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Emmanuel Macron deu provas "de alguma humildade em dissolver a Assembleia"


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O Partido Socialista, Os Verdes, os Comunistas, a França Insubmissa criaram na segunda-feira, 10 de Junho, uma Frente Popular. À direita, o líder d'Os Republicanos, Eric Ciotti, foi expulso do partido por ter apelado a uma aliança com a extrema-direita. Na extrema-direita, Marion Maréchal foi expulsa do partido Reconquista. "Emmanuel Macron deu provas de alguma humildade em dissolver a Assembleia", defende o vereador em Nogent-sur-Marne, Philippe Pereira, militante do Partido Renascença.

RFI: Emmanuel Macron dissolveu no domingo, a Assembleia Nacional, convocou novas eleições antecipadas legislativas. Qual é que foi a intenção do Presidente da República?

Philippe Pereira: É difícil de falar por ele porque a decisão deve ter sido tão complexa de tomar. Imagino que o Presidente da República, depois de várias situações como as últimas eleições legislativas, em que se encontrou em minoria na Assembleia Nacional, depois de várias dificuldades em termos de governação, numa relação muito específica, nomeadamente com a Marine Le Pen, e neste contexto de eleições europeias., teve uma decisão bastante democrática, uma decisão além daquilo que se espera. O resultado alcançado nas europeias não foi à altura daquilo que esperava. Houve uma mensagem forte enviada pelos franceses que foram votar no domingo e talvez [Emmanuel Macron] tenha feito prova de alguma humildade em dissolver a Assembleia e deixar a última palavra aos cidadãos.

Nos últimos anos, Emmanuel Macron foi acusado de não ouvir os franceses. Alguns  eleitores continuam a reafirmar o facto de não se sentirem ouvidos pelo Presidente da República?

Exacto. Temos todos ouvido isso e creio que o Presidente da República também tem ouvido isso. Nesta situação, cinco dias depois da dissolução do Parlamento, talvez possamos ter outros argumentos e outros comentários, mas não podemos ter o argumento de não ser ouvidos ou de os cidadãos não terem sido ouvidos desde domingo.

Esta quarta-feira, em conferência de imprensa, Emmanuel Macron disse querer conquistar todos os franceses que não se quiserem juntar aos partidos extremistas e os eleitores que não querem alianças 'contranatura'. O Presidente disse que não se vai demitir depois das eleições. Emmanuel Macron pode, em duas semanas, fazer esquecer as sucessivas crises sociais e reconquistar uma parte dos eleitores que o elegeram em 2017?

Em duas semanas estou convencido que não pode, mas é um ponto de vista muito pessoal. O primeiro objectivo deve ser a forma de convencer os cidadãos a ir votar para um bloco central alargado, o mais democrático possível e, digamos, republicano, no sentido em que os franceses utilizam o bloco republicano. É convencer todos aqueles que não querem pôr no poder os extremos e sejam eles de direita ou de esquerda, convencer essa força central e maioritária, imagino, mesmo apegada aos valores fundamentais e à democracia. Neste primeiro tempo com a meta do 30 de Junho e depois do 7 de Julho. Depois é que virá o tempo de tomar as decisões que permitam convencer os franceses que tomaram a boa decisão também em voltar para o bloco central. Acho que é em dois tempos que temos de ver as coisas. Convencer hoje os franceses de que tudo vai mudar é complicado, mas tem que mudar. A seguir às eleições, as coisas têm que mudar no bom sentido.

Evoca o Bloco Central, esta Frente Republicana. A Frente Republicana ainda existe?

Ainda deve existir porque não é uma questão partidária, é uma questão de valores e de consciência de cada cidadão para si próprio ou consigo próprio. Eu creio que ainda existe. Ao ver os diferentes resultados nas últimas eleições, talvez não seja aquela frente republicana que elegeu Jacques Chirac com 80% há 20 anos atrás, mas ainda existe e estou convencido que é uma parte maioritária da sociedade francesa.

Olhando para o mapa dos resultados das eleições europeias do domingo, que deram vitória à extrema-direita da União Nacional de Jordane Bardella, como é que interpreta estes resultados?

Eu não acredito que o resultado das eleições europeias seja precisamente o resultado que teríamos tido em eleições mais locais ou legislativas. Há uma forma de défouloir, como se diz em francês, numa eleição que diz respeito a instituições vistas como longínquas e mais afastadas do que é a própria nação ou do que são as cidades. Talvez muitos eleitores, no domingo, tenham votado em favor da União Nacional ou de certos partidos mais extremos na sua posição em forma de contestação e de afirmação do descontentamento. Não deixa de haver e não podemos objectivamente negar que há hoje uma força muito grande atrás da União Nacional, incluindo até O Zemmour e a Reconquista  da parte da extrema-direita e uma força muito menos importante do lado da extrema-esquerda, mas a extrema-direita tem o vento em popa.

Para  Emmanuel Macron, as máscaras vão cair e a luta dos valores vão voltar à superfície. Foram as palavras do Presidente francês. Emmanuel Macron quis agitar novamente as várias alas políticas para evitar a chegada ao poder da extrema-direita?

Acho que sim. De certa forma, é o que se tem visto há dois dias para cá, a posição do Eric Ciotti, a situação da Maréchal, as tensões do lado da esquerda com a constituição desta falsa Frente Popular, mas que não, não tem ouvidos e não tem escutado também as posições do Glucksmann no dia a seguir às eleições mostra que esta situação movimenta muito as posições políticas dos diferentes partidos e dos diferentes decisores desses partidos. Há muita confusão, é evidente, e acho que para quem se concentrar essencialmente nos valores, as coisas são claras.

Esta não é uma decisão arriscada, criar uma possibilidade de coabitação com a extrema-direita?

É, mas não sei qual teria sido a melhor decisão a tomar naquele dia. Emmanuel Macron tendo tomado esta decisão é qualificado de de inconsciente, de arrogante e de tirano irresponsável. Não tivesse ele tomado esta decisão, tivesse ele conservado o governo na forma em que estava, ainda mais críticas teria tido porque, imagino que lhe tivessem dito que não ouvia, que não escutava, que não tirava conclusões do resultado das eleições e ainda mais, que era um tirano verdadeiro e arrogante e ilegítimo que tem sido o processo que tem sido feito há uns anos para cá.

Estamos perante uma recomposição da paisagem política?

Terá que ser porque por enquanto está uma forma aqui de movimentação que anuncia ou preanuncia uma recomposição. Mas terá que haver uma recomposição. Não podemos daqui a três semanas, seja lá qual for o resultado, e ainda mais se conseguirmos como espero manter uma estabilidade no governo com uma força central, não podemos continuar na mesma. Os franceses, mesmo se estão dispostos a resistir aos extremos, daqui a duas ou três semanas, não estão à espera que não haja reacções concretas.

O Partido Renascença está pronto, vocês estão prontos para a campanha que arranca a partir de domingo? Não existe um cansaço político, um cansaço por parte dos apoiantes e até mesmo dos eleitores?

Tem havido de uma forma geral, mas acho que além do nosso partido, veja o que aconteceu com o PS ou com o Partido d'Os Republicanos que há poucos anos dominavam a paisagem política completamente e de um dia para o outro desapareceram. Hoje não têm militantes, têm poucos eleitos e tem sido complicado. Do nosso ponto de vista, as coisas estão simples: Temos os nossos deputados a apoiar, queremos reconduzir a nossa Assembleia e tentar apoiar e apoiar novos candidatos. Estamos inteiramente a 200% atrás dos nossos candidatos e empenhados em manter a estabilidade do país.

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