África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle

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África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle episodes

  • Inhambane: Candidatos à presidência intensificam caça ao voto
    A duas semanas das eleições, candidatos à presidência moçambicana divulgam manifestos eleitorais em Inhambane. A FRELIMO promete mais inclusão, a RENAMO, melhores profissionais de saúde e o MDM quer justiça para todos.Como tem acontecido em todas as províncias moçambicanas, multiplicam-se as promessas eleitorais. O candidato da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), Filipe Nyusi, que concorre à reeleição, esteve nos últimos dias em campanha nos distritos de Vilankulos, Massinga, cidade de Inhambane, Maxixe e Zavala.
    Nos vários comícios realizados, Nyusi reforçou a ideia da inclusão de toda a sociedade nos benefícios provenientes da exploração dos recursos minerais e de outras oportunidades que o país possui. Mas acrescentou que para isso acontecer é preciso não haver discriminação.
    "Oferecer oportunidades e acesso a bens e serviços a todos sem discriminação, sem ver para a cor partidária, a religião, as condições físicas, se estudou ou não estudou, qual é a etnia a que pertence. Isto não faz parte da filosofia da FRELIMO", disse.
    Melhores condições de vida
    Ossufo Momade, que concorre pela primeira através do maior partido da oposição, a Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO), disse esta segunda-feira (23.09) que o seu manifesto eleitoral visa mais dar emprego aos jovens e criar melhores condições de atendimento, com profissionais da saúde qualificados a trabalhar nos hospitais públicos, de modo a não deixarem os doentes à sua sorte e que muitas vezes acabam perdendo a vida por falta de tratamento adequado.
    "A RENAMO vai criar boas condições de vida, vai mudar a vossa situação financeira. Prometemos aqui que vamos poder ter médicos e enfermeiros que possam assistir da melhor forma os nossos pacientes", sublinhou Momade.
    Daviz Simango, presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que foi impedido no sábado (21.09) de levar cabo a sua campanha em três distritos da província, apresentou em Maxixe o seu manifesto de caça ao voto. Promete acabar com a intolerância no sistema da justiça, porque muitos criminosos envolvidos na corrupção e roubos não são julgados pelos tribunais. "Queremos que a nossa justiça esteja livre dos partidos políticos", disse.
    Na província de Inhambane, concorrem à Assembleia da República 25 partidos, mas a maioria ainda não saiu às ruas em campanha devido a limitações financeiras.
    4 min
  • Eleições em Moçambique: Confrontos entre membros do MDM e da FRELIMO
    No sul de Moçambique, na cidade de Chokwé, província de Gaza, duas pessoas ficaram feridas na sequência de confrontos entre membros e simpatizantes do MDM e da FRELIMO.Os confrontos com recurso a pedras e paus ocorreram na manhã desta segunda-feira (30.09.) quando em plena campanha eleitoral, o candidato presidencial pelo Movimento Democrático de Moçambique (MDM) Daviz Simango em contato interpessoal no mercado ″Sentabaixo″ tentava convencer os eleitores para votarem nele e no seu partido. A polícia ao tentar dispersar os membros do MDM e da FRELIMO que entraram em confronto físico, disparou alguns tiros para o ar.
    Na altura, Daviz Simango disse que não há necessidade da polícia desperdiçar balas numa festa que se quer democrática, quando há em Moçambique crianças sem comida, carteiras e medicamentos.
    "Estas forças de defesa e segurança não precisavam de disparar... deviam era prevenir que isto acontecesse, mas felizmente todo o mudo está a aderir a nossa marcha, vamos continuar a trabalhar e a divulgar a nossa mensagem eleitoral. Não tememos as balas, aquilo que o MDM quer é no dia 15 de outubro ganhar este pais", destacou Simango.FRELIMO confirma envolvimento de seus membros
    O porta-voz da Frelimo em Chokwé, José Mondlane, confirmou à DW África que os indivíduos que estiveram envolvidos nas escaramuças são membros do seu partido, também em campanha no local, mas diz desconhecer as reais motivações do sucedido.
    ″Desde que começou a campanha estamos nos bairros e nos mercados a fazer a nossa campanha... naturalmente são camaradas que estavam no exercício porta a porta interpessoal. Estando os nossos membros a fazer campanha exaltando o nosso candidato e o partido eles também estavam a fazer a sua campanha. Mas não sei o que realmente aconteceu".
    Polícia esclarece
    Por seu turno, o Comandante Distrital da PRM (Polícia da República de Moçambique), Aníbal Jamal, explicou que a corporação tinha conhecimento da caça ao voto por parte dos dois partidos no local, mas em horas diferentes. E a coincidência não prevista precipitou a confusão numa altura que elementos da polícia estavam posicionados no exterior do mercado.″Quando nos apercebemos que estava a ocorrer alguma agressão física entre as partes a polícia tentou evitar o pior e registaram-se alguns disparos para amainar os ânimos e repor a ordem. Foi assim que conseguimos controlar a situação... temos conhecimento que duas pessoas (membro e simpatizante da FRELIMO), sofreram ferimentos, mas não foi uma situação gravosa
    Entretanto, a técnica em serviço no banco de socorro do Hospital Rural de Chokwé, Madalena Sevene, confiou à nossa reportagem que a unidade sanitária não recebeu nenhum ferido vítima dos confrontos ocorridos esta manhã no mercado.
    Vários casos de violência
    Recorde-se, que na semana passada a Comissão Nacional de Eleições de Moçambique (CNE) e várias organizações da sociedade civil manifestaram preocupação com os casos de violência e em alguns casos de perda de vidas humanas que têm marcado a campanha para as eleições gerais de 15 de outubro.
