A realizadora angolana Pocas Pascoal, foi distinguida a 9 de Agosto com o 'The Open Doors - OIF Francophonie Award', no âmbito do Festival de Cinema de Locarno na Suíça que decorreu de 5 a 15 de Agosto.
Durante o festival, a cineasta, autora nomeadamente de fitas como 'Memórias de Infância' em 2000, ou ainda 'Alda e Maria' em 2011, projectou a sua curta-metragem 'Time to Change', um filme sob forma de denúncia do colonialismo e apresentou o projecto pelo qual foi premiada, em torno da figura da cineasta francesa Sarah Maldoror, conhecida designadamente por ter acompanhado em imagem a luta de libertação de Angola.
Em entrevista à RFI, a realizadora, a viver em Portugal há cerca de nove anos, partilhou a sua alegria por ter sido distinguida, falou da sua experiência como cineasta em Portugal e também evocou o que pretende contar na fita sobre Sarah Maldoror.
RFI: Como se sente com o prémio que recebeu em Locarno?
Pocas Pascoal: Sinto-me muito bem! Acho que é um grande impulso também para a minha carreira, que já começou há muitos anos, mas continua a crescer. É um prémio que vai valorizar também o projecto que eu estou a escrever sobre a Sarah Maldoror, que vai de certeza permitir-me concluir o projecto que estou a escrever e espero eu que vai ajudar também a ter financiamentos. Portanto, eu acho que é assim uma coisa muito, muito importante, o que me aconteceu. Tive muita gente a contactar-me interessada no projecto depois deste prémio. Isto é um grande impulso. O Festival de Locarno em si, é um grande programa de encontro e que nos permite fazer contactos e relações que ficaram até para o resto da vida, de certeza. Portanto, já isso é muito, muito importante como festival, como plataforma mesmo de formação. Nunca aprendi tanta coisa sobre cinema em tão pouco tempo e nunca fiz tantos encontros em tão pouco tempo também. Portanto, o facto de estar no Festival de Locarno em 'Open Doors' já é um grande presente e um grande prémio, porque permite-nos projectar o meu projecto internacionalmente. Estive lá com o filme e, sim, há já algumas coisas que estão a avançar bem e penso que vamos assinar um contrato de co-produção.
RFI: A curta-metragem que lhe deu essa chave para a próxima etapa é 'Time to Change'. O que é 'Time to Change'?
Pocas Pascoal: É uma crítica à colonização, à colonização em geral, mas sobretudo à colonização portuguesa, que foi aquela que Angola viveu. Tento denunciar através deste filme aquilo que se passou. E faço uma ponte entre o passado e o presente, hoje, criticando a relação que os portugueses tiveram, que foi uma relação de repressão e de exploração. Em Portugal há uma mentalidade ainda que, infelizmente, continua. Continuam a pensar que a colonização portuguesa foi uma boa colonização, que foi uma colonização 'soft', que misturaram-se muito e que não foi assim tão grave. Mas foi grave, Foi muito grave. Este filme denuncia aquilo que foi a colonização e também denuncia o desequilíbrio dos ecossistemas que começaram naquele momento. Portanto, quando os portugueses chegaram, havia um equilíbrio, uma maneira de viver que os angolanos, o ser humano teve que modificar, teve que se adaptar àquilo que esses colonos quiseram que eles se tornassem. Mesmo a nível de habitação, a nível da arquitectura, tivemos que sair da nossa casa feita de madeira e de palha, que era uma coisa local. Houve várias coisas que se podem aprofundar em relação a isso e mudaram-nos completamente, a nossa maneira de ser, a nossa cultura, a nossa linguagem mesmo. A língua que tivemos que falar foi a portuguesa. E também a natureza, os animais. Para mim, esta alteração climática começou já nesse momento. Portanto, eu faço esta ligação do passado ao presente para denunciar as consequências desta colonização ainda hoje.
RFI: Como é que é estruturado este filme? Portanto, é um filme que vai buscar imagens documentais. Por exemplo, uma imagem muito forte, muito simbólica, de caçadores.
