resposta diplomática europeia.

    9 min
  • Tico Tico lamenta: “Um escândalo que afecta a imagem do futebol africano”

    Marrocos foi declarado vencedor da Taça das Nações Africanas (CAN) esta terça-feira, 18 de Março, pela Confederação Africana de Futebol (CAF). Uma vitória na secretaria, dois meses após uma final caótica em que o Senegal venceu em campo por 1-0 (após prolongamento), mas abandonou o relvado durante cerca de 15 minutos em protesto contra um penálti assinalado a favor de Marrocos, já em período de compensação. Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano.

    “O júri de recurso da Confederação Africana de Futebol decidiu, ao abrigo do artigo 84.º do regulamento da Taça das Nações Africanas, declarar a equipa nacional do Senegal como derrotada durante a final da CAN, com o resultado a ser homologado por 3-0 a favor da Federação Real Marroquina de Futebol", anunciou a CAF em comunicado.

    O Senegal tinha vencido a partida graças a um golo de Pape Gueye no prolongamento. Antes disso, Brahim Díaz, de Marrocos, falhou um penálti nos últimos segundos do tempo regulamentar. O lance só aconteceu após uma espera de mais de 15 minutos, já que os jogadores senegaleses tinham abandonado o campo em protesto. Sadio Mané acabou por convencer os colegas a regressar ao relvado para retomar o jogo.

    Inicialmente, o júri disciplinar da CAF tinha rejeitado, no final de Janeiro, o recurso apresentado pela Federação Real Marroquina de Futebol. Porém, esta terça-feira, o júri de recurso anulou a decisão inicial e deu razão ao Marrocos.

    Com esta decisão administrativa, Marrocos conquista a sua segunda CAN, meio século após o primeiro título. O país, que foi anfitrião da competição, afirmou num comunicado que “a sua iniciativa nunca teve como objectivo contestar o mérito desportivo das equipas envolvidas, mas apenas exigir o cumprimento do regulamento da competição”.

    A Federação Senegalesa de Futebol qualificou a decisão de "visceralmente injusta” e anunciou, esta quarta-feira, 18 de Março, que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto.

    "A Federação Senegalesa de Futebol denuncia uma decisão iníqua, sem precedentes e inaceitável, que lança descrédito sobre o futebol africano", acrescentando que "para a defesa dos seus direitos e dos interesses do futebol senegalês, a Federação irá, com a maior brevidade possível, interpor um recurso junto do Tribunal Arbitral do Desporto, em Lausanne".

    O Governo do Senegal, por seu lado, exigiu esta quarta-feira a abertura de uma “investigação internacional independente por suspeitas de corrupção nas instâncias dirigentes da Confederação Africana de Futebol”, classificando a decisão como “de uma gravidade excepcional” e “grosseiramente ilegal”. 

    Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano. “Já passaram dois meses e todo o mundo já se tinha completamente esquecido disso. E agora surge essa notícia. É um bocadinho surpreendente”.

    Mais do que o conteúdo da decisão, é o momento em que surge que levanta maiores reservas ao antigo internacional. Na sua leitura, caso a CAF entendesse que houve violação do regulamento por parte do Senegal, a consequência deveria ter sido imediata e não retroactiva: “Se a lei não foi cumprida, então tinha que se declarar o vencedor na hora. Não faz sentido continuar o jogo, o Senegal ganhar, festejar, receber o troféu e dois meses depois, aparecer esta sentença. Não cai bem.”

    Para Tico Tico a polémica agrava a imagem de uma final que já tinha ficado marcada por incidentes e contestação. “Já a própria final, por causa dos escândalos que aconteceram, tinha posto uma mancha na imagem da CAN. Agora isto vem manchar ainda mais. Não nos orgulha em nada como africanos”, lamentou, defendendo que o episódio prejudica não apenas a competição, mas a percepção global do futebol africano. Nesse sentido, considera que o caso dificilmente ficará encerrado com esta decisão, até porque a Federação Senegalesa já anunciou que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto: “É um caso que agora se abre e que pode levar o seu tempo. Não vai terminar tão cedo.”

    Do ponto de vista dos protagonistas, Tico Tico distingue entre o impacto institucional e a vivência dos jogadores. Embora reconheça o investimento significativo feito por Marrocos no desenvolvimento do futebol e na organização de grandes competições, questiona o valor simbólico de um título conquistado fora das quatro linhas: “Os jogadores marroquinos sabem exactamente: perderam um jogo no campo. Receber na secretaria não é orgulho nenhum”, porém o futebolista moçambicano avança que, ainda assim, para a federação o troféu terá peso e ficará registado na história.

    O antigo internacional alerta também para as consequências mais amplas do caso, tanto na reputação externa como na relação entre países africanos. Na sua perspectiva, a decisão pode reforçar percepções negativas sobre o futebol do continente e até afectar a imagem de Marrocos, que se prepara para organizar o Mundial de 2030: “Penso que a imagem de Marrocos já ficou um bocadinho afectada, pelo menos em África. Este escândalo só vai piorar a sua posição em relação aos outros africanos”, considerou, sublinhando que o desfecho do processo será determinante para avaliar o verdadeiro impacto.

    Tico Tico chama ainda atenção para o efeito pedagógico de decisões que contrariam o que aconteceu em campo, sobretudo junto das gerações mais jovens. “As pessoas viram um Senegal vencedor. Quando depois aparece uma decisão destas, independentemente das leis, ficam desiludidas. Estas decisões nos escritórios são sempre complicadas”, afirmou, defendendo que a CAF terá agora de apresentar uma explicação clara e convincente para tentar recuperar a confiança: “Espero que a CAF se explique, porque neste momento ninguém acredita.”

