Jazz Poética

Jazz Poética

By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Fever 77º - Caio Fernando Abreu
    Deixa-me singrar teus mares
    mais remotos
    com minha língua em brasa.
    Quero um amor de suor e carne
    agora:
    enquanto tenho sangue.
    Mas deixa-me sangrar teus lábios
    com a adaga de meus dentes.
    Deixa-me dilacerar teu flanco
    mais esquivo
    na lâmina de minha unhas.
    Quero um amor de faca e grito
    agora:
    enquanto tenho febre.
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    2 min
  • Último Brinde - Anna Akhmátova
    Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
    Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
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    1 min
  • Não quero que te vás - Pedro Salinas
    Não quero que te vás
dor, última maneira
de amar. Sinto-me vivo
quando me martirizas
não em ti, nem aqui,
além: no chão de onde tu vieste,
naquele amor por ela
e tudo o que foi.
Nessa realidade
submersa que nega
a si mesma e se empenha
em nunca ter havido,
que só foi um pretexto
que achei para viver.
Se tu não fosses minha,
ó dor, irrefutável,
até creria nisso;
porém, és o que eu tenho.
Tua lei me assegura
que nada foi mentira.
E enquanto eu te sentir,
Tu serás pra mim, dor,
a prova de outra vida
em que não me doías.
A prova indiscutível
De que ela me amou,
Sim, de que ainda a amo.
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    2 min
  • Poesia, dentro de Mim - José Miguel Silva
    Poeta português dono de uma língua afiadíssima para o sarcasmo e ironia. Vive na pequena cidade de Serém, onde trabalha como tradutor.
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    2 min
  • Cartas a um Jovem Poeta - Rainer Maria Rilke
    (...)Amar também é bom:porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta,a maior e última prova,a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo,não sabem amar: tem que
    aprendê-lo. Com todo o seu ser,com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário,medroso e palpitante,devem aprender a amar.Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama,o amor,por muito tempo e pela vida afora,é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo.O amor, antes de tudo,não é o que se chama entregar-se,confundir-se, unir-se a outra pessoa.Que sentido teria, com efeito,a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer,tornar-se algo em si mesmo,tornar-se um mundo para si,por causa de um outro ser;é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz,uma escolha e um chamado para longe. (...) Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida.(...)
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    3 min
  • Vento Contrário- Maria José Quintela
    Maria José Quintela Claro da Fonseca nasceu em Vila Real e reside em Lamego. Livros de poesia: Vozes e Ecos (2000); Um Olhar não Basta (2006); O mundo é irreal, mas não me importa (2007); Pertence à água a escolha dos náufragos (2014); Ofício de transparências (2015); Corpo contínuo (2016); Longas são as noites (2018); Legendas para um corpo (2019 - Menção Honrosa, no Prémio de Poesia Glória de Sant’Anna 2020).
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    1 min
  • O Sorriso - Eugénio de Andrade
    Creio que foi o sorriso, o sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
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    2 min
  • Maresia - Ana Maria Machado
    Brisa na restinga
traz maresia
a onda respinga
a gota suspira
o ar se inspira.
    Nariz abre a asa
narina é casa
de aroma morar.
    É o lar que inspira
é o mar que respira.
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    1 min
  • Caso do Vestido - Carlos Drummond de Andrade
    Nossa mãe, o que é aquele
    vestido, naquele prego?
    Minhas filhas, é o vestido
    de uma dona que passou.
    Passou quando, nossa mãe?
    Era nossa conhecida?
    Minhas filhas, boca presa.
    Vosso pai evém chegando.
    Nossa mãe, dizei depressa
    que vestido é esse vestido.
    Minhas filhas, mas o corpo
    ficou frio e não o veste.
    O vestido, nesse prego,
    está morto, sossegado.
    Nossa mãe, esse vestido
    tanta renda, esse segredo!
    Minhas filhas, escutai
    palavras de minha boca.
    Era uma dona de longe,
    vosso pai enamorou-se.
    E ficou tão transtornado,
    se perdeu tanto de nós,
    se afastou de toda vida,
    se fechou, se devorou,
    chorou no prato de carne,
    bebeu, gritou, me bateu,
    me deixou com vosso berço,
    foi para a dona de longe,
    mas a dona não ligou.
    Em vão o pai implorou.
    Dava apólice, fazenda,
    dava carro, dava ouro,
    beberia seu sobejo,
    lamberia seu sapato.
