Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Metade - Oswaldo Monte Negro
    Que a força do medo que tenho
    não me impeça de ver o que anseio
    que a morte de tudo em que acredito
    não me tape os ouvidos e a boca
    pois metade de mim é o que eu grito
    a outra metade é silêncio
    Que a música que ouço ao longe
    seja linda ainda que tristeza
    que a mulher que eu amo
    seja pra sempre amada
    mesmo que distante
    pois metade de mim é partida
    a outra metade é saudade.
    Que as palavras que falo
    não sejam ouvidas como
    prece nem repetidas com fervor
    apenas respeitadas como a única coisa
    que resta a um homem inundado de sentimentos
    pois metade de mim é o que ouço
    a outra metade é o que calo
    Que a minha vontade de ir embora
    se transforme na calma e paz que mereço
    que a tensão que me corrói por dentro
    seja um dia recompensada
    pois metade de mim é o que penso
    a outra metade um vulcão
    Que o medo da solidão se afaste
    e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
    que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
    que me lembro ter dado na infância
    pois metade de mim é a lembrança do que fui
    E a outra metade não sei
    Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
    pra me fazer aquietar o espírito
    e que o seu silêncio me fale cada vez mais
    pois metade de mim é abrigo
    a outra metade é cansaço
    Que a arte me aponte uma resposta
    mesmo que ela mesma não saiba
    e que ninguém a tente complicar
    pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
    pois metade de mim é platéia
    a outra metade é canção.
    Que a minha loucura seja perdoada
    pois metade de mim é amor
    a outra metade também
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    3 min
  • Tabacaria - Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa )
    Datado de 1928, o poema Tabacaria enquadra-se na terceira fase poética de Álvaro de Campos, a fase, “intimista”, onde mergulha nas profundezas da angústia e do pessimismo. O autor retorna ao tema do cansaço, da inquietação diante do incompreensível. Tabacaria é o melhor exemplo deste último período criativo de Campos. Talvez, seja a poesia mais significativa desse heterônimo, pois nela podemos encontrar muitas das características presentes em sua obra. No poema é predominante o niilismo, o sentimento de revolta, o inconformismo, a desumanização, também, um deprimente vazio e a desilusão própria dos tempos pós-guerra e certo desleixo do português, como o próprio Pessoa afirmou em apontamentos.
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    16 min
  • Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
    — O meu nome é Severino,
    não tenho outro de pia.
    Como há muitos Severinos,
    que é santo de romaria,
    deram então de me chamar
    Severino de Maria;
    como há muitos Severinos
    com mães chamadas Maria,
    fiquei sendo o da Maria
    do finado Zacarias.
    Mas isso ainda diz pouco:
    há muitos na freguesia,
    por causa de um coronel
    que se chamou Zacarias
    e que foi o mais antigo
    senhor desta sesmaria.
    Como então dizer quem fala
    ora a Vossas Senhorias?
    Vejamos: é o Severino
    da Maria do Zacarias,
    lá da serra da Costela,
    limites da Paraíba.
    Mas isso ainda diz pouco:
    se ao menos mais cinco havia
    com nome de Severino
    filhos de tantas Marias
    mulheres de outros tantos (outros)
    já finados, Zacarias,
    vivendo na mesma serra
    magra e ossuda em que eu vivia.
    Somos muitos Severinos
    iguais em tudo na vida:
    na mesma cabeça grande
    que a custo é que se equilibra,
    no mesmo ventre crescido
    sobre as mesmas pernas finas,
    e iguais também porque o sangue
    que usamos tem pouca tinta.
    E se somos Severinos
    iguais em tudo na vida,
    morremos de morte igual,
    mesma morte severina:
    que é a morte de que se morre
    de velhice antes dos trinta,
    de emboscada antes dos vinte,
    de fome um pouco por dia
    (de fraqueza e de doença
    é que a morte severina
    ataca em qualquer idade,
    e até gente não nascida).
    Somos muitos Severinos
    iguais em tudo e na sina:
    a de abrandar estas pedras
    suando-se muito em cima,
    a de tentar despertar
    terra sempre mais extinta,
    a de querer arrancar
    algum roçado da cinza.
    Mas, para que me conheçam
    melhor Vossas Senhorias
    e melhor possam seguir
    a história de minha vida,
    passo a ser o Severino
    que em vossa presença emigra.
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    3 min
  • Toco tua Boca - Julio Cortázar
    Julio Florencio Cortázar foi um escritor argentino, tradutor e intelectual argentino. Sem renunciar à nacionalidade argentina, ele optou por adquirir a nacionalidade francesa, em 1981, em protesto contra a ditadura militar argentina
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    4 min
  • O pássaro azul – Bukowski
    há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?
    Tradução: Pedro Gonzaga
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    3 min
  • Cântico Negro - José Régio
    Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
    Estendendo-me os braços, e seguros
    De que seria bom que eu os ouvisse
    Quando me dizem: "vem por aqui!"
    Eu olho-os com olhos lassos,
    (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
    E cruzo os braços,
    E nunca vou por ali...
    A minha glória é esta:
    Criar desumanidade!
    Não acompanhar ninguém.
    - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
    Com que rasguei o ventre à minha mãe
    Não, não vou por aí! Só vou por onde
    Me levam meus próprios passos...
    Se ao que busco saber nenhum de vós responde
    Por que me repetis: "vem por aqui!"?
    Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
    Redemoinhar aos ventos,
    Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
    A ir por aí...
    Se vim ao mundo, foi
    Só para desflorar florestas virgens,
    E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
    O mais que faço não vale nada.
    Como, pois sereis vós
    Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
    Para eu derrubar os meus obstáculos?...
    Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
    E vós amais o que é fácil!
    Eu amo o Longe e a Miragem,
    Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
    Ide! Tendes estradas,
    Tendes jardins, tendes canteiro,
    Tendes pátria, tendes tectos,
    E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
    Eu tenho é a minha Loucura !
    Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
    E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios...
    Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
    Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
    Mas eu, que nunca principio nem acabo,
    Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
    Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
    Ninguém me peça definições!
    Ninguém me diga: "vem por aqui"!
    A minha vida é um vendaval que se soltou.
    É uma onda que se alevantou.
    É um átomo a mais que se animou...
    Não sei para onde vou,
    Não sei por onde vou
    - Sei que não vou por aí!
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    4 min
  • Tutte le lettere d’amore sono ridicole - Fernando Pessoa
    Tutte le lettere d’amore
    sono ridicole.
    Non sarebbero lettere d’amore
    se non fossero
    ridicole.
     