    Segundo dados divulgados também na semana passada pela plataforma de observação eleitoral Sala da Paz, durante os primeiros 26 dias da campanha, foram registados acidentes de viação que resultaram em pelo menos 32 mortos e 191 feridos, dois assassinatos, 15 casos de agressão física, 12 casas incendiadas, para além da danificação de viaturas.
    3 min
  • Moçambique: "Lideranças partidárias devem parar violência eleitoral", diz UE
    A chefe-adjunta da missão de observação eleitoral da União Europeia em Moçambique apelou para que os partidos façam esforços conjuntos para reduzir os incidentes violentos nas vésperas das eleições de 15 de outubro.A missão de observação eleitoral da União Europeia (UE) em Moçambique apelou às lideranças partidárias moçambicanas por "tolerância zero" contra a violência durante a campanha eleitoral. Em comunicado divulgado no fim de semana, a missão lamentou as recentes mortes relacionadas ao período pré-eleições.
    Na semana passada, pelo menos quatro pessoas morreram e 56 ficaram feridas num acidente envolvendo um camião que transportava simpatizantes da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) na vila do Songo, na província de Tete, centro de Moçambique. No dia 11 de setembro, dez pessoas morreram quando uma multidão saiu de forma desordenada de um estádio de futebol após um comício da FRELIMO, na província de Nampula.
    Em meio à onda de violência, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, apelou à serenidade na campanha em curso. "Queremos reiterar a nossa exortação ao povo moçambicano e a todos os intervenientes no processo eleitoral para que nesta fase de campanha serenemos os ânimos e cumpramos estritamente a lei e as regras estabelecidas", afirmou.
    Em entrevista à DW África, a chefe adjunta da missão da UE em Moçambique, Tânia Marques, afirmou que são necessários esforços conjuntos das lideranças partidárias para frear os episódios de violência até as eleições gerais de 15 de outubro. "Eu penso que a mensagem tem que vir clara de todos os líderes partidários", afirmou.A missão de observação eleitoral da UE será ainda reforçada com 76 observadores de curto prazo, que serão destacados para as províncias e distritos de todo o país até ao final do apuramento distrital. Uma delegação de membros do Parlamento Europeu e de membros das missões diplomáticas dos Estados-membros da UE acreditadas em Maputo também vão acompanhar o processo. Assim, a missão da UE vai contar com cerca de 150 observadores internacionais no dia das eleições.
    DW África: Como os observadores da UE avaliam os recentes episódios de violência ocorridos em Moçambique?
    Tânia Marques (TM): Nós temos acompanhado a campanha eleitoral desde o seu início e, como observadores no terreno, desde o dia 14 de setembro. Em geral, continuamos com a mensagem: É apelar para que essa violência seja travada pelas lideranças. Obviamente, que já houve, não foi só a missão eleitoral da União Europeia que o fez, houve também as organizações da sociedade civil, com os observadores domésticos. Houve também um apelo por parte da Comissão Nacional de Eleições (CNE) exatamente no mesmo sentido para que houvesse mais controlo numa campanha eleitoral mais calma e mais controlada em termos de ânimos. Ou seja, todos esses apelos já vieram desde a segunda semana, e o que continuamos a ver é, de facto, que atos de violência, nomeadamente como os que aconteceram este fim de semana, continuam a existir, sendo que nós temos duas semanas para o dia eleitoral e é uma pena que o ambiente continue a ser este. Há também sítios onde a campanha eleitoral tem sido calma, mas o que sobressai muito neste período é a quantidade de casos de violência contra pessoas que são vistas como apoiantes ou pertencentes a algum partido político.
    DW África: O Presidente Filipe Nyusi apelou à serenidade na campanha e criticou os incidentes e atos violentos no âmbito do processo. Acha que falta um reforço na segurança neste período eleitoral?
    TM: Eu penso que a mensagem tem que vir clara de todos os líderes partidários. Nós temos, de facto, observado que alguns líderes partidários, nomeadamente, no caso do Presidente Filipe Nyusi, como referiu, tem de facto emitido alguma opinião e algum apelo, mas obviamente não tem sido suficiente, porque acabam por ser mensagens que vêm no meio de um discurso da campanha eleitoral, mas não é uma mensagem diretamente a tentar resolver o problema. E não é só um líder partidário que tem que fazer. Tem que ser um esforço conjunto, porque isto tem acontecido nos comícios de quase todos os partidos políticos.
    DW África: Acha que os ataques no norte do país, por exemplo, podem prejudicar de alguma forma o processo eleitoral?
    TM: Eu penso que esta é uma preocupação de todos, nomeadamente, das instituições da administração eleitoral. Obviamente que devido à violência – e já são ataques armados contra a população que têm consequências no processo eleitoral – aí há a questão de como as instituições eleitorais, nomeadamente a CNE e a STAE [Secretariado Técnico da Administração Eleitoral], vão colocar as mesas nas assembleias de voto nestes locais e como as instituições de voto vão garantir a segurança dos eleitores que se encontram nestas áreas para que possam exercer o seu direito de voto. É uma questão que ainda estamos a discutir com a CNE e o STAE e esperemos que, de alguma forma, as autoridades nacionais consigam dar resposta a isso.
    DW África: Além dos apelos às lideranças partidárias, que recomendação a missão europeia já poderia deixar neste momento que antecede a votação?
