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No ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquieteis, é a realidade que se engana”. Tinha 57 anos feitos naquele mês de Fevereiro, dava-se como vivo a pouco mais de nove meses do fim, e garantia que não se inquietava. Tinha a confiança daqueles dois olhos grandes, que sabiam ler bem como só poucos alguma vez foram capazes. E não se inquietava porque há muito se apercebera de que a realidade não era senão outra aparência, um acordo de bestas que o poeta deve repudiar. Por isso mesmo, logo na sua primeira intervenção escrita – “Quase 3 Discursos Quase Veementes” –, no segundo número da revista “Pirâmide”, em Junho de 1959, vincava: “Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.” Hoje ainda vamos falando muito de realidade, das suas espécies ou diferentes níveis, mas isto não passa há muito de uma forma de jactância e soberba, pois há muito que vamos abrindo mão desses acentos mais agudos ou extremos que procuram engrenar aquela capacidade de nos devolver ao assombro inaugural dos efeitos de nomeação. Num mundo cada vez mais virtual, a pergunta que Baudrillard ia fazendo é: haverá um além do virtual? A gramática e o léxico deixaram de ser uma membrana viva e há muito se foram cristalizando a ponto de impedirem a intervenção de novas formas de sensibilidade, assim, e através da frequência dos clichés, dos símiles mecânicos e dos automatismos, condenamo-nos a um registo cada vez mais esclerosado desse plano onde os nossos sentidos e alcance se exprimem. Para nos servirmos da articulação de Steiner, tornamo-nos prisioneiros de um traçado linguístico que se volve cada vez mais inerte, emurchecido, incapaz de desposar a paisagem cambiante dos factos, servindo apenas para formalizar as reacções humanas ao invés de as estimular. Assim, na senda de Kraus, também aquele crítico literário indagou sobre a possibilidade de a língua recair num embolorecimento, sobrecarregando-se de uma fraseologia hierática e imutável, deixando de assegurar um modelo disponível e gerador de realidade. “As palavras, esses guardiões do sentido, não são imortais, do mesmo modo que não são também invulneráveis", escrevia Adamov nos seus cadernos, em 1938. Embora algumas vão sobrevivendo, outras são atingidas de um modo incurável. Quando a guerra rebentou, ele acrescentava: “Gastas, transparentes, corroídas, as palavras tornaram-se cadáveres de palavras, palavras-fantasma; mascamo-las, regurgitamos o seu som, sem convicção, entre os maxilares.” Há muito que Kraus havia pressagiado uma “era glacial para o espírito”, sendo que, para ele “o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”. Em seu entender, o acto adâmico da nomeação tinha-se constituído por fidelidade a uma origem essencial em virtude da qual natureza e linguagem se entreteciam para constituir um livro da criação. E era em atenção a esta dignidade ontológica outorgada por ele à linguagem, que Kraus entendia como ao embrutecê-la era a própria vida que se embrutecia. Por isso dedicou todos os seus esforços a preservar a harmonia da palavra enquanto combate moral. Não concebia separação alguma entre o que um homem é e o que diz, nem entre o que diz e a sua forma de o dizer: se alguém pecasse contra a lei cristalizada na linguagem, pecava contra a verdade. Para ele, todo o erro transporta uma culpa: “a má arte e a vida degradada são espelhos uma da outra e comprovam uma identidade atroz”. Em seu entender, por efeito dos rituais que diariamente vulgarizam a linguagem, e sobretudo por acção da imprensa, o que passara a determinar o tempo presente eram os clichés, os quais trabalhavam já autonomamente. Assim, devia ser assumida pelos homens de espírito a tarefa sagrada de cuidar e proteger as palavras atingidas pela doença, procurando restaurar uma certa pureza originária, uma precisão etimológica. Desde o primeiro número de A Torcha (Die Fackel), o seu anti-jornal, Kraus dispôs-se a