    9 min
  • História do “Cinema Português em Revolução” publicada em França

    O cinema português do pós-25 de Abril também fez a sua revolução política e estética, enquanto retratava o momento histórico que se vivia em Portugal depois de 48 anos de ditadura. O espírito e os bastidores desse “ideal colectivo do cinema português” foi estudado pelo historiador de cinema Mickaël Robert-Gonçalves que agora publica, em França, o livro "Cinéma Portugais en Révolution : 1974-1982". A RFI falou com o autor no lançamento da obra, a 13 de Março, em Paris.

    Mickaël Robert-Gonçalves começa por contar à RFI que “o livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema”, mas também aborda “um estudo estético dos filmes” e “uma reflexão” sobre o percurso dos filmes e o seu contacto com o público.

    O que foi, afinal, este “cinema português em revolução” e o que levou Mickaël Robert-Gonçalves a fazer deste assunto o tema central da sua tese de doutoramento numa universidade francesa? A descoberta do filme Bom Povo Português (1981) de Rui Simões foi o ponto de partida para o investigador, que também se rendeu a Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder (1982) de Alberto Seixas Santos. Ambas as obras marcam, para ele, “o fim de um espírito sobre os filmes revolucionários” e “o fim, talvez, do ideal colectivo do cinema português”, o que também explica as datas do título do livro.

    Mickaël Robert-Gonçalves mergulhou, então, nessa “outra forma de fazer cinema” em Portugal, um cinema radical, na forma e no conteúdo, que abordou temas calados por 48 anos de ditadura e que retratou as lutas do Período Revolucionário em Curso, deixando-se simultaneamente absorver pelo próprio ímpeto revolucionário.

    A partir de Paris, o historiador lusodescendente agarrou num tema “ainda muito desconhecido” em Portugal e foi pesquisar esse cinema colaborativo que - conta - “questionou o lugar do autor e do poder no cinema” através, nomeadamente, de “uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário”.

    Na apresentação da obra, em Paris, Raquel Schefer, professora de cinema na universidade Sorbonne Nouvelle, resumiu o livro como “a mais importante sistematização do cinema revolucionário português até à data”.

    Oiça a entrevista com Mickaël Robert-Gonçalves neste programa.

    RFI: Do que fala este livro Cinéma Portugais en Révolution:1974-1982?

    Mickaël Robert-Gonçalves, Autor do livro Cinéma portugais en révolution : 1974-1982: “Este livro é uma espécie de síntese da minha tese de doutoramento que foi defendida em Paris 3-Sorbonne Nouvelle, em 2018. O livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e de como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema, na primeira parte. Na segunda parte é mais um livro sobre os filmes e como os filmes foram feitos durante a revolução, um estudo estético dos filmes. E, depois, é uma reflexão sobre o destino dos filmes, como foram projectados, como circularam nos festivais, nas salas de cinema, etc.”

    Como é que a revolução entrou e se manifestou no cinema português?

    “É um cinema interessante porque era um cinema que questionou, por exemplo, o lugar do autor no cinema, sendo que o cinema português é um cinema de autor, e no período revolucionário foi um cinema colaborativo, um cinema colectivo. Por isso, foi uma das primeiras maneiras de fazer um cinema diferente. Também foi um cinema que questionou as questões do poder no cinema mesmo porque houve uma tentativa de socialização da produção cinematográfica em Portugal durante a revolução, que durou mais ou menos dois anos, e havia uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e foi uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário.”

    Há dois filmes que estruturam o seu livro. Quais são e porquê a escolha destes dois?

    “O primeiro é ‘Bom Povo Português’ de Rui Simões, foi o primeiro filme que descobri sobre a revolução. É um dos filmes mais conhecidos sobre a revolução. Era um filme que sintetizava toda a revolução e, ao mesmo tempo, é um filme também muito poético e havia muitas imagens que eu queria descobrir e foi a minha maneira mais fácil e mais rica de entrar no período revolucionário. Este filme foi terminado no início dos anos 80.

    O segundo filme é ‘Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder’ de Alberto Seixas Santos. Este é um filme mais radical, um filme mais intelectual talvez, também foi um filme que foi difícil de acabar para a equipa do filme e só foi finalizado em 1982. Para mim, era já o fim de um período, de um espírito sobre os filmes revolucionários. Era também, talvez, o fim do ideal cooperativo, o ideal colectivo do cinema português. Acabou com ‘Gestos & Fragmentos’ e Bom Povo Português’.”

    Daí a escolha das datas 1974-1982?

    “Sim, para mim, era uma maneira poética ou filosófica de acabar a revolução com os filmes, não com o processo histórico, porque claro que a revolução acabou antes de 1982, mas houve mais influências e referências da revolução depois do fim da revolução. Então, para mim, era lógico acabar em 1982 com ‘Gestos & Fragmentos’”.

    Olhando para além de 1982, até que ponto hoje essa vaga revolucionária toca algum cinema português?

    “É uma questão complicada porque não sei se há mesmo um eco agora nos filmes contemporâneos. Há uma referência, por exemplo, nos filmes do Colectivo Terratreme e, por exemplo, acabei o meu livro com o filme ‘A Fábrica de Nada’. Para mim, no modelo de criação do filme, havia um eco do período revolucionário, mas não sei se é uma ligação voluntária ou se é qualquer coisa que os realizadores conscientizaram quando estavam a fazer este filme, espero que fosse uma espécie de referência e influência. Mas também é preciso conhecer este património cinematográfico dos anos 70 e não sei se isso está a ser ensinado nas escolas de cinema. É um período ainda muito desconhecido.”

