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A França decretou esta quarta-feira, 15 de Maio, estado de emergência na Nova Caledónia até dia 12 de Junho. Depois de cinco dias de tumultos, que tiraram a vida a cinco pessoas, a França está a enviar reforços de segurança para o território francês no Pacífico, que vive uma crise de segurança e identidade política motivada pela reforma eleitoral. O historiador emérito da Universidade de Sciences Po, Michel Cahen, defende que a única forma de resolver a crise é a descolonização.
RFI: Como é que interpreta este surto de violência na Nova Caledónia?
Michel Cahen: Como historiador vou tentar raciocinar na longa duração, mas uma coisa é muito clara: o que acontece hoje na Nova Caledónia francesa é devido a uma situação colonial. Não se pode raciocinar com universalismo abstracto, dizendo isto é uma parte da França e vamos raciocinar como se fosse Bordéus ou Paris. É uma situação colonial. O que acontece hoje é uma tragédia com perdas humanas, com muita destruição. É uma situação pré-insurrecional porque essa situação é o produto de uma política do actual governo francês. Já há cinco ou seis anos que a situação está a piorar e todas as pessoas que conhecem bem o terreno dizem 'cuidado, cuidado, isto vai explodir'. Não se pode comparar a Nova Caledónia com as Antilhas Francesas, a Martinica, Guadalupe ou a ilha de Reunião no Índico.
Porquê?
Porque nessas ilhas não havia indígenas. Estou a utilizar essa palavra indígena no sentido antropológico, naturalmente. Não havia indígenas, foram muito rapidamente exterminados e os habitantes eram uma minoria de donos brancos. Hoje em dia, a maioria da população é descendente de escravos, enquanto na Nova Caledónia é um bocadinho comparável com a África continental. Isto é, há um povo indígena, há um povo que nunca aceitou a dominação francesa, desde a conquista da Nova Caledónia, nos meados do século XIX. Os vários povos que hoje se chamam de kanaks sempre resistiram. Houve revoltas, houve repressão feroz, houve uma diminuição da população. Não se pode dizer simplesmente que a ordem deve voltar. O governo francês actualmente está a reagir simplesmente em termos policial e militar. A ordem tem que ser restabelecida. Eu quase estou a ouvir o Salazar, o Caetano, dizendo 'nós podemos conversar com Moçambique, Angola, mas em primeiro lugar, a ordem deve voltar'. Não há outra maneira de resolver uma situação colonial que não seja a descolonização. Essa descolonização tinha sido prevista pelos acordos feitos pelo Michel Rocard e isso foi completamente abandonado hoje. Isso explica todo o desespero de uma geração de jovens. Também não devemos esquecer a situação social e económica que é muito má. É uma revolta anti-colonial.
O governo francês parece ter dificuldade em travar esta crise. O executivo reforça a segurança, envia a militares para a Nova Caledónia, mostra força, portanto, Mas tem responsabilidade nesta crise?
Não só tem responsabilidade, mas tem uma responsabilidade esmagadora porque as grandes organizações kanaks que são independentistas não são nada radicais, pelo contrário são muito moderadas. Têm um objectivo muito forte que é a independência do país, mas têm sempre dito, ao longe de 20 anos, que defendem o diálogo. Vou dar um exemplo, quando houve a pandemia da Covid-19, houve muitos mortos nos kanaks da Nova Caledónia. Com a Covid-19 e nos costumes, há um período de luto e durante este período de luto as pessoas recolhem-se e não participam em actividades políticas. Nesse momento, o governo teimou em organizar o terceiro referendo. Mais tarde, o governo considerou que essas crenças dos habitantes do país não eram qualquer coisa de relevante e então organizaram o referendo. Os independentistas boicotaram e, obviamente, o resultado foi de maneira esmagadora, "não à independência", mas este não é um referendo aceitável. Nós estamos a pagar o fruto de anos e anos de desprezo para os Kanak.
