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O escritor Mauricio Pereira tem dezenas de livros publicados. Entre eles, há um ilustrado e dois em formato de quadrinhos com causos de assombração. As narrativas que costumam ser contadas em volta da fogueira foram recolhidas a partir de pesquisa em Redenção da Serra, interior de São Paulo.
“Eu fui criado em fazenda até os sete anos, quando vim para Taubaté pra entrar na escola. E cresci ouvindo histórias de assombração do meu pai”, revela. No áudio, Pereira fala sobre personagens do folclore brasileiro, com destaque para o Corpo-Seco, que está em alta por causa da série “Cidade Invisível”.
Ele traz, ainda, sugestões de atividades para a sala de aula, como o desenvolvido na Escola Professora Lúcia Pereira Rodrigues, em São José dos Campos (São Paulo). “A professora propôs que cada aluno fosse conversar com um tio, com o avô, com o pai ou com alguém que pudesse contar uma história de assombração. E ela reescreveria essa história com suas próprias palavras, ia arrumar um amigo que desenhasse e fizesse uma história ilustrada. Então, os alunos fizeram isso aí, depois eles encadernaram e fizeram um livro. Ficou muito legal!”.
Uma grande expectativa toma conta das redes sociais com o anúncio ainda para o segundo semestre deste ano da segunda temporada da série “Cidade Invisível”, da Netflix. A série brasileira que propõe uma releitura de personagens do folclore fez sucesso na plataforma de streaming e está entre as mais assistidas em países como Nova Zelândia e França. A abordagem diferente da obra pode ser usada na escola para tratar da cultura popular brasileira e suas lendas.
“Parece que as pessoas de repente se deram conta que a gente tem belíssimas histórias no nosso folclore, que, se a gente conhece, não valoriza, não se encanta. A série, primeiro, teve isso de bom, ela resgatou um material que é patrimônio imaterial do Brasil, as histórias do nosso folclore”, afirma a jornalista e escritora Januária Cristina Alves. Ela é autora do livro “Abecedário de personagens do folclore brasileiro” (FTD Educação/Edições Sesc SP), usado como fonte de pesquisa para a elaboração do roteiro da série.
O enredo apresenta Eric, um policial ambiental que descobre um mundo secreto de entidades do folclore brasileiro, como o Saci-pererê, a Cuca ou o Boto Cor-de-Rosa.
“A abordagem foi extremamente feliz, porque teve não só a oportunidade de trazer o personagem como ele é, na maior parte das histórias, mas, sobretudo, colocá-lo num contexto bastante contemporâneo. Ver o Saci-pererê com uma perna mecânica, nos Arcos da Lapa, por exemplo. Essa ambientação e esse tratamento aproximou mais ainda o público jovem dessas histórias de tradição oral”, avalia Alves. No áudio, a pesquisadora analisa como a série pode ser usada para o estudo do folclore em sala de aula.
Leia mais no portal do Instituto Claro: https://www.institutoclaro.org.br/
Em 31 de julho deste ano, depois de uma edição online durante a pandemia, a Perifacon voltou a acontecer com presença de público, na Fábrica de Cultura da Brasilândia, em São Paulo. O evento gratuito visa democratizar a cultura pop e dos quadrinhos, por meio de temáticas que geram identificação nas pessoas que visitam a feira.
“Eu diria que a gente se enxerga neles. A gente se enxerga fisicamente, a gente se enxerga nas problemáticas que acontecem, nos vilões, que estão mais próximos ali de um embate. Assim como no filme do Pantera Negra, com o Killmonger. Será que ele é mesmo um vilão ou será que é uma questão ali que a própria sociedade criou?”, destaca a pesquisadora do programa de pós-graduação em Humanidades, Direitos e outras Legitimidades da Universidade de São Paulo Juh Oliveira. Sua pesquisa é intitulada “Manifestação da cena cultural geek e periférica: acesso, produção e utilização de quadrinhos no evento Perifacon”.
O podcast ouviu Oliveira, além de Sandro Vaz, idealizador da Butantã Gibi Com, e a grafiteira e poeta Mari Memo. Eles trazem um panorama dos temas que os quadrinhos das quebradas abordam.
Vídeos curtos em que mães e merendeiras aparecem preparando lanches têm chamado atenção em redes sociais, como o Instagram e o Tik Tok. Duas dessas produtoras de conteúdo, ouvidas pelo Instituto Claro, apontam o amor com que se dedicam à merenda como o responsável pelo sucesso dos canais que mantêm.
