Às vezes a poesia vai embora.
Simplesmente some, foge,
cai fora, se afasta para um salto
- talvez mortal - sem rede, sem escolha,
nem mesmo asfalto que a receba
em seu abraço intransigente e duro.
Vez por outra se esquiva, matreira,
da infecciosa covardia que nos assola,
pandemia corrompida e sórdida,
descontrolado incêndio abocanhando
tudo com seus dentes de fogo.
Pra você ver, até a poesia se cansa.
Precisa tomar distância, ficar sozinha
calada, mãos inertes, mente vaga,
molhar os pés em águas rasas, até
que de repente, não mais que de repente
(como diria o poeta), se faça, novamente,
da vida uma aventura errante e ela possa
voltar a ser, aquela imprescindível chama.
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