Pocas Pascoal: Eu utilizei imagens de arquivo no filme e não só. Também tem imagens dos dias de hoje. Essas imagens do caçador são imagens horríveis e acho que apercebemo-nos que naquela altura caçava-se muito de forma recreativa. Caçava-se para o homem se sentir mais forte, o mais forte do universo, mais forte do que os animais, mais forte do que o elefante, que é um animal gigante. Numa das fotografias, tem uns três caçadores com uns cinco ou seis Elefantes. é uma coisa horrível. E são animais que hoje em dia estão a desaparecer por causa disso. Por foram tão caçados às vezes só para poderem pôr um troféu na parede. E às vezes para poder se sentirem fortes. E para poderem utilizar o marfim. É uma coisa absurda, porque é uma mentalidade que infelizmente destruiu. E isto, acho que temos que tomar consciência. E lembrarmo-nos, continuarmos a lembrar o que foi e o que é que está a acontecer hoje. Portanto, é uma maneira para mim também de reavivar a memória.
RFI: Falou da forma como Portugal encara o período colonial. Como é que ele é encarado em Angola?
Pocas Pascoal: Ai, eu já não estou em Angola há 40 anos! E vou muito raramente a Angola. Seria difícil falar sobre este tema. Sei que em relação aos angolanos que estão na diáspora, é uma luta constante contra o racismo. Eu vivi vários anos em França e nunca vivi tanto racismo como vivo aqui em Portugal, infelizmente. Há coisas maravilhosas, mas há um racismo muito básico. Na verdade, é uma coisa que foi impregnada na mente das pessoas, que as pessoas negras são pessoas inferiores, que são pessoas que não têm instrução, que são pessoas que não têm meios financeiros, que são pobres também. Isto aconteceu-me. O racismo que eu tive aconteceu-me com várias pessoas de vários meios sociais. Por isso é uma coisa que está impregnada na mente das pessoas portuguesas e que não sai. E que eu acho que é um trabalho que se deve fazer. É um trabalho que talvez não tenha sido feito. Eu penso que não foi feito um trabalho que deve começar a nível das escolas, com as crianças, para tentar mudar esta mentalidade e é um trabalho político também. Eu acho que a Europa e Portugal, sobretudo, que é o país onde eu vivo, tem uma grande dívida com esses países que colonizaram. Mas esta dívida devia ser paga através de um trabalho de memória, de um trabalho de formação e de informação. É um trabalho que deve ser começado pelas crianças nas escolas, porque só a partir daí é que as mentalidades das pessoas brancas vão começar a mudar e a reconhecer que nós somos iguais.
RFI: Como é que é fazer cinema em Portugal? Aquilo que acaba de me descrever também entra em linha de conta para a sua vivência em termos de trabalho?
Pocas Pascoal: Claro, uma grande influência, infelizmente, é terrível. Eu vou contar-lhe uma coisa que eu por acaso falo muito raramente e não estou a falar do lado financeiro, porque o lado financeiro é realmente um problema com as mulheres, porque nós temos estado a lutar contra isso também. Eu faço parte de um grupo de mulheres no cinema que se chama 'Mutim' (Associação de Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento em Portugal). A 'Mutim' lutou muito para que haja nos júris do ICA (Instituto de Cinema e do Audiovisual) mulheres, que as mulheres sejam representadas também nos júris. Portanto, isto já muda muito, os financiamentos. E depois? Agora é chegar a mulheres negras, porque também é um problema de imaginar um filme onde só haja pessoas negras. Mesmo se eu não faço filmes só com pessoas negras, mas um filme onde haja uma maioria de pessoas negras, os júris podem ver aquilo muito mal. É um filme que não vai ter público. Um filme que vai ser mal distribuído, se calhar, porque se há uma mentalidade que ainda pensa que as pessoas negras não têm formação, não são instruídas, etc, no cinema também é uma coisa muito às vezes inconsciente. No cinema também, portanto, há uma luta contra isso. Há uma vitória pequenina, é verdade. Já se vê alguns filmes distribuídos nos cinemas com pessoas negras, mas são filmes americanos. É verdade. Negro e americano. Ok, já é melhor aceite. Mas o que eu queria contar há bocado é que aconteceu-me. Há uns anos atrás, fiz um telefilme. Fui convidada porque era uma mulher. E aceitei porque era uma oportunidade para mim de trabalhar na indústria portuguesa. Eu tinha acabado de chegar a Portugal e eu tinha feito um casting com pessoas negras, porque o filme passava-se nos subúrbios de Lisboa e aquilo foi uma luta. Foi horrível. Não consegui ter um casting só com pessoas negras. Foi uma luta terrível. Mas há um público e é um erro enorme, porque há um público, porque quando passa um filme na televisão com pessoas negras, as pessoas vêem os filmes. Há estatísticas, as pessoas vêm e é muito visto. Portanto, há um erro enorme em relação a isso. Isso também faz parte do trabalho para modificar isso. Faz parte deste trabalho, que é muito político e que as pessoas têm que fazer. Como eu disse há bocado, tem que começar nas escolas com as crianças, porque senão as coisas não vão mudar.
