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Eleição de Claudia Sheinbaum é “momento histórico” no México


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O México elegeu, pela primeira vez, uma mulher para dirigir o país. Este é um “momento histórico” num país marcado pela violência baseada no género, onde, por exemplo, no ano passado, 10 mulheres foram assassinadas diariamente. Claudia Sheinbaum, cientista climática que fez parte do painel que venceu um Nobel em 2007, tem também como desafios o combate contra a violência do crime organizado, a luta contra a pobreza e o desenvolvimento económico e sustentável do país. 

Claudia Sheinbaum foi eleita a primeira mulher Presidente do México, onde, de acordo com a ONU, 10 mulheres foram assassinadas diariamente em 2023. Há um ano, a ex-governadora da Cidade do México dizia que “México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher” e agora promete ajudar as mulheres a “viverem sem medo”. Além do combate contra a violência baseada no género, outro dos seus desafios é lutar contra a violência do crime organizado que, desde 2006, fez 450.000 mortos e 100.000 desaparecidos.

Claudia Sheinbaum herda o projecto do seu mentor e líder cessante, Andrés Manuel López Obrador, que se empenhou na luta contra as desigualdades sociais, num país onde um terço da população ainda vive na pobreza. López Obrador distribuiu milhões em ajuda directa a idosos, jovens e pessoas com deficiência, e tirou 8,9 milhões de pessoas da pobreza.

Cientista e investigadora nas áreas da energia, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, Claudia Sheinbaum fez parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2007. 

O que representa a sua vitória e que perspectivas se abrem para o México? Fomos perguntar a Pedro Abrantes, professor de sociologia na Universidade Aberta de Lisboa, que viveu vários anos no México, onde fez investigação e deu aulas.

 

"É uma eleição histórica"

RFI: O que representa esta vitória esmagadora de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais do México?

Pedro Abrantes, Professor de Sociologia: “É uma eleição histórica, primeiro pela eleição de uma mulher. No México, de facto, os presidentes têm historicamente um poder bastante grande porque são, de certa forma, presidentes e primeiro-ministros ao mesmo tempo e nunca tinha ocorrido ser uma mulher. Além disso, é uma académica, portanto, dedicada à investigação científica na maior universidade pública do país e uma das maiores do mundo. Efectivamente, corresponde a um novo perfil que nunca esteve na Presidência do México e que também representa a mudança que tem atravessado a sociedade mexicana.”

Há um ano, ela dizia que “o México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher”. No entanto, o México é um dos países com recordes de feminicídios. Dez mulheres são assassinadas diariamente, segundo a ONU. Esta eleição pode mudar alguma coisa?

“Sim, Eu penso que, do ponto de vista da afirmação das mulheres é realmente um momento histórico. Por outro lado,  o grande problema que tem hoje o México tem a ver com a violência - e aí realmente as mulheres estão mais expostas - mas não afecta só as mulheres. O México tem um problema gravíssimo relativamente ao crime organizado que, em muitos casos, não se vê como é que vai ser possível desmontar e combater nos próximos anos de uma forma eficaz. Embora seja verdade que a Presidente tem uma estratégia relativamente ao combate à pobreza, estamos a falar de grupos que já alcançaram um nível de organização tão grande que realmente será muito difícil de desmantelar.”

Falou na questão da violência. A guerra contra os cartéis, lançada já pela direita em 2006, continua a fazer mais de 30.000 mortos por ano. Como é que se pode lutar contra esta violência tão enraizada do crime organizado no México?

“Este novo movimento, do qual a Claudia Sheinbaum faz parte, já no último sexénio esteve na Presidência e procurou desenvolver uma estratégia que tem mais a ver com a criação de oportunidades para que, sobretudo nos sectores mais pobres da população, seja possível ter outras possibilidades de enriquecer e, desta forma, não estar tão vulnerável aos cartéis.

No entanto, a verdade é que, até ao momento, o crime organizado não tem diminuído nos últimos anos e tem mostrado uma grande diversificação em termos de actividades, em termos de regiões em que actua e isso é um problema bastante complicado. Quer dizer, actualmente, mesmo mobilizando as forças militares, há várias regiões do México que estão muito condicionadas pela acção do narcotráfico.”

Claudia Sheinbaum afirma-se como feminista, mas relativamente ao aborto, ela não falou sobre a eventual legalização, escudando-se que este já foi despenalizado pelo Tribunal Supremo. Não seria preciso legalizar o aborto para melhorar o acesso e diminuir as desigualdades entre as mulheres?

“Sim, sem dúvida. A estrutura política do México é complexa. Por um lado, a Igreja Católica continua a ter muita força e, nesse sentido, é uma sociedade ainda bastante tradicional. Para além disso, tal como, por exemplo, nos Estados Unidos, há uma série de áreas em que o poder dos estados acaba por se sobrepor ao poder da federação. Ela até era já presidente do Distrito Federal da Cidade do México, onde esse direito já está consagrado, e teve alguma dificuldade em poder defendê-lo claramente relativamente a estados, sobretudo no norte do México, que são mais tradicionais e que ainda não o legalizaram. Estará na mão do Estado fazer essa reforma, a não ser que haja uma alteração constitucional, o que não é impossível, mas também não é uma situação fácil. Eu penso que daí vem um pouco a sua prudência relativamente a essa medida porque a situação é bastante diferente de uns estados para outros.”

