Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Rodo - Jazi Rodrigues
    De longe da pra ver o alto do morro.
    Duas décadas de distância
    aquele cume tem hoje de mim.
    Ali ainda é meu chão, minha pólis,
    Minha Atenas nordestina.
    Do primeiro ao último degrau,
    em cada batente, lares-templos
    ecumênicos alteres
    de onde ecoam alaridos católicos,
    rezas, sons africanos,
    Do pé ao topo desse Olimpo pernambucano,
    Dos muitos degraus
    Um sempre será meu
    - lá erigi meu átrio -
    um Altar para entender o Mundo
    E no desespero
    Clamar para Aquele
    que aos Gregos atendia
    por Deus desconhecido.
    ---
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    2 min
  • A Rua - Cassiano Ricardo
    Bem sei que, muitas vezes,
    o único remédio
    é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
    a dívida, o divertimento,
    o pedido de emprego, ou a própria alegria.
    A esperança é também uma forma
    de contínuo adiamento.
    Sei que é preciso prestigiar a esperança,
    numa sala de espera.
    Mas sei também que espera significa luta e não,
    [apenas,
    esperança sentada.
    Não abdicação diante da vida.
    A esperança
    nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
    [espera.
    Nunca é a figura de mulher
    do quadro antigo.
    Sentada, dando milho aos pombos.
    ---
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    2 min
  • Solidariedade - Murilo Mendes
    Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
    Ao mártir, ao assassino, ao anarquista.
    Sou ligado
    Aos casais na terra e no ar,
    Ao vendeiro da esquina,
    Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida,
    Ao mecânico, ao pobre, ao soldado,
    Ao santo e ao demônio,
    Construídos à minha imagem e semelhança.
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    2 min
  • Baladas do Festival - Hilda Hilst
    Na verdade apareceu
    vindo de terras distantes
    um homem quase poeta
    que me amou e que se deu
    a mim e a outras também.
    E me dizia ao telefone
    coisas tão ternas, tão tudo
    que só de ouvi-lo e esperá-lo
    muitas mulheres se perderam.
    Muitas mulheres… também eu.
    Amei-o naquela pressa
    de horas marcadas e hotéis…
    dentro de mim a promessa
    de amá-lo ainda que fosse
    na velha China, nos mares,
    dentro de algum avião.
    E quando ele me chamava
    eu toda vagotonia
    ia e vinha e pressentia
    o homem que me fugia
    de passaporte na mão.
    Agora estou cansada
    perdi-me na confusão
    de ser amante e amada.
    Se ainda vou procurá-lo
    Em Paris ou Viena
    não me pergunte, amigos,
    que eu faço um olhar tão triste
    tão triste de fazer pena…
    Na verdade apareceu
    vindo de terras distantes
    um homem asas e Orfeu.
    ---
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    3 min
  • Deve haver um poema - Eduardo Chirinos
    Deve haver um poema que fale de ti,
    um poema que more em algum lugar
    onde te fale sem fechar os olhos,
    sem tombar por força na tristeza.
    Deve haver um poema que fale de ti e de mim.
    Um poema intenso como o mar,
    azul e repousado de manhã,
    negro e eriçado pela noite,
    rebelde na ordem das coisas,
    como o mar que cobiça tanto os peixes
    como as estrelas.
    O singelo equilíbrio do mar te desejo,
    seu silêncio e profundidade,
    sua imensidade e beleza.
    Para ti o poema transparente,
    sem palavras difíceis que não entendas,
    um poema silencioso que recordes sem esforço e seja terno e frágil como a flor
    que eu não me atrevi a prender no cabelo.
    Mas que difícil é a flor se mal a cortamos
    dura apenas umas horas,
    que difícil o mar se mal lhe tocamos
    vai-se embora,
    para voltar depois com grande fúria.
    Não, não quero tal para ti,
    quero um poema que te bata de noite na travesseira,
    um poema onde te ache dormida,
    sem memória,
    sem passado possível que te altere.
    Desde que te conheci que busco tal poema, e já é de noite. Os relógios detêm-se cansados em sua marcha,
    a música suspende-se num fio
    onde pende triste a tua lembrança.
    Agora penso em ti e penso
    bem que conhecer-te não foi tão difícil
    como escrever este poema.
    ---
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    3 min
  • A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade
    Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
    Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
    Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
    Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
    Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
    Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
    Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
    Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
    Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
    [A rosa do povo]
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    5 min
  • Obriga-me - Hilda Hilst
    E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. 
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
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    2 min
  • Let`s Play That - Torquato Neto

    Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, 9 de novembro de 1944 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972) foi um poeta brasileiro, jornalista, letrista de música popular, experimentador ligado à contracultura.

