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By RFI Português
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  • Nova pista científica abre caminho a diagnósticos mais precoces do Alzheimer

    A doença de Alzheimer continua a ser um dos grandes enigmas da medicina. Em Portugal, é já a patologia neurodegenerativa mais prevalente, impondo um encargo a famílias e ao Serviço Nacional de Saúde. Num avanço promissor, Tiago Gil Oliveira venceu o Prémio Bial de Medicina Clínica ao demonstrar que diferentes regiões cerebrais reagem de forma distinta às proteínas tóxicas do Alzheimer. A descoberta abre caminho a diagnósticos precoces e terapias mais eficazes.

    O médico e investigador português, Tiago Gil Oliveira, de 40 anos, acaba de vencer o Prémio Bial de Medicina Clínica com uma descoberta que pode mudar o rumo da investigação. A sua equipa demonstrou que diferentes regiões do cérebro não reagem da mesma forma às proteínas tóxicas associadas ao Alzheimer. Uma nova pista que pode abrir caminho para diagnósticos mais precoces e terapias mais eficazes.

    “O primeiro passo é compreender melhor a doença. Saber quais são as vias moleculares, os genes, as regiões cerebrais atingidas e como cada uma reage a estas alterações patológicas. É um trabalho de detalhe. Só assim poderemos avançar para tratamentos mais certeiros”, começa por explicar.

    Formado no Hospital de São João e investigador na Universidade do Minho, Tiago Gil Oliveira tem percorrido os dois mundos em simultâneo: o da clínica e o da investigação. Essa duplicidade não é acessória, é central. “Ver os doentes todos os dias gera em mim um sentimento de urgência. Não podemos perder tempo. E, ao mesmo tempo, mostra-me a enorme diversidade da doença. Um doente com Alzheimer não tem só Alzheimer. Muitas vezes carrega outras patologias, que influenciam a evolução clínica. Essa observação clínica inspirou parte da minha investigação”, partilha.

    Não é de hoje que o investigador persegue estas pistas. Aos 26 anos, liderava projectos inovadores sobre os lípidos do cérebro e o seu papel na memória e no envelhecimento. Hoje, com uma equipa de vinte pessoas no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde, insiste em olhar o Alzheimer por dentro.

    Nos últimos anos, alguns países aprovaram medicamentos capazes de remover as placas de amiloide, as fibrilas que se acumulam no cérebro e que marcam a doença. Se chegarem a Portugal, diz Tiago Gil Oliveira, o impacto será profundo: “Vai ser uma revolução. Até agora não havia terapêuticas que alterassem a evolução da doença. Mas nem todos os doentes vão ser elegíveis. Haverá um processo de selecção rigorosa para perceber quem beneficia mais e quem tem menos risco de efeitos adversos. Isso vai exigir uma reorganização profunda do SNS. É um desafio imenso”.

    Além da reorganização, haverá também um novo paradigma de acompanhamento. O doente deixará de ser visto apenas como portador de uma doença única, e passará a ser avaliado em toda a sua complexidade, “tal como na hipertensão, o futuro passará por terapias combinadas, adaptadas a cada pessoa, onde entram dieta, lípidos cerebrais e outras estratégias. Só assim chegaremos a uma medicina de precisão” acrescenta.

    A investigação internacional traz, de tempos a tempos, surpresas que desafiam as investigações em curso. Recentemente, investigadores de Harvard mostraram que uma deficiência de lítio pode estar na origem de maior vulnerabilidade ao Alzheimer. “Foi um avanço notável. Percebeu-se que a deficiência de lítio aumentava a toxicidade cerebral e diminuía a capacidade de remover as placas. Mas também que a reposição com um tipo específico de lítio conseguia proteger o cérebro. Não o lítio usado como estabilizador do humor, mas uma forma especial. Isso abre novas possibilidades não só para a doença, mas também para alterações associadas ao envelhecimento. Agora é preciso tempo: anos de ensaios clínicos para sabermos se a hipótese se confirma”, sublinha.

    Entre promessas e prudência, o investigador lembra o essencial: a ciência não avança por saltos milagrosos, mas por passos sucessivos. Cada pista abre um caminho que leva a outro, até que, um dia, se chegue a uma resposta sólida. No laboratório de Braga, a equipa de Tiago Gil Oliveira aposta num terreno menos explorado: os lípidos cerebrais: “Sabemos que variantes genéticas associadas ao Alzheimer afectam genes ligados à sinalização lipídica do cérebro. E os lípidos são constituintes essenciais do tecido cerebral. Se conseguirmos manipular a sua composição no sentido certo, talvez possamos proteger os neurónios ou torná-los mais resistentes à toxicidade das placas”.

    E a equipa já testou isso em modelos animais, “Se manipularmos a composição lipídica, podemos tornar as células mais eficientes na remoção das placas ou mais resistentes ao seu impacto. Esse é um dos nossos focos actuais”.

    No fundo, o percurso de Tiago Gil Oliveira é atravessado por um fio que liga o microscópio ao olhar do médico junto do doente. É essa ponte que lhe dá a energia para prosseguir. “Estar no hospital dá-me a medida da urgência. No laboratório, tento transformar essa urgência em hipóteses de trabalho", compara.

    No silêncio da investigação, entre os ratos de laboratório e microscópios, o que está em jogo é sempre a mesma coisa: um futuro em que a memória não se apague depressa. “O nosso objectivo é simples na formulação, mas imenso na ambição: travar a progressão do Alzheimer. Não sabemos quando conseguiremos lá chegar. Mas sabemos que cada passo é necessário”, concluiu.

    15 min
  • África enfrenta chuvas extremas, Sofala reforça preparação contra cheias

    As chuvas extremas continuam a assolar o continente africano. No Sudão, um deslizamento em Darfur matou mais de 1.000 pessoas no final do mês de Agosto, expondo inúmeras fragilidades. Em Sofala, as autoridades moçambicanas reforçam medidas de prevenção e reassentamento antes da época chuvosa. O delegado do INGD em Sofala, Aristides Armando, sublinha que a prevenção e cooperação internacional são cruciais perante os riscos e alterações climáticas.