Falou na questão da mudança da Constituição. Estas eleições são uma vitória para a esquerda em vários níveis porque também conquistou a maioria necessária no Congresso e tudo indica que conseguirá o mesmo no Senado. Esta vitória não se limita às presidenciais…

“Sim, é verdade, foi uma vitória em várias frentes. Por um lado, embora os resultados ainda não sejam definitivos e ainda possa haver algumas dúvidas, pelo menos na Câmara dos Representantes terá alcançado uma maioria qualificada, o que lhes permite aprovar um conjunto de leis sem precisarem de acordos com outros movimentos políticos e, nesse sentido, poderão alavancar mais do que no sexénio anterior um conjunto de medidas que já vinham defendendo e que consideravam que os outros partidos estavam a limitar ou a atrasar.

No Senado, ainda não se sabe - pelo menos eu não tenho indicação do número de deputados exacto, mas estará ali próximo da maioria absoluta - mas não se sabe ainda se terá alcançado no Senado e isso poderá fazer muita diferença, por exemplo, em termos de mudanças constitucionais.

Para além disso, há as eleições também num conjunto de estados, sendo que realmente no México os estados têm também poderes bastante alargados. Se realmente este movimento MORENA [partido do governo] conseguir vencer em vários estados, isso também acaba por dar um impulso muito maior a certas reformas que podem ser articuladas entre os Estados e o governo federal. Nesse sentido, de facto, ainda se está a aguardar os resultados finais, mas a indicação que existe é que já existe um reforço relativamente ao mandato anterior e isso será muito importante para este governo conseguir realmente desenvolver as políticas que tem defendido.”

Quais serão os principais desafios da nova Presidente, que se comprometeu em continuar com o legado do Presidente cessante, Andrés Manuel López Obrador? Que marca poderá ela deixar?

“Primeiro que tudo, ela situa-se numa posição de continuidade relativamente a uma mudança que o anterior Presidente já impulsionou também desde o mandato anterior e que tem, sobretudo, a ver com o combate às desigualdades que são muito profundas no México e à possibilidade de alguns grupos, desde os grupos com rendimentos mais baixos, desempregados, camponeses, reformados conseguirem aceder a níveis de vida e de bem-estar superiores. E isso faz muita diferença em termos sociais porque o México continua a ter uma estrutura muito polarizada com uma grande parte da população muito pobre.

Por outro lado, eu penso que esta candidata, até pelo perfil que tem de ser uma académica, ainda para mais ligada às questões do meio ambiente, poderá fazer uma diferença também ao nível do desenvolvimento económico e sustentável do México. O México tem, hoje em dia, uma população muito mais qualificada do que no passado, mas ainda acaba por ter uma estrutura económica algo tradicional e, portanto, terá também que dar um salto.

Eu penso que esse será o grande desafio que ela tem pela frente: conseguir realmente que a economia mexicana também possa ser uma economia que não funcione na dependência, sobretudo, dos Estados Unidos, mas que possa, ela própria, impulsionar uma actividade que seja mais inovadora, com maiores níveis de sofisticação, criadora também de mais rendimentos e, além disso, que seja mais sustentável porque o México tem problemas complexos que agora se estão a sentir muito, como a falta de água, por exemplo, ou com o desregrado dos plásticos,  e isso terá que ser combatido com muito conhecimento. Uma académica nesta área acaba por ser uma esperança que possa trazer algum conhecimento e algumas soluções mais sofisticadas para problemas que são bastante complexos.”

Falou da dependência económica dos Estados Unidos. Ora, 80% das exportações são feitas para os Estados Unidos e há uma grande emigração para os Estados Unidos. Que relações é que se podem esperar, em termos diplomáticos e económicos, num ano em que vamos ter eleições nos Estados Unidos e que o candidato Donald Trump falou em deportação em massa de migrantes?

“Eu penso que o México tem beneficiado - e creio que continuará a beneficiar - de um cenário a nível mundial em que os Estados Unidos acabam por ter um conjunto de restrições e de tensões com a China e com a Rússia e isso faz com que, em grande medida, uma parte do investimento que era canalizado para essas regiões tenha sido mais canalizado para a América e para o continente americano, em particular, para o México. Nesse sentido, a situação é melhor para o México do que era há 10 ou 20 anos.

Esta dependência que existe faz com que alterações que existam nos Estados Unidos se sintam sempre no México e se houver um resultado como a eleição de Donald Trump ou uma situação de alguma instabilidade, isso vai-se repercutir no México, até porque, como nós sabemos, há uma parte grande que foi muito apoiada pelo Donald Trump que busca no México e nos mexicanos o bode expiatório para um conjunto de problemas que existem na economia e na sociedade americana. Nesse sentido, claro que vai haver alguma tensão e não será fácil de gerir, mas neste momento os Estados Unidos precisam muito do México, assim como o México também precisa dos Estados Unidos. Eu penso que essa relação próxima se vai manter nos próximos anos, independentemente de haver alguns atritos em termos diplomáticos.”

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