    ---
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    1 min
  • Esse é o Prólogo- Federico García Lorca ESTE É O PRÓLOGO
    Deixaria neste livro 
toda a minha alma. 
este livro que viu 
as paisagens comigo 
e viveu horas santas.
Que pena dos livros 
que nos enchem as mãos 
de rosas e de estrelas 
e lentamente passam!
Que tristeza tão funda 
é olhar os retábulos 
de dores e de penas 
que um coração levanta!!
Ver passar os aspectros 
de vida que se apagam, 
ver o homem desnudo 
em Pégaso sem asas,

ver a vida e a morte, 
a síntese do mundo, 
que em espaços profundos 
se olham e se abraçam.

Um livro de poesias 
é o outono morto: 
os versos são as folhas 
negras em terras brancas,

e a voz que os lê 
é o sopro do vento 
que lhes incute nos peitos 
- entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore 
com frutos de tristeza 
e com folhas murchas 
de chorar o que ama.

O poeta é o médium 
da Natureza 
que explica sua grandeza 
por meio de palavras.

O poeta compreende 
todo o incompreensível 
e as coisas que se odeiam, 
ele, amigas as chamam.

Sabe que as veredas 
são todas impossíveis, 
e por isso de noite 
vai por elas com calma.

Nos livros de versos, 
entre rosas de sangue, 
vão passando as tristes 
e eternas caravanas
que fizeram ao poeta 
quando chora nas tardes, 
rodeado e cingido 
por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura, 
mel celeste que emana 
de um favo invisível 
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível 
feito possível. Harpa 
que tem em vez de cordas 
corações e chamas.

Poesia é a vida 
que cruzamos com ânsia, 
esperando o que leva 
sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos 
sãos os astros que passam 
pelo silêncio mudo 
para o reino do Nada, 
escrevendo no céu 
suas estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas 
e nunca remediadas, 
as vozes dolorosas 
que os poetas cantam!

Deixaria neste livro 
toda a minha alma...

    Federico García Lorca
    Este es el prólogo
    
Dejaría en este libro
toda mi alma.
Este libro que ha visto
conmigo los paisajes
y vivido horas santas.
    ¡Qué pena de los libros
que nos llenan las manos
de rosas y de estrellas
y lentamente pasan!
    ¡Qué tristeza tan honda
es mirar los retablos
de dolores y penas
que un corazón levanta!
    Ver pasar los espectros
de vidas que se borran,
ver al hombre desnudo
en Pegaso sin alas,
    ver la vida y la muerte,
la síntesis del mundo,
que en espacios profundos
se miran y se abrazan.
    Un libro de poesías
es el otoño muerto:
los versos son las hojas
negras en tierras blancas,
    y la voz que los lee
es el soplo del viento
que les hunde en los pechos,
– entrañables distancias –.
    El poeta es un árbol
con frutos de tristeza
y con hojas marchitas
de llorar lo que ama.
    El poeta es el médium
de la Naturaleza
que explica su grandeza
por medio de palabras.
    El poeta comprende
todo lo incomprensible,
y a cosas que se odian,
él, amigas las llama.
    Sabe que los senderos
son todos imposibles,
y por eso de noche
va por ellos en calma.
    En los libros de versos,
entre rosas de sangre,
van pasando las tristes
y eternas caravanas
    que hicieron al poeta
cuando llora en las tardes,
rodeado y ceñido
por sus propios fantasmas.
    Poesía es amargura,
miel celeste que mana
de un panal invisible
que fabrican las almas.
    Poesía es lo imposible
hecho posible. Arpa
que tiene en vez de cuerdas
corazones y llamas.
    Poesía es la vida
que cruzamos con ansia
esperando al que lleva
sin rumbo nuestra barca.
    Libros dulces de versos
son los astros que pasan
por el silencio mudo
al reino de la Nada,
escribiendo en el cielo
sus estrofas de plata.
    ¡Oh, qué penas tan hondas
y nunca remediadas,
las voces dolorosas
que los poetas cantan!
    Dejaría en el libro
este toda mi alma…
    ---
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    4 min
  • Encontro ou amor - Fausto Fawcett
    Encontro ou amor (Fausto Fawcett)
    Vivo clandestina e não é mole essa vida clandestina
    Mas posso me orgulhar da qualidade da minha pele
    E da temperatura do meu beijo,
    eu quero fazer com você um pacto de delicadeza.
    Eu quero me sentir Alteza,
    para te ceder todos os músculos
    Será arbusto dos seus beijos
    Vamos sair esburacando a madrugada
    trocando beijos e tragadas
    A lua é uma lantejoula da Nasa
    que brilha leitosa no meu vestido estrelado.
    ---
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    2 min

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