Enterrados no Jardim

Agarrados & empreendedores. Uma conversa com Miguel Marques Ribeiro


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A notoriedade actual de certos escritores baseia-se sempre num mal-entendido. Há um desejo de ver surgir figuras que possam corresponder à imagem do grande homem, esse capaz de encarar o mundo por meio de ideias imunes aos desaires da época. Mas essa mesma relação que mantemos com alguns autores não passa de uma projecção, pois, como sinalizava Sartre, é lisonjeiro para uma nação ter produzido uma figura dessas, permite que se convença da sua própria importância e prestígio. E se não faltam nunca um punhado de recolectores capazes de compor arranjos e fazer da sucata algo imponente, um pensamento que tenha verdadeira força já não é algo de desejável, porque este ofende, gera nervosismo. Diante desse tipo de figuras ninguém consegue estar realmente em paz. Desde logo, esse tipo de homens consegue sempre sacudir a matilha de homenagens que procuram abonecá-lo, encontrando as forças para provocar escândalo, rasgando vias impróprias em vez de se aproveitar das auto-estradas nacionais. Sartre vinca a necessidade de diminuir a circulação fiduciária da literatura. E se a esta, nos últimos tempos, apanhamos sempre a dormir, incapaz de paixões fortes, aguardamos esse sobressalto, mesmo que seja a cólera, algo que a possa despertar. Quando vemos a generalidade dos escritores participarem nas desgastantes homilias que vão promovendo os poderes oficiais e oficiosos, com a cobertura dos jornais, o apoio dos programas de promoção do turismo e a congeminação das dst’s e outras firmas industriais, não é difícil perceber como o autor foi transformado em funcionário e se vê sobrecarregado de funções e honras que servem para apagar qualquer intuito mais perverso. Se em tempos a literatura era vista como uma ocupação de ociosos, uma actividade parasitária, pecaminosa, hoje passou a ser encarada como mais outro instrumento de propaganda. Quanto mais se agarram ao prestígio mais longe ficam de qualquer relação com a infâmia que caracteriza a indução de um pensamento degenerado. Mas, até em cima disto, temos sempre de aturar uns e umas que nos vêem explicar o cariz didáctico da literatura. Enquanto isso vemos como uma cortesia fremente reina no mundo das letras. Ora, com a brusca hecatombe dos decanos nas primeiras duas décadas deste século e uma vez que se conseguiu fazer da rendição das anteriores sentinelas um princípio de vacatura, enquanto eram os próprios escritores os primeiros a quererem gozar de um mero favor publicitário, em vez de uma discussão rude e exaltante, viraram-se todos para as lógicas de inflação literária, e, por isso, só conseguem ser lidos pelos consumidores gerais que se guiam pelas tendências de estação. “Ao tratar as produções do espírito com um respeito que outrora apenas se manifestava para com os grandes autores mortos, arriscamo-nos a matá-las”, sublinha Sartre. Mas ele ainda entendia que aqueles escritores que se sentiam adulados não deixavam de sentir também um obscuro despeito, uma vez que “não é agradável ser tratado em vida como um monumento público”. Ora, foi isto que mudou. Hoje os escritores detestam o risco, o confronto, deixaram-se socializar no pior sentido da palavra, e já não são aos olhos de um público por eles mesmos cultivado aquelas figuras que estavam animadas de projectos maliciosos, capazes de proferições danosas. Hoje, cada um à sua maneira, faz papel de embaixador. Nem reconhecem uma alternativa. Ficariam em apuros se todo esse enredo diplomático perdesse os apoios institucionais, as suas galas e cerimoniais, uma vez que há muito o próprio mercado desertou esses circuitos, e nada a não ser as lógicas de cumplicidades com o poder conseguem segurar todo esse dispositivo. Poucos se dão conta de como a literatura se dissolveu num regime de pura expectativa, de tal modo que mesmo essas obras literárias futuras e tão ansiadas participam já na dignidade duma cerimónia sagrada. E, assim, cada escrito novo procura simular essa recepção, encenando uma cerimónia de acordo com os protocolos oficiais, e prestando a sua contribuição benévola para as festividades que permitem aos pequenos poderes servirem-se da cultura como uma indústria de totems, usando aquela entoação enfatuada e grave para que o patetismo dos seus conselhos simule uma função oracular. Nisto, o que é pena é que esta manobra tacanha sirva para convencer os escritores e os artistas a conformarem-se a ser apresentados e recomendados como bens nacionais. Devemos reconhecer como este estado de coisas convida mais à indiferença do que a ânimos exaltados. Parece excessivo detestar esta gente, a não ser pelo inconveniente que há em tentar fazer-se alguma coisa que ainda corresponda àquele jogo meio anárquico de malfeitores que iam aperfeiçoando os seus desafios por escrito, sendo que agora tudo o que diz respeito aos livros se vê sempre acompanhado de uma insuportável algazarra promocional, ao ponto de mesmo os poucos e ridículos passos que se dão neste deprimido reino terem de ser pagos com uma perpétua indigestão ao entrar em