Jazz Poética

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By Jazi RodriguesArtsBooks
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Jazz Poética episodes

  • Com licença poética Quando nasci um... - Adélia Prado
    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não sou tão feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
    Inauguro linhagens, fundo reinos
    -- dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.
    ---
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    2 min
  • Meu Destino - Cora Coralina
    Nas palmas de tuas mãos
    leio as linhas da minha vida.
    Linhas cruzadas, sinuosas,
    interferindo no teu destino.
    Não te procurei, não me procuraste –
    íamos sozinhos por estradas diferentes.
    Indiferentes, cruzamos.
    Passavas com o fardo da vida...
    Corri ao teu encontro.
    Sorri. Falamos.
    Esse dia foi marcado
    com a pedra branca
    da cabeça de um peixe.
    E, desde então, caminhamos
    juntos pela vida...
    ---
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    2 min
  • Vozes-mulheres - Conceição Evaristo
    A voz de minha avó
    ecoou criança
    nos porões do navio.
    ecoou lamentos
    de uma infância perdida.
    A voz de minha avó
    ecoou obediência
    aos brancos-donos de tudo.
    A voz de minha mãe
    ecoou baixinho revolta
    no fundo das cozinhas alheias
    debaixo das trouxas
    roupagens sujas dos brancos
    pelo caminho empoeirado
    rumo à favela.
    A minha voz ainda
    ecoa versos perplexos
    com rimas de sangue
    e
    fome.
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    2 min
  • O Suicida – Jorge Luis Borges
    Não restará na noite uma só estrela.
    Não restará a noite.
    Morrerei e comigo irá a soma
    Do intolerável universo.
    Apagarei medalhas e pirâmides,
    Os continentes e os rostos.
    Apagarei a acumulação do passado.
    Farei da história pó, do pó o pó.
    Estou a olhar o último poente.
    Ouço o último pássaro.
    Lego o nada a ninguém.
    Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”
    ---
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    2 min
  • Traduzir-se - Ferreira Gullar
    Uma parte de mim
    é todo mundo;
    outra parte é ninguém:
    fundo sem fundo.
    Uma parte de mim
    é multidão:
    outra parte estranheza
    e solidão.
    Uma parte de mim
    pesa, pondera;
    outra parte
    delira.
    Uma parte de mim
    almoça e janta;
    outra parte
    se espanta.
    Uma parte de mim
    é permanente;
    outra parte
    se sabe de repente.
    Uma parte de mim
    é só vertigem;
    outra parte,
    linguagem.
    Traduzir-se uma parte
    na outra parte
    — que é uma questão
    de vida ou morte —
    será arte?
    ---
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    2 min
  • Os Amantes – Julio Cortázar
    Quem os vê andar pela cidade 
 se todos estão cegos? 
 Eles se tomam as mãos: algo fala 
 entre seus dedos, línguas doces 
 lambem a úmida palma, correm pelas falanges, 
 e acima a noite está cheia de olhos. 
 
 São os amantes, sua ilha flutua à deriva 
 rumo a mortes na relva, rumo a portos 
 que se abrem nos lençóis. 
 Tudo se desordena por entre eles, 
 tudo encontra seu signo escamoteado; 
 porém eles nem mesmo sabem 
 que enquanto rodam em sua amarga arena 
 há uma pausa na criação do nada 
 o tigre é um jardim que brinca. 
 
 Amanhece nos caminhões de lixo, 
 começam a sair os cegos, 
 o ministério abre suas portas. 
 Os amantes cansados se fitam e se tocam 
 uma vez mais antes de haurir o dia. 
 
 Já estão vestidos, já se vão pela rua. 
 E só então, 
 quando estão mortos, quando estão vestidos, 
 é que a cidade os recupera hipócrita 
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos.
    ---
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    2 min
  • Café Notre Dame - Lawrence Ferlinghetti
    Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metrô
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris 
da sua paixão.
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    2 min
  • Trecho do Livro Primo Basílio - Eça de Queirós
    „“(…) tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, E parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!“
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    2 min

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