RFI: Estava a mencionar o facto de ter também a expectativa de que o facto de ganhar esta visibilidade com este prémio também possa dar um impulso ao seu próximo projecto, que tem a ver com a figura da Sarah Maldoror, que faz a ponte entre a francofonia, porque ela era das Antilhas, com o mundo lusófono, uma vez que ela focou o seu olhar sobre a África lusófona, sobre Angola, sobre a Guiné-Bissau. O que é que a levou a interessar se por esta realizadora?
Pocas Pascoal: É uma figura muito importante em Angola. Ela até é considerada angolana em Angola. Ela fez os dois primeiros filmes em Angola. A primeira vez que eu vi pessoas negras no cinema, era muito jovem, foi através de filmes da Sarah, o filme 'Sambizanga'. Portanto, eu era muito, muito jovem. Eu devia ter nove ou dez anos e foi a primeira vez que eu também começo a descobrir a história do meu país em relação à colonização. Eu tive a sorte de ter conhecido a Sarah. Eu estive com Sarah duas vezes. A primeira vez que eu ouvi a Sarah foi numa residência em França, na Normandia, onde a Sarah tinha a melhor amiga dela. Era proprietária da residência. Portanto, eu estava lá. Sarah veio visitar a amiga e eu conheci a Sarah. Eu era muito tímida naquela altura, portanto eu quase nem falei com ela. E a segunda vez que estive com Sarah, foi durante uma viagem para Angola. Nós fomos convidadas, várias pessoas foram convidadas, para um festival em Luanda. Acho que foi o segundo ano desse festival e a Sarah foi homenageada nesse festival. E como viajamos juntas, devem ter comprado os nossos bilhetes ao mesmo tempo. Estávamos sentadas uma ao lado da outra e foi muito engraçado. Fizemos sete horas juntas, uma ao lado da outra. Tivemos a oportunidade de conversar. A Sarah contou-me a história deste filme, que deveria ter sido o primeiro filme dela, a primeira longa-metragem ('Armas para Banta', Guiné-Bissau, 1970). E eu me interessei muito naquela altura. Interessei-me muito pela vida dela, porque tinha visto vários filmes feitos por ela. E, sobretudo, interessei-me muito por essa história, que é uma coisa de injustiça. A Sarah, que lutou a vida toda pela justiça social e pela igualdade de direitos. Este filme foi uma grande injustiça para ela. Eu nem sei se já tinha perguntado isso, mas o meu filme é sobre a Sarah nesse momento, quando ela vai à Guiné-Bissau, vai documentar a luta armada dos guineenses contra a colonização portuguesa. E ela, em vez de falar de um herói no filme, ela faz uma heroína. E quando ela volta para a Argélia, o filme não é aceite. Ela é expulsa da Argélia. Bom, estou a resumir, mas ela é expulsa da Argélia. E o filme lhe é retirado e desaparece até hoje. Portanto, eu interessei-me muito por este este momento da vida da Sarah, que também é o início da carreira dela. E também, para mim, é a oportunidade de falar dessas mulheres, porque ela vai filmar aquelas mulheres que foram realmente resistentes e estiveram na guerrilha durante muitos anos a lutar contra a colonização portuguesa. Portanto, para mim também, é a oportunidade de falar dessas mulheres. É claro que o foco é na Sarah e a Sarah interessa-me muito. Eu estudei muito, vi os filmes dela todos e interessam-me porque é uma pessoa que foi íntegra. Ela lutou a vida toda, fez mais de 40 filmes e através do cinema, ela lutou pela igualdade de direitos. Ela foi uma grande resistente. Ela foi uma grande activista e é uma para mim, um exemplo e uma referência de uma pessoa negra que conseguiu e sempre foi honesta com ela mesmo e com aquilo que ela fez. Íntegra. Portanto, para mim, é uma grande referência e um grande exemplo. E eu gosto do cinema dela. E também, eu penso muito no cinema dela, vejo filmes dela, quando faço os meus filmes. É uma grande referência.
