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Criado em 2021 para colmatar uma “lacuna evidente” na formação cívica dos jovens, o projecto Votar Claro transformou a Escola Secundária de Rio Tinto num verdadeiro laboratório da democracia. A estudante e presidente do projecto, Sofia Ribeiro, destaca que a simulação eleitoral permite chegar às urnas “de forma mais consciente, exigente e responsável”, combatendo a abstenção juvenil.
O projecto Votar Claro nasceu em 2021, numa altura em que o país voltava a entrar em campanha e as eleições legislativas antecipadas colocavam novamente a política no centro do debate. Na Escola Secundária de Rio Tinto, em Gondomar, a iniciativa partiu de uma ideia simples: a escola não pode limitar-se a ensinar conteúdos, tem também de preparar cidadãos.
“Foi precisamente por sentirmos que havia uma lacuna a esse nível que avançámos com o projecto”, explica Paulo Lima, professor e coordenador do Votar Claro. O docente recorda que os alunos confirmavam essa falta e que a realidade não era exclusiva de uma escola: “Havia realmente uma lacuna na formação cívica dos alunos e penso que a maior parte das escolas portuguesas estaria a passar pelo mesmo.”
O diagnóstico repetia-se nas conversas de corredor e nas salas de aula. “Os alunos verbalizavam muitas vezes dizendo simplesmente que não se interessavam por política porque não estavam suficientemente informados ou porque não conheciam”, afirma. Para Paulo Lima, o problema não era rejeição, mas ausência de ferramentas: “Ao mesmo tempo sentiam a falta de uma formação específica que os preparasse para assumir responsabilidades cívicas, onde se incluía o direito de voto.”
O projecto foi desenhado a pensar nos alunos prestes a atingir a maioridade. “Muitos deles iriam fazer 18 anos dentro de pouco tempo e já estariam quase de malas aviadas da escolaridade obrigatória para outros desafios da vida”, sublinha o coordenador. Daí a decisão de “inventar este projecto para tentar fomentar um pouco mais a cidadania política”, uma área que, lamenta, “continua a ser pouco explorada mesmo nas escolas que têm grande investimento pelas questões da cidadania”.
Cinco anos depois, Paulo Lima diz que o cenário mudou. “No microcosmos que é aqui a nossa escola, mudou completamente”, garante. Segundo o docente, “passou a haver mais formação e mais informação”, o que levou os alunos a perceberem que a política “merece ser conhecida e sobre a qual os alunos devem reflectir”. E hoje, assegura, “aqui na escola passou a ser um tema de conversa”.
Uma das marcas do projecto é a forma como envolve a comunidade educativa. Paulo Lima destaca a adesão “dos professores, da associação de pais e dos órgãos de gestão”, num “envolvimento muito profundo” que fez com que o Votar Claro passasse a fazer “parte do nosso código genético”. A partir daí, tornou-se natural que os alunos discutissem política e que a escola promovesse debates com “actores reais, com candidatos e representantes de partidos”.
No centro do projecto estão as simulações eleitorais, organizadas sempre que o país vai a votos. “Sentimos isso por dois motivos”, explica o coordenador: “Quanto mais próximo da realidade, mais práticas e úteis podem ser as lições que se retiram da experiência de cada aluno.” E há ainda uma razão estratégica: “Os alunos sentem-se mais interessados e mais atraídos por projectos que os abrem à experiência real da vida.”
Daí a insistência em replicar o processo: boletins iguais aos oficiais, urnas e apuramento. “Não é um projecto faz de conta”, afirma Paulo Lima. Apesar de serem simulações, “eles reconhecem que são úteis” e percebem que estão a treinar para um acto que “vai acontecer mais a sério nas vidas deles em pouco tempo”. E, acrescenta, o voto é tratado como na realidade: “Aqui o voto é livre. Os alunos votam ou não votam conforme a sua decisão.”
A abertura da escola aos partidos foi outro dos pontos que mais surpreendeu o coordenador. “Surpreendeu-me a rápida e positiva resposta da parte dos partidos”, diz, admitindo que havia receios de “invadirem o terreno da escola”. No entanto, garante que “têm tido um comportamento exemplar” e “percebem quais são os limites”, adaptando o discurso ao contexto escolar. Do lado dos alunos, a surpresa veio na postura: “Souberam colocar questões sensíveis, confrontar contradições e criticar aquilo que sentem que não está bem.”
A mensagem final mantém-se constante: votar é uma afirmação de cidadania. Paulo Lima diz que tentam passar a ideia de que “todos os votos contam” e que “o voto de cada um é um pilar da democracia”, defendendo uma participação “consciente e responsável” mesmo quando há cansaço eleitoral. Sofia Ribeiro, presidente da Comissão Eleitoral do projecto, reforça essa urgência ao admitir que os jovens estão “saturados das eleições”, mas alerta que esse sentimento deve ser combatido: “Passa por uma banalização daquilo que é votar, daquilo que é a democracia”, insistindo que a democracia só se mantém “através do direito do voto, essencialmente”.