    As chuvas extremas continuam a marcar o continente africano. No Sudão, um deslizamento provocado por precipitações torrenciais arrasou a aldeia de Tarazã, em Darfur, e fez mais de mil mortos no final do mês de Agosto. A tragédia expôs a vulnerabilidade de comunidades inteiras perante as mudanças climáticas e a fragilidade das instituições. Em Moçambique, na província de Sofala, o cenário é diferente. As autoridades locais e os parceiros humanitários intensificam medidas de prevenção, reforço de infra-estruturas e realojamento de populações, preparando-se para a época chuvosa de 2025/26.

    O delegado do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastre em Sofala, Aristides Armando, sublinha que a província já está pronta. “Estamos numa fase inicial da próxima época chuvosa e temos uma série de acções em curso”, afirmou. “Participamos na conferência de prontidão urbana para garantir que a cidade da Beira, sendo uma das mais vulneráveis, possa reforçar a sua resiliência e capacidade de resposta face aos impactos”.

    O responsável explica, ainda, que as acções não se limitam ao perímetro urbano. “Estamos a realizar simulações em distritos como Nhamatanda, Gorongosa e Marromeu e a reforçar os comités locais de gestão de risco. No total, já contamos com 258 comités comunitários e 30 comités escolares”, detalhou, acrescentando que “o envolvimento das crianças e da juventude é fundamental, porque são elas que podem garantir a resposta imediata em caso de desastre”.

    Entre as medidas em curso está também o reassentamento de famílias que vivem em zonas de risco. No entanto, “o maior desafio continua a ser orçamental, porque precisamos de mais recursos para reforçar tanto a prevenção como a mitigação”.

    Questionado sobre as lições a tirar da tragédia no Sudão, Aristides Armando recorda a experiência amarga de Sofala com o ciclone Idai, em 2019. “Ainda temos na memória o impacto devastador do Idai”, afirmou. “O que aconteceu em Darfur lembra-nos que não podemos baixar a guarda. No início do mês de Setembro, o Presidente da República entregou mais de 800 casas resilientes em bairros de reassentamento, o que mostra que estamos a avançar numa estratégia de longo prazo”.

    Para o delegado, a aposta em tecnologia é decisiva: “Hoje temos o radar meteorológico da Beira, inaugurado há um ano, que já nos permite análises mais rápidas”, disse. “Reduzimos o tempo de aviso prévio de quatro dias para poucas horas, o que aumenta a capacidade de salvar vidas”. Além disso, “os drones ajudam-nos a mapear zonas críticas e recolher informação em tempo real, facilitando o processo de resposta e prevenção”.

    A cooperação internacional também merece destaque. “Trabalhamos com a UNICEF, com a Fundação SIMA e com várias organizações não-governamentais para garantir que as comunidades tenham informação atempada e consigam actuar rapidamente”, frisando que “as parcerias têm sido fundamentais para criar uma cultura de prevenção”.

    Porém, o delegado adverte que o contexto climático exige vigilância constante. “Na época passada tivemos, no mesmo distrito, situações de seca e a passagem do ciclone Jude”, recordou. “É a prova de que enfrentamos riscos múltiplos e que temos de reforçar a capacidade de resposta em todas as frentes".

    Aristides Armando conclui com um alerta: “Os fenómenos extremos vão continuar a surpreender-nos. Mas quanto mais cedo prepararmos as nossas comunidades, menor será o impacto humano e social. A prevenção é hoje a nossa maior arma contra as alterações climáticas”.

    10 min
  • "Não existe na Guiné-Bissau nenhuma organização que lida com segurança digital"

    Neste magazine 'Ciência', abordamos os desafios colocados pelo uso das tecnologias informáticas e pela internet na Guiné-Bissau com um jovem engenheiro, Jeremias Nicolau Fernandes, que acaba de lançar em Agosto, juntamente com uma equipa de informáticos, a ONG 'Jovens Embaixadores da Segurança Digital'.

    Esta iniciativa educativa e comunitária sem fins lucrativos tem por intuito promover o uso ético da internet e habilitar os jovens face a práticas como o ódio em linha, fraudes como o 'phishing' ou ainda as 'fake news', numa altura em que segundo dados da ONU, quase 60% dos utentes da internet, a nível mundial, estão preocupados com a questão da desinformação.

    Apaixonado pela informática, Jeremias Nicolau Fernandes cedo se apercebeu que existe ainda alguma reticência geral em usar os meios informáticos nomeadamente para guardar e classificar dados. Ele também refere ter percebido as vantagens que a internet oferece, mas igualmente os perigos a que podem ficar expostos os seus utentes.

    "As pessoas não estão a usar esse sistema, principalmente o governo. As pessoas têm medo de ser controladas pelo sistema. Há muitas coisas que devem ser informatizadas, que não estão a ser informatizadas, porque as pessoas têm medo de usar internet. Nesse momento, a Guiné-Bissau devia estar noutro nível, porque até agora, a maioria das instituições da Guiné-Bissau não têm banco de dados, não tem um sistema para guardar dados", começa por referir o engenheiro informático.

    "Tive o privilégio de estudar e lidar com um computador muito cedo, desde 2010. E aí eu fiquei apaixonado. Eu fiz informática básica, depois intermédia. Isso me levou a fazer engenharia informática. E quanto a essa associação, eu estava fazendo pesquisa sobre um outro assunto e deparei-me com esse problema de que não existe nenhuma organização aqui em Guiné-Bissau que lida com esse assunto de segurança digital. É um problema muito sério, mas nos outros países já se trata isso como se fosse um tipo de droga. Aí pensei com a situação que estamos a passar aqui em Guiné-Bissau, vi que é necessário criar essa ONG para sensibilizar, conscientizar a sociedade, dar formação sobre o uso da internet, porque as pessoas são analfabetas sobre o assunto digital. Mesmo as pessoas que se formaram e se tornaram hoje doutores, são analfabetos em assuntos digitais. Não têm noção de que estão a fazer na internet", constata o líder associativo.