    Quais são os temas que até então não tinham aparecido na história do cinema português e que aparecem nessa altura?

    “Há muitos, porque neste cinema militante havia muitos problemas que surgiram no período revolucionário, problemas que já existiam durante a ditadura, por exemplo, a questão do aborto, a questão da reforma agrária, a questão da organização dos trabalhadores, várias questões políticas e de sociedade, a questão do direito ao alojamento, a questão do hospital psiquiátrico, por exemplo. Foi um período onde era possível ter todos esse objectos de trabalho e foi um período decisivo.”

    Qual foi o papel das cooperativas de cineastas? Além de apagarem, entre aspas, o nome do autor, fizeram um trabalho colectivo que, muitas vezes, se associa a uma utopia colectiva e revolucionária…

    “Sim, mas como uma utopia, também é sempre difícil que isso fique no tempo. Foi uma experiência. Para os realizadores era uma maneira de experimentar, fazer um cinema diferente também e experimentar outras formas de fazer cinema. Depois, a figura do autor voltou em Portugal, então, só foi um período muito curto na história do cinema português.”

    Além de ser um cinema revolucionário nos temas, com temas que até então não tinham sido abordados, em termos formais, houve também uma radicalização das formas, algo novo?

    “Sim, houve uma radicalização das formas porque era um cinema que estava influenciado pelas formas de cinema político da Europa: o cinema político francês, o cinema militante que já havia na América Latina, por exemplo. Era possível porque havia uma revolução. Havia também formas de cinema mais antigas e, às vezes, menos valorizadas, porque já havia este tipo de cinema em França, em Itália, na América do Norte, mas não havia este tipo de cinema em Portugal. Então era uma descoberta e também foi uma maneira de experimentar este tipo de cinema em Portugal.”

    Além destes dois filmes que falou, que outros poderia recomendar às pessoas que querem descobrir este cinema revolucionário português?

    “Posso recomendar não os filmes, porque é difícil, mas as plataformas onde é possível ver esses filmes, como a RTP Arquivos onde podem encontrar os filmes do programa ‘Nome Mulher’ e ‘Ver e Pensar’ que é um outro programa. Também a plataforma da Real Ficção de Rui Simões, que é uma sociedade de produção portuguesa, e há uma possibilidade de ver os filmes do Grupo Zero: ‘A Lei da Terra’, ‘Gestos & Fragmentos’, ‘Assim começa uma cooperativa’, por exemplo, e os filmes da Cooperativa VirVer de Rui Simões que estão também na plataforma Real Ficção.”

    Na apresentação da obra, a historiadora de cinema Raquel Schefer disse que é uma obra que sistematiza e desmistifica a história do cinema revolucionário português, desidealizando a história das cooperativas de cineastas. Houve esse intuito?

    “Não sei. Acho que isso é a percepção da Raquel [Schefer], mas acho que talvez seja verdade porque talvez seja uma coisa que está ligada com o facto de que eu não vivi em Portugal, nasci aqui em França e tenho uma espécie de um olhar sobre Portugal que é um olhar um pouco estrangeirado sobre a História de Portugal. Então, talvez seja por isso que eu possa olhar para esta história e para estes filmes, talvez, com distância e uma maneira de analisar que permite essa sistematização e esse olhar específico que eu tenho no meu livro.”

    14 min
  • Senegal: Parlamento endurece repressão da homossexualidade

    O Parlamento do Senegal votou nesta quarta feira um endurecimento da legislação penalizando a homossexualidade. As penas passam de cinco a dez anos de cadeia e as multas passam para entre 2 a 10 milhões de francos CFA, contra 100000 a 1,5 milhões de francos CFA.

    Oumar Diallo, professor universitário e consultor político em Dacar, admite que alguns parceiros internacionais do país possam doravante exprimir a sua preocupação com o novo dispositivo legal senegalês.

    Acho que é possível que alguns parceiros internacionais, sobretudo a Europa, organizações internacionais, expressem preocupações ou críticas. Isso acho que é possível porque muitos deles colocam a questão dos direitos humanos no centro das suas políticas externas. Então, penso que isso pode ser uma preocupação dos parceiros.

    No entanto, não é certo que isso se traduza em verdadeiras represálias políticas ou económicas. Podemr ser inquietações, preocupações que podem levar o governo senegalês a fazer muita atenção na aplicação desta lei.

    Na maioria dos casos, o que acontece é sobretudo uma pressão diplomática ou declarações públicas. Porque hoje, por exemplo, se um líder político europeu ou ocidental apontar do dedo esta situação no Senegal, isso pode ser uma forma de pressão diplomática.

    Além disso, o Senegal também continua a ser considerado por muitos parceiros internacionais como um actor importante para a estabilidade da região da África Ocidental, o que tende a moderar eventuais reacções mais duras. Porque também o Senegal é um país que conta na África Ocidental.

    Já dissemos então que houve unanimidade dos deputados. A deputada Diaraye Ba dizia "Os homossexuais não hão-de respirar mais neste país. Os homossexuais nunca mais terão liberdade de expressão neste país." Porque é que, de repente, no Senegal se tornou tão importante legislar e reprimir ainda mais os homossexuais? Endurecer ainda mais o dispositivo legal que já penalizava os homossexuais? 

    Sim, como já disse que já penalizava, agora assistimos aqui a um endurecimento da legislação. Esse endurecimento deve ser entendido no contexto político e social do Senegal. Nós seguimos, nos últimos anos, vários movimentos religiosos e associações conservadores que têm exercido uma forte pressão sobre o poder político para reforçar a pressão sobre a homossexualidade.