    TM: A mensagem que a missão poderá deixar aos eleitores é que participem no processo e que exerçam o seu direito de voto e os seus direitos políticos. O nosso trabalho concentra-se mais em obrigações internacionais acordadas por Moçambique. Em termos de campanha eleitoral, a questão é a liberdade de circulação, a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e o respeito aos direitos políticos de cada apoiante e membro dos partidos políticos.
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  • Privatizações em Angola: Sindicatos temem mais desemprego
    Com a privatização de mais de 190 empresas em Angola já em curso, multiplicam-se apelos pela salvaguarda dos direitos dos trabalhadores. Muitos movimentos sindicais encaram o processo como aumento da taxa de desemprego.Até 2022, o Governo angolano pretende alienar 195 empresas detidas ou participadas pelo Estado. Cerca de 80 destas empresas serão privatizadas este ano. Em 2019, o Estado angolano já obteve um encaixe de 16 milhões de dólares com a privatização de cinco unidades industriais da Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo.
    Mas para muitos movimentos sindicais angolanos, o processo de privatizações é sinónimo de aumento do índice de desemprego, que já ronda os 28%, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).
    Os sindicatos desconfiam que os novos patrões possam trazer novas forças de trabalho para substituir a já existente. Foi esta preocupação que Bernardo Castro, da organização não-governamental Rede Terra, apresentou por escrito ao Presidente angolano, João Lourenço.
    O objetivo é "ser informado " sobre a possível privatização da Aldeia Nova, um projeto agropecuário que está a ser desenvolvido no Waco Cungo, na província angolana do Kwanza Sul. Bernardo Castro entende que a comunidade devia ser ouvida, uma vez que se trata de terras nacionalizadas pelo Estado e que não foram devolvidas às comunidades locais. Também lembra que o projeto alberga ex-militares.
    "A Rede Terra coloca-se no meio por duas razões: primeiro, porque a Aldeia Nova acolheu no âmbito da reconciliação e pacificação do país os ex-militares da FAPLA e FALA. É no interesse não económico, mas político, que ficaram dentro destes espaços. Agora que se vai privatizar a pergunta é: estes ex-militares estarão sobre orientação de um patrão? Estarão ali como trabalhadores?", questiona Bernardo Castro.
    "Justiça fundiária e económica"
    Enquanto espera pela resposta da carta endereçada ao Presidente João Lourenço, Bernardo Castro apela à justiça e quer que sejam respeitados os direitos dos trabalhadores na eventualidade da Aldeia Nova ser privatizada. "O que a Rede Terra pretende é que se faça justiça fundiária e económica lá no campo. Isso é que é mais importante", sublinha.
    Por um lado, explica o responsável da ONG, é preciso "preservar os interesses dos ex-militares que lá estão e muitos deles já insatisfeitos pela forma como a Aldeia Nova trabalha porque é uma espécie de escravatura". Por outro lado, acrescenta, há que "salvaguardar os direitos costumeiros das comunidades para não dar voz àquilo que administração colonial fez".
    A secretária de Estado das Finanças, Vera Daves, diz que os direitos dos trabalhadores estarão salvaguardados e que cada empresa terá um tratamento diferente. "Esse processo vai ser negociado caso a caso, empresa a empresa. Haverá empresas estratégicas relativamente às quais o Estado continuará a deter a maioria de capital", explica.
    "Há outros ativos que estão parados, de modo que não é expectável que haja processos de demissão, muito pelo contrário: tem que se contratar para pô-los a funcionar, mas sempre respeitando a legislação laboral angolana. Nenhum direito será violado", assegura a governante.
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  • "Entre eu e Deus": Documentário moçambicano chega à Alemanha
    Documentário que retrata a história de uma jovem moçambicana que optou por seguir o Islão discute o fundamentalismo religioso. No domingo (29.09), o filme foi exibido no Afrika Film Festival em Colónia, na Alemanha.O documentário "Entre eu e Deus", dirigido pela realizadora Yara Costa, mostra a trajetória de Karen, uma jovem moçambicana que se converteu ao islamismo fundamentalista na Ilha de Moçambique, um local onde essa vertente da religião era pouco comum, no norte do país. O filme fez parte da programação do Afrika Film Festival em Colónia, na Alemanha.
    "A Karen, a personagem do filme, eu já a conheço desde dos seus cinco anos de idade. E eu acompanhei um pouco o trajeto dela da infância e adolescência e vi essa mudança no que diz respeito à escolha de uma vida mais religiosa, a seguir alguns preceitos de uma versão da religião islâmica bastante conservadora e fundamentalista que não era comum naquela região", conta Yara Costa em entrevista à DW África.
    Contexto histórico
    O filme começa a explicar o contexto histórico: o Islão teria chegado a Moçambique por volta do século VIII. Lá, fundiu-se com a cultura macua, transformando-se "num islão com características africanas". Só agora, recentemente, o Islão fundamentalista passou a crescer e ganhar adeptos - principalmente jovens - no país.
    "A primeira chegada desse Islão já vem da época colonial, mas a proliferação de mesquitas que pregam este novo Islão, eu diria que, nos últimos, talvez seis anos. Por exemplo, as mulheres começaram a vestir-se com burcas e hijabs não há mais de dez anos. Isso é uma coisa absolutamente nova, não existia isso", avança a realizadora.
    Yara Costa diz que resolveu tornar público o testemunho de Karen, devido ao visível crescimento do fundamentalismo religioso nos últimos anos em Moçambique.
    "Nos últimos, talvez, cinco anos, observa-se uma tendência das pessoas religiosas, tanto islâmicas como cristãs, de um apego muito grande à religião e de a religião passar a ditar a forma de vida, como o que comer, como vestir, como andar, o que dizer. Essa escolha é visível e eu achei interessante discutir isso a partir de uma história pessoal e única que eu conhecia bem".