    "A internet hoje está a propagar o discurso de ódio, 'cyberbullying' e está a acontecer neste momento o 'phishing'. As pessoas que estão por trás criam uma conta falsa para atrair outras pessoas. Isso está a afectar as pessoas aqui em Guiné-Bissau, porque há muito desemprego. As pessoas criam uma conta ou um 'site' falso. Eles postam esse anúncio para atrair as pessoas, enquanto têm uma outra intenção", refere Jeremias Nicolau Fernandes.

    É neste contexto que surge a ideia de criar a ONG 'Jovens Embaixadores da Segurança Digital', o engenheiro informático referindo ter uma equipa à volta dele, com o projecto de trabalhar em todo o país e "não exclusivamente em Bissau". Apesar de não beneficiar ainda de apoios, por "estar ainda a criar esse movimento", o coordenador desta associação que pretende, para já, dar formações de dois dias por cada grupo, mostra-se convicto de que "esse projecto será uma ponte".

    "Vamos começar com a formação de jovens como multiplicadores, porque vamos formar esses jovens líderes que vão poder multiplicar para formar outros jovens também nas comunidades. Logo, vamos começar com pequenos grupos de jovens nas comunidades, dar uma formação, pode ser também em escolas", refere ainda o engenheiro informático ao indicar estar em contacto com o Ministério da Educação neste âmbito.

    "O meu sonho é de de formar, de mudar a sociedade, porque esse é o objectivo, de fazer com que as pessoas entendam realmente o que é a internet. Espero que isso mais tarde, possa impactar a sociedade, possa educar, porque é um assunto muito importante", remata Jeremias Nicolau Fernandes.

    11 min
  • CanSat: transformar uma lata de refrigerante num satélite

    O desafio parece simples: construir um satélite do tamanho de uma lata de refrigerante. Mas, na prática, trata-se de um exercício exigente de engenharia, programação, aerodinâmica e trabalho de equipa. O CanSat, promovido em Portugal pela Ciência Viva em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA), já vai na 12.ª edição e continua a conquistar alunos e professores de todo o país.

    Cada equipa deve integrar num pequeno recipiente todos os componentes básicos de um satélite: sistema de energia, antenas, comunicações e sensores. O objectivo é lançar o dispositivo a mil metros de altitude, através de um foguete, e recolher dados durante a descida controlada por pára-quedas. 

    “É uma competição muito rica, porque obriga os alunos a lidar com várias áreas da engenharia e, ao mesmo tempo, a aprender a trabalhar em equipa”, explicou, ao microfone da RFI, Ana Noronha, directora executiva da Ciência Viva e coordenadora do programa eZero Portugal.

    Todas as escolas podem candidatar-se, mas o número de equipas é limitado. As escolhidas recebem acompanhamento de um júri que, além de avaliar, apoia os alunos na resolução de problemas técnicos. Antes do lançamento oficial, há voos de teste para assegurar que os satélites resistem à aceleração do foguete e que o pára-quedas funciona correctamente. Só os projectos estruturalmente sólidos avançam para a fase final. Depois do voo, as equipas têm de analisar os dados e fazer uma apresentação em inglês perante o júri. “Queremos que os alunos sejam capazes de comunicar o seu trabalho num contexto internacional, como terão de fazer no futuro”, sublinha Ana Noronha.

    Apesar do espírito competitivo, o ambiente é de partilha: “Eles estão todos a competir, mas entreajudam-se. Se há uma peça que queima, há logo outra equipa que empresta, que tem uma suplente ou que empresta a antena, o que é muito interessante observar”, nota a responsável. Mais do que uma competição de engenharia, desvcreve o CanSat como uma experiência inesquecível, onde os participantes aprendem competências que levarão consigo para a vida.

    8 min
  • Moçambique é “zona de charneira” para compreender evolução humana na Pré-História

    Pesquisas arqueológicas em Moçambique estão a mostrar que o país foi uma “zona de charneira” nas movimentaçoes de populações entre a África Austral e a África Oriental na Pré-História. O trabalho está a ser orientado pelo arqueólogo Nuno Bicho que contou à RFI ter encontrado entre “300 ou 400 jazidas arqueológicas com vários períodos”, as mais importantes no Vale do Limpopo, no Vale do Save e junto ao ao Lago Niassa.

    Nuno Bicho começou as pesquisas arqueológicas em Moçambique há 15 anos. Desde então, o arquólogo da Universidade do Algarve encontrou entre “300 ou 400 jazidas arqueológicas com vários períodos”, nomeadamente no Vale do Limpopo, no Vale do Save e junto ao ao Lago Niassa.

    “Nós temos várias jazidas arqueológicas que são, digamos, dos últimos 100 mil anos”, ou seja, na Idade da Pedra Lascada, explica o investigador, acrescentando que há um “conjunto alargado de ocupações de várias Idades”.

    Moçambique é uma peça central para compreender a mobilidade das populações dentro de África e assim ir percebendo melhor o puzzle da evolução humana. Nuno Bicho explica porquê:

    “A nossa espécie Homo Sapiens aparece há cerca de 300 mil anos em África e move-se no continente africano e, por vezes, saiu do continente africano. Mas do ponto de vista genético, nunca teve resultados evidentes e apenas uma saída de África, da África Oriental, há cerca talvez de 80 mil anos, entre 80 e  60 mil anos, deu resultado para aquilo que somos hoje e espalhou a nossa espécie por todo o mundo.

    Aquilo que eu, neste momento, estou a tentar perceber, é como é que dentro de África, dentro do espaço do continente africano, se deram essas movimentações que permitiram a saída desse grupo, há cerca de 80 mil anos, para fora de África. Nós sabemos que há principalmente duas áreas muito importantes do ponto de vista de desenvolvimento cultural: uma é a África Austral e a outra é a África Oriental. Nós não sabemos ainda qual é a relação entre as duas e, aparentemente, do ponto de vista genético, parece haver informação que sugere que o grupo que saiu para fora da África veio da África Austral. Portanto, era fundamental perceber-se o que é que acontece entre as duas regiões. Ora, Moçambique é uma das áreas com potencial para se perceber como é que se deu esta mobilidade, esta migração interna ao continente africano e a ligação entre as duas regiões.”