contacto com toda essa solenidade balofa. É tão desgastante essa caldeira, essa fornalha, esse grelhador em que se tornou a vida das letras, com as suas intimações constantes, imposturas, exaltações falsas, o banho de alarvidades e os constrangimentos a que qualquer um se vê sujeito para acomodar as aspirações e ilusões dos demais, esta máquina de espuma que ensopa e engole tudo, que faz dos triunfos as maiores ciladas, tudo isso é um preço demasiado elevado para um tipo querer chegar àqueles poucos leitores que lhe justificam tamanho empenho. Dá a sensação até que todo este quadro não serve senão para atrasar e despistar esses encontros. Não é de estranhar que precisamente aqueles espíritos mais instigantes sejam dos primeiros a sentir-se enojados com este contexto, preferindo desperdiçar a sua energia malévola em zonas menos cercadas por toda esta pompa e idiotice. É como se a literatura não quisesse libertar-se já da descrição mais enfática e redutora de todos os vícios, como se trabalhasse para se cingir à reprodução daqueles aspectos em que incidiu a sátira que lhe foi sendo feita, como se a realidade quisesse levar a uma apoteose o elemento da farsa, gerando uma paródia em que a sua descrição mais demolidora não se distingue muito dos efeitos da sua publicitação. Há uma inesperada capacidade de satisfação, uma correspondência com as aspirações mais tacanhas, e que fazem as delícias de muita gente. A partir daqui, as piores coisas que possam ser ditas sobre o meio literário não deixam de enaltecê-lo. Barricou-se na sua fantasia pindérica. Qualquer noção aventureira da vida literária que algum escritor ainda estime apenas levará a que se sinta como um intruso, um inadaptado no reino destes que parecem reclamar e comungar das mesmas referências. Mas quem as toma a sério admite que a literatura possa ser uma droga dura, ao passo que aqueles aprenderam a forjar a partir dos mesmos ingredientes toda uma linha de calmantes e anestesiantes. A literatura passou a significar uma zona de repouso, mais outra estância de retiro. A própria vida ali é algo de que devemos desintoxicar-nos… Se a literatura foi uma forma de rejeição audaz, agora é arrastado rito, um regime de mumificação em vida. O longo rito que mistura o baptismo à extrema unção. “Ainda não viveste, e no entanto, já está tudo dito, tudo acabado”, escreve Georges Perec. “Só tens vinte e cinco anos, mas o teu caminho já está traçado. Os papéis, as etiquetas estão prontos: desde o bacio da tua primeira infância até à cadeira de rodas da tua velhice, todos os assentos aguardam a sua vez. As tuas aventuras estão tão bem descritas que a revolta mais violenta não faria pestanejar ninguém. Por mais que saias para a rua e mandes às urtigas os chapéus das pessoas, e cubras a cabeça de imundícies, e andes descalço, publiques manifestos, dês uns tiros de pistola à passagem de um qualquer usurpador, de nada servirá: a tua cama já está feita no dormitório do hospício, o teu talher está posto à mesa dos poetas malditos. Barco bêbado, miserável milagre: Harrar é uma atracção de feira, uma viagem organizada. Tudo está previsto, tudo está preparado até ao mais ínfimo pormenor: os grandes arroubos do coração, a fria ironia, as grandes dores, a plenitude, o exotismo, a grande aventura, o desespero. Não venderás a alma ao diabo, não irás, de sandálias nos pés, precipitar-te no Etna, não destruirás a sétima maravilha do mundo. Tudo está já preparado para a tua morte: a bala que te levará deste mundo já está fundida há muito tempo, já designaram as carpideiras para acompanharem o teu caixão.” Face a isto, há a necessidade de um programa de reabilitação face aos próprios processos de constante habilitação, uma desintoxicação já não dos perigos mortais, mas de todos esses fervores beneméritos, e neste episódio tivemos connosco Miguel Marques Ribeiro, um tipo que começou por registar o mundo fotograficamente e acabou por se tornar jornalista numa altura em que também os decanos estavam a ser desmobilizados, abatidos ou reformados compulsoriamente. Também chegou demasiado tarde ao campo da narrativa de ficção, aproveitando um fulgor anacrónico para se estrear com Gólgota, que nos remete de volta às décadas em que os paraísos artificiais foram esmagando os botes salva-vidas cheios daqueles que sentiram que o canto das sereias era demasiado berrante, uma orgia tão vasta quanto desgastante, sem verdadeira promessa nem êxtase. Hoje, a sociedade conseguiu fundir agarrados e empreendedores, mas, entretanto, já o regime de narcose actual não representa perigo nenhum, e mesmo a epidemia de drogas de prescrição que alastra um pouco por todo o mundo não é mais que as dores de crescimento de um novo quadro de administração em que a própria sobriedade, pelos seus efeitos de desilusão e depressão, deverá ser corrigida por fármacos capazes de fazer do homem esse ser que come o pão ou a papa que lhe põem à frente, esteja este em que estado estiver.
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Enterrados no JardimBy Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho


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