    Ao mesmo tempo, muitos responsáveis políticos apresentam esta questão como uma forma também de defender valores culturais religiosos considerados centrais na sociedade senegalesa.

    Por isso, esta lei não surge de forma isolada. É uma lei que reflecte sobretudo uma dinâmica em que assistimos durante esses últimos anos: uma dinâmica interna, política e de sociedade... a sociedade também.

    A sociedade senegalesa está a meter uma pressão enorme sobre o poder político, onde questões de identidade cultural e de soberania, face às influências externas. Porque a sociedade senegalesa considera, por outro lado, que a questão da homossexualidade é um fenómeno que lhe é imposto pelo mundo ocidental.

    Então, isso vai frequentemente mobilizar debates políticos e societais. Por isso, pronto, esse endurecimento é, ao mesmo tempo, uma pressão da sociedade, do mundo, das associações religiosas conservadoras e também uma promessa.

    De associações muçulmanas, essencialmente porque o país é sobretudo muçulmano !

    Mas não temos esse problema de religião. Penso que talvez são associações, não é a religião muçulmana. O Senegal não começou em 2026, não é? Então há sempre essas associações. Ultimamente tiveram muita força na sociedade e começaram a influenciar as decisões políticas. Podemos dizer isso. Mas não é a questão de ser um país maioritariamente muçulmano.

    Como reagem as organizações de defesa dos homossexuais na lusofonia africana? Ouvimos a este respeito o Roberto Paulo, director executivo da Associação Moçambicana Lambda, que se diz chocado com esta revisão legislativa senegalesa.

     

    Estamos chocados. São daquelas situações que nunca imaginámos e que de repente podem acontecer. Porque, apesar dos pesares, o Senegal é uma grande metrópole aqui, ao nível da África e parecia-nos que, apesar dos desafios que sempre houve, havia alguma janela para o respeito pelos direitos humanos.

    Isto é uma grande preocupação. Deveria alarmar a comunidade internacional e a todos os seres humanos, porque estamos a falar de dignidade. Estamos a falar de respeito pelos direitos humanos. E como sabemos, os direitos humanos são unos, são indivisíveis e cada ser humano merece a dignidade, merece e deve ser respeitado como ser humano. Isto é preocupante e é triste.

    É um alerta no sentido de que estamos a ter estes movimentos contra direitos humanos cada vez mais enrobustecidos. Porque se houve esta votação por unanimidade, significa que houve algum trabalho anterior a isso.

    E seguramente que houve movimentos que estiveram por detrás deste trabalho preparatório que culminou com esta votação por unanimidade.

    E isso aumenta o nível de preocupação, porque não é razoável que num parlamento com vários deputados não haja pelo menos alguns deles com bom senso. E a percepção sobre o respeito pela igualdade, o respeito pela dignidade humana.

    Isto é um sinal extremamente preocupante e nós estamos a viver um momento muito difícil. Cada vez mais estamos a sentir que a questão dos direitos humanos, de um modo geral, e os direitos LGBT estão a ser combatidos.

    Estamos a assistir a programas que sempre existiram para a promoção dos direitos LGBT a serem terminados. Estamos num momento muito difícil e gostaríamos, sinceramente, de apelar à comunidade internacional para que repense sobre este rumo que a humanidade está a tomar, no sentido de assegurar que, mais uma vez, a dignidade humana seja respeitada.

     

    Mas acha então, que os parceiros internacionais do Senegal devem também tentar pesar no debate e eventualmente, ameaçar o Senegal com sanções, a propósito da aprovação deste dispositivo ?

     

    O que nós estamos a dizer: qual é o canal, qual é o caminho que vai ser usado para materializar isso? Bom, os acordos bilaterais, os estados ou governos têm as suas regras, mas o que nós, neste momento, estamos a exigir é que a questão do respeito pela dignidade da vida humana seja colocada em primeiro plano.

    E que encontrem as formas que se mostrarem as mais apropriadas. Mas é importante chamar à razão e apelar para que os políticos senegaleses coloquem em primeiro lugar a dignidade humana. E aí tudo aquilo que for necessário fazer para que esta pressão ocorra e os direitos humanos da comunidade LGBT sejam respeitados.

     

    9 min
  • Festival de cinema português "Olá Paris" contou com filme humorístico sobre a morte

    A segunda edição do festival de cinema português "Olá Paris" teve lugar de 6 a 8 de Março.

    Um leque de filmes incluindo várias ante estreias, caso de "Sonhar com leões" de Paolo Marinou Blanco.

    Uma doente em fim de vida acaba por conhecer um jovem, supostamente também em fase terminal, para tentarem conseguir por termo ao seu sofrimento.

    Um registo cheio de humor de um tema tão sério, misturando um valor muito consagrado do cinema brasileiro, Denise Fraga, com talentos portugueses e também espanhóis.

    O realizador Paolo Marinou Blanco começa por nos contar como decorreu a projecção neste certame parisiense.

    Foi super positivo. Realmente a reacção que tivemos não houve assim muitas perguntas. Acho que foi mais a nossa comunidade [de cineastas] que fez perguntas, mas depois, à saída, muitas pessoas claramente conectaram com o filme e foram afectadas pelo filme. Isso é sempre o que se procura.

    Um filme que vai pegar em coisas muito sérias, que são, por exemplo, a morte, e que ainda por cima acaba por meter Portugal, Espanha, o Brasil numa mesma aventura. Tem muito que ver com a eutanásia e o fim de vida. Qual foi o mote deste projecto?

