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Michael Kohlhaas é uma história escrita no século XIX, mas ambientada no século XVI. É a história de um criador de cavalos que sofre uma injustiça, busca reparação no sistema judiciário e, não conseguindo, decide fazer justiça por conta própria, iniciando uma guerra que põe em choque as velhas práticas de justiça medieval e o direito moderno ao livre comércio. Então é uma história que contrapõe justiça medieval e direito moderno; feudalismo e formação de Estados Nacionais.
Uma das ponderações a que esse romance nos convida e que eu quero chamar atenção de vocês, é sobre até que ponto vale a pena buscar justiça, buscar reparação na justiça. E se, em alguns casos, alguns danos simplesmente não podem ser reparados e buscar justiça só aumenta a bola de neve de injustiças e de sofrimento. Neste romance, Michael sofre uma injustiça e se volta contra o sistema, se torna um fora da lei em busca de reparação pessoal, só que com isso ele gera uma série de injustiças para outras pessoas, que não tinham nada a ver com o caso dele, e acaba por perder tudo. Então, nessa história, a busca por reparação não compensou.
O autor Kleist foi uma grande influência para Franz Kafka, escritor tcheco do clássico A metamorfose, entre outros títulos. Esses dois escritores têm um estilo de escrita que lembra o estilo burocrático, a forma como documentos do campo jurídico são escritos. E a história de Michael Kohlhaas, que é o título e também o nome do protagonista, apesar de ser um livro escrito há 200 anos e da narrativa se desenrolar no século XVI, é super atual. Em essência, a condição humana e sua busca por justiça ou por reparação continua a mesma.
E é essa atmosfera do gótico e do fantástico sombrio que Andrio Santos traz no seu primeiro livro, O réquiem do pássaro da morte. Pra gente começar a falar do romance, tu sabe o que é “réquiem”, essa palavra que aparece no título? Réquiem é uma palavra com origem religiosa, na igreja católica é uma missa oferecida pelo descanso de uma alma, mas também pode ser uma composição, uma música relacionada a um texto litúrgico da missa dos mortos, que sempre inicia com as palavras latinas para “repouso eterno”.
Só por essa palavra do título, e por ser o réquiem que é do pássaro da morte, só pelo título, a gente pode presumir qual é a atmosfera dessa narrativa, porque tanto réquiem quanto a presença de “pássaro da morte” remete à passagem, a transitoriedade da vida pra morte.
Hoje vou ler um ensaio meu, publicado em fevereiro, no site Paralelo29, sobre os 100 anos da publicação de Ulisses, de James Joyce.
Este ano é o centenário também do Estado Livre Irlandês, um processo que começa em 1919 e é legitimado em 1922, em que a Inglaterra reconhece a independência do Estado Livre Irlandês ou Estado Moderno Irlandês. Nesse ano, 1922, também ocorre a divisão política da Irlanda, entre sul e norte, com o norte vinculado à Grã-Bretanha, como é até hoje. Até então era um domínio dentro do Império Britânico. Mas é somente a partir de 1949 que a Irlanda é reconhecida como República, pelo Ato da República da Irlanda.
“Seminário dos ratos” é o décimo terceiro conto do livro homônimo de Lygia Fagundes Telles, publicado em 1977, durante a ditadura civil/militar brasileira, portanto. A gente já viu que a escritora foi engajada e participou de um ato contra a censura um ano antes dessa publicação. O conto é em terceira pessoa, tem um narrador nos contando tudo, mas tem bastante diálogo também.
A narrativa se desenrola em um sítio, onde vai acontecer o VII seminário dos ratos. Estão ali as autoridades convidadas a participar do seminário e as personagens principais, o RP, relações públicas, e o secretário. Além dos funcionários, cozinheiros.
As personagens principais não têm nomes, são referidos pelos seus cargos. São o chefe das relações públicas e o secretário do bem-estar público e privado. Com isso, há uma despersonalização dessas personagens, que ficam representadas pelas suas funções, e não pela sua humanidade.