    Ho scritto
    anch’io ai miei tempi
    lettere d’amore,
    come le altre,
    ridicole.
     
    Le lettere d’amore,
    se c’è amore,
    devono essere
    ridicole.
     
    Ma, in fin dei conti,
    solo le persone che
    non hanno mai scritto
    lettere d’amore
    sono
    ridicole.
     
    Almeno vivessi ancora al tempo
    in cui scrivevo senza rendermene conto
    lettere d’amore
    ridicole.
     
    La verità è che oggi
    sono le mie memorie
    di quelle lettere d’amore
    ad essere
    ridicole.
     
    (Tutte le parole sdrucciole,
    come i sentimenti sdruccioli,
    sono, naturalmente
    ridicole).
    ---
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    2 min
  • Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa
    Aquele lugar, o ar.
    Primeiro, fiquei sabendo que gostava de
    Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade.
    Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo.
    Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora.
    Melhor me alembro.
    …………
    O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em
    mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente –
    “Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo?
    ………
    E como é que o amor desponta.
    …..
    Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando entre serras e varjas, matas e campinas.
    Coração mistura amores. Tudo cabe.
    ………
    E eu – como é que posso explicar ao senhor o que podia dizer de amor que eu
    criei? Minha vida o diga. Se amor ?
    ... Diadorim tomou conta de mim.
    ………….
    E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – e daí então acreditei.
    ……
    Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus
    mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava
    com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. Não era?
    ………………
    Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu.
    ……..
    Aquilo me transformava, e me fazia crescer dum modo, que me doía e prazia. Aquela hora, se pudesse morrer, não me importava.
    ……….
    Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota depois.
    ……..
    Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um acesso de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim,
    ……
    no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim em meus braços, beijar, as muitas
    demais vezes, sempre.
    ……
    Abracei
    Diadorim, (com) as asas de todos os pássaros
    …….
    Só se pode viver
    perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a
    gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um
    descanso na loucura.
    …….
    amor é a gente querendo achar o que é da gente.
    ---
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    6 min
  • A Minha Sombra - Jorge de Lima
    De manhã a minha sombra
com meu papagaio e o meu macaco
começam a me arremedar.
E quando eu saio
a minha sombra vai comigo
fazendo o que eu faço
seguindo os meus passos.
    Depois é meio-dia.
E a minha sombra fica do tamaninho
de quando eu era menino.
Depois é tardinha.
E a minha sombra tão comprida
brinca de perna de pau.
    Minha sombra, eu só queria
ter o humor que você tem,
ter a sua meninice,
ser igualzinho a você.
E de noite quando escrevo,
fazer como você faz,
Quando eu fazia em criança:
Minha sombra
você põe a sua mão
por baixo da minha mão,
vai cobrindo o rascunho dos meus poemas
sem saber ler e escrever.
    ---
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    2 min
  • Você Merece Um Amor - Frida Kahlo
    Você merece um amor que a ame quando você estiver despenteada, aceitando as razões que a fazem acordar rapidamente, e os medos que não permitem que você durma.
    Você merece um amor que faça com que você se sinta segura. Que a ajude a conquistar o mundo ao pegar em sua mão, que sinta que seus abraços se encaixam perfeitamente com sua pele.
    Você merece um amor que deseje estar ao seu lado, visitar o paraíso apenas olhando seus olhos, e que nunca fique entediado lendo suas expressões.
    Você merece um amor que a ouça cantar, que apoie todas as suas loucuras, que respeita sua liberdade e que a acompanhe em seu voo, que não a deixe cair.
    Você merece um amor que afaste as mentiras. E que traga sonhos, café e poesia.
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    2 min

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