    A origem foi uma experiência pessoal de vida que foi dolorosa e da minha família. Portanto, especificamente a morte do meu pai, mas também a crença que temos que abordar as coisas mais difíceis de uma maneira mais original ou inusitada, para que as pessoas ouçam de alguma maneira e para que baixem as defesas, e daí a escolha do humor como abordagem a este tema.

    O actor João Nunes Monteiro, que já colaborou com os cineastas lusos Miguel Gomes ou João Nunes Pinto, por exemplo, comenta como foi contracenar com a estrela do cinema brasileiro, que é Denise Fraga.

     

    Trabalhar com a Denise foi incrível. Não é todos os dias que podemos trabalhar com alguém que tem tanta experiência e que na verdade tem uma grande disponibilidade, porque a Denise basicamente pegou na minha mão e fez com que este trabalho fosse colaborativo.

    Na verdade, acho que desde nos ensaios. Acho que é uma postura que ela tem, que é muito admirável, que é muito fácil de admirar, porque na verdade é assim uma espécie de luz também para o que pode ser o meu caminho ou um possível caminho, não é?

    De como agir nas situações de trabalho, que é ter uma atitude muito colaborativa e de querer participar na construção com toda a nossa atenção, com potencializar das ideias, seja do realizador ou realizadora de Com tudo isso. E, portanto, foi um grande privilégio, na verdade, isso.

    Isso vai ficar marcado e também a humildade dela. Acho que isso é mesmo algo que fica. Não é realmente uma pessoa, nem sempre precisa de ficar segura naquilo que já conquistou, que na verdade é uma sensação muito clara na nossa profissão. Mas com a Denise fica ainda mais presente.

     

    O Paolo já fez referência ao facto de ser um drama pessoal que tem que ver com a morte e com a morte do pai. Você aqui trata e de que maneira, também deste tema, morte... Para se projectar e para a sua personagem, perguntar-lhe-ia em que medida é que, de facto, a morte lhe ocupa também a mente ?

     

    Parece-me. Estamos aqui num sitio, se calhar um pouco pantanoso, mas vamos a isso ! Eu acho que apesar de tudo, dançar com a idéia da morte, acho que até pode ser algo saudável. Acho que haver este sítio em que em que compreendemos que a morte é uma realidade, pelo menos que eu saiba, inevitável que vai acontecer... Tê -a presente e tê-la presente como uma possibilidade também de direito de ser eu a convocá la. Parece uma coisa saudável.

    Claro, não estou a fazer nenhum apelo a qualquer ideia suicida, mas saber que o fim, que o tormento, que o sofrimento. Na verdade, se formos a Shakespeare e Hamlet, está lá, também está lá. Nisto não é numa das leituras que se faz do pior. Não é, portanto, dançar com a ideia da morte? Para mim parece me saudável e é uma coisa que eu acho que faço e, portanto, é um tema muito, muito tentador e que na verdade eu acho que se sai quando se pensa na morte, quando se pensa naquilo que é. Eu acho que se sai mais fortalecido na nossa identidade.

     

    E como é que foi então? Como é que tem sido o percurso do filme a nível internacional? Já passaram também por outros festivais? Pode dar nos um pouco o eco do que o meu tem estado a ser acolhido?

    Sim, portanto. Já estreou em Tallin, na Estónia, no final de 2024 e desde então já teve no México, no Brasil, na Alemanha, no Reino Unido, até na Arábia Saudita. Mostraram o filme e a recepção tem sempre sido muito positiva. Sempre. Eu acho que há uma certa catarse. De alguma maneira, as pessoas de serem permitidas, de rir de uma coisa que obviamente assusta-lhes a elas e a nós todos. Portanto, acho que isso tem sido... E ao mesmo tempo serem induzidas a reflectir um pouco, mas de uma maneira não didática ou demasiado pesada. Portanto, acho que a recepção tem normalmente sido essa que é. Obrigado por me fazer pensar sobre isto desta maneira. E também nos cinemas, sobretudo no Brasil, mas também em Portugal. Foi distribuído Portugal, Brasil e Espanha e vai ser distribuído no México ano que vem, acho eu. Mas a recepção tem sido, sobretudo no Brasil, muito positiva. Também um pouco polémica às vezes, mas muito positiva, porque...

    O hilariante e o emocional acabam por se misturar com alguma frequência.

    Sim, concordo com essa frase, mas não é por causa disso que tem sido polémico.

    Os avanços legislativos... Você fazia referência aos avanços legislativos em Portugal, nomeadamente nesta área da eutanásia?

     

    Sim, mas em termos... No Brasil foi polémico porque houve, por causa desta questão do suicídio, ou seja, não diferenciar a questão do direito à morte em casos de doença terminal e o suicídio, que são duas questões completamente diferentes.

    Mas, portanto, no Brasil, às vezes havia um certo overlap dessas questões que tivemos que clarificar e isso causava uma certa polémica. Ao mesmo tempo, eu acho que isto toca em assuntos muito dolorosos e, portanto, mesmo se é através da comédia e há pessoas que aceitam isso e outras que rejeitam um pouco, que é natural, não é sem julgamento.

     

    É muito cinema português. Ao longo de dois dias e meio está a conseguir aproveitar também a sua estada cá em Paris para ver outras propostas das quais já ouvira falar, mas se calhar não tinha visto na integra.

    Exactamente. Exactamente. Tem sido fantástico nesse sentido. Portanto, vi dois filmes portugueses incríveis que estou muito feliz que eu vi e vou agora ver outro logo a seguir ao nosso, que estou muito entusiasmado. Vou ver. Portanto, é uma grande oportunidade.

    E você, conseguiu ver alguma coisa? Vai ver alguma coisa também?