    Assim, “Moçambique é uma zona de charneira” na conexão de populações que se movimentavam entre a África Austral e a África Oriental na Pré-História. Agora, é preciso perceber quando e como se cruzam.

    “Vamos proceder a um conjunto de análises, essencialmente de modelação matemática, que juntam os dados que vêm da África Austral com os da África Oriental e tentar perceber exactamente quando e como é que se deu esta passagem entre as duas áreas. Moçambique, naturalmente, estando no meio, é sem dúvida nenhuma, um elemento importante que nos vai permitir perceber esta movimentação e conexão”, acrescenta Nuno Bicho.

    Nas jazidas arqueológicas de Moçambique encontraram-se materiais dos nossos antepassados porque, geralmente, eram zonas com actividades diárias destes “caçadores-recolectores”.

    “Aquilo que nós podemos concluir é que muito devido às características dessa cultura material das ferramentas, parece haver uma diferença marcada entre a zona do Niassa e a zona do Save e do Limpopo e, portanto, significa que há áreas de influência cultural que são diferentes. Muito provavelmente do Niassa estão ligadas com Tanzânia e o Malawi (como regiões que se conhecem hoje politicamente), enquanto que as zonas do Save e do Limpopo se encontram mais relacionadas com a África Austral. Isso sabemos.

    Sabemos que eles utilizavam um conjunto alargado de espécies de animais, não sabemos quais ainda, mas saberemos no futuro através de várias análises.

    Sabemos que eles utilizavam um conjunto de outras espécies, nomeadamente espécies aquáticas, porque temos um conjunto alargado de conchas de várias espécies nalguns dos sítios arqueológicos. Também sabemos que eles utilizavam a casca dos ovos de avestruz essencialmente por motivos decorativos fazendo contas para colares, etc.”

    Há três anos o Conselho Europeu de Investigação concedeu uma bolsa de cinco anos ao arqueólogo que promete continuar as pesquisas e a procura de financiamento para prosseguir as pesquisas. Nuno Bicho tem trabalhado, no campo, com alunos de arqueologia da Universidade Eduardo Mondlane. Há artefactos que são tratados nos laboratórios do Departamento de Antropologia e Arqueologia dessa universidade moçambicana, mas há outros que são enviados para Portugal, analisados e depois retornados e depositados na Universidade Eduardo Mondlane. Por enquanto, ainda não é possível fazer tudo em Moçambique.

    “Não há capacidade financeira para investir em arqueologia, particularmente na Idade da Pedra. Esse é um aspecto. E segundo, a formação ainda é limitada na Universidade Eduardo Mondlane, que é a única universidade que tem arqueologia. Apesar de terem uma licenciatura e haver muitos alunos a terminar todos os anos felizmente - porque isso de facto promove o estudo do património arqueológico e possibilita uma defesa muito relevante - mas depois não tem formações avançadas após a licenciatura. São países externos como Portugal, como a Universidade do Algarve, que permitem fazer esse desenvolvimento. Neste momento, já há perto de meia dúzia de doutorados em Moçambique em Arqueologia. Há 15 anos, quando eu comecei, havia apenas uma pessoa. É muito relevante este trabalho. E não foi só a Universidade do Algarve a fazer isso, há universidades também na Suécia que promovem esse tipo de trabalho. Há vários doutorados na Suécia”, conta Nuno Bicho.

    O arqueólogo também esteve a pesquisar o mesmo período da evolução humana no Sudão, mas a investigação está, por enquanto, interrompida, no terreno, devido à guerra.

    14 min
  • Saúde mental em Cabo Delgado : « Nós vivemos com medo constante »

    A saúde mental é um desafio ao qual cada um pode ser confrontado a dada altura, por motivos diferentes. Em Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, é a violência constante desde 2017 que corrói o quotidiano daqueles que a vivem, são testemunhas ou até acabam por também a praticar.

    Nestas últimas semanas, chegam-nos regularmente notícias do recrudescimento dos ataques contra povoações designadamente nos distritos de Muidumbe, no norte, bem como em Chiúre e Ancuabe, a sul da província.

    Apesar da presença de tropas estrangeiras a apoiar as Forças Armadas Moçambicanas, segundo a ONU, cerca de 100 mil pessoas têm fugido de Cabo Delgado desde o começo do ano e mais de metade desde Julho.

    Mesmo no caso de encontrar algum refúgio em campos de deslocados, os moradores que fugiram dos ataques enfrentam riscos sanitários acrescidos, ligados essencialmente à higiene, à água, ao paludismo, mas também à sua própria saúde mental.

    Para evocar esta problemática, a RFI falou com Simone Jacinto, psicólogo clínico baseado no distrito de Balama, no sudoeste de Cabo Delgado e também com Osvaldo de Sousa, Técnico de Medicina Geral ligado à Médicos Sem Fronteiras, que esteve recentemente em Chiúre, igualmente no sul da província.

    Ao recordar as situações com que se deparou enquanto esteve naquela zona, este último refere que encontrou pessoas com as «necessidades quase todas».

    «Os Médicos Sem Fronteiras foram ao terreno em Chiúre e realmente encontramos pessoas com necessidades quase todas. Mas o nosso foco mesmo foi, primeiro, melhorar e evitar o pior. Estamos a falar de prevenção. A equipa de saúde mental, a equipa de água e saneamento do meio e, assim como os técnicos que estavam lá no terreno para apoiar as pessoas, a missão foi mesmo tratar os doentes e também colocar medidas preventivas, desde promoção de saúde, promoção de saúde mental na comunidade, água e saneamento», conta Osvaldo de Sousa.

