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Está a decorrer em França o julgamento de Dominique Pélicot, um septuagenário que durante dez anos sedou a mulher e contratou quase uma centena de homens para a violar, num caso que tem abalado o país.
É um processo fora do comum que está em curso, em Avignon, no sul de França, desde 2 de Setembro. O principal acusado, Dominique Pélicot, reformado, pai e avô, drogou a mulher, Gisèle, durante dez anos para que outros homens a violassem enquanto se encontrava inconsciente.
Os investigadores contaram cerca de 200 casos de violação, a maior parte dos quais cometidos por Dominique Pelicot e por uma lista de 72 suspeitos. No computador do principal acusado, a polícia encontrou uma pasta intitulada "abusos", contendo mais de 20 mil imagens e vídeos documentando as violações.
No tribunal, mais de 50 homens comparecem no banco dos acusados, entre bombeiros, um perito em informática, um enfermeiro, um jornalista, todos recrutados na internet por Dominique Pélicot.
Esta terça-feira 17 de Setembro, o principal acusado, depois de ter estado ausente devido a questões de saúde, exprimiu-se pela primeira vez, reconheceu os factos e afirmou: "Sou um violador, como os que estão nesta sala".
Gisèle Pélicot, de 71 anos, recusou que o seu processo se desenrolasse à porta fechada, para que o seu caso sirva de exemplo e dê força a outras vítimas de violências sexuais. Uma onda de solidariedade com Gisèle organizou-se, nomeadamente através de uma manifestação que levou dezenas de milhares de pessoas à rua a 14 de Setembro, e à qual a septuagenária agradeceu com uma mensagem forte, afirmando: "Graças a vocês, tenho a força de levar este combate até ao fim".
Em entrevista à RFI, a activista e professora de filosofia Luísa Semedo, que participou na marcha em solidariedade com Gisèle Pélicot considerou que, "muitas vezes, estes casos mediáticos são apenas a ponta do iceberg".
Por submissão química entende-se o facto de drogar alguém sem o seu conhecimento ou sob ameaça para fins ilícitos ou criminosos.
Alguns casos de submissão química já tinham sido noticiados nos últimos dois anos, na maioria dos casos em contexto nocturno, em bares ou discotecas, através do GHB, uma droga despejada nas bebidas.
De acordo com a Agência Nacional dos Produtos Medicinais (ANSM, na sigla em francês) a administração de medicamentos ou de drogas com o objectivo de cometer uma agressão aumentou nos últimos vinte anos.
Regularmente sedada durante anos, Gisèle sofre de perdas de memória e de amnésias que levaram os seus filhos a temer o início da doença de Alzheimer, sem que nenhum dos médicos, neurólogos ou ginecologistas consultados por Gisèle nos últimos anos tenha conseguido fazer o diagnóstico certo.
Segundo Luísa Semedo, a sentença atribuída aos acusados poderá nunca estar à altura do sofrimento causado a Gisèle Pélicot e às consequências dramáticas que pesam na sua vida. Para além das violações repetidas, foi contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, sofre perdas de memória devido à droga que lhe foi injectada durante tantos anos e terá de manter acompanhamento psicológico para o resto da vida.
Como dar, então, ao crime de violação, a resposta firme que merece? "Não haverá e de todas as maneiras penso que para Gisèle o objectivo não é que haja uma pena à altura, porque não há, mas sim que não volte a acontecer. Isto é o que todas as mulheres querem. Que não volte a acontecer. E que se ponham em cima da mesa todas as medidas necessárias para que não volte a acontecer. O número de violações é enorme, o número de casos arquivados é enorme, o número de mulheres que ainda não consegue fazer denúncias também é enorme, o número de homens que não vão para a prisão depois de violar também é ínfimo... Ainda há muito por mudar", levanta Luísa Semedo.
Dos 50 homens sentados no banco dos acusados, 35 negam os factos e declaram-se inocentes, considerando ter sido "enganados" e "manipulados" por Dominique Pélicot, quem lhes terá dito, segundo eles, que a mulher sabia e concordava com o que acontecia.
Muitos deles dizem que pensavam que se tratava de um "jogo sexual organizado por um casal libertino". Uma argumentação que poderá ser uma estratégia de defesa, segundo Luísa Semedo.
"Podiam pelo menos ter tido a dúvida. Quando estes homens chegaram a casa do casal e viram que a mulher não se mexia, não estava de todo consciente, podiam pelo menos ter a dúvida, e não partir do princípio que ela tinha dado o seu consentimento. Neste caso, o consentimento foi dado pelo marido e como ela é propriedade do marido, a partir de aí eles podiam fazer o que quisessem?", questiona a activista.
Durante o processo, Gisèle lamentou que nenhum dos homens envolvidos no caso tenha denunciado os factos, mesmo de forma anónima. "Porque é que não entraram numa esquadra? Até mesmo uma chamada anónima poderia ter salvado a minha vida", disse a septuagenária durante o processo, olhando-os de frente.
Dominique Pélicot e a maioria dos outros 50 acusados arriscam-se a cumprir penas até 20 anos de prisão.
