A música de Chico Buarque traz inequívoca intersecção de gênero e raça, mostrando que a pobreza tem cor. Sua arte revela uma construção criativa original, sugerindo seu compromisso com afrodescendência empobrecida. Percebe-se nele uma influência marxista, caracterizada do neorrealismo que foi presente na sintaxe do cinema novo glauberiano, em que o negro foi eleito referencial estético, representando proletariado e o desdobramento de pobreza. Razão pela qual a crítica reflexiva do samba no Chico é uma concorrência para reconstituição da ambiência lúmpen proletário, vista nas ruas, nos becos, nos botequins e nas gafieiras cariocas.
A Maria Bethânia tem uma interpretação, calçada na teluricidade crítica e reflexiva, cuja subjacência é os violões de rua do Centro Popular de Cultura, o histórico CPC da UNE. É, neste contexto, que o samba, o bolero e o baião estão presentes no seu repertório, tem o propósito de construir a beleza existencial do empobrecido miscigênico. Fazendo com isso uma afirmação positiva das axiologias multiculturais, configurada na amalgama ibero-ásio-afro-ameríndio. Como forma de luta contra a imposição autoritária da euroheteronormatividade, que determina o euro-hetero-macho-autoritário.