    Questionado sobre o quadro psicológico apresentado pelos deslocados e sobreviventes que apoiou, o técnico fala nomeadamente de «stress pós-traumático. As equipas tentaram chegar às aldeias para criar demanda aos serviços, fazer conhecer de que a falta de saúde mental ou problemas mentais manifestam desta maneira. (…) É deplorável ver pessoas com manifestações evidentes de stress. A ansiedade que este público apresentava, do que vai acontecer no futuro, o que é que vai acontecer, em situações que antes tinham o mínimo para sobreviver, mas agora foi reduzido a nada».

    Apesar deste sofrimento, as populações afectadas não vão necessariamente de forma espontânea procurar uma ajuda especializada, lamenta Osvaldo de Sousa. «Precisamos muito trabalho para consciencializar as pessoas de que o isolamento, a tristeza, a irritabilidade nas crianças, por exemplo, a falta de sono durante a noite, não é normal. É um problema de saúde mental. São consequências do impacto do que aconteceu.»

    Relativamente às franjas mais fragilizadas da população de Cabo Delgado, as crianças, o técnico de saúde considera que vivem «uma situação muito caótica».

    «As equipas tiveram oportunidade de explorar mais do que se passa na mente, na psique das crianças. A equipa busca entender o que é que a criança pensa, o que acha. Por exemplo, ‘desenha o que você não gosta’. Então as crianças desenhavam homens armados, As crianças desenhavam situações que realmente você não tem. Claro que não posso ver o que é que a criança vê. Mas eu consigo entender o que é que se passa na psique da criança, o que é que a criança teve como impacto negativo da violência, tem um trauma, tem um futuro um pouco debilitado mentalmente. É devastador», constata Osvaldo de Sousa.

    Este é também o quadro descrito por Simone Jacinto, psicólogo clínico baseado no distrito de Balama no sudoeste de Cabo Delgado.

    As crianças «que passaram directamente por este conflito podem, a posteriori, desenvolver aquilo que se chama de ‘transtornos de agressividade’, porque podem ser dominados por parte do seu sentimentalismo, porque vivenciaram coisas que na sua idade não poderiam vivenciar e posteriormente, isso também pode afectar a parte da saúde escolar da própria criança», diz o especialista.

    Questionado sobre os perigos enfrentados pelas crianças que são raptadas para, em seguida, serem utilizadas como crianças-soldado, o terapeuta diz que o primeiro risco que enfrentam é a sua instrumentalização. «Vão ser instrumentalizadas para uma uma actividade que não é para eles. Essas crianças são instrumentalizadas para praticar acções agressivas. Essas crianças também correm riscos por não ter nenhum proveito escolar. Essas crianças, quando crescerem, porque estão a vivenciar ou estão a ser instrumentalizadas e a praticarem acções que não são do seu nível, elas praticamente serão perdidas», adverte o psicólogo.

    Focando o olhar sobre a situação dos deslocados e refugiados, o técnico refere que o estatuto de deslocado já implica fragilidades. «A perda das suas condições, eles vivem em zonas em que nem contavam que passariam. Elas estão vulneráveis a muitas situações. Não têm condições em termos de comida, de água, de dormida. E a saúde psicológica do próprio paciente está afectada», observa o perito.

    Mesmo quem nunca esteve confrontado com a violência mas vive em Cabo Delgado, tem medo, diz Simone Jacinto. «Praticamente a pessoa que vive em Cabo Delgado não vive normalmente. Vivemos todos os dias a rezar e a pedirmos a Deus. Nós tivemos um rumor no passado ano de 2023, que eles (os insurgentes) passaram numa zona do distrito de Namuno (perto do distrito de Balama, no sudoeste de Cabo Delgado) que iam para a zona de Balama. Acredite, num período como este, que nem rádio, nem televisão, ninguém ligava por medo. Então todos nós aqui vivemos com constante vigilância, medo constante e desmotivados pela vida», desabafa o psicólogo.

    Sobre a sensibilidade das autoridades sobre estes aspectos, o terapeuta considera que existem ainda alguns desafios pela frente. «Primeiro, tinha que se criar equipas de peritos da área» considera Simone Jacinto para quem seria também interessante desenvolver « terapias, instrumentos para ocupação das crianças » e também « a componente alimentar para as próprias pessoas, condições de vida».

    No mesmo sentido, Osvaldo de Sousa, dos Médicos Sem Fronteiras, considera que uma tomada de consciência ainda deve ser feita.

    «Todos nós somos chamados a falar alto porque parece que este problema está adormecido, que quem não está no terreno pensa que está tudo bem. Mas não. As crianças, todos os dias, vivem atormentadas com insónia. Então é um trabalho multidisciplinar. A nossa parte, vamos ao campo, vamos falar de quem olha, vamos procurar os cuidados médicos. Vamos continuar a dar apoio em termos de saúde física e mental, mas também os outros que estão por detrás e por outros lados poderiam ajudar a fazer entender que a busca atempada aos cuidados de saúde mental é relevante. É o que estamos aqui a fazer», conclui o técnico de medicina geral.

    23 min
  • 6/6 Turismo espacial: “Fala-se de uma forma demasiado simplista de irmos a Marte"

    A longo prazo, a ilha de Santa Maria poderá vir a desempenhar um papel importante no turismo espacial. Muito dependerá da evolução dos sistemas de propulsão, mas não só - o turismo espacial enfrenta, por enquanto, os limites impostos pelo próprio corpo humano. “Biologicamente somos muito frágeis”, sublinha Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa.

    Para Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, quando se fala em turismo espacial é inevitável a comparação com a história da aviação: “Nós nunca pensámos que, no início do século, com a origem da aviação, os irmãos Wright fizeram aquele voo e que se transformasse naquilo que é hoje. Tiramos um bilhete de avião e vamos...” Ainda assim, reconhece que o turismo massivo actual, assente no transporte aéreo, é ambientalmente insustentável — e que o futuro do turismo espacial terá de seguir outra lógica.