Por aqui, estamos no final da leitura comentada de O crime do padre Amaro, de Eça de Queiroz, obra lançada em 1875, em Portugal.
No último episódio, vimos que Amélia está confinada no sítio, com a madrinha Josefa, escondida da mãe e da sociedade de Leiria. Ela está sendo orientada pelo abade Ferrão a esquecer Amaro e casar com João Eduardo. Essa leitura mostrou um aspecto bem naturalista do romance de Queiroz. O narrador fala que Amélia está mudando em relação a Amaro porque se afastou do ambiente onde a paixão pelo padre foi estimulada, numa referência ao meio que contamina e influencia a conduta das personagens, tal como o Naturalismo preconizava.
João Eduardo tá morando ali perto, como preceptor dos filhos do morgado, ou seja, professor particular do proprietário da fazendo ali ao lado. Josefa detesta Amélia por ela ter engravidado e Amaro torce pra que a criança nasça morta.
O crime do padre Amaro é uma crítica aos setores conservadores da sociedade portuguesa, descreve os efeitos destrutivos do celibato em um padre de caráter fraco, e mostra os perigos do fanatismo em uma sociedade provinciana portuguesa. Esse livro abre o período realista em Portugal e faz uma sátira sobre o ideal romântico da paixão, dos enlaces idealizados. Queiroz volta a fazer sátira sobre os romances românticos em dois outros grandes títulos seus: O primo Basílio (1878) e Os maias (1888). Em todos eles, o autor está interessado em descrever grupos da classe média alta portuguesa, clerical ou aristocrática, e sua degeneração, corrupção e decadência. Ao ficcionalizar a realidade de seu tempo, Queiroz critica um idealismo romântico em que o desejo alienado impede a percepção de sinais denunciadores do que está inadequado.
Já nos últimos romances que escreveu, Queiroz optou por mais sentimentalismo, como é o caso do A cidade e as serras (1901). Geramente é ao contrário, né? A pessoa mais jovem escreve mais sentimentalmente, e conforme amadurece escreve de forma mais realista. Mas Eça de Queiroz foi fora da curva.
Na leitura de hoje, vimos que Totó não anda, mas enxerga, escuta e fala muito bem. Só que Amaro e Amélia, usando o quarto do pai dela pra se encontrar, não pensaram que a doente fosse contar para alguém dos encontros secretos.
Amélia está totalmente sob o domínio de Amaro. Ele não deixa que ela leia romances e poesias. Havia, na época em que O crime do padre Amaro foi escrito, que é final do Romantismo e início do Realismo, a crença por parte de algumas pessoas que ler literatura deixava as mulheres enlouquecidas, estimulava ideias inadequadas nas mulheres. O que a gente sabe que... é a mais pura verdade, né? Não só nas mulheres, todos que leem passam a interpretar e ler o mundo melhor. E aí são tidos como subversivos, porque passam a questionar, a conseguir argumentar melhor, a organizar os pensamentos de forma a se expressar mais claramente. Tudo isso é efeito da leitura e é muito bom. Mas não é visto com bons olhos por quem quer subjugar outras pessoas. É por esse motivo que governos autoritários querem mudar a grade curricular de forma a diminuir a carga horária de disciplinas que estimulam a criticidade, por intermédio da leitura. Então querem mais ensino profissionalizante, com disciplinas técnicas, e menos horários de literatura, língua portuguesa, filosofia, sociologia, artes. É importante que a sociedade se posicione contra esse tipo de mudança, porque quem não desenvolve criticidade por meio dessas disciplinas, fica mais vulnerável a ser explorado por empresários e por governos. E no século XIX alguns homens tinham esse receio de que mulheres leitoras pudessem se revoltar contra sua condição de servidoras dos homens.