“Eu faço com tanto amor, com tanta vontade, eu tenho prazer no que eu faço, que eu não precisei que ninguém me ensinasse como era para ser feito, eu cheguei lá e fiz. E, graças a Deus, me dei muito bem”, afirma Cibelle Mattos, merendeira de escola pública no Mato Grosso conhecida como a “Tia da Merenda” no Tik Tok.
A visão de que, além de comida não industrializada, é preciso de carinho para a preparação de um bom lanche é compartilhada por Graceli Chiquetti, conhecida como "Mãe de Celíaca" por causa dos vídeos que produz. “Quando a gente prepara o nosso alimento, a gente acaba assim escolhendo melhor os ingredientes, coloca a nossa energia, nosso carinho, nosso amor. Então, sempre vai ser uma coisa melhor do que você comprar uma coisa que vem embalada, que vem da indústria, que a gente não sabe o que tem ali, né?”.
Dados recentes divulgados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) e do Relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022”, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam a urgência de ações para o combate à fome. “A gente está falando de 60 milhões de brasileiros que estão em situação de insegurança alimentar, segundo dados da FAO. O Brasil volta ao mapa da fome”, aponta o gestor ambiental Rick Badra, especialista em agroecologia e voluntário da campanha “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.
No áudio, ele e Simone Gomes, cozinheira, ativista e educadora do coletivo Banquetaço, apontam que a fome não é fruto da pandemia, mas se torna mais evidente a partir dela. “A pandemia só agravou a situação de fome no país. E a gente até coloca – no manifesto da campanha – que ela tem cor, classe e gênero. Ela é um problema social, uma ferida aberta que a gente não pode invisibilizar, como tem acontecido principalmente com os desmontes do Pnae, que é o Programa Nacional de Alimentação Escolar, e o PAA, que é o programa de aquisição de alimentos”, avalia Gomes.
A participação democrática da sociedade civil organizada é, sem dúvida, fundamental no combate à fome, mas, na entrevista, fica claro que essas ações precisam ser apoiadas por políticas públicas que gerem recursos para a agroecologia, uma forma — segundo os entrevistados — de acabar com a fome que alia qualidade ambiental e comida de verdade, como explicam no podcast.
Escolha de itinerários muito limitada, falta de professores e expansão de carga horária baseada no ensino à distância. Essas são algumas das conclusões do estudo sobre a implementação da reforma do ensino médio no estado de São Paulo produzido pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu). A análise dos dados demonstra que o chamado Novo ensino médio causa retrocesso e aumenta as desigualdades escolares.
“Se esta reforma não prevê investimentos nas escolas para equalizar condições de implementação, de currículo flexível, essa reforma não tem outro caminho que não seja gerar desigualdade. E os dados mostram isso de uma maneira muito clara”, afirma o professor de políticas educacionais da Universidade Federal do ABC, integrante da Repu e do comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Fernando Cássio.
No áudio, ele comenta em detalhes a pesquisa, que analisou as promessas feitas quando a lei do novo ensino médio foi proposta: liberdade de escolha para estudantes e expansão da jornada escolar no período noturno, para equiparar à carga horária do ensino médio matutino e vespertino. “Estudantes mais pobres, mais vulneráveis, estão tendo uma condição de escolarização pior e, não só pior, mas piorada pela reforma. Essa é uma situação muito grave. Nós, que estamos envolvidos na pesquisa, não vemos como essa reforma tenha como produzir alguma coisa diferente disso”, conclui.
Fatos incontestáveis, como a existência do holocausto, têm sido negados por meio da construção de narrativas falsas e distorção da História. O professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Jaime Pinsky explica que a propagação de mentiras históricas e científicas não é um fenômeno novo, mas as redes sociais podem estar intensificando e acelerando esse processo.
“Nós temos governantes autoritários que, insatisfeitos em torturar a verdade, torturam a História, pra ver se ela confessa e declara aquilo que eles querem ouvir. Governantes antidemocráticos odeiam a verdade. Eles se alimentam e alimentam seus seguidores com mentira”, afirma Pinsky.
Com a expansão da internet, amplia-se também o campo para essa guerra de narrativas. A rede mundial de computadores é utilizada para transmitir notícias a todo segundo e tanto a informação quanto a desinformação convivem lado a lado. “Eventualmente você pega um texto sei lá de quem e atribui a um poeta do século XIX ou a um cientista do século XX, para dar validade – uma referência positiva – àquele texto. Então, hoje em dia, a internet permite essas distorções tremendas e faz com que as informações circulem rapidamente”, resume o historiador e escritor.