    Contradições, conflitos e discriminação
    A proposta do filme é mostrar a escolha de uma jovem, suas contradições internas e também seus conflitos numa sociedade que discrimina sua escolha religiosa.
    "Uma escolha religiosa é uma coisa absolutamente pessoal e não deveria ser, em princípio, julgada por ninguém. Mas o que que acontece quando essa escolha é percebida num contexto mais alargado, da associação à violência, atos terroristas? É um desafio ser muçulmano hoje em dia em Moçambique. [É difícil] exibir e afirmar essa escolha perante à sociedade em que vivemos, que é muito anti-islâmica também, apesar de ser um país historicamente com uma forte presença dessa religião", explica Yara.
    O filme "Entre eu e Deus" foi lançado em 2018 em Moçambique, mas só agora chega à Europa. "Pra mim, era importante por causa do que estava acontecer em Moçambique. Por causa da situação no norte [com os ataques armados], houve uma necessidade de discutir o filme naquele contexto. Quero que todos o vejam, pois trata de assuntos muito urgentes neste momento".
    Ataques armados
    A onda de ataques armados no norte de Moçambique serviu como pano de fundo para o filme. "Depois que as filmagens terminaram, uma semana talvez, tivemos notícias dos primeiros ataques no norte do país que foram vastamente divulgados pelos media como ataques associados ao radicalismo islâmico. Então, o filme acabou por ter esse pano de fundo social".
    Para Yara Costa, a solução para o problema é complexa, tendo em vista que não se sabe ao certo os motivos e quem realmente está por trás dos ataques, mas ela acredita que esse tipo de situação também acontece num terreno fértil, onde os jovens se tornam vulneráveis por falta de alternativas.
    "Qual é o futuro dos jovens hoje em Mocímboa da Praia ou em Palma? Talvez criando alternativas para coisas que os desviem do dinheiro mais fácil, imediato, que, se calhar, pode ser obtido através desse tipo de ações violentas. Essas pessoas não são militares ou gente altamente treinada, que vem de fora. São pessoas dali, que sempre viveram ali, e com carências, pelo menos materiais, muito grandes. E então, se alguma coisa é feita no sentido de suprir essas carências, e de dar uma chance a estes jovens, talvez o crime não seria uma aposta pra eles", afirma.
    3 min
  • Moçambique: Desafios persistem 10 anos depois da aprovação da lei contra a violência doméstica
    A lei contra a violência doméstica completou 10 anos no dia 29 de setembro e alguns especialistas reconhecem avanços sociais em Moçambique, mas denunciam a corrupção e morosidade nos processos e sugerem melhorias.A lei contra a violência doméstica em Moçambique completa 10 anos com muitas conquistas, mas os desafios persistem. Além de dar visibilidade a um problema antes escondido, a lei trouxe maior consciencialização para os direitos das mulheres e permitiu mudar a perspetiva dos papéis e responsabilidades definidos culturalmente para homens e mulheres no âmbito doméstico.
    Segundo a juíza Vitalina Papadakis, a lei chamou à atenção para esses aspetos que eram antes vistos como sendo do foro doméstico.
    "Trouxe a discussão e também conduziu a uma maior consciencialização, tanto de homens como de mulheres - no sentido que não é legítimo por parte do agressor usar a violência para resolver as questões domésticas - mas também que as responsabilidades domésticas são de homens e mulheres, não apenas da mulher", explica.
    Mudanças positivas
    A mudança também se refletiu no âmbito jurídico. Para Papadakis, atualmente já há uma melhoria na forma como a Justiça trata os casos de violência doméstica.
    A criação dos gabinetes de atendimento à mulher é apontada como um exemplo de melhoria na forma como a Justiça trata os casos de violência doméstica. Mas não foi sempre assim.
    "Embora o Código Penal sempre tivesse punido as situações de violência física, não [punia] a violência moral e psicológica, no foro doméstico. Uma simples chapada entendia-se que não era assunto para ser resolvido ao nível das instituições de resolução de conflito", recorda a juíza.
    A aprovação da lei trouxe coragem a muitas vítimas para denunciar, mas, no início, a falta de preparação da polícia, da procuradoria e dos tribunais para lidar com a violência doméstica dificultava ainda mais a procura por ajuda. "A polícia mandava-as de volta à família para resolver. Se era um assunto com o marido, para ir resolver com o seu marido porque aquele não era um assunto para ser resolvido ao nível da polícia. O que não era verdade", explica Papadakis.
    A dificuldade permanecia também ao nível da Procuradoria. "Os procuradores também não davam o devido tratamento à questão por não terem a noção da gravidade das situações de violência doméstica, comparativamente aos crimes comuns", diz.
    Nos tribunais, as sentenças também refletiam a cultura machista. "Os juízes entendiam que, em algumas situações, justificava-se essa violência doméstica em virtude da falta de cumprimento daquilo que são as obrigações da mulher, as obrigações domésticas: atrasou-se a chegar à casa, não preparou a refeição. Então, justificava-se a atitude do seu companheiro", explica.
    Aumento das denúncias
    Mas os números da violência ainda assustam. Segundo o Ministério da Saúde, houve um aumento de 71% nos registos de vítimas de violência doméstica em unidades de saúde do país em 2018. Apesar do alto percentual, Nzira de Deus, diretora-executiva da organização não-governamental Fórum Mulher, considera que este aumento indica uma maior consciencialização das mulheres em relação aos seus direitos.