confrontar a realidade da sua época com uma “lei de fogo”, produzindo uma desesperada antítese a esse tempo presente consumido pelos “átomos da trivialidade” e que tanto o repugnava. Sabendo que toda a letra se pode transformar em catástrofe, ele quis submergir-se no “pântano da fraseologia” de modo a levar a cabo a sua dissecação. Steiner reforça a ideia de que a linguagem é o principal aparelho de apreensão da realidade, e nota como “no Livro de Isaías, a gramática dos profetas dá corpo a um profundo escândalo metafísico – a intervenção do tempo futuro que expande a linguagem no tempo”. Por sua vez, diz-nos ele, “a obra de Tucídides é habitada por uma descoberta contrária – Tucídides é o primeiro a compreender bem que o passado é uma construção linguística, que a única garantia da história é o tempo passado dos versos. A vivacidade prodigiosa dos diálogos platónicos, a adopção da dialéctica como método de investigação intelectual, é inseparável da descoberta de que as palavras, uma vez postas à prova, e podendo afrontar-se numa batalha ou articular-se numa dança, abrem caminho a novas formas do entendimento.” Por sua vez, Eduardo Brito em “Procura Nada” vem interrogar a estrutura da verdade como ficção, celebrando a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, fornecendo também “uma espécie de loa ao mais elegante tempo verbal, o futur antérieur, que em português tem o nome de futuro composto e perde, na poesia, o que ganha em rigor terminológico: o futuro do verbo auxiliar avoir ou être e o particípio passado do verbo principal, a anterioridade em relação a um momento determinado de algo indeterminado, como se fosse tudo assim tão relativo como o tempo: quando partir, já terei voltado.” Trata-se, portanto, de investigar os processos que nos alertam para a heterogeneidade neste mundo, contra a homogeneização e a uni-dimensionalidade. Corroendo as lógicas unívocas, esta narrativa mostra-se capaz de infectar o próprio decurso da história, como se a vontade fosse capaz de lhe alterar o desfecho, atingindo o sentido de fatalidade que associamos ao passado. A certa altura, e num dos momentos mais instigantes deste livro, Brito fala-nos de alguns velejadores que, em 1968, participaram na mítica regata promovida pelo jornal inglês The Sunday Times. Os oito marinheiros foram desafiados a circum-navegarem o globo, partindo de Inglaterra, e seguindo o caminho que quisessem, desde que o fizessem solitariamente. Se, dos oito, quatro desistiram pouco depois do começo, e um quinto abandonou a prova a meio, por naufrágio, Brito não perde tempo com aquele que ganhou, mas foca-se nos dois que poderiam ter ganhado a corrida, mas que por razões diferentes não o fizeram: o velejador francês Bernard Moitessier e Donald Crowhurst. Este engenheiro eletrotécnico embarcara na prova sem qualquer experiência enquanto navegador, e depois de forjar uma rota que não chegou a percorrer, veio a aportar secretamente o seu trimarã na Argentina, onde deixou passar o tempo que julgou suficiente para ficar em último lugar, acabando por retomar a corrida numa altura em que estava a caminho de se tornar vencedor, mas, receando ser exposto pela sua fraude, acabou por enlouquecer e se suicidar. Quem também ficou cativada por Crowhurst foi a artista visual Tacita Dean, que reconstituiu aquele período final da sua vida, as semanas em que já não sabia onde se encontrava. “Tinha perdido completamente a noção do tempo e desenvolvido uma relação obsessiva com o seu cronómetro avariado, o instrumento que mede o Tempo Médio de Greenwich a bordo. Começou a sofrer de ‘loucura do tempo’, um problema familiar aos marinheiros cuja única forma de localizar a sua posição depende de uma observância rigorosa do tempo. Quando o seu sentido do tempo se distorceu, deixou de ter qualquer ponto de referência na massa mutável do oceano cinzento. Oprimido pela enormidade do seu engano e pela ofensa ao princípio sagrado da verdade — aquilo