A Clementina de Jesus tem uma dimensão musical, que expressa, de forma inequívoca, a corporalidade negra. Sua música é significação da tamboralidade africana, dos povos de cultura bantu. Uma ambiência onde música e dança se confundem e são indissociáveis. A interpretação do samba de Clementina de Jesus testemunha, inegavelmente, a herança lúdica gregária africana, impregnada nos lugares das legitimas rodas de samba, carioca dos empobrecidos, lugar que se inscreve a territorialidade do samba.
A musicalidade de Mart’nália é um genuíno dimensionamento clânico de Martinho da Vila, que é por sua vez herdeiro de Noel Rosa. Isso significa que o canto de Mart’nália tem uma dimensão telúrica, colando-a com a mais legítima herdeira da liderança do Martinho, na boêmia de Vila Isabel. Um bairro carioca, onde a simplicidade do empobrecimento não furta o comportamento de intelectualidade, que empresta ao samba o sentido epistêmico, atribuindo-o o título moral de academia do samba. Lugar onde a princesa da Vila Isabel, a Mart’nália tem sido uma legítima cultivadora do samba, como um espeço crítico e reflexivo, do povo carioca. Mart’nália tenta construir uma aliança com a herança da negritude, do Teatro Experimental do Negro – TEN, com acuidade na observação do repertorio de Vinicius de Morais, que foi notável militante do TEN.
Com uma interpretação original irretocável, em que a axiologia musical do tropicalismo rompe com o cânone musical eurocaucasiano. Seu canto, contudo, traz uma emergência miscigênica, com uma expressão de nuance performática de afirmação positiva da diversidade. Comportamento que indica para uma estética tropicalista estrutural á amalgama do ibero-ásio-afro-ameríndio, com a perceptível mediação com a força do samba negro da baianidade, bossa novista do bruxo João Gilberto.