Como é que se explica que desde 2018 a Nova Caledónia tenha tido três referendos pela independência, sendo que nos três o não saiu vitorioso e o último, como disse, em 2021 foi boicotado pelos independentistas. Estes referendos não foram fidedignos, foram manipulados?
Tecnicamente não foram manipulados, pelo menos não tenho fontes para dizer isso, mas temos que raciocinar de maneira histórica. O povo Kanak é um povo que foi menorizado desde há décadas. Com a imigração crescente de gente vindo da França. O povo daquela terra foi mais e mais minoritário
O povo Kanak que representa cerca de 40% da população na Nova Caledónia...
Hoje sim, mas antigamente era muito mais e com a taxa demográfica, se esperarmos mais alguns anos, provavelmente o povo kanak vai voltar a ser maioritário. A não ser que a França organize mais e mais imigração para a Nova Caledónia. É muito estranho porque em França há muita gente que diz que a ordem deve ser restabelecida. São pessoas que estão a criticar muito a imigração em França, dizendo que a extrema-direita diz que 'o povo francês vai ser submerso por uma vaga de imigrantes'. Mas é exactamente a mesma coisa que aconteceu na Nova Caledónia. A França favoreceu mais e mais a vinda de franceses com salários locais para os franceses quase multiplicado por dois em comparação com a metrópole e o povo Kanak ficou minoritário na sua própria terra. Não se pode raciocinar somente dizendo um ser vivo, um voto. É preciso considerar que há uma situação colonial e essa situação colonial para ser resolvida dever ser descolonizada. O que não quer dizer que todos os franceses que estão lá devem sair. Há muitos franceses que nasceram nessa terra, esses obviamente podem ficar e até há muitos kanaks que estão a favor de trabalhar com caledonianos de origem francesa. Mas em primeiro lugar, deve-se aceitar que é uma situação colonial, que um povo foi historicamente menorizado na sua própria terra e que este povo não pode aceitar um referendo onde uma maioria de pessoas, historicamente imigrantes, os colonizadores franceses, vai votar para o futuro desta terra.
Que soluções para sair desta crise? A França está pronta a dar razão aos independentistas da Nova Caledónia?
Não sei se é dar razão aos independentistas da Nova Caledónia, mas se o governo francês quer que a paz volte, a primeira coisa, é retirar a lei, não promulgar a lei sobre a revisão do corpo eleitoral. Esta lei cria uma situação de desespero para os kanaks que com a situação demográfica actual, vão continuar a ser minoritários, embora estejam na sua terra, enquanto os outros são historicamente os colonizadores. Se o governo quiser, em vez de enviar centenas e centenas e centenas de militares na Nova Caledónia, é muito simples: retiram e não promulgam o projecto de lei sobre a revisão do corpo eleitoral e a paz volta de imediato. Poderão reorganizar negociações porque não estamos em 1842. Agora deve haver uma colaboração entre os kanaks, que são o povo histórico da terra e os franceses que querem fazer esta terra a sua terra para a vida toda e não só para uma uma posição de funcionário público muito bem pago para alguns anos. Há muitos franceses que vivem lá que estão prontos para negociar. Não se deve empurrar os kanaks e, nomeadamente, uma juventude Kanak muito pobre que está a ver a riqueza dos outros e que sente que tudo isso foi roubado ao povo Kanak. Para que a paz volte, deve-se retirar esta lei. A lei não deve ser promulgada e integrada na Constituição Francesa.
A única coisa que propôs o nosso Presidente, Macron, foi atrasar a integração da lei na Constituição. Espero que não haja uma ala radical dos independentistas que decida entrar na luta armada mesmo, como houve em Angola, como houve em Moçambique, como houve na Guiné. A França vai entrar numa nova guerra colonial? Já tivemos a Indochina, já tivemos a Argélia. Espero que não vai acontecer assim, porque a situação é muito grave.
