Ao longo dos séculos quantos terão contemplado as possibilidades de se livrarem dos seus perversos corpos? Eles mais pelo desejo de que se sentiam adoecer, elas por se verem encurraladas, sendo-lhes dito que os seus corpos carregavam esse ambíguo poder (graça e maldição), enfeitiçando-os a eles. Talvez muito pudesse ter sido diferente se em vez de interrogar o que as mulheres querem, a pergunta fosse feita na negativa: o que não querem? Mas acatar de vez uma recusa é desde logo mais doloroso, e a insistência, o cerco, o acosso, fundou esse prestígio de um sedutor rapace, daquele que entende que é sempre possível negociar um não, criar condições para que este se torne um sim. “Falar, narrar, fabular, assim como lamber, chupar e sugar exigem uma aprendizagem subtil e interminável” (Eliane Robert Moraes), e falar delas é o primeiro dos privilégios do macho, a possibilidade do assalto que começa por pô-lo em palavras, descrevê-las e o que lhes faria, a fazer as rondas, a tocar com os passos esse instrumento chuvoso, para que a língua dê uma volta na fechadura de uma beleza hermética, começando pelo contorno, por alguns traços, da melena lisa com todos os matizes do negro, a “uma pele que é como o fim de uma raça ou o princípio de outra”, “um corpo de criada filipina e adolescente que saiu estilizada dos cruzamentos de raças, de sangue, de toda essa cultura dos sexos, que ignoramos”… Não faltam mitos sobre as fazedoras de chuva, essas figuras cheias de uma deliciosa intimidade feminina, daquele maternal cansaço de amante. Não se livram desse olhar, dessa avaliação, e também por isso Maria Galíndo insiste em fazer notar como há uma continuidade fundadora entre puta e não puta. Mas reivindica esta palavra: “A palavra puta é essencial e representa-nos, abrange do trabalho sexual até à liberdade sexual; a expressão trabalho sexual é também essencial porque obriga-nos a colocar a prostituição na análise histórica dos trabalhos das mulheres”… “Sem trabalhadoras do sexo não há feminismo”, adianta. “Não estou a falar de uma forma de inclusão ‘caridosa’, para as ‘salvar’, mas sim precisamente o contrário: ela, a puta, tem o bastão para remover sexualidades, quebrar mitos, diluir as estruturas de todas as mulheres e é, por isto, um sujeito imprescindível." Explica ainda que, “tal como em qualquer actividade de subsistência, neste trabalho desenvolve-se um conjunto de saberes; a cozinheira, a padeira, a peixeira, a vendedora ambulante, todas desenvolvem saberes próprios do seu ofício, a trabalhadora do sexo faz o mesmo. O negócio não é simplesmente cobrar por sexo”. E prossegue: “A perigosidade e a importância dos seus saberes, o lugar que ocupam na sua relação com o universo masculino, é o que realmente não se quer discutir quando se fala de trabalho sexual. Os saberes das trabalhadoras do sexo têm um carácter explosivo.” Ora, é isto que, segundo Galíndo, faz da puta a “anfitriã da mudança social e uma protagonista central do questionamento da norma patriarcal em torno do corpo e da sexualidade”. Considerando que está em processo uma guerra contra as mulheres, com o aumento da violência machista, sendo que “as trabalhadoras sexuais estão a funcionar como dique, como parede de primeiro impacto dessas violências, como lugar onde essas violências se apresentam como legítimas”, para esta anarco-feminista boliviana a puta é uma peça chave uma vez que “ela acumula, mais do que qualquer outra mulher, mais que a esposa, mais que a amante, uma quantidade de conhecimentos sobre a afectividade, a sexualidade, o corpo, as dolências e os complexos do macho”. Seria um desperdício tentar usar da galanteria e do latim para intrujar ou converter uma puta numa amante solícita. Ela já ouviu tudo, e, a qualquer combinação de palavras formulada por um príncipe a cavalo no próprio tesão, prefere antes que lhe paguem o preço acordado. Em vez de um elogio, mais vale outra nota. Talvez seja mesmo de preferir que ele se cale. Uma puta dispensa o homem de todo aquele teatro, de toda a falsificação amorosa. Se isso for importante, se ajudar a que se venha de uma vez, fingirá, e, por um preço, fará todos os papéis, irá bater texto, dar-lhe-á as deixas, contribuirá no que for preciso para que ele se comova consigo mesmo, com os seus sentimentos e intenções, com a imagem que julga que pinta. Tem infinitos recursos, a puta. E podemos mesmo antecipar que a tal ficção da “mulher”, dentro de mais uns anos, só venha a ser sustentada pelas prostitutas, isto num momento em que o capitalismo já reconheceu que, para os seus fins, interessa mais uma força de trabalho sem género. Como assinala Silvia Federici, “as áreas de trabalho em que o modelo da feminilidade celebrado (por exemplo) na década de 1950 ainda é requerido estão rapidamente a desaparecer. Do ponto de vista do trabalho, já vivemos num mundo de género fluído, em que se espera que sejamos femininas e masculinas em simultâneo.” Há uma urgência em diluir os géneros por questões de eficácia, e, em breve, a nostalgia do macho possante de outrora será uma dessas fantasias que apenas as putas satisfarão. Mas, por agora, e como assinala Federici, o mais importante é reconhecer que há maneiras de ganhar um salário bem mais degradantes do que a prostituição. “Vender os nossos cérebros poderá ser mais perigoso e degradante do que vender o acesso às nossas vaginas.” Mas para esta como para outras noções, a audiência prefere ainda agarrar-se ao efeito moral, representando para si mesma, e ignorando o que nos foi dizendo Merteuil, a marquesa que teve a morte de uma prostituta, sobre como isso da mulher como esta sociedade a faz foi sempre o pior dos papéis, a mais sufocante das prisões. “Abrirei as minhas veias como um livro que não foi lido. Haveis de aprender a lê-lo, Valmont, depois de mim. Farei isso como uma tesoura, porque sou mulher. Cada profissão tem o seu jeito. Podeis com o meu sangue renovar a vossa maquilhagem. Procurarei um caminho para o meu coração através da minha carne que não haveis encontrado, Valmont, porque sois um homem, porque vazio é o vosso peito e dentre de vós cresce o nada. O vosso corpo é o corpo da vossa morte, Valmont. Uma mulher tem muitos corpos. Se quiserdes ver sangue, tereis que o tirar vós próprio. Ou então uns aos outros. Tendes inveja do leite do nosso peito, o que vos torna carniceiros. Se pudésseis parir. Lamento, Valmont, que devido a uma lei da natureza difícil de compreender vos seja inacessível esta experiência, proibido este jardim. Daríeis a melhor parte de vós mesmo se soubésseis o que vos escapa e a natureza vos desse razão. (…) É bom ser mulher, Valmont, e não um vencedor. (…) Quereis saber mais. Sou uma enciclopédia agonizante, cada palavra um coágulo de sangue.” Neste episódio, parecendo que não, nunca nos afastámos muito da actualidade, mas para escapar aos convulsivos desarranjos e equívocos para os quais nos empurra a mediocracia, quisemos assaltar aquela margem abandonada dos discursos que não abriram mão de um verdadeiro projecto de transformação social. E para irmos seguindo esse fio de lã e não ficarmos perdidos no labirinto, contámos desta vez com a inteligência e graça de Carmo Afonso, advogada que tem empenhado o seu tempo e os seus conhecimentos para defender mulheres que são alvo da perseguição e enxovalhamento do enredo patriarcal.