    Mas a dona nem ligou.
    Então vosso pai, irado,
    me pediu que lhe pedisse,
    a essa dona tão perversa,
    que tivesse paciência
    e fosse dormir com ele...
    Nossa mãe, por que chorais?
    Nosso lenço vos cedemos.
    Minhas filhas, vosso pai
    chega ao pátio. Disfarcemos.
    Nossa mãe, não escutamos
    pisar de pé no degrau.
    Minhas filhas, procurei
    aquela mulher do demo.
    E lhe roguei que aplacasse
    de meu marido a vontade.
    Eu não amo teu marido,
    me falou ela se rindo.
    Mas posso ficar com ele
    se a senhora fizer gosto,
    só pra lhe satisfazer,
    não por mim, não quero homem.
    Olhei para vosso pai,
    os olhos dele pediam.
    Olhei para a dona ruim,
    os olhos dela gozavam.
    O seu vestido de renda,
    de colo mui devassado,
    mais mostrava que escondia
    as partes da pecadora.
    Eu fiz meu pelo-sinal,
    me curvei... disse que sim.
    Sai pensando na morte,
    mas a morte não chegava.
    Andei pelas cinco ruas,
    passei ponte, passei rio,
    visitei vossos parentes,
    não comia, não falava,
    tive uma febre terçã,
    mas a morte não chegava.
    Fiquei para fora de perigo,
    fiquei de cabeça branca,
    perdi meus dentes, meus olhos,
    costurei, lavei, fiz doce,
    minhas mãos se escalavraram,
    meus anéis se dispersaram,
    minha corrente de ouro
    pagou conta de farmácia.
    Vosso pais sumiu no mundo.
    O mundo é grande e pequeno.
    Um dia a dona soberba
    me aparece já sem nada,
    pobre, desfeita, mofina,
    com a sua trouxa na mão.
    Dona, me disse baixinho,
    não te dou vosso marido,
    que não sei onde ele anda.
    Mas te dou este vestido,
    última peça de luxo
    que guardei como lembrança
    daquele dia de cobra,
    da maior humilhação.
    Eu não tinha amor por ele,
    ao depois amor pegou.
    Mas então ele enjoado
    confessou que só gostava
    de mim como eu era dantes.
    Me joguei a suas plantas,
    fiz toda sorte de dengo,
    no chão rocei minha cara,
    me puxei pelos cabelos,
    me lancei na correnteza,
    me cortei de canivete,
    me atirei no sumidouro,
    bebi fel e gasolina,
    rezei duzentas novenas,
    dona, de nada valeu:
    vosso marido sumiu.
    Aqui trago minha roupa
    que recorda meu malfeito
    de ofender dona casada
    pisando no seu orgulho.
    Recebei esse vestido
    e me dai vosso perdão.
    Olhei para a cara dela,
    quede os olhos cintilantes?
    quede graça de sorriso,
    quede colo de camélia?
    quede aquela cinturinha
    delgada como jeitosa?
    quede pezinhos calçados
    com sandálias de cetim?
    Olhei muito para ela,
    boca não disse palavra.
    Peguei o vestido, pus
    nesse prego da parede.
    Ela se foi de mansinho
    e já na ponta da estrada
    vosso pai aparecia.
    Olhou pra mim em silêncio,
    mal reparou no vestido
    e disse apenas: — Mulher,
    põe mais um prato na mesa.
    Eu fiz, ele se assentou,
    comeu, limpou o suor,
    era sempre o mesmo homem,
    comia meio de lado
    e nem estava mais velho.
    O barulho da comida
    na boca, me acalentava,
    me dava uma grande paz,
    um sentimento esquisito
    de que tudo foi um sonho,
    vestido não há... nem nada.
    Minhas filhas, eis que ouço
    vosso pai subindo a escada.
    Carlos Drummond de Andrade
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    8 min
  • O “Adeus” de Teresa - Castro Alves
    A vez primeira que eu fitei Teresa,
    Como as plantas que arrasta a correnteza,
    A valsa nos levou nos giros seus...
    E amamos juntos... E depois na sala
    “Adeus ei disse-lhe a tremer co’a fala...
    E ela, corando, murmurou-me: “adeus!”
    Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
    E da alcova saía um cavalheiro
    Inda beijando uma mulher sem véus...
    Era a pálida Teresa!
    “Adeus” lhe disse conservando-a presa...
    E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
    Passaram tempos... sec’los de delírio
    Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
    ... Mas um dia volvi aos lares meus
    Partindo eu disse – “Voltarei! ... descansa! ...”
    Ela, chorando mais que uma criança,
    Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
    Quando voltei... era o palácio em festa! ...
    E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
    Preenchiam de amor o azul dos céus.
    Entrei! ... Ela me olhou branca... surpresa!
    Foi a última vez que eu vi Teresa! ...
    E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”
                     Castro Alves. In: Lajolo, M. e Campedelli, S. Y. Op. cit.
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    3 min

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