Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
Download on the App Store

Jazz Poética episodes

  • O Cão - Juan Gelman
    O poema não pede para comer. Come
    os pobres pratos que
    gente sem vergonha ou pudor
    lhe serve no meio da noite.
    A palavra divina já não existe. Que pode
    fazer o poema, senão
    contentar-se com o que lhe dão?
    Depois uivará por aí
    sem resposta, será
    outro cão perdido
    na cidade impiedosa.
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Os Miseráveis - Sérgio Vaz
    Os Miseráveis.
    ‎Vítor nasceu… no Jardim das Margaridas.
    Erva daninha, nunca teve primavera.
    Cresceu sem pai, sem mãe, sem norte, sem seta.
    Pés no chão, nunca teve bicicleta.
    Já Hugo, não nasceu, estreou.
    Pele branquinha, nunca teve inverno.
    Tinha pai, tinha mãe, caderno e fada madrinha.
    Vítor virou ladrão, Hugo salafrário.
    Um roubava pro pão, o outro, pra reforçar o salário.
    Um usava capuz, o outro, gravata.
    Um roubava na luz, o outro, em noite de serenata.
    Um vivia de cativeiro, o outro, de negócio.
    Um não tinha amigo: parceiro.
    O outro, tinha sócio.
    Retrato falado, Vítor tinha a cara na notícia,
    enquanto Hugo fazia pose pra revista.
    O da pólvora apodrece penitente, o da caneta
    enriquece impunemente.
    A um, só resta virar crente, o outro, é candidato a presidente.
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Outros jeitos de usar a boca - Rupi Kaur
    acima de tudo ame
    como se fosse a única coisa que você sabe fazer
    no fim do dia isso tudo
    não significa nada
    esta página
    onde você está
    seu diploma
    seu emprego
    o dinheiro
    nada importa
    exceto o amor e a conexão entre as pessoas
    quem você amou
    e com que profundidade você amou
    como você tocou as pessoas à sua volta
    e quanto você se doou a elas.
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    1 min
  • Escrevo, leio, rasgo…- Torquato Neto
    "Quando eu recito ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte e fogo e morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. [...] uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma; qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. [...] Escrevo, leio, rasgo, toco fogo e vou ao cinema."
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Contranarciso - Paulo Leminski
    em mim
    eu vejo
    o outro
    e outro
    enfim dezenas
    trens passando
    vagões cheios de gente centenas
    o outro
    que há em mim é você
    você
    e você
    assim como
    eu estou em você
    estou nele
    em nós
    e só quando
    estamos em nós
    estamos em paz
    mesmo que estejamos a sós
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    1 min
  • As Sem - Razões do Amor - Carlos Drummond de Andrade
    Eu te amo porque te amo
    Não precisas ser amante
    E nem sempre sabes sê-lo
    Eu te amo porque te amo
    Amor é estado de graça
    E com amor não se paga
    Amor é dado de graça
    É semeado no vento
    Na cachoeira, no eclipse
    Amor foge a dicionários
    E a regulamentos vários Eu te amo porque não amo
    Bastante ou demais a mim
    Porque amor não se troca
    Não se conjuga nem se ama
    Porque amor é amor a nada
    Feliz e forte em si mesmo
    Amor é primo da morte
    E da morte vencedor
    Por mais que o matem (e matam)
    A cada instante de amor
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Às vezes com alguém que amo - Walt Whitman
    Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno;
    Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro;
    (Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno;
    No entanto, disso escrevi estas canções.)
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Quando a ternura for a única regra da manhã - José Luís Peixoto
    um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
    acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
    e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
    um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
    tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
    de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
    nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
    será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
    nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
    a perfeição da felicidade.
    José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Tenho fome de tua boca - Pablo Neruda
    Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pêlo
e por estas ruas me vou sem alimento, calado,
não me nutri o pão, a aurora me altera,
busco o som líquido de teus pés neste dia.
    Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso silo,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer teu pé como uma intacta amêndoa.
    Quero comer o raio queimado em tua formosura, nariz soberano,
quero comer a sombra fugaz de tuas sobrancelhas.
    E faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração quente
como uma puma na solidão de Quitratúe.
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    2 min
  • Quatro e meia da manhã - Charles Bukowski
    os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
    quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
com os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acaba os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo e
como algo esfaqueado
e cicatrizando,
com 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
    ---
    Send in a voice message: https://podcasters.spotify.com/pod/show/896658/message
    3 min

About Jazz Poética

From the publisher's feed

Poesias e Reflexão