    "Os dados refletem-se como uma situação bastante real, que está a acontecer no nosso país, uma incidência de violência muito grande na sociedade, derivada do aumento da consciência das mulheres sobre seus direitos, aumento da consciência de que têm a possibilidade de viver e devem viver uma vida livre de violência. E esse aumento da consciência pode de alguma forma também estar a gerar o aumento da denúncia nos casos de violência", diz.
    Corrupção e morosidade
    Apesar do aumento das denúncias, ainda há entraves para a punição dos agressores, como explica Nzira de Deus. "O encaminhamento dos processos leva muito tempo, é bastante moroso. Também percebemos que há muita corrupção. A corrupção no sentido de que o agressor acaba por encontrar formas sempre de mover e dar um presente, ou encontra uma forma de corromper os agentes. É o que muitas vítimas reportam, não é? Não entendem porque de repente o processo desapareceu", conta.
    Nos casos em que há a condenação do agressor, muitas mulheres acabam por sofrer retaliações do parceiro, devido à situação de dependência económica. Segundo a juíza Papadakis, isso demonstra o quão imprescindível é oferecer amparo social às vítimas para que também não sejam punidas pela condenação.
    Entre avanços e desafios, Nzira de Deus sente que o trabalho de combate à violência doméstica tem sido conduzido maioritariamente pela sociedade civil. Para ela, as ações do Governo existem, mas ainda não são suficientes. "O Governo, infelizmente, está a fazer um esforço mas ainda não consegue cobrir a procura, nem consegue dar toda a resposta que se espera", analisa.
    Ações de conciliação e melhorias no atendimento
    A juíza Vitalina Papadakis afirma que, ao longo dos anos, foram observados problemas na lei e que algumas alterações são necessárias, como por exemplo em relação aos casos menos graves, onde não há lesão física.
    "É necessário incluir na própria lei algo que já tinha sido referido no momento da sua preparação, que era, em determinadas situações, aquelas menos graves, onde não há lesão física, mesmo as questões de danos psicológicos e morais que não são tão graves, a possibilidade de as instituições intervirem para conciliação", explica.
    Para avançar no cumprimento da lei contra a violência doméstica, Nzira de Deus sugere a melhora dos gabinetes de atendimento, com serviço integrado às vítimas, incluindo atendimento policial e psicológico, para evitar que os casos fiquem sem solução.
    "Porque depois, no fim, o que acontece é que muitas até acabam por se suicidar, perdendo a vida. Moçambique é um país com alta taxa de suicídio, porque as pessoas não conseguem encontrar resposta. Não veem os seus problemas resolvidos, com tanta frustração, acabam por tirar vida a si próprias", conclui.
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  • Preservação da memória histórica colonial em foco em Lisboa
    Debates reuniram 15 especialistas de diversos países, esta semana em Lisboa. Consenso é a necessidade de uma maior atenção à preservação do passado, acesso e divulgação dos documentos existentes.As entidades competentes da Guiné-Bissau estão a trabalhar para a preservação da memória histórica registada em cinema, abrangendo a luta contra o colonialismo português, entre 1961 e 1974.
    O manancial existente servirá para mostrar à jovem geração, incluindo historiadores e professores, o que foi a luta de libertação e o passado colonial – diz à DW Sana Na N'Hada.
    "Já houve uma intervenção da Filipa César para salvar 40% daquilo que existia, que nós dizemos durante a guerra anti-colonial," recorda.
    Em Lisboa, o realizador guineense participou no debate promovido pelo Instituto Alemão, a Culturgest e a Cinemateca Portuguesa sobre a importância da preservação da memória histórica e colonial.
    O conterrâneo do conhecido cineasta Flora Gomes veio a Portugal falar precisamente do processo de salvamento do arquivo cinematográfico da Guiné-Bissau.
    "Flora e eu filmamos o processo da luta pela existência do nosso país que fez 46 anos esta terça-feira [24 de Setembro]," conta.
    Cinema e memória
    Desde 2011, que Filipa César tem vindo a investigar as origens do cinema ligado ao movimento de libertação na Guiné-Bissau, contribuindo também para a digitalização das películas em 2012, numa altura conturbada para o país com o golpe de Estado de 12 de abril. A cineasta portuguesa considera ter-se dado um passo importante para a conservação deste património.
    "Portanto, o que fizemos foi basicamente só digitalizar o material. Ele está arquivado em Bissau, mas também há uma cópia em Berlim [Alemanha]. Pelo menos, são documentos importantes deste processo de libertação e também do início, dos primeiros anos da constituição da nação com o Presidente Luís Cabral," afirma.
    Entretanto, acrescenta, caberá ao Governo local encontrar meios para tornar este material acessível à população guineense e a todos os demais países interessados em estudar o processo histórico da Guiné-Bissau.
    Filipa César concorda com uma eventual ideia de organização de um museu coletivo dos países de língua portuguesa sobre este passado colonial e as respetivas independências.
    "Acho que sim. Também há hipóteses de criar um tal espaço com recurso ao digital ou virtual. Acho que há muitas hipóteses de trabalhar este material. Espero que haja essa vontade e esse empenho para que isso aconteça," conclui.
    Memória histórica de Angola
    Mário Fradique Bastos também defende uma maior atenção em relação à memória histórica para preservar o passado, de modo a transmitir a verdade à jovem geração. O cinema pode desempenhar um papel importante neste sentido.
    A longa-metragem "Independência", produzida entre 2010 e 2015, é o seu primeiro documentário, que retrata a luta de libertação de Angola. O filme, lançado em 2015 e vencedor do Prémio Nacional da Cultura para o Cinema de Angola, foi então reconhecido como um importante passo para a recuperação da memória histórica coletiva do país.