que acreditava ser o seu ‘Pecado da Ocultação’ — Crowhurst ‘abandonou o jogo’ e tudo indica que se terá lançado ao mar com o seu cronómetro, a apenas algumas centenas de milhas da costa da Grã-Bretanha.” Hoje, muitos de nós estamos também devastados por esta incapacidade de nos situarmos, incapazes de nos reconhecermos nos elementos cada vez mais deslassados e inconstantes da crónica que vamos fazendo, e, por essa razão, estamos a sofrer também os sintomas de uma loucura do tempo. A linguagem adoecida serve-nos cada vez de menos, e se considerarmos, como anota Steiner, que mesmo a história não passa de um acto de discurso, um uso selectivo do tempo passado, e que, sem essa ficção verdadeira da história, sem a animação ininterrupta de um passado escolhido, não passamos de sombras vazias, começa a ficar claro como nos destinamos a uma deriva na massa mutável do oceano cinzento, desses desertos nos quais não somos capazes de nos guiar por nenhum elemento constante. “Os vestígios, como os monumentos e lugares históricos, por mais concretos que sejam”, lembra Steiner, “têm também de ser ‘lidos’, quer dizer, situados num contexto de reconhecimento verbal, a fim de adquirirem uma presença real”… Então, a pergunta que Steiner formula é: “de que realidade palpável dispõe a história fora da linguagem e da nossa crença reflexiva em testemunhos que são de ordem fundamentalmente linguística?” E entre os principais elementos de erosão do sentido, além das pragas, dos vermes e dos incêndios que são capazes de danar parcialmente os arquivos, há ainda a pressão dos regimes totalitário, que trabalham para destruir não apenas esses testemunhos, mas degradar a consciência do passado e até aquilo que nos permite a todo deslocarmo-nos na dimensão temporal, esse livro da criação, essa linguagem que visa a ressonância da construção de um passado.
By Diogo Vaz Pinto e Fernando RamalhoNo ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquieteis, é a realidade que se engana”. Tinha 57 anos feitos naquele mês de Fevereiro, dava-se como vivo a pouco mais de nove meses do fim, e garantia que não se inquietava. Tinha a confiança daqueles dois olhos grandes, que sabiam ler bem como só poucos alguma vez foram capazes. E não se inquietava porque há muito se apercebera de que a realidade não era senão outra aparência, um acordo de bestas que o poeta deve repudiar. Por isso mesmo, logo na sua primeira intervenção escrita – “Quase 3 Discursos Quase Veementes” –, no segundo número da revista “Pirâmide”, em Junho de 1959, vincava: “Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.” Hoje ainda vamos falando muito de realidade, das suas espécies ou diferentes níveis, mas isto não passa há muito de uma forma de jactância e soberba, pois há muito que vamos abrindo mão desses acentos mais agudos ou extremos que procuram engrenar aquela capacidade de nos devolver ao assombro inaugural dos efeitos de nomeação. Num mundo cada vez mais virtual, a pergunta que Baudrillard ia fazendo é: haverá um além do virtual? A gramática e o léxico deixaram de ser uma membrana viva e há muito se foram cristalizando a ponto de impedirem a intervenção de novas formas de sensibilidade, assim, e através da frequência dos clichés, dos símiles mecânicos e dos automatismos, condenamo-nos a um registo cada vez mais esclerosado desse plano onde os nossos sentidos e alcance se exprimem. Para nos servirmos da articulação de Steiner, tornamo-nos prisioneiros de um traçado linguístico que se volve cada vez mais inerte, emurchecido, incapaz de desposar a paisagem cambiante dos factos, servindo apenas para formalizar as reacções humanas ao invés de as estimular. Assim, na senda de Kraus, também aquele crítico literário indagou sobre a possibilidade de a língua recair num embolorecimento, sobrecarregando-se de uma fraseologia hierática e imutável, deixando de assegurar um modelo disponível e gerador de realidade. “As palavras, esses guardiões do sentido, não