By RFI PortuguêsA França decretou esta quarta-feira, 15 de Maio, estado de emergência na Nova Caledónia até dia 12 de Junho. Depois de cinco dias de tumultos, que tiraram a vida a cinco pessoas, a França está a enviar reforços de segurança para o território francês no Pacífico, que vive uma crise de segurança e identidade política motivada pela reforma eleitoral. O historiador emérito da Universidade de Sciences Po, Michel Cahen, defende que a única forma de resolver a crise é a descolonização.
RFI: Como é que interpreta este surto de violência na Nova Caledónia?
Michel Cahen: Como historiador vou tentar raciocinar na longa duração, mas uma coisa é muito clara: o que acontece hoje na Nova Caledónia francesa é devido a uma situação colonial. Não se pode raciocinar com universalismo abstracto, dizendo isto é uma parte da França e vamos raciocinar como se fosse Bordéus ou Paris. É uma situação colonial. O que acontece hoje é uma tragédia com perdas humanas, com muita destruição. É uma situação pré-insurrecional porque essa situação é o produto de uma política do actual governo francês. Já há cinco ou seis anos que a situação está a piorar e todas as pessoas que conhecem bem o terreno dizem 'cuidado, cuidado, isto vai explodir'. Não se pode comparar a Nova Caledónia com as Antilhas Francesas, a Martinica, Guadalupe ou a ilha de Reunião no Índico.
Porquê?
Porque nessas ilhas não havia indígenas. Estou a utilizar essa palavra indígena no sentido antropológico, naturalmente. Não havia indígenas, foram muito rapidamente exterminados e os habitantes eram uma minoria de donos brancos. Hoje em dia, a maioria da população é descendente de escravos, enquanto na Nova Caledónia é um bocadinho comparável com a África continental. Isto é, há um povo indígena, há um povo que nunca aceitou a dominação francesa, desde a conquista da Nova Caledónia, nos meados do século XIX. Os vários povos que hoje se chamam de kanaks sempre resistiram. Houve revoltas, houve repressão feroz, houve uma diminuição da população. Não se pode dizer simplesmente que a ordem deve voltar. O governo francês actualmente está a reagir simplesmente em termos policial e militar. A ordem tem que ser restabelecida. Eu quase estou a ouvir o Salazar, o Caetano, dizendo 'nós podemos conversar com Moçambique, Angola, mas em primeiro lugar, a ordem deve voltar'. Não há outra maneira de resolver uma situação colonial que não seja a descolonização. Essa descolonização tinha sido prevista pelos acordos feitos pelo Michel Rocard e isso foi completamente abandonado hoje. Isso explica todo o desespero de uma geração de jovens. Também não devemos esquecer a situação social e económica que é muito má. É uma revolta anti-colonial.
O governo francês parece ter dificuldade em travar esta crise. O executivo reforça a segurança, envia a militares para a Nova Caledónia, mostra força, portanto, Mas tem responsabilidade nesta crise?
Não só tem responsabilidade, mas tem uma responsabilidade esmagadora porque as grandes organizações kanaks que são independentistas não são nada radicais, pelo contrário são muito moderadas. Têm um objectivo muito forte que é a independência do país, mas têm sempre dito, ao longe de 20 anos, que defendem o diálogo. Vou dar um exemplo, quando houve a pandemia da Covid-19, houve muitos mortos nos kanaks da Nova Caledónia. Com a Covid-19 e nos costumes, há um período de luto e durante este período de luto as pessoas recolhem-se e não participam em actividades políticas. Nesse momento, o governo teimou em organizar o terceiro referendo. Mais tarde, o governo considerou que essas crenças dos habitantes do país não eram qualquer coisa de relevante e então organizaram o referendo. Os independentistas boicotaram e, obviamente, o resultado foi de maneira esmagadora, "não à independência", mas este não é um referendo aceitável. Nós estamos a pagar o fruto de anos e anos de desprezo para os Kanak.