RFI: Essa história de Sarah Maldoror na Guiné-Bissau a tentar retratar as mulheres que participaram na luta de libertação e que foi um filme rejeitado. Isto, no fundo, também vai tocar na sua fibra feminista.
Pocas Pascoal: Não vou generalizar porque a África é muito diferente, mas as mulheres em Angola são mulheres que foram muito valorizadas e que o são até hoje, que têm um grande poder na família e não só, também no trabalho. É claro que estamos a falar também de um sistema patriarcal. É evidente. Eu vivi depois da colonização, esta valorização das mulheres. As mulheres que lutaram contra a colonização portuguesa são mulheres que, muitas vezes, é verdade, pensando bem, são mulheres que ficaram na sombra. São mulheres que não foram muito faladas. Houve uma que se tornou heroína, mas falava-se muito pouco das mulheres. Portanto, a Sarah, ela tem este lado também feminista, mesmo se ela não se dizia feminista. Ela tem esse lado feminista porque ela, os personagens dela, no início da carreira dela, eram mulheres. Ela quis pôr em evidência as mulheres africanas, as mulheres negras, porque essas mulheres nunca eram os personagens principais nos filmes. Eu faço filmes sobre mulheres. É uma coincidência, mas porque são pessoas com quem eu me identifico mais facilmente, mais rapidamente, e são temas que me tocam imenso.
RFI: Em que fase está? Pensa que este projecto em torno da Sarah Maldoror vai vingar quando?
Pocas Pascoal: Francamente, eu penso que o filme agora e com este prémio também, que está a valorizar o projecto e que estava lá o Instituto de Cinema no Locarno, também eles viram, assistiram a isso, eu espero que não somente o ICA, mas outros fundos se interessem pelo projecto e já se estão a interessar. Espero rodar o filme em 2027 e espero que o filme em início de 2028 esteja acabado. Realmente, acredito que agora vai avançar rapidamente. Eu levei muito tempo a fazer pesquisa, vi e falei muito com as filhas da Sarah. Estive a tentar procurar qual era o melhor momento da vida da Sarah para eu poder pôr no cinema, porque não quis fazer um 'biopic' sobre a vida da Sarah, mas quis fazer sobre uma parte da vida dela que é enorme. O momento em que ela vai fazer este filme é o início da carreira dela também. Por isso passei muitos anos em pesquisa a tentar encontrar como é que eu ia falar sobre esta pessoa, que também não é muito fácil. Se seria documentário, ficção, falar desta pessoa que é uma pessoa que eu admiro muito e não me quero enganar. Portanto, acho que tenho um bom filme, foi aquilo que eu escolhi. Espero que nos próximos dois anos o filme esteja acabado.
RFI: Tem outros projectos na forja ou é uma pessoa de um só projecto de cada vez?
Pocas Pascoal: Não. Eu sou hiperactiva, portanto tenho vários projectos. Estou a acabar agora um filme, mas é uma curta também. Quando falo de hiperactividade não faço várias longas ao mesmo tempo, infelizmente. É uma questão financeira, mas enquanto estou à espera de financiamento para uma longa, estou a fazer curtas-metragens e tento fazer também instalações. Não faço muitas, mas tento participar em exposições e fazer instalações. E neste momento estou a fazer uma curta-metragem que, espero eu, estará nos festivais. Acho que no fim do ano já vou começar a mostrar o filme e também há uma curta-metragem feita com arquivos. Não vou revelar ainda a história porque ainda estou a montar e as coisas podem evoluir. Gosto de fazer várias coisas ao mesmo tempo.