    "Infelizmente, muitas coisas não saíram desde essa altura, principalmente na área do cinema, porque não existe essa preocupação com a memória do país, não existe essa preocupação com a cultura," critica.
    Em Angola, já se está a ultrapassar a fase dos tabus – acrescenta – porque já há mais abertura. As pessoas já falam com mais liberdade, reconhece, admitindo por exemplo que acontecimentos como os do 27 de maio de 1977 também devem fazer parte dos registos da história de Angola.
    "O '27 de Maio' já foi mais retratado em livros, ainda não foi retratado no cinema. Seria algo em que teria todo o interesse. Acho que também [em relação a] esse assunto, as pessoas estão preparadas e estão ávidas para falar e ouvir. Portanto, estou curioso para ver os próximos trabalhos que não só a Geração 80, a produtora [criada em 2010] de que faço parte, possa produzir em relação a isso," afirma.
    Fradique, como é tratado na sétima arte, diz que os arquivos sobre os importantes períodos da história de Angola estão fora do país. A propósito dos arquivos coloniais, o realizador propôs na mesa redonda realizada esta terça-feira (24.09), na Culturgest, a restituição aos países africanos do espólio documental existente em países como Portugal.
    "Os arquivos feitos por Portugal durante o período do colonialismo não deviam estar só em Portugal. Deviam estar em Angola, porque os maiores interessados em contar essas histórias e os anos de opressão são também os angolanos," defende.
    O cineasta não sustenta a ideia de criação de um museu coletivo e insiste que "os arquivos sobre a história colonial deviam ser preservados em espaços adequados de modo a serem consultados por todos aqueles que desejam conhecer melhor o passado histórico dos países africanos".
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  • Moçambique: Autoridades criam equilíbrio de poder entre Rússia e EUA em Cabo Delgado?
    Ataques em Cabo Delgado intensificam e Presidente fala em invasão camuflada. Imprensa noticia presença russa na província onde há interesses dos EUA. Quais seriam as vantagens de um equilíbrio de forças para Moçambique?Em Moçambique, na última semana, a imprensa tem reportado sobre uma suposta presença russa na província nortenha de Cabo Delgado. A ser confirmada pelas autoridades, ela poderia trazer uma espécie de equilíbrio de forças, se considerarmos que nesta região há fortes interesses norte-americanos, entende o analista político Calton Cadeado.
    E o Presidente Filipe Nyusi disse também esta semana que o país está a ser vítima de uma "invasão camuflada" e falou em ataques ao desenvolvimento. A DW África entrevistou o analista político Calton Cdeado:
    DW África: Parece estar claro para o Estado moçambicano que os ataques no norte do país já não se trata de simples criminalidade de natureza endógena como acreditava inicialmente?
    Calton Cadeado (CC): Este é um pronunciamento que o chefe de Estado faz de forma muito forte e mostra que o Presidente da República tem um tipo de informação privilegiada, como sempre teve, mas desta vez a qualidade da informação aponta para um suspeito que ainda não tem também rosto nem nome. O simples facto do chefe de Estado ter dito que se trata de uma invasão camuflada. Agora quem é esse invasor? E de onde é que vem esse invasor, ele também não disse e ficamos todos no escuro, na especulação e não deixa de ser ainda uma informação sem muito conteúdo para nós termos a certeza do que é que estamos a dizer....
    DW África: A imprensa nacional tem reportado nos últimos dias sobre a presença de homens e equipamento bélico russo no norte do país. A ser verdade ou a ser confirmada esta informação, o que é que isto significa no contexto da exploração do gás com interesses norte-americanos não só neste setor mas também na área da segurança?
    CC: A primeira coisa é que o Governo moçambicano tem a legitimidade de ir buscar apoios onde quer que seja para qualquer ação que for preciso. É soberano e é legítimo que o Governo moçambicano faça isso. Segundo, o Governo sente que para lidar com este problema precisa de ir buscar cooperação. Já fez uma aproximação de cooperação com a Tanzânia, que é público, já fez a aproximação da cooperação com o Quénia, que também é público, com a RDC, a República Democrática do Congo, portanto, há uma comunicação. Mas quando entramos para este nível de chegada ao país de equipamento militar, bélico, partilha de inteligências (informações secretas), estamos perante uma cooperação mais elevada para além da simples comunicação.
    DW África: Mas os interesses russos e norte-americanos não são como água e óleo, ou seja, não se misturam?
    CC: Sem dúvidas. À primeira vista trazer os russos para a questão de Cabo Delgado (os ataques armados) significaria colocar aqui uma espécie de equilíbrio de poder. Colocar os russos para fazer o watcher (observar), se me permite esta expressão, aos americanos. Mas também não nos esqueçamos que os americanos e os russos têm interesses económicos na área de prospeção de hidrocarbonetos aqui em Moçambique. Então, isso pode ser anulado ou pode diminuir a ideia de que a presença russa em Moçambique é simplesmente para contrabalançar a presença americana na zona de Cabo Delgado. Este é um aspeto que não se pode ignorar...
    DW África: E qual é a grande vantagem para o Estado moçambicano deste equilíbrio que se pode vir a estabelecer?
    CC: Sem dúvidas que o Governo moçambicano não é uma superpotência e ter duas superpotências nessa zona, aliás tem a França com interesses também nessa zona, todos eles juntos na região fazem para Moçambique uma aproximação de força que pode ser benéfica na hora de juntar todas essas forças para fazer face a qualquer ameaça.