    “Depende da evolução dos meios de propulsão. Mas falamos em sair daqui, entrar no nível suborbital e sair no Japão. Portanto, o turismo espacial, suborbital vai ser [uma realidade] e não só fazer a linha de Kármán e regressar, mas de permanência.” No entanto, o turismo espacial não depende apenas da viabilidade técnica, mas também dos limites do corpo humano. E esse é que parece ser, para já, o verdadeiro obstáculo à expansão do turismo fora da Terra. Actualmente, a permanência prolongada no espaço - superior a três semanas - tem consequências fisiológicas graves. A viagem a Marte, por exemplo, levanta inúmeros obstáculos.

    “Fala-se de uma forma demasiado simplista de irmos a Marte. Ir a Marte é muito complicado e há quem queira ir, mas só com um bilhete de ida…", sublinha Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, que acrescenta que é preciso manter os pés na Terra. “Temos que cuidar do nosso ponto de partida, que é a nossa Terra. Isso é o nosso lugar, é o nosso chão, é aquilo que nos dá a continuidade de sermos o que somos. Biologicamente somos muito frágeis. Aquela pequena camada que nos prende à vida chamada atmosfera é o que faz a diferença.” Todavia, acrescenta que nos próximos 20 a 30 anos, poderá haver avanços nesse sentido. 

    Impactos ambientais do desenvolvimento do sector espacial

    Questionado sobre os possíveis impactos ambientais do desenvolvimento do sector espacial no Açores, o presidente da Agência lembra que outras actividades com impacto muito mais significativo são amplamente toleradas, nomeadamente a aviação civil.

    “Se perguntar a qualquer pessoa se queria ter aqui mais voos da SATA, ou de outras companhias aéreas, toda a gente dizia que sim. Toda a gente dizia que queria ter um epicentro aeronáutico. O transporte aeronáutico é um problema ambiental brutal. A poluição é brutal.”

    Ricardo Conde sublinha que mais de 80% do transporte aéreo serve o turismo tradicional, no entanto, poucos questionam esse modelo. “E os cruzeiros? Não ouço ninguém falar dos cruzeiros. Um cruzeiro equivaleria, eventualmente, a 100 foguetões.” Já os lançamentos espaciais previstos para Santa Maria “não têm expressão nenhuma”, de um ponto de vista ambiental, assegura.

    A desinformação é, para Ricardo Conde, o maior problema. “As pessoas estão mal informadas. Não há pior do que a má informação.” Mesmo o regresso dos veículos espaciais, garante, “não tem qualquer tipo de problema ambiental.”

    Transformar Santa Maria numa ilha espacial é também uma forma de valorizar o território, segundo Ricardo Conde: “É aumentar o turismo. E aumentar o turismo de qualidade. Porque nós não estamos a falar aqui em destruir nada para construir alguma coisa. Isso é um mito.”

    7 min
  • 5/6 Portugal quer posicionar Constelação do Atlântico como ferramenta estratégica

    A Constelação do Atlântico é um conceito estratégico de cooperação internacional na área espacial, inicialmente desenvolvido por Portugal e Espanha, que visa criar uma rede de satélites interoperáveis e híbridos, com capacidades para servir objectivos civis, científicos, ambientais, de defesa e segurança. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, afirma que Portugal está a tentar posicionar a Constelação do Atlântico como uma ferramenta estratégica dentro da Europa.

     

    A Constelação do Atlântico é uma iniciativa de cooperação espacial- Portugal e Espanha- com liderança portuguesa, que pretende usar uma rede partilhada de satélites para responder a desafios de sustentabilidade, segurança e desenvolvimento económico, dentro e fora da Europa. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, explica que a Constelação do Atlântico surgiu para dar resposta a necessidades de inteligência, segurança e defesa, num contexto de guerra na Ucrânia.

    “Fala-se muito da Constelação Atlântica, mas é importante perceber que, antes de mais, se trata de um conceito, não de um conjunto físico fechado de satélites. O nome surgiu porque, na sua génese, estavam dois países- Portugal e Espanha - que partilham o Atlântico. Isso não significa que os satélites estejam posicionados exclusivamente sobre o oceano. A constelação representa sobretudo uma ideia de interoperabilidade, dualidade e operação conjunta. A origem mais recente deste conceito prende-se com a guerra na Ucrânia e a necessidade urgente de resiliência europeia. Percebeu-se que havia falta de imagens e dados em tempo real para dar resposta a necessidades de inteligência, segurança e defesa. No entanto, a sua génese remonta a preocupações com a sustentabilidade dos territórios - e esse continua a ser um eixo fundamental. Os satélites servem tanto para gerir o território em termos ambientais e de recursos como para garantir segurança e soberania”.

    Ricardo Conde refere que Portugal está a tentar posicionar a Constelação do Atlântico como uma ferramenta estratégica dentro da Europa.

    "Hoje, Portugal está a tentar posicionar a Constelação Atlântica como uma ferramenta estratégica dentro da Europa. Apesar da colaboração com Espanha, o conceito tem uma matriz fortemente portuguesa. O objetivo é que esta constelação integre programas europeus, nomeadamente os que serão discutidos no próximo Conselho Ministerial da ESA”.

    A constelação do Atlântico está aberta a outros parceiros, como Angola, Brasil, Grécia ou Finlândia, numa lógica de expansão global. O presidente da Agência Espacial Portuguesa garante que o objectivo é criar uma federação de capacidades.

    Há também uma componente comercial e internacional em crescimento. A ambição é alargar a constelação a outros países - Angola, Brasil, Grécia, Finlândia, entre outros. Já existe um protocolo com Angola, e estão a decorrer conversações com outros parceiros. A ideia é criar uma federação de capacidades: cada país contribui com recursos e beneficia de um sistema mais amplo, respeitando sempre a autonomia de cada Estado.

    Ricardo Conde garante que há planos para futuros lançamentos sub-orbitais a partir da ilha de Santa Maria, nos Açores, porém prefere não adiantar datas.

    “Há planos para usar a ilha de Santa Maria, nos Açores, mas é importante ter expectativas realistas: só serão possíveis lançamentos de pequenos satélites, até 150 ou 200 kg. Dependerá da evolução dos lançadores e das tecnologias desenvolvidas. O objectivo é responder rapidamente com cargas pequenas - o chamado fast response. Ainda não há uma data exacta. Foram pedidas licenças e estamos a poucas semanas de as emitir. Muito dependerá da capacidade de resposta da indústria. Há quem fale em voos orbitais em breve, mas parece mais sensato avançar por etapas (step by step), garantindo segurança e aprendendo com cada fase”.

