África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle

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África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle episodes

  • Moçambique: Cura para a catarata chega a mais pessoas
    Há cada vez mais casos de cataratas na província de Cabo Delgado. Até ao final do ano estão previstas cerca de 1200 operações só nesta região, onde a população idosa é a mais afetada e precisa de maiores cuidados.As doenças oculares têm vindo a aumentar em Cabo Delgado, no norte de Moçambique. As cataratas e os tracomas são os mais comuns e frequentes. Estas requerem tratamento antecipado para evitar a cegueira. O setor da saúde já está a promover tratamentos para melhorar a saúde ocular da população.
    Apesar de não haver ainda qualquer estudo sobre a prevalência de cataratas em Cabo Delgado, o setor de saúde na província está preocupado com o número crescente de casos. Segundo fontes oficiais, todos os anos dão entrada nas unidades de saúde cerca de 2000 casos.
    No entanto, os serviços de oftalmologia ainda não estão disponíveis em todos os 17 distritos da província. Para combater a cegueira provocada pela catarata, estão a ser feitas campanhas de operações gratuitas.
    A intenção é melhorar a vida dos pacientes, de acordo com o responsável pela saúde ocular do Hospital Provincial de Pemba. Sérgio Mosse explica que o fator idade é a principal causa do aparecimento da catarata, mas há outras.
    "Existem algumas cataratas que aparecem logo à nascença, catarata congénita, há aquelas cataratas que surgem por causa de um trauma. Também tem aquelas situações em que as cataratas aparecem com outras doenças sistémicas – diabetes, HIV/SIDA. Mas o mais importante é que esta catarata leva à cegueira e tem que ser feita uma operação para que se possa restaurar a visão”, explica Mosse.
    Testemunhos de curas
    A catarata é considerada a principal causa de cegueira no mundo, abrangendo sobretudo pessoas da terceira idade. Em Cabo Delgado, estão previstas 1200 operações até ao final do ano. A DW África acompanhou uma pequena incisão, nome pelo qual é conhecida a cirurgia de cataratas. Terezinha Selemane foi uma das pacientes que passou por esta cirurgia recentemente e falou sobre o seu caso.
    "Não enxergava nada, mas agora já consigo. Quando voltar à comunidade irei mobilizar os outros que sofrem da doença para que venham ser operadas para voltar a ver bem", relata Terezinha Selemane.
    Talapa José é outro paciente que já tem problema de visão há muitos anos e só agora conseguiu ser operado. "Foi em 1974 que comecei a ter problemas de visão. Só agora consegui ser operado e sinto-me bem. Homens, mulheres e crianças vamos procurar tratamento de vista... a operação é gratuita."
    Depois da operação, a higiene pessoal, especialmente facial, é crucial. Durante os seis meses de tratamento, comportamentos como tocar os olhos com as mãos sujas, toalhas ou outros objetos pode trazer riscos de saúde ocular maiores, adverte Sérgio Mosse.
    "O doente pode ser bem operado, mas se não tem esses cuidados de higiene individual pode levar com que haja uma infeção e a infeção que surge durante o processo de cura de catarata... é muito dolorosa e pode fazer com que o olho se perca totalmente e haver necessidade de remoção", avisa Mosse.
    Futuros tratamentos
    Em Cabo Delgado iniciou recentemente também o tratamento do tracoma, outra doença ocular que pode levar à cegueira. Esta doença é diferente das cataratas, em que os pacientes são maioritariamente idosos, o grupo alvo do tratamento do tracoma é toda a família. A previsão é abranger perto de 94 mil pessoas de todas as idades.
    Anastácia Lidimba é a diretora provincial da Saúde de Cabo Delgado e explica a atual situação na região. "Somos uma das províncias com maiores taxas de tracoma, que é uma doença da comunidade que requer um tratamento preventivo. Estaremos a fazer tratamento com antibióticos para adultos e pomadas oculares para crianças."
    4 min
  • Juventude angolana atravessa maré de dificuldades
    No Dia Internacional da Juventude (12.08), recordamos os principais problemas que afetam os jovens angolanos, desde desemprego, habitação e acesso ao ensino superior. Reajuste dos transportes pode ser um novo obstáculo.O acesso aos transportes públicos é um dos problemas que mais afeta a juventude angolana. Para além de escassos, os meios de transporte preparam-se para reajustar os preços nos próximos dias. A entrada em vigor da nova tarifa dos comboios de Luanda estava prevista para sexta-feira (09.98), mas, entretanto, foi adiada sem data.
    Francisco Teixeira, responsável do Movimento dos Estudantes Angolanos (MEA), acredita que este reajuste vai "atrapalhar" a ida dos estudantes para as escolas. "Esta questão do reajustamento dos transportes públicos vai dificultar ainda mais e atrapalhar a normal frequência dos estudantes às aulas porque muitos vivem distantes das escolas e muitos deles andam longos quilómetros a pé", diz.
    Mas o problema poderá estar resolvido em breve, quando os jovens estudantes, crianças, antigos combatentes e idosos passarão a estar isentos nos transportes públicos - rodoviário, marítimo e ferroviário.
    Francisco Teixeira, do MEA, desconhece as formas de atribuição do chamado passe social e lamenta o facto de a sua organização não ter sido consultada na concepção do documento. "Não sabemos que métodos foram usados nesse processo, não sabemos que critérios o Estado vai usar para atribuir o passe social aos estudantes e como vai chegar aos estudantes pobres. Deviam ter contactado as instituições de defesa dos estudantes. É caricato", afirma.
    Acesso ao ensino superior e desemprego
    Este não é único problema que afeta a juventude angolana. Não é fácil o acesso ao ensino superior. Este ano, a Universidade Agostinho Neto UAN) registou mais de 46 mil candidatos para cerca de cinco mil vagas. Em 2020, o governo vai acabar com a gratuitidade nas instituições públicas de ensino, uma pretensão que tem sido criticada pelo movimento "Propina Not" - campanha lançada nas redes sociais por ativistas cívicos e estudantes universitários contra o pagamento de mensalidades nas universidades públicas.
    A par disso, há a falta de emprego. Nos últimos dois anos, a taxa de desemprego em Angola cresceu de 8,8% para 28,8%, indicam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicados este ano. E a juventude é a mais afetada.
    O analista Augusto Báfuabáfua aconselha o Governo a direcionar as suas políticas públicas para o setor produtivo, como a agricultura e o turismo, porque pode gerar postos de trabalho. "O Executivo tem de fazer muito mais para empregar os jovens no turismo. Para além da hospedagem, a restauração, na própria mobilidade, aposta nos guias, nos tradutores. Há