são imortais, do mesmo modo que não são também invulneráveis", escrevia Adamov nos seus cadernos, em 1938. Embora algumas vão sobrevivendo, outras são atingidas de um modo incurável. Quando a guerra rebentou, ele acrescentava: “Gastas, transparentes, corroídas, as palavras tornaram-se cadáveres de palavras, palavras-fantasma; mascamo-las, regurgitamos o seu som, sem convicção, entre os maxilares.” Há muito que Kraus havia pressagiado uma “era glacial para o espírito”, sendo que, para ele “o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”. Em seu entender, o acto adâmico da nomeação tinha-se constituído por fidelidade a uma origem essencial em virtude da qual natureza e linguagem se entreteciam para constituir um livro da criação. E era em atenção a esta dignidade ontológica outorgada por ele à linguagem, que Kraus entendia como ao embrutecê-la era a própria vida que se embrutecia. Por isso dedicou todos os seus esforços a preservar a harmonia da palavra enquanto combate moral. Não concebia separação alguma entre o que um homem é e o que diz, nem entre o que diz e a sua forma de o dizer: se alguém pecasse contra a lei cristalizada na linguagem, pecava contra a verdade. Para ele, todo o erro transporta uma culpa: “a má arte e a vida degradada são espelhos uma da outra e comprovam uma identidade atroz”. Em seu entender, por efeito dos rituais que diariamente vulgarizam a linguagem, e sobretudo por acção da imprensa, o que passara a determinar o tempo presente eram os clichés, os quais trabalhavam já autonomamente. Assim, devia ser assumida pelos homens de espírito a tarefa sagrada de cuidar e proteger as palavras atingidas pela doença, procurando restaurar uma certa pureza originária, uma precisão etimológica. Desde o primeiro número de A Torcha (Die Fackel), o seu anti-jornal, Kraus dispôs-se a confrontar a realidade da sua época com uma “lei de fogo”, produzindo uma desesperada antítese a esse tempo presente consumido pelos “átomos da trivialidade” e que tanto o repugnava. Sabendo que toda a letra se pode transformar em catástrofe, ele quis submergir-se no “pântano da fraseologia” de modo a levar a cabo a sua dissecação. Steiner reforça a ideia de que a linguagem é o principal aparelho de apreensão da realidade, e nota como “no Livro de Isaías, a gramática dos profetas dá corpo a um profundo escândalo metafísico – a intervenção do tempo futuro que expande a linguagem no tempo”. Por sua vez, diz-nos ele, “a obra de Tucídides é habitada por uma descoberta contrária – Tucídides é o primeiro a compreender bem que o passado é uma construção linguística, que a única garantia da história é o tempo passado dos versos. A vivacidade prodigiosa dos diálogos platónicos, a adopção da dialéctica como método de investigação intelectual, é inseparável da descoberta de que as palavras, uma vez postas à prova, e podendo afrontar-se numa batalha ou articular-se numa dança, abrem caminho a novas formas do entendimento.” Por sua vez, Eduardo Brito em “Procura Nada” vem interrogar a estrutura da verdade como ficção, celebrando a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, fornecendo também “uma espécie de loa ao mais elegante tempo verbal, o futur antérieur, que em português tem o nome de futuro composto e perde, na poesia, o que ganha em rigor terminológico: o futuro do verbo auxiliar avoir ou être e o particípio passado do verbo principal, a anterioridade em relação a um momento determinado de algo indeterminado, como se fosse tudo assim tão relativo como o tempo: quando partir, já terei voltado.” Trata-se, portanto, de investigar os processos que nos alertam para a heterogeneidade neste mundo, contra a homogeneização e a uni-dimensionalidade. Corroendo as lógicas unívocas, esta narrativa mostra-se capaz de infectar o próprio decurso da história, como se a vontade fosse capaz de lhe alterar o desfecho, atingindo o sentido de fatalidade que associamos ao passado. A certa altura, e num