    DW África: Esta procura de apoio russo por parte do Estado moçambicano é um assumir da incapacidade para dar resposta a este problema que se vive no norte de Moçambique?
    CC: É um problema bastante complexo e essa complexidade reside no facto do grupo não se identificar. Esta é um metodologia de ação que surpreendeu a todos. O que quero dizer é que para além da incapacidade do Estado moçambicano, muitas vezes quando analisamos este tipo de atuações é preciso também reconhecer que o fracasso de um é o sucesso do outro, a incapacidade de um é a capacidade do outro.
    8 min
  • Em Angola, príncipe Harry promove a desminagem
    Esta sexta-feira (27.09), o príncipe britânico visitou campos de minas terrestres nas províncias do Cuando Cubango e Huambo. Harry elogiou os investimentos do Governo angolano na desminagem.Esta sexta-feira (27.09), o príncipe britânico Harry visitou um campo de minas nas proximidades da cidade de Dirico, na província angolana do Cuando Cubango.
    O campo foi parcialmente desminado pela organização não-governamental britânica Halo Trust.
    Num gesto simbólico, Harry detonou uma mina e elogiou investimento de 60 milhões de dólares (cerca de 55 milhões de euros) do Governo angolano em processos de desminagem, sobretudo no sul de Angola
    "Esse compromisso histórico é um passo adiante importante para o movimento de livrar o mundo das minas e criar a base para um futuro seguro e justo para a próxima geração," declarou.
    O príncipe Harry destacou ainda a importância da desminagem.
    "As minas terrestres são uma cicatriz da guerra ainda por sarar. Ao promover a desminagem podemos ajudar esta comunidade a encontrar a paz e com a paz vêm as oportunidades," considerou.
    Seguindo os passos da mãe
    Depois, o príncipe britânico deslocou-se ao Huambo onde visitou dois pontos que fizeram parte da visita da sua mãe, a princesa Diana, em 1997: um antigo campo minado, que atualmente é uma movimentada avenida, e um centro ortopédico onde são tratadas as vítimas das minas.
    As fotos de Diana usando equipamentos de proteção enquanto caminhava entre sinais vermelhos de caveira no Huambo ganharam publicidade para a instituição de caridade britânica HALO Trust, que estava a retirar minas deixadas durante a guerra civil de Angola.
    Diana morreu alguns meses antes da assinatura da Convenção sobre a Proibição do Uso, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Antipessoais, por 157 países, entre os quais Angola.
    Estima-se que existam cerca de 60 mil angolanos que ficaram mutilados devido ao rebentamento de minas de guerra.
    A ministra para a Ação Social angolana, Carolina Cerqueira, reafirmou o compromisso do Governo angolano com a eliminação das minas antipessoais e destacou que a cooperação internacional ainda é necessária.
    "Pensamos que necessitamos da cooperação internacional, do movimento antiminas a nível mundial, para se associar a esse processo que se engaja o Governo angolano e interpretamos essa vinda de sua Alteza Real como um impulso a esse movimento, a esse esforço do Governo angolano para banir as minas em todo o território nacional," enfatizou.
    Cooperação bilateral em foco
    A ministra Carolina Cerqueira destacou que o Governo angolano está empenhado em tornar-se observador da Commonwealth.
    Num artigo de opinião publicado esta sexta-feira (27.09) no Jornal de Angola, a embaixadora do Reino Unido em Luanda, Jessica Hand, defendeu que a visita do príncipe Harry a Angola ocorre num momento de "parceria ampla e profunda" entre os dois Estados e pode incentivar à adesão do país à Commonwealth.
    Segundo a diplomata britânica, o Reino Unido pretende apoiar o processo de reforma de Angola.
    No sábado (28.09), o príncipe Harry será recebido pelo Presidente angolano, João Lourenço, no palácio da Cidade Alta.
    A visita do Príncipe Harry a Angola acontece no quarto dia do itinerário de dez dias por África, que começou na passada segunda-feira (23.09) na Cidade do Cabo, África do Sul, e de onde seguiu na quarta-feira (25.09) para o Botsuana.
    De Angola, Harry segue para o Maláui, antes de regressar à África do Sul, onde conclui o périplo pelo continente com uma audiência com o Presidente, Cyril Ramaphosa.
    Esta não é a primeira vez que o príncipe Harry visita Angola.
    Em 2013, o príncipe britânico visitou zonas minadas no sul do país.
    3 min
  • Achada no meio da guerra: A história de Isabel "Batata Doce"
    A história de vida de Isabel Jacinto, ou Isabel "Batata Doce", continua a despertar curiosidade. Achada no mato em Angola com 3 anos de idade", ela foi acolhida pelas tropas portuguesas. Foi para Portugal em 1965.Isabel Jacinto foi encontrada pelas tropas portuguesas na zona de Catete, em Angola, quando a companhia regressava de uma operação noturna. Acolheram a menina no aquartelamento militar, onde ficou oito meses - conta ela própria, de acordo com os relatos.
    "Fui encontrada no mato, no Zézere do Itombo. A minha tia Eva, irmã da minha mãe, pelo que percebi, porque ela me contou, foi quem me levou para o mato. Entretanto, ela pegou num pau para afastar os javalis. Só que pensou que eram javalis e não eram. Eram os militares, os tropas portugueses", lembra.
    O episódio aconteceu em tempo de guerra. Isabel caiu das costas da parente, que fugia das tropas com medo de não ser morta. "O alferes Antonino Araújo, que era o militar que comandava as tropas naquela altura, viu aquela mulher a fugir com outra criança e disse: 'não fujas que eu não te mato'. Só que foge por aquela mata adentro e, pronto, eu fiquei ali a olhar para eles, diz ele, com um sorriso, que encantei-os logo".