Ainda no capítulo 14, numa parte que eu não li, o padre Natário encontra um livro de João Eduardo na casa de Joaneira, e avisa as beatas que por ter batido num padre, João está excomungado. E assim todos os objetos dele estão excomungados. Aí as velhas perguntam a Amélia por todos os objetos que o rapaz tivesse esquecido na casa, para queimar, num fanatismo beato. Reviram as gavetas de Amélia em busca de alguma outra coisa dele. Pegam os objetos com as pontas do xale pra não encostar e se contaminar. E todo esse fanatismo estimulado e assistido pelos padres, Dias, Natário e Amaro, que riam enquanto as mulheres atiravam os objetos ao fogo.
A empregada de Amaro adoece e quem assume é a irmã dela, Dionísia, uma personagem que tinha sido citada como a devassa de Leiria, que no passado teve amantes e que agora é considerada pelas beatas como uma perdida, porque não frequenta igreja. O nome das personagens não é por acaso. Dionísia lembra Dioniso, deus grego do vinho, das festas, do teatro, protetor dos que não pertencem à sociedade convencional, exatamente como é essa personagem, que não segue os costumes das outras de frequentar igreja. Dionísia é livre em relação ao seu corpo e seus desejos, não se submete ao discurso da igreja e consequentemente é menosprezada na cidade. Ela é considerada um antro de pecados pelas beatas, mas quem de fato é Dionísia? Uma mulher bem mais livre que as outras. Diante do fato de estar com ela como criada, surge a ideia de Amaro voltar a morar na casa de Joaneira.
João Eduardo recebe a carta de Amélia, desfazendo o noivado. Ele vai pedir ajudar para aqueles que ele chama de doutores, que são o advogado e o médico da cidade. O advogado é o dono do jornal, Godinho, que escorraça e proíbe que ele escreva outros artigos. Quando precisou do escrevente para publicar algo que alfinetasse o clero, achou bom, mas agora não quer se indispor com os padres. Agora que João pede para escrever novamente, Godinho diz que o jornal é de ideias, não pode ser transformado em jornal de difamações. Quando era do interesse dele difamar os padres, o escrevente veio a calhar. O advogado diz que o sacerdócio é indispensável numa sociedade bem constituída, mesmo ele não gostando da religião, como declarou num capítulo anterior, quando disse que era conveniente ter a igreja para ocupar as mulheres. A força da igreja vinha em parte desse comodismo das pessoas em achar que as coisas eram como eram e de temer mudanças, de temer pensar criticamente o papel do catolicismo naquela sociedade. João Eduardo se sente usado, faz uma leitura correta de que está nessa situação porque é pobre, mas ainda não enxerga que Amélia também quer o padre, e acha que precisaram convencer ela de desistir do casamento.
O médico, Gouveia, é um representante da ciência, do racionalismo. Ele tem na sala um retrato da coroação da Rainha Vitória, da Inglaterra, representante do anglicanismo. Cita a lei do mais forte para resumir a contenda entre João e o padre pela atenção da moça. Vê tudo em termos racionais e científicos, não se surpreende nem se assombra pelo fato de um padre roubar a noiva do outro.
Por aqui no LO, estou lendo o romance que iniciou o período do Realismo em Portugal. É O crime do padre Amaro, de 1875, do escritor Eça de Queiroz. Queiroz foi escritor de dezenas de romances, mas poucos ele viu serem publicados em vida. O crime do padre Amaro ele publicou, mas a maioria de sua obra foi publicação póstuma.
No último episódio, João Eduardo, noivo de Amélia, escreve um comunicado anônimo pro jornal de Leiria, falando os podres dos padres que frequentam a casa da Joaneira. Amaro fica todo errado de ver o namorico dele exposto no jornal. O padre Natário tenta fechar o jornal com ajuda da autoridade local, mas o homem no cargo representa o ideal do Iluminismo, da razão sobre a religião. Nenhum deles percebe que o comunicado só podia ter sido escrito por alguém que também frequenta a casa. O João Eduardo é quem se deu bem no capítulo 10, fica orgulhoso da sua publicação, afasta Amaro da casa da Joaneira, recebe a promessa da promoção no emprego e, com isso, pode pedir a mão de Amélia.
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