    Não, ainda não consegui, mas queria só aproveitar para dizer que eu achava quando o Paolo me fez o convite para fazer o filme quando estávamos a rodar, que o filme ia ter um problema que era quando ele estreasse. Na verdade, a questão da morte medicamente assistida ia ser um projecto que entretanto já ia estar legalizado em Portugal.

    O que é verdade é que passado três anos isso não acontece. E é uma discussão que está cada vez mais longe e que temos até uma ideia de recuo em relação a isso. Portanto, há temas hoje em dia que parece que estão um bocadinho mais longe do que estavam de serem sequer debatidos no espaço público do que estavam há três anos atrás.

    Ou seja, as conquistas sociais não são adquiridas e muitas vezes, se calhar pode se recuar em relação a isso.

     

    Não são de todo. Podem sim recuar e podemos ver direitos que estavam garantidos, se calhar há 20 anos... Se pensarmos o casamento entre pessoas do mesmo género. O que está a acontecer agora é que mesmo estas pequenas lutas que levaram imenso tempo em Portugal, levaram anos e concordâncias muito difíceis de fazer, mas que se fizeram no Parlamento.

    Vemos que elas de repente são assim um bocadinho que varridas para debaixo do tapete, Passam. Isso é um bocadinho preocupante porque quero dizer que não é só o problema do recuo. Não é só esse fantasma que é presente, que está presente e que é possível.

    É também o não avanço. E às vezes ficamos muito assustados com o recuo, não é ? Com uma ideia que é presente de autocracia ou seja o que for, mas não podemos nos contentar com esse, com o recuo não aconteça. E também lutar um bocadinho pelo avanço.

     

    Instantâneos da reportagem da RFM no Festival Olá Paris Festival de Cinema Português em torno da antestreia do Sonhar com Leões, um filme de Paulo Marino Blanco com nomeadamente o actor João Nunes Monteiro. Foram eles que nos revelaram um pouco desta sua longa metragem.

    10 min
  • Israel: Padre católico cabo-verdiano tenta deixar Jerusalém

    Israel e o seu aliado americano desencadearam no sábado uma guerra contra o Irão.

    Desde então o território israelita é alvo, também, de ataques tanto por parte do Irão como da milícia xiita libanesa do Hezbollah.

    Uma instabilidade que leva à fuga de populações a partir do Estado hebreu.

    É o caso do clérigo cabo-verdiano Ricardo Monteiro que equaciona deixar Israel e Jerusalém quanto antes.

    O padre Ricardo Monteiro, da diocese cabo-verdiana do Mindelo chegou a Jerusalém há quatro meses para prosseguir os seus estudos.

    Com o desencadear da guerra israelo-americana contra o Irão e consequentes retaliações de Teerão, mas também da milícia xiita libanesa Hezbollah este clérigo católico admite que desde o fim de semana passado tudo mudou no terreno e, por ora, tenta deixar quanto antes esta região do mundo.

    Até aqui tudo mudou, realmente. Estávamos numa rotina. Não obstante o ambiente que já sabemos que é próprio desta zona de tensão. Mas sabíamos que qualquer hora e momento poderia começar uma guerra entre esses países. Porém, tudo mudou porque com as sirenes das 08h15 do sábado, tivemos que suspender todos as actividades ordinárias. No meu caso as aulas, e nos manter em casa vigilantes por causa do início da guerra.

    Porque de imediato se lançou as informações necessárias e se decretou o tempo de emergência e portanto se disse que a guerra tinha começado. Portanto, temos que tomar as devidas precauções. Pessoalmente, fiquei apreensivo e não sabia bem o que fazer, se tinha que me ausentar do país, se tinha que ficar. E assim as pessoas não sabiam o que fazer no momento. Entretanto, agora, com o andar do tempo, vemos que a guerra continua. Os ataques continuam quase a toda a hora. E realmente o aconselhável é que quem puder também sair dessa região que saia. E é, portanto, suspender as coisas porque não se sabe até quando.

    Gostaria de fazer. Gostaria de sair, pelo menos por uma fase. Daí, de Jerusalém, para ficar em porto seguro ?

    Sim, sim. Normalmente estou a tratar de tudo para que eu possa realmente ausentar e normalmente já está tudo tratado com a embaixada. Espero somente do dia e da hora para podermos sair do país.

    Porque o espaço aéreo continua encerrado. Portanto, se tiver de sair de Israel terá de ir, imagino, por via terrestre até o Egipto, até um território vizinho, não é?

    Exactamente. As duas possibilidades são Egipto ou Jordânia, que estão abertas ainda As fronteiras terrestres que se pode ser não se podem entrar, mas se pode sair para poder apanhar o voo, a partir desses países. Mas o mais provável neste momento é o Egipto. Vamos ver se tudo se orienta por este lado.

    Ouve-se falar muito de alertas devido a mísseis que podem vir a ser interceptados. As pessoas é suposto irem para abrigos. Como é que é o dia a dia então do refúgio? No caso destes muitos ataques e de estarem a tocar as sirenes?

    Exacto. Normalmente, quando há a aproximação de um míssil justamente aqui em Jerusalém, as sirenes tocam. Tu recebes de imediato uma mensagem de alerta no teu telemóvel para quem tem o número de Israel. E de imediato tens que estar atento. Normalmente na aplicação também de alerta, podes ver mais ou menos onde irá cair os restos do míssil interceptado. Portanto, algumas regiões, algumas casas mais oficiais se presume que têm bunkers já previstos. Ou também para a população também está dividida em zonas. Os bunkers estão já preparados. Eu até agora não tive nenhuma necessidade de recorrer a esta alternativa porque em nenhum momento restos de mísseis ou mesmo mísseis caíram perto ou na zona onde estou por causa da prevenção. Eu estou numa zona muito segura e, portanto, não tenho tido essa necessidade. Mas isto é tudo disponível, está tudo muito organizado. As autoridades municipais e temos todas as informações em caso de perigo; o que fazer?