By RFI PortuguêsCriado em 2021 para colmatar uma “lacuna evidente” na formação cívica dos jovens, o projecto Votar Claro transformou a Escola Secundária de Rio Tinto num verdadeiro laboratório da democracia. A estudante e presidente do projecto, Sofia Ribeiro, destaca que a simulação eleitoral permite chegar às urnas “de forma mais consciente, exigente e responsável”, combatendo a abstenção juvenil.
O projecto Votar Claro nasceu em 2021, numa altura em que o país voltava a entrar em campanha e as eleições legislativas antecipadas colocavam novamente a política no centro do debate. Na Escola Secundária de Rio Tinto, em Gondomar, a iniciativa partiu de uma ideia simples: a escola não pode limitar-se a ensinar conteúdos, tem também de preparar cidadãos.
“Foi precisamente por sentirmos que havia uma lacuna a esse nível que avançámos com o projecto”, explica Paulo Lima, professor e coordenador do Votar Claro. O docente recorda que os alunos confirmavam essa falta e que a realidade não era exclusiva de uma escola: “Havia realmente uma lacuna na formação cívica dos alunos e penso que a maior parte das escolas portuguesas estaria a passar pelo mesmo.”
O diagnóstico repetia-se nas conversas de corredor e nas salas de aula. “Os alunos verbalizavam muitas vezes dizendo simplesmente que não se interessavam por política porque não estavam suficientemente informados ou porque não conheciam”, afirma. Para Paulo Lima, o problema não era rejeição, mas ausência de ferramentas: “Ao mesmo tempo sentiam a falta de uma formação específica que os preparasse para assumir responsabilidades cívicas, onde se incluía o direito de voto.”
O projecto foi desenhado a pensar nos alunos prestes a atingir a maioridade. “Muitos deles iriam fazer 18 anos dentro de pouco tempo e já estariam quase de malas aviadas da escolaridade obrigatória para outros desafios da vida”, sublinha o coordenador. Daí a decisão de “inventar este projecto para tentar fomentar um pouco mais a cidadania política”, uma área que, lamenta, “continua a ser pouco explorada mesmo nas escolas que têm grande investimento pelas questões da cidadania”.
Cinco anos depois, Paulo Lima diz que o cenário mudou. “No microcosmos que é aqui a nossa escola, mudou completamente”, garante. Segundo o docente, “passou a haver mais formação e mais informação”, o que levou os alunos a perceberem que a política “merece ser conhecida e sobre a qual os alunos devem reflectir”. E hoje, assegura, “aqui na escola passou a ser um tema de conversa”.
Uma das marcas do projecto é a forma como envolve a comunidade educativa. Paulo Lima destaca a adesão “dos professores, da associação de pais e dos órgãos de gestão”, num “envolvimento muito profundo” que fez com que o Votar Claro passasse a fazer “parte do nosso código genético”. A partir daí, tornou-se natural que os alunos discutissem política e que a escola promovesse debates com “actores reais, com candidatos e representantes de partidos”.
No centro do projecto estão as simulações eleitorais, organizadas sempre que o país vai a votos. “Sentimos isso por dois motivos”, explica o coordenador: “Quanto mais próximo da realidade, mais práticas e úteis podem ser as lições que se retiram da experiência de cada aluno.” E há ainda uma razão estratégica: “Os alunos sentem-se mais interessados e mais atraídos por projectos que os abrem à experiência real da vida.”
Daí a insistência em replicar o processo: boletins iguais aos oficiais, urnas e apuramento. “Não é um projecto faz de conta”, afirma Paulo Lima. Apesar de serem simulações, “eles reconhecem que são úteis” e percebem que estão a treinar para um acto que “vai acontecer mais a sério nas vidas deles em pouco tempo”. E, acrescenta, o voto é tratado como na realidade: “Aqui o voto é livre. Os alunos votam ou não votam conforme a sua decisão.”
A abertura da escola aos partidos foi outro dos pontos que mais surpreendeu o coordenador. “Surpreendeu-me a rápida e positiva resposta da parte dos partidos”, diz, admitindo que havia receios de “invadirem o terreno da escola”. No entanto, garante que “têm tido um comportamento exemplar” e “percebem quais são os limites”, adaptando o discurso ao contexto escolar. Do lado dos alunos, a surpresa veio na postura: “Souberam colocar questões sensíveis, confrontar contradições e criticar aquilo que sentem que não está bem.”
A mensagem final mantém-se constante: votar é uma afirmação de cidadania. Paulo Lima diz que tentam passar a ideia de que “todos os votos contam” e que “o voto de cada um é um pilar da democracia”, defendendo uma participação “consciente e responsável” mesmo quando há cansaço eleitoral. Sofia Ribeiro, presidente da Comissão Eleitoral do projecto, reforça essa urgência ao admitir que os jovens estão “saturados das eleições”, mas alerta que esse sentimento deve ser combatido: “Passa por uma banalização daquilo que é votar, daquilo que é a democracia”, insistindo que a democracia só se mantém “através do direito do voto, essencialmente”.

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