    Acolhida pelos militares
    Ela estava ferida quando foi acolhida pelos militares, revela Urbano Marques, 77 anos, que serviu a tropa em Angola, entre 1963 e 1965, com a patente de 1º cabo escriturário do Batalhão 525, na Companhia de Comandos e Serviços do Exército português.
    "Era um ferimento importante, mas não era um ferimento grave. Foi realmente acolhida pela nossa companhia que a trouxe para o comando. A partir daí tratámos a Isabel como se fosse uma filha, tanto mais que o nosso comandante, o tenente coronel Junqueira, a adotou e viria depois trazê-la para Portugal", conta Marques em entrevista à DW África.
    Isabel nasceu no dia da morte do pai. O seu nome e a data do seu nascimento, 13 de maio de 1962, sempre foram para ela pontos de interrogação. Ficou registada como Isabel Manuel Jacinto. Mas os militares atribuíram-lhe o nome de "Batata Doce" (porque gostava de batata doce).
    "O meu tio, irmão do meu pai falecido, quando chegou ao quartel, reconheceu-me logo e eu saltei para o colo dele e ele confirmou que eu era filha de Manuel Jacinto Diogo e de Eva Manuel Adão e que o meu nome era Isabel Manuel Jacinto", relata.
    O registo foi feito em Catete pelo comandante português, Manuel Junqueira, de uma família portuguesa abastada, que ficou com a tutela da menina após o fim da missão em Angola. Veio a saber há bem pouco tempo que o seu tio Zé tinha proposto duas condições ao comandante: trazer a Isabel para Portugal e tratá-la como filha, "e quando a guerra acabasse voltar a levar-me para Angola".
    "Só que acabou a guerra do Ultramar e começou a guerra civil", acrescenta Isabel.
    À procura da família
    Só cinco anos depois de ir para Portugal é que começa a ter noção da sua história por intermédio do comandante Junqueira. "O meu batizado foi feito em Braga e, depois, vem uma reportagem na primeira página do Diário de Notícias: 'A pretinha encontrada no mato e batizada no Sameiro pelas tropas portuguesas'. Eu ouvia lá em casa dizer que tinha sido encontrada no mato, mas não sabia mais nada".
    Já adolescente, foi, por outras vias, desvendando a sua história, por exemplo por intermédio de Urbano Marques, pai de uma amiga sua.
    "Fui dando elementos à Isabel, que a situou com outros companheiros meus de tropa; passou a ir às reuniões do batalhão e ficou a saber muito da sua história. Porque ela não sabia a história dela", afirma Marques.
    Isabel confirma que foi sempre tratada como filha, com "os melhores mimos", protegida e seguida em toda a sua educação: "Era uma família tão bem educada, tão bem formada, com princípios. Era uma família bonita. Costumo dizer que a maior herança que eles me deixaram foi a educação e os princípios e o respeito pelos outros".
    Vivia em colégios mas o fim de semana e as férias eram passados em casa do comandante. Enquanto isso, Angola vivia os conturbados tempos da guerra civil.
    "Aliás, eu estive num colégio de freiras e conheci muita gente que tinha vindo de Angola; colegas minhas do colégio que contavam como é que era a vida lá em Angola. Essas guerras não trazem nada de bom".
    Isabel Jacinto começou a trabalhar muito cedo, diz que deu de comer "à malta toda do teatro e do cinema" durante 22 anos e, com o passar do tempo, decidiu abrir o seu próprio negócio com o companheiro João Castanheira. Assim nasceu o "Batata Doce", um restaurante em Santos (Lisboa) frequentado por clientes de várias nacionalidades.
    "Eu e o João, meu marido, estabelecemos e estamos contentes. O João diz com muita graça que aqui é a nossa sala de estar. É aqui que passamos muito tempo da nossa vida, do nosso dia, é aqui que nós recebemos os amigos. Temos outro espaço um bocadinho maior onde se passa lá várias coisas ligadas à cultura".
    Em 2017, fez questão de voltar ao país natal para encontrar familiares. "Vou ao encontro da minha irmã Esperança, da minha irmã Conceição, da minha tia Eva, que foi a tia que fugiu pelo mato e que deixou, da minha tia Isabel, que era a miúda que ela levava pela mão, a minha tia Florinda - todas irmãs da minha mãe - e foi um momento maravilhoso. É um momento que vai ficar sempre na minha cabeça".
    "Valeu a pena"
    Foi uma caminhada difícil mas que valeu a pena, sublinha sorridente, frisando a vontade que tem de voltar a Angola: "Claro que quero, porque há muita coisa que ficou por dizer. E aqueles abraços que eu recebi naqueles dias! Eu preciso de mais abraços daqueles. E aquele colo da minha tia, eu preciso".
    Para Urbano Marques, "esta é uma história de vida, que às vezes faz arrepiar". Diz que ela é uma mulher lutadora, que fez a sua própria história. "Porque ela é mesmo assim. A Isabel arregaça as mangas e faz-se à vida. Ela merece também. É uma querida".
    Isabel "Batata Doce" reconhece que, de facto, esta é "uma história gira" entre Angola, a guerra colonial e Portugal.
    "Sei que não sou a única com estas histórias, mas eu acho que a minha foi tão bonita, tão bonita…"
    Até hoje, 54 anos depois de ter sido trazida para Portugal, vive a sua própria história sem traumas do passado, afirma com uma lágrima no canto do olho: "Não tenho tempo para traumas".
    7 min

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