Como é que se explica que desde 2018 a Nova Caledónia tenha tido três referendos pela independência, sendo que nos três o não saiu vitorioso e o último, como disse, em 2021 foi boicotado pelos independentistas. Estes referendos não foram fidedignos, foram manipulados?
Tecnicamente não foram manipulados, pelo menos não tenho fontes para dizer isso, mas temos que raciocinar de maneira histórica. O povo Kanak é um povo que foi menorizado desde há décadas. Com a imigração crescente de gente vindo da França. O povo daquela terra foi mais e mais minoritário
O povo Kanak que representa cerca de 40% da população na Nova Caledónia...
Hoje sim, mas antigamente era muito mais e com a taxa demográfica, se esperarmos mais alguns anos, provavelmente o povo kanak vai voltar a ser maioritário. A não ser que a França organize mais e mais imigração para a Nova Caledónia. É muito estranho porque em França há muita gente que diz que a ordem deve ser restabelecida. São pessoas que estão a criticar muito a imigração em França, dizendo que a extrema-direita diz que 'o povo francês vai ser submerso por uma vaga de imigrantes'. Mas é exactamente a mesma coisa que aconteceu na Nova Caledónia. A França favoreceu mais e mais a vinda de franceses com salários locais para os franceses quase multiplicado por dois em comparação com a metrópole e o povo Kanak ficou minoritário na sua própria terra. Não se pode raciocinar somente dizendo um ser vivo, um voto. É preciso considerar que há uma situação colonial e essa situação colonial para ser resolvida dever ser descolonizada. O que não quer dizer que todos os franceses que estão lá devem sair. Há muitos franceses que nasceram nessa terra, esses obviamente podem ficar e até há muitos kanaks que estão a favor de trabalhar com caledonianos de origem francesa. Mas em primeiro lugar, deve-se aceitar que é uma situação colonial, que um povo foi historicamente menorizado na sua própria terra e que este povo não pode aceitar um referendo onde uma maioria de pessoas, historicamente imigrantes, os colonizadores franceses, vai votar para o futuro desta terra.
Que soluções para sair desta crise? A França está pronta a dar razão aos independentistas da Nova Caledónia?
Não sei se é dar razão aos independentistas da Nova Caledónia, mas se o governo francês quer que a paz volte, a primeira coisa, é retirar a lei, não promulgar a lei sobre a revisão do corpo eleitoral. Esta lei cria uma situação de desespero para os kanaks que com a situação demográfica actual, vão continuar a ser minoritários, embora estejam na sua terra, enquanto os outros são historicamente os colonizadores. Se o governo quiser, em vez de enviar centenas e centenas e centenas de militares na Nova Caledónia, é muito simples: retiram e não promulgam o projecto de lei sobre a revisão do corpo eleitoral e a paz volta de imediato. Poderão reorganizar negociações porque não estamos em 1842. Agora deve haver uma colaboração entre os kanaks, que são o povo histórico da terra e os franceses que querem fazer esta terra a sua terra para a vida toda e não só para uma uma posição de funcionário público muito bem pago para alguns anos. Há muitos franceses que vivem lá que estão prontos para negociar. Não se deve empurrar os kanaks e, nomeadamente, uma juventude Kanak muito pobre que está a ver a riqueza dos outros e que sente que tudo isso foi roubado ao povo Kanak. Para que a paz volte, deve-se retirar esta lei. A lei não deve ser promulgada e integrada na Constituição Francesa.
A única coisa que propôs o nosso Presidente, Macron, foi atrasar a integração da lei na Constituição. Espero que não haja uma ala radical dos independentistas que decida entrar na luta armada mesmo, como houve em Angola, como houve em Moçambique, como houve na Guiné. A França vai entrar numa nova guerra colonial? Já tivemos a Indochina, já tivemos a Argélia. Espero que não vai acontecer assim, porque a situação é muito grave.

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