Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Caprichos e relatos - Paulo Leminski
    um deus também é o vento
    só se vê nos seus efeitos
    árvores em pânico
    bandeiras
    água trêmula
    navios a zarpar
    ……………
    a este deus
    que levanta a poeira dos caminhos
    …………….
    consagro este suspiro
    nele cresça
    até virar vendaval
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    1 min
  • Chove - Ana Cristina César
    A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhastes em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.
– Ana Cristina Cesar, em “Inéditos e dispersos”. [organização Armando Freitas Filho]. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985
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    3 min
  • Expulso Por Bom Motivo - Bertolt Brecht
    Eu cresci como filho
    De gente abastada. Meus pais
    Me colocaram um colarinho, e me educaram
    No hábito de ser servido
    E me ensinaram a dar ordens.
    Mas quando
    Já crescido, olhei em torno de mim
    Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
    À gente pequena.
    Assim
    Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
    Suas artes, e ele
    Denuncio-os ao inimigo.
    Sim, eu conto seus segredos. Fico
    Entre o povo e explico
    Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
    Estou instruído em seus planos.
    O latim de seus clérigos corruptos
    Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,
    Então
    Ele se revela uma farsa. Tomo
    A balança da sua justiça e mostro
    Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
    Que me encontro entre os despossuídos, quando
    Tramam a revolta.
    Eles me advertiram e me tomaram
    O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
    Eles foram me caçar, mas
    Em minha casa
    Encontraram apenas escritos que expunham
    Suas tramas contra o povo. Então
    Enviaram uma ordem de prisão
    Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
    As idéias da gente baixa.
    Aonde vou sou marcado
    Aos olhos dos possuidores.
    Mas os despossuídos
    Lêem a ordem de prisão
    E me oferecem abrigo. Você, dizem
    Foi expulso por bom motivo.
    Bertolt Brecht
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    3 min
  • Se tu viesses ver-me... - Florbela Espanca
    Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
    A essa hora dos mágicos cansaços,
    Quando a noite de manso se avizinha,
    E me prendesses toda nos teus braços...
    Quando me lembra: esse sabor que tinha
    A tua boca... o eco dos teus passos...
    O teu riso de fonte... os teus abraços...
    Os teus beijos... a tua mão na minha...
    Se tu viesses quando, linda e louca,
    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
    E é de seda vermelha e canta e ri
    E é como um cravo ao sol a minha boca...
    Quando os olhos se me cerram de desejo...
    E os meus braços se estendem a ti...
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    2 min
  • Guardar - Antônio Cícero
    Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
    Em cofre não se guarda coisa alguma.
    Em cofre perde-se a coisa à vista.
    Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
    Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela.
    Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
    Do que de um pássaro sem vôos.
    Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
    Para guardá-lo:
    Para que ele, por sua vez, guarde o que guardar.
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    2 min
  • Rabindranath Tagore - A Flor de Lótus
    No dia em que a flor de lótus desabrochou,
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente,
    uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração.
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    2 min
  • Carlos Drummond de Andrade - Evocação Mariana
    A igreja era grande e pobre.
    Os altares humildes.
    Havia poucas flores.
    Eram flores de horta.
    Sob a luz fraca, na sombra esculpida
    (quais as imagens e quais os fiéis?)
    ficávamos.
    Do padre cansado o murmúrio de reza
    subia às tabuas do forro,
    batia no púlpito seco,
    entranhava-se na onda,
    minúscula e forte, de incenso,
    perdia-se.
    Não, não se perdia...
    Desatava-se do coro a música deliciosa
    (que esperas ouvir à hora da morte, ou depois da morte, nas campinas do ar)
    e dessa música surgiam meninas - a alvura mesma -
    cantando.
    De seu peso terrestre a nave libertada,
    como do tempo atroz imunes nossas almas,
    flutuávamos no canto matinal,
    sobre a treva do vale.
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    3 min
  • Meu Deus, me dê Coragem - Clarice Lispector
    Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar…
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    3 min
  • Sítio - Adélia Prado
    Igreja é o melhor lugar.
    Lá o gado de Deus para pra beber água,
    rela um no outro os chifres
    e espevita seus cheiros
    que eu reconheço e gosto,
    ao modo de um cachorro.
    É minha raça, estou
    em casa como no meu quarto.
    Igreja é a casamata de nós.
    Tudo lá fica seguro e doce,
    tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita.
    Lá as coisas dilacerantes sentam-se
    ao lado deste humaníssimo fato
    que é fazer flores de papel
    e nos admiramos como tudo é crível.
    Está cheia de sinais, palavra,
    cofre e chave, nave e teto aspergidos
    contra vento e loucura.
    Lá me guardo, lá espreito
    a lâmpada que me espreita, adoro
    o que me subjuga a nuca como a um boi.
    Lá sou corajoso
    e canto com meu lábio rachado:
    glória no mais alto dos céus
    a Deus que de fato é espírito
    e não tem corpo, mas tem
    o olho no meio de um triângulo
    donde vê todas as coisas,
    até os pensamentos futuros.
    Lugar sagrado, eletricidade
    que eu passeio sem medo.
    Se eu pisar,
    o amor de Deus me mata.
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    3 min

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