dos momentos mais instigantes deste livro, Brito fala-nos de alguns velejadores que, em 1968, participaram na mítica regata promovida pelo jornal inglês The Sunday Times. Os oito marinheiros foram desafiados a circum-navegarem o globo, partindo de Inglaterra, e seguindo o caminho que quisessem, desde que o fizessem solitariamente. Se, dos oito, quatro desistiram pouco depois do começo, e um quinto abandonou a prova a meio, por naufrágio, Brito não perde tempo com aquele que ganhou, mas foca-se nos dois que poderiam ter ganhado a corrida, mas que por razões diferentes não o fizeram: o velejador francês Bernard Moitessier e Donald Crowhurst. Este engenheiro eletrotécnico embarcara na prova sem qualquer experiência enquanto navegador, e depois de forjar uma rota que não chegou a percorrer, veio a aportar secretamente o seu trimarã na Argentina, onde deixou passar o tempo que julgou suficiente para ficar em último lugar, acabando por retomar a corrida numa altura em que estava a caminho de se tornar vencedor, mas, receando ser exposto pela sua fraude, acabou por enlouquecer e se suicidar. Quem também ficou cativada por Crowhurst foi a artista visual Tacita Dean, que reconstituiu aquele período final da sua vida, as semanas em que já não sabia onde se encontrava. “Tinha perdido completamente a noção do tempo e desenvolvido uma relação obsessiva com o seu cronómetro avariado, o instrumento que mede o Tempo Médio de Greenwich a bordo. Começou a sofrer de ‘loucura do tempo’, um problema familiar aos marinheiros cuja única forma de localizar a sua posição depende de uma observância rigorosa do tempo. Quando o seu sentido do tempo se distorceu, deixou de ter qualquer ponto de referência na massa mutável do oceano cinzento. Oprimido pela enormidade do seu engano e pela ofensa ao princípio sagrado da verdade — aquilo que acreditava ser o seu ‘Pecado da Ocultação’ — Crowhurst ‘abandonou o jogo’ e tudo indica que se terá lançado ao mar com o seu cronómetro, a apenas algumas centenas de milhas da costa da Grã-Bretanha.” Hoje, muitos de nós estamos também devastados por esta incapacidade de nos situarmos, incapazes de nos reconhecermos nos elementos cada vez mais deslassados e inconstantes da crónica que vamos fazendo, e, por essa razão, estamos a sofrer também os sintomas de uma loucura do tempo. A linguagem adoecida serve-nos cada vez de menos, e se considerarmos, como anota Steiner, que mesmo a história não passa de um acto de discurso, um uso selectivo do tempo passado, e que, sem essa ficção verdadeira da história, sem a animação ininterrupta de um passado escolhido, não passamos de sombras vazias, começa a ficar claro como nos destinamos a uma deriva na massa mutável do oceano cinzento, desses desertos nos quais não somos capazes de nos guiar por nenhum elemento constante. “Os vestígios, como os monumentos e lugares históricos, por mais concretos que sejam”, lembra Steiner, “têm também de ser ‘lidos’, quer dizer, situados num contexto de reconhecimento verbal, a fim de adquirirem uma presença real”… Então, a pergunta que Steiner formula é: “de que realidade palpável dispõe a história fora da linguagem e da nossa crença reflexiva em testemunhos que são de ordem fundamentalmente linguística?” E entre os principais elementos de erosão do sentido, além das pragas, dos vermes e dos incêndios que são capazes de danar parcialmente os arquivos, há ainda a pressão dos regimes totalitário, que trabalham para destruir não apenas esses testemunhos, mas degradar a consciência do passado e até aquilo que nos permite a todo deslocarmo-nos na dimensão temporal, esse livro da criação, essa linguagem que visa a ressonância da construção de um passado.

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![Fundação (FFMS) - [IN] Pertinente by Fundação Francisco Manuel dos Santos](https://podcast-api-images.s3.amazonaws.com/corona/show/2108484/logo_300x300.jpeg)
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