Enterrados no Jardim

Desposar o cadáver. Uma conversa com Ricardo Cabral Fernandes


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A juventude devia importar-nos? E os jornais? Ou a falta dessas noções que iam abrindo caminho a uma renovação, a uma suspensão das velhas crenças e hábitos, dessa realidade que é usada como um argumento para vivermos sufocados? Talvez as respostas sejam o problema. Talvez as perguntas pudessem ser o suficiente. De tal modo impertinentes, umas atrás das outras, até que os que oferecem sempre as mesmas lérias vissem a sua convicção humilhada. Fazer perguntas para atazanar, para lhes dar cabo da paciência e, enfim, também do esquema. Tão seguros que estão atrás dos seus planos. A crueldade inventa sem parar, e muitas vezes encontra o caminho limitando-se a pressionar com a dúvida até deixar esta gente nervosa. Ao primeiro sinal de que as coisas não estão encaminhadas no sentido com que contavam, e largam tudo, desertam ou mudam de tendência. Como vincou Ivan Ilich, “o simples facto de uma pessoa redescobrir a surpresa pessoal, em vez de se fiar em valores produzidos pelas instituições, é susceptível de abalar a ordem estabelecida”. Entretanto, está dada uma volta em torno do sol desde que iniciámos este podcast, meia centena de episódios, um longo ensaio conspirativo, e assim temos consultado historiadores, pugilistas, ligeiros pianistas, revolucionários orto e heterodoxos, algumas mulheres em meias-noites especiais. Temos pesquisado desvãos, esses gestos fantásticos significando entendimento. Não sabemos exactamente do que se trata, senão que nos importa estudar o assunto com a grande minúcia que ele merece. Também porque estamos claramente perdidos, andando em círculos, atafulhados em papéis e teorias. A nossa necessidade antes de tudo é uma necessidade de nós mesmos. Naturalmente, também temos recorrido a certa gente já bastante ferida pela Terra, e que, depois de convenientemente conduzida a esse transe meditativo, se torna imbatível na arte de abordar problemas insolúveis, passeando ao longo deles horas, até o tempo se revelar essa ilusão que é. Não valeria a pena tentar resumir os melhores achados ou até certas baboseiras em que fomos recaindo, esses falsos rumos temporários ou os tantos desencontros, becos sem saída, investigações falhadas. Servimo-nos de todo o tipo de influências, agora mesmo, o Nuno Bragança vem-nos lembrar como já na Bíblia se fala em determinados anjos que iam pegar profetas, levando-os pelos cabelos a distantes sítios onde daniéis aflitos se rebolam com leões, interminavelmente. Trata-se de manter a conversa viva, dê por onde der, assim, e de tanto insistir, lá toma seu corpo um soltíssimo narrar, e nunca se é mais firme do que embalado por um sentimento de revolta, e, como assinalou Andrea Cavaletti em diálogo com Furio Jesi, “só no instante da revolta os homens vivem verdadeiramente em estado de vigília”. De resto, nesse “quotidiano regulamentado pelo trabalho e pelas pausas obrigatórias, estão sozinhos, cada um mergulhado no seu sono: o seu ‘tempo normal’ não é nada mais do que o produto de uma tecnicização contínua, o fruto da ‘manipulação burguesa do tempo’”. Acabaremos por construir alguma perspectiva ou uma nau de outra ordem, para se lançar num curso diferente? É difícil dizer. Talvez seja mais importante desfazer-se da fortaleza de si e confiar-se a algum companheirismo. Buscar gente, nascer uns com os outros numa misturação de respirar completo, afectando a mudança do presente noutras luzes íntimas de uma outra relação com o passado e com uma fome de um futuro para lá daquele que vem nos prospectos. Neste episódio, e nesse ensejo de encontrar pistas de ascensão à realidade, contámos com o apoio de Ricardo Cabral Fernandes, ainda em período de luto depois de ter sido obrigado a despedir-se da sua investida quixotesca, tendo criado uma plataforma "não-tradicional" de jornalismo como foi o Setenta e Quarto nos três anos da sua combativa existência. “Disse alguém que o homem subjectivo não podia tomar-se directamente a si mesmo, senão em relação à resistência que o mundo lhe oferece, senão em relação a essa resistência que ele encontra. E, assim, numa espécie de operação, de acção (Francis Ponge)”. Trata-se da Grande Obra que se exige a qualquer homem empenhado nos nossos dias, o de resgatar as possibilidades de construir sentido, de resgatar a matéria do mundo de todos esses insidiosos condicionamentos, dessa maldição desoladora que nos afasta uns dos outros.

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Enterrados no JardimBy Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho


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