    O presidente da Agência Espacial Portuguesa fala ainda dos recentes lançamentos falhados, reiterando que fazem parte do processo de desenvolvimento da economia espacial.

    “Os recentes lançamentos falhados, como alguns testes da RFA, não devem ser vistos como fracassos. São parte natural do processo de desenvolvimento. O primeiro voo da empresa Izar, por exemplo, apesar de curto, foi um sucesso. São voos de teste que permitem recolher dados e melhorar. É essencial compreender que tudo isto se insere numa lógica de economia espacial moderna - a chamada new space economy. Isto não é apenas governamental, é um negócio. Há empresas privadas envolvidas e decisões que se baseiam em business plans. O papel do sector público é estruturar, criar condições e investir em infra-estruturas como o Teleporto; depois, é o mercado que opera. Podemos compará-lo a uma fábrica: desde que funcione, gere empregos, produz valor e cumpre a sua missão. É assim que temos de olhar para o sector espacial actual - com pragmatismo, visão estratégica e abertura ao mundo".

    8 min
  • São Tomé e Príncipe pode ser primeiro país no Mundo a ter mosquito que visa erradicar a malária

    As Universidades da Califórnias em parceria com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de São Tomé e Príncipe têm vindo a estudar nos últimos anos a possibilidade de libertar um mosquito geneticamente modificado cujo organismo elimina a malária. Os estudos prévios estão quase concluídos e só falta agora as autoridades do país autorizarem a libertação deste mosquito na natureza para verificar a eficácia na erradicação do paludismo.

    Só em 2024 foram detectados mais de 263 milhões de casos de malária no Mundo que levaram a 597 mil mortes, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Dessas mortes, estimam-se que 95% tenham acontecido em África o que torna a malária, uma doença sem vacina mas que pode ser tratada com os medicamentos adequados, uma das doenças mais preocupantes no continente.

    Os investigadores das Universidades da Califórnia pensam ter descoberto uma solução, modificando geneticamente o mosquito Anopheles, que transmite a malária. O organismo deste insecto geneticamente modificado passa a eliminar sozinho o parasita que transmitido aos humanos causa o paludismo e essa característica torna-se um gene dominante, fazendo com que toda a população de mosquitos de um determinado local deixe de propagar esta doença.

    "Este mosquito é um mosquito em tudo idêntico ao mosquito que já existe aqui em São Tomé e Príncipe, mas com uma diferença notável: ele tem dois genes benéficos e sintéticos que são introduzidos no mosquito através de um mecanismo de engenharia genética que se designa por 'gene drive'. O 'gene drive' vai transportar os genes benéficos e integrá-los no genoma do mosquito com precisão, ou seja, nós sabemos exactamente onde é que ele vai ser integrado, mas o drive tem um papel dual, não só a integração dos genes benéficos dentro do mosquito, mas também à dispersão destes genes na população", explicou João Pinto, professor auxiliar e chefe da unidade de Entomologia Médica do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

    João Pinto lidera as operações de campo nas ilhas de São Tomé e Príncipe, selando assim a parceria com a Universidade Nova de Lisboa e também a Universidade de São Tomé e Príncipe onde este projecto, que se chama UCMI - Universidade da Califórnia - Iniciativa Contra a Malária em STP, instalou um laboratório molecular e onde investigadores locais trabalham lado a lado com investigadores portugueses, norte-americanos e ainda outras nacionalidades.

    Antes de qualquer trabalho de campo, os investigadores levaram a cabo um estudo de forma a determinar onde se poderiam levar a cabo as primeiras experiências e foram analisados mais de 20 arquipélagos e ilhas, tendo a escolha final recaído em São Tomé e Príncipe devido à presença da malária, do mosquito Anopheles, mas também a própria dimensão das duas ilhas. Assim, desde 2021 que estão a ser levadas a cabo experiências laboratoriais no país e estudos preparatórios sem que ainda tenha havido qualquer libertação de mosquitos na natureza.

    Os estudos preparatórios terminam dentro de alguns meses e a equipa quer agora passar à fase de libertação na ilha do Príncipe, mas ainda precisa de luz verde das autoridades.

    "Até à data o UCMI não libertou nenhum mosquito modificado em São Tomé e Príncipe, nem sequer iniciou a sua produção. A primeira fase, que era precisamente uma fase que enquadrava três actividades principais as pesquisas científicas, a capacitação técnica de infraestruturas, de recursos humanos e o engajamento comunitário e das partes interessadas é uma fase que está em vias de conclusão. Dentro de alguns meses teremos essa fase já perfeitamente concluída e teremos que efectivamente passar para a segunda fase. Passar para a segunda fase carece de autorização de aprovação do Governo São Tomé e Príncipe. E é nisso que temos vindo a trabalhar e contamos ter uma resposta nos próximos meses sobre se de facto havemos de avançar ou não. Se avançarmos, teremos que implementar essencialmente duas actividades a primeira, que é a produção do próprio mosquito modificado, que será produzido aqui em São Tomé, com base num mosquito que se encontra em São Tomé e através de tecnologia que será implementada em São Tomé, nomeadamente no Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de São Tomé e Príncipe. Uma vez concretizada a produção de um mosquito modificado, então aí sim, teríamos que avançar para uma fase de libertação experimental. Gostaríamos de iniciar na Ilha do Príncipe e uma vez havendo uma libertação experimental, teríamos depois todo um processo de acompanhamento da situação que nunca será inferior a três anos, entre três a cinco anos e a nossa expectativa", detalhou João Pinto.

    A libertação de mosquitos geneticamente modificados é algo que pode assustar uma parte da população e, por isso, o UCMI tem trabalhado nos últimos anos junto das comunidades no país para explicar que os mosquitos não vão desaparecer nem deixar de picar as pessoas, vão sim, segundo os estudos levados a cabo até agora, deixar de transmitir o parasita da malária.