    Os israelitas ou as pessoas que moram em Israel assistiram ao desencadear desta guerra? O que é que eles lhe dizem. Acha que as pessoas estão a apoiar de facto, as autoridades que decretaram a guerra contra o vizinho Irão ? Sendo que, por o terem feito a milícia xiita do Hezbollah a partir do Líbano, está atacar também Israel. Portanto, ao fim e ao cabo, Israel está a ser avisado por dois actores simultâneos.

    Sim, normalmente aqui em Israel temos essas duas partes, pessoas que apoiam e que são a favor destes ataques e pessoas também que não aceitam ou que são contra esses ataques. Vamos encontrar isso mesmo entre os hebreus mais ortodoxos. Existe sempre essa divisão. Aqueles que apoiam esta guerra, que apoiam, que acham justa esta intervenção, outros que nem por isso. Que acham que isso é um exagero, que estamos a criar conflito com outros países. Mas nesta região sempre é uma característica. Ao longo dos séculos, sempre. Esta zona foi uma zona de conflito e Israel já está habituado. E as pessoas aqui estão, vêm isso de forma natural. Como eles enfrentam essa crise, enquanto nós, que somos estrangeiros. Estamos um pouco espantados e procurando meios e estar sempre alerta. Eles não levam uma vida normal. Você tem que ir na rua. Você tem que fazer alguma coisa. Fazem porque já estão habituados.

    E estas fronteiras já desde o ano passado sabíamos desde aquele conflito de fronteira com o Líbano. Eu tive a oportunidade, no mês de dezembro, de visitar estas zonas perto do Líbano e da Síria. São zonas mesmo perigosas porque mesmo antes de esta guerra já existiam conflitos. O conflito nestas zonas é permanente e, portanto, são zonas que às vezes nós não damos conta. Mas está lá o conflito. E agora sim, com o contexto assim favorável, aproveitam sempre para intensificar e poder também atingir um ao outro. Porque esses dois países fazem fronteiras, não são amigos, não têm relações.

    Acha que a mesma perceção para muitos israelitas, que o inimigo, mesmo existencial, é o Irão e que, portanto, seria necessário de facto visar o Irão por o Irão pretender mesmo acabar com o Estado de Israel ?

    Na minha humilde opinião, é aquilo que eu fui ouvindo essa inimizade existir. Este perigo é algo que sempre é patente. Existe porque não são amigos, porém acreditamos. Muitos aqui já são mais esclarecidos. Sabem que por detrás desta razão, existem muitas outras razões a nível político, social, económico mesmo.

    E também agora nesta situação, porque sabemos que neste momento, daqui a pouco vamos entrar no tempo das eleições aqui em Israel. Tudo isso serve um pouco para apresentar um novo panorama e, portanto, acredito que há muita coisa por detrás. Só vindo aqui e conhecendo as realidades é que se pode compreender parcialmente essa história, porque é muita coisa complicada e sabemos que o Irão. Sim, é um perigo para Israel.

    E sabemos também que Israel não ama o Irão porque sempre Irão se posicionou contra o estado hebraico. Porém, as formas e os contornos que isso vai tomando é que reflecte mais a intenção do indivíduo que guia o país do que a intenção do povo que representa este país.

    Porque muitos sectores receiam de facto uma invasão terrestre do Líbano por parte de Israel, já que as autoridades do Líbano não conseguem de facto impedir que o Hezbollah continue a disparar mísseis contra Haifa, nomeadamente. Acho que aí em Israel as pessoas acham que enviar tropas para o Líbano poderá vir a acontecer ?

    Eu acredito que com o andar do tempo isso poderá acontecer, porque tem uma razão que eles alegam. Os hebreus alegam que é uma razão de base, que acho que é muito frágil, mas eles assumem essa posição porque biblicamente, a Terra prometida aos hebreus realmente vai para além da fronteira que Israel tem. Vai para além, vai até ao Líbano. Portanto, acreditam que esse território é deles, que foi usurpado e, portanto, vão usar sempre esse critério para o realizar. Mas é um critério frágil, porque, mesmo biblicamente estudando, vêmos que esse território nunca foi uniforme. Sempre houve conflitos aqui. Às vezes ia até um certo sítio, outras vezes não, dependendo dos líderes e, portanto, não é de todo sustentável. Porém, é o que eles querem mesmo alargar cada vez mais esse território.

    Entramos na lógica de "a galinha, o ovo. Quem é que chegou primeiro" ? Foram os palestinianos, foram os judeus ?

    Exactamente.

    É toda uma dinâmica bastante perigosa. Esteve aí quando havia ainda a questão do conflito, também na Faixa de Gaza. Nessa altura já era complicado aí a situação ?

    Sim, eu cheguei, já isto tinha acontecido, já tinha Faixa de Gaza. Eu cheguei em outubro do ano passado. Ainda estava quente porque nunca cessou os problemas na Faixa de Gaza até agora. Encontrámos militares naquela fronteira. Nós não podíamos acessar aquela terra aqui, por exemplo, o Patriarca de Jerusalém já lá foi, com todas as tratativas diplomáticas necessárias e sempre que ele traz notícias, um pouco devastadoras, porque realmente aquela zona quase que já não existe, está totalmente destruída. Continua a lançar aquilo que podemos dizer ofensivas aquele território. E eu quando cheguei, ainda encontrei isso. E ainda existe. Ainda é patente essa história, infelizmente. E o que tem? Porque enquanto existir o Hamas, enquanto existir esse poder, eles estarão sempre lá a defender aquelas fronteiras.