No áudio, ele explica também qual seria a diferença de narrativas sob diferentes pontos de vista e construções mentirosas, que negam os fatos históricos, com intenções, especialmente, políticas.
A varíola dos macacos é uma zoonose. Apesar do nome, não é transmitida por primatas, mas por roedores. A origem está no fato de, em 1958, macacos de um laboratório dinamarquês terem apresentado lesões parecidas com as da varíola humana. O crescente interesse pela doença, após aparecimento de centenas de casos no Brasil e outros milhares pelo mundo, é uma oportunidade para tratar do assunto no ambiente escolar.
“Mais de 75% das doenças infeciosas emergentes são zoonoses, têm origem zoonótica. Como você vê, se a gente não estudar o que é zoonose, a gente acaba não estudando a origem das doenças infectocontagiosas”, afirma a virologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Clarissa Damaso.
A escola pode promover a mudança no comportamento de estudantes, que, por sua vez, tendem a multiplicar esse conhecimento com familiares e pessoas próximas.“Uma forma de a gente ampliar esses conhecimentos, essas ações, é incentivar muitas vezes que os alunos passem essas informações e até essas ideias que eles vão tendo ao longo da pesquisa nas redes sociais deles. Claro que sempre com a correção, o aval do professor”, defende a médica veterinária, bióloga e professora da Faculdade Método de São Paulo (Famesp) Soraya Chucair.
No áudio, Damaso e Chucair trazem sugestões de como a varíola dos macacos e outras zoonoses podem ser abordadas na escola de forma multidisciplinar.
Veja mais no portal do Instituto Claro: https://www.institutoclaro.org.br
As mulheres compõem um dos grupos mais afetados pela atual crise econômica, segundo a economista pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e fundadora do No Front – Empoderamento Financeiro, Gabriela Chaves. Ela aponta o aumento das responsabilidades atribuídas às mulheres, por exemplo, com o fechamento das escolas no período agudo da pandemia de covid-19. Como consequência, muitas têm buscado novas alternativas de geração de renda.
“Quando falamos de empreendedorismo – de inovação —, a gente está falando de todo um ecossistema que investe. Vemos que as mulheres ainda estão bastante à margem, batalhando muito pra conseguir se manter e conseguir manter o mínimo de dignidade pra si e para as suas famílias, diante da crise econômica que a gente está vivendo”, avalia.
Para a especialista, o machismo estrutural da sociedade brasileira faz com que haja maior dificuldade de acesso a investimentos e estímulos para que mulheres possam empreender: “Você vai ter desde essa tendência da sociedade a responsabilizar as mulheres exclusivamente pelas tarefas do cuidado a uma diferença sistêmica de remuneração entre homens e mulheres, mesmo nos postos de trabalho formalizados”.
Para mudar esse quadro, Chaves se empenha em cursos de educação financeira e, no áudio, traz três pontos que podem transformar ações de geração de renda em empreendedorismo. Para ela, trabalhar por conta própria não é sinônimo de empreender. É preciso trazer inovação.
A biomédica Helena Nader se tornou, em maio deste ano, a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Ciências. Estimular a educação que faz pensar, em vez de entregar respostas prontas, é uma das metas da pesquisadora e professora. A crença de que isso muda a postura das pessoas vem desde a infância, quando teve professores que valorizavam a formação, muito mais do que a mera informação. “Por que que a gente quer um método científico? Não é pra todo mundo ser cientista, mas a ciência te ajuda a compreender o mundo. E pra entender a ciência é só fazendo perguntas”, afirma.
No triênio 2022-2025, Helena Nader tem como prioridades a promoção da pluralidade na ciência e a educação. Para ela, é preciso combater a intromissão de algumas religiões no ambiente escolar. “Você pode dar o nome que quiser para a fé, mas não pode negar os dados científicos. Como que você faz isso? Faz a criança, o adolescente, observar ao redor com exemplos e ele mesmo pode chegar à conclusão”, defende.
No áudio, ela ainda fala sobre a necessidade de valorizar os professores e a importância de pensar na educação como um investimento a longo prazo. “Qualquer recurso que você coloque em educação é investimento, ele vai dar retorno. Não vai dar retorno no período do mandato daquele indivíduo, mas nos anos seguintes. Então, a maioria não gosta dessa ideia de investimento de longo prazo. Mas ou a gente faz isso, ou nós vamos andar para trás”, conclui.
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