    "É importante fazermos esse engajamento e sensibilização comunitária não só no âmbito do projecto, mas como do paludismo em si. Porque nós constatámos no início do projecto que na comunidade poucas pessoas sabem como é que ocorre o processo de transmissão do paludismo. E associado a isso nós estamos a propor um projecto de tecnologia para combater paludismo, onde é preciso nós sensibilizarmos e continuarmos a informar e explicar às pessoas sobre esta tecnologia", explicou Lodney Nazaré, ponto focal do Envolvimento do UCMI em São Tomé e Príncipe.

    Ouça aqui Lodney Nazaré:

    Entre as acções de sensibilização há actividades que consistem em levar microscópios às crianças para que possam ver os mosquitos e compreender como se processa a transmissão do parasita. Actualmente em São Tomé e Príncipe não há óbitos devido à doença, mas há ainda muitas pessoas que ficam doentes, colocando não só as suas vidas em risco, mas também a subsistência das famílias já que muitas mães e pais de família têm de deixar de trabalhar no período de convalescença da doença.

    Caso o Governo de São Tomé e Príncipe autorize a passagem à segunda fase deste projecto, o país tornar-se-ia um caso de estudo mundial já que nada assim foi ainda tentado noutro território. O UCMI espera agora a resposta das autoridades, tendo já elucidade uma grande parte da população.

    "A maneira como as pessoas reagem e questionam o procjeto mostra claramente o progresso que há naquilo que é o trabalho de engajamento que nós temos vindo a fazer. A primeira vez que o projeto foi apresentado em São Tomé, as questões eram mais difíceis de responder, fruto também do desconhecimento total daquilo que o projecto estava está a propor. [...] No ano passado chegámos ao estágio em que alguns membros comunitários já fizeram, inclusive vídeos comunitários, a solicitar que devêssemos avançar com o projeto. Dada a compreensão que eles obtiveram do próprio projecto. Não sei se no final teremos um grupo de pessoas advogar junto ao governo sobre o projecto, mas nós de facto esperamos que isso aconteça e quem sabe isso poderá ajudar o governo a decidir sobre o futuro do projecto", concluiu Lodney Nazaré.

    14 min
  • 4/6 Santa Maria pode colocar Portugal no mapa das grandes infra-estruturas espaciais da Europa

    Na ilha de Santa Maria, nos Açores, está em marcha um projecto que poderá colocar Portugal no mapa das grandes infra-estruturas espaciais da Europa. Trata-se do desenvolvimento de um hub espacial com foco no retorno de veículos vindos do espaço. A iniciativa é liderada pela Agência Espacial Portuguesa e visa transformar a ilha açoriana no principal ponto europeu de regresso de missões espaciais.

    O projecto tem como peça central o Space Rider, veículo reutilizável europeu que será lançado a partir da Guiana Francesa e cujo regresso à Terra está previsto para ocorrer em Santa Maria em 2027. Segundo Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, o objectivo não é apenas acompanhar a nova corrida espacial, mas colocar Portugal na linha da frente de um paradigma que valoriza cada vez mais a reutilização de tecnologia e a redução de custos operacionais.

    "Uma economia espacial sustentável baseia-se nos custos de acesso ao espaço. Se o custo for baixo, a economia eleva-se”, explicou Ricardo Conde, sublinhando a importância do retorno como parte essencial da cadeia de valor espacial. Ao contrário da abordagem tradicional, centrada nos lançamentos, o foco em Santa Maria será, sobretudo, o regresso: “Não queremos só lançar. Queremos recuperar. O retorno, do meu ponto de vista, é o mais importante aqui. Porque não há alternativas a nível europeu.”

    O conceito é claro: criar em Santa Maria não apenas um porto espacial, mas um verdadeiro ponto de acesso e retorno. Esta abordagem distingue-se de outras infra-estruturas europeias pela sua agilidade e versatilidade, essenciais para responder às novas exigências do sector, nomeadamente a chamada resposta rápida ao espaço. Neste contexto, pequenos lançadores terão um papel relevante, permitindo colocar satélites ou sondas em órbita num prazo de dias, algo particularmente útil para fins militares, de monitorização ambiental ou em situações de emergência.

    Actualmente, a cadência de lançamentos na Europa é limitada. O novo lançador Ariane 6 poderá realizar no máximo nove voos por ano, contrastando com os quase 200 lançamentos anuais da SpaceX. “Se quiser lançar [um satélite] na Europa, tem de esperar. E quando precisamos de uma resposta rápida, essa espera torna-se um problema. É aqui que iniciativas como a de Santa Maria ganham valor estratégico”, referiu Ricardo Conde.

    O ecossistema espacial açoriano será composto por várias infra-estruturas. No antigo kartódromo da ilha, cedido pela Câmara Municipal, será erguido o Centro Tecnológico Espacial de Santa Maria, onde se instalarão hangares com câmaras limpas e sistemas de integração. Este centro será a espinha dorsal das operações de preparação e manutenção dos veículos espaciais.

    Junto ao aeroporto será construído o local de aterragem do Space Rider, uma área circular com 500 metros de raio, concebida especificamente para acolher o retorno seguro do veículo reutilizável. Além disso, no teleporto de Santa Maria, será instalada uma nova antena, já em fase de concurso, destinada a garantir as condições de segurança durante as operações de lançamento e regresso.

    Todavia, as obras estão atrasadas. “Estamos neste momento com cinco meses de atraso”, admitiu Ricardo Conde, que acrescenta que o financiamento e os quadros de investimento ainda estão em fase de preparação. 

    O objectivo, no entanto, mantém-se inalterado: fazer de Portugal o primeiro e único ponto de retorno de veículos espaciais na Europa, complementando assim a oferta europeia de acesso ao espaço com uma valência estratégica até agora inexistente. 

    O regresso do Space Rider em 2027 poderá marcar um momento histórico para a presença portuguesa no espaço e consolidar Santa Maria como uma plataforma europeia de referência no sector aeroespacial.

    8 min

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