    E contra o Estado de Israel. Dizia que vai tentar de facto sair. Como é que equaciona o seu futuro? O senhor estava de facto a estudar. Precisaria de concluir os seus estudos, portanto imagino que precise prazo de voltar para aí, não é?

    Exactamente. Normalmente as aulas estão suspensas. A minha missão aqui é o estudo e também o contacto com as zonas bíblicas. Portanto, estando tudo suspendido por um tempo indeterminado e dado o risco que existe... Nós vivemos aqui normalmente, mas acredito que a iminência do perigo sempre está. Não sabemos onde é que esta guerra vai parar, Então eu pretendo ausentar me e reavaliar se no futuro próximo devo regressar para continuar; se num futuro mais longínquo, regressar quando estiver mais controladas e ver ? Porque aqui nessa zona, quem vem para aqui também tem que estar preparado para tudo isto. A instabilidade é permanente e eu acredito que terei que reavaliar e ver o que é mais importante neste momento, até para a minha caminhada como presbítero. Saber onde é que Deus quer que eu esteja para realizar a sua vontade.

    Está ligado a alguma diocese cabo verdiana ?

    Sou diocesano da Diocese de Mindelo, em Cabo Verde.

    É quarta feira, vai tentar sair nas próximas horas ?

    Talvez hoje já não dá, mas amanhã de certeza. Entre a tarde e depois de amanhã vamos ver. Eu farei de tudo. E também o pessoal diplomático aqui das embaixadas são muito susceptíveis de nos ajudar e de certeza terão já uma solução.

    Há embaixada cabo-verdiana aí ?

    Há consulado cabo-verdiano. Temos o consulado, mas sempre eu tento também através da Embaixada de Portugal, também.

    12 min
  • Ucranianos pedem "paz justa" para o fim da invasão da Rússia

    A Ucrânia foi invadida há quatro anos pela Rússia e, até agora, qualquer esforço internacional para um cessar-fogo foi infrutífero. Os ucranianos defendem "uma paz justa", ou seja, sem cedência de territórios a Moscovo e a continuidade do apoio Ocidental para travar os avanços de Vladimir Putin.

    Quatro anos após o início da invasão russa da Ucrânia, os ucranianos em todo o Mundo pedem "uma paz justa" para selar o conflito no seu país de origem que já matou pelo menos 15 mil civis ucranianos e terá dizimado quase 500 mil soldados dos dois lados do conflito, tornando esta guerra na mais sangrenta em solo europeu após a II Guerra Mundial.

    Alguns dias depois de uma ronda de negociações moderadas pelos Estados Unidos que não chegou a um cessar fogo, os ucranianos prometem não ceder território a Moscovo, com o Presidente Volodymyr Zelensky a dizer mesmo que os seus soldados retomaram nas últimas semanas mais de 300 km2 em posse dos russos. 

    Para Pavlo Sadokha, líder da comunidade ucraniana em Portugal, esta guerra só pode acabar com uma vitória da ucraniana e com o apoio do Ocidente para travar as tendências imperialistas de Vladimir Putin.

    "Uma paz justa significa para nós que não vamos ser obrigados a ceder a todas as exigências que quer Putin para acabar a guerra. Na verdade, ninguém sabe o que quer Putin, porque ele disse uma vez que se limita a ceder os territórios de Donbass e Donetsk. Outra vez ele diz que quer Odessa e outros outros territórios. E Trump, que disse no ano passado que conseguiria terminar esta guerra em 24 horas, está a pressionar a Ucrânia e não a Rússia. Trata-se de uma agressão. Sabemos que não podemos vencer como estas forças que a Ucrânia tem actualmente, como este apoio que Ucrânia tem dos países do Ocidente, mas a nossa proposta sempre foi, pelo menos, o cessar fogo e congelar a linha de frente e ter uma segurança dos países do Ocidente, o que vai dar-nos alguma certeza de que a Rússia não vai, daqui dois anos, atacar outra vez a Ucrânia", disse o activisita ucraniano.

    Este fim de semana, os ucranianos saíram à rua em 80 países e 600 cidades para reclaram esta paz justa e pedir também mais apoio para a Ucrânia, repetindo à comunidade internacional que a Ucrânia não trave a Rússia, a política expansionista de Putin vai continuar.

    "Nós queremos continuar a juntar todo o tipo de apoio para ajudar à Ucrânia a vencer esta guerra. Falamos com políticos, organizamos estas manifestações para mobilizar os países do Ocidente, para continuar a ajudar a Ucrânia e fazer ainda mais pressão contra a Rússia, porque nós acreditamos que só uma forte pressão contra Putin, tanto a nível económico como militar, pode parar esta guerra, a única via que vemos para terminar esta guerra", indicou.

    Mesmo para quem vive fora, o medo é constante pela família e amigos que ainda vivem na Ucrânia, já que os bombardeamentos e combates são constantes.

    "Os oradores que falaram lá nas nossas manifestações falaram do sofrimento que passam todos os dias, mesmo estando cá em Portugal. Mas todos os dias acordamos com as notícias do que aconteceu na Ucrânia. Se foi bombardeada tal cidade, se os familiares deles ainda estão vivos. Eles estão cá em Portugal e outros países onde foram acolhidos e estão em segurança física. Mas o estado psicológico delas, já no quarto ano de guerra é muito, muito difícil, porque eles vivemos com esta guerra, vivemos com notícias desta guerra. Isto é uma situação muito complicada para todos os ucranianos", concluiu.

    9 min

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