Está a decorrer em França o julgamento de Dominique Pélicot, um septuagenário que durante dez anos sedou a mulher e contratou quase uma centena de homens para a violar, num caso que tem abalado o país.
É um processo fora do comum que está em curso, em Avignon, no sul de França, desde 2 de Setembro. O principal acusado, Dominique Pélicot, reformado, pai e avô, drogou a mulher, Gisèle, durante dez anos para que outros homens a violassem enquanto se encontrava inconsciente.
Os investigadores contaram cerca de 200 casos de violação, a maior parte dos quais cometidos por Dominique Pelicot e por uma lista de 72 suspeitos. No computador do principal acusado, a polícia encontrou uma pasta intitulada "abusos", contendo mais de 20 mil imagens e vídeos documentando as violações.
No tribunal, mais de 50 homens comparecem no banco dos acusados, entre bombeiros, um perito em informática, um enfermeiro, um jornalista, todos recrutados na internet por Dominique Pélicot.
Esta terça-feira 17 de Setembro, o principal acusado, depois de ter estado ausente devido a questões de saúde, exprimiu-se pela primeira vez, reconheceu os factos e afirmou: "Sou um violador, como os que estão nesta sala".
Gisèle Pélicot, de 71 anos, recusou que o seu processo se desenrolasse à porta fechada, para que o seu caso sirva de exemplo e dê força a outras vítimas de violências sexuais. Uma onda de solidariedade com Gisèle organizou-se, nomeadamente através de uma manifestação que levou dezenas de milhares de pessoas à rua a 14 de Setembro, e à qual a septuagenária agradeceu com uma mensagem forte, afirmando: "Graças a vocês, tenho a força de levar este combate até ao fim".
Em entrevista à RFI, a activista e professora de filosofia Luísa Semedo, que participou na marcha em solidariedade com Gisèle Pélicot considerou que, "muitas vezes, estes casos mediáticos são apenas a ponta do iceberg".
Por submissão química entende-se o facto de drogar alguém sem o seu conhecimento ou sob ameaça para fins ilícitos ou criminosos.
Alguns casos de submissão química já tinham sido noticiados nos últimos dois anos, na maioria dos casos em contexto nocturno, em bares ou discotecas, através do GHB, uma droga despejada nas bebidas.
De acordo com a Agência Nacional dos Produtos Medicinais (ANSM, na sigla em francês) a administração de medicamentos ou de drogas com o objectivo de cometer uma agressão aumentou nos últimos vinte anos.
Regularmente sedada durante anos, Gisèle sofre de perdas de memória e de amnésias que levaram os seus filhos a temer o início da doença de Alzheimer, sem que nenhum dos médicos, neurólogos ou ginecologistas consultados por Gisèle nos últimos anos tenha conseguido fazer o diagnóstico certo.
Segundo Luísa Semedo, a sentença atribuída aos acusados poderá nunca estar à altura do sofrimento causado a Gisèle Pélicot e às consequências dramáticas que pesam na sua vida. Para além das violações repetidas, foi contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, sofre perdas de memória devido à droga que lhe foi injectada durante tantos anos e terá de manter acompanhamento psicológico para o resto da vida.
Como dar, então, ao crime de violação, a resposta firme que merece? "Não haverá e de todas as maneiras penso que para Gisèle o objectivo não é que haja uma pena à altura, porque não há, mas sim que não volte a acontecer. Isto é o que todas as mulheres querem. Que não volte a acontecer. E que se ponham em cima da mesa todas as medidas necessárias para que não volte a acontecer. O número de violações é enorme, o número de casos arquivados é enorme, o número de mulheres que ainda não consegue fazer denúncias também é enorme, o número de homens que não vão para a prisão depois de violar também é ínfimo... Ainda há muito por mudar", levanta Luísa Semedo.
Dos 50 homens sentados no banco dos acusados, 35 negam os factos e declaram-se inocentes, considerando ter sido "enganados" e "manipulados" por Dominique Pélicot, quem lhes terá dito, segundo eles, que a mulher sabia e concordava com o que acontecia.
Muitos deles dizem que pensavam que se tratava de um "jogo sexual organizado por um casal libertino". Uma argumentação que poderá ser uma estratégia de defesa, segundo Luísa Semedo.
"Podiam pelo menos ter tido a dúvida. Quando estes homens chegaram a casa do casal e viram que a mulher não se mexia, não estava de todo consciente, podiam pelo menos ter a dúvida, e não partir do princípio que ela tinha dado o seu consentimento. Neste caso, o consentimento foi dado pelo marido e como ela é propriedade do marido, a partir de aí eles podiam fazer o que quisessem?", questiona a activista.
Durante o processo, Gisèle lamentou que nenhum dos homens envolvidos no caso tenha denunciado os factos, mesmo de forma anónima. "Porque é que não entraram numa esquadra? Até mesmo uma chamada anónima poderia ter salvado a minha vida", disse a septuagenária durante o processo, olhando-os de frente.
Dominique Pélicot e a maioria dos outros 50 acusados arriscam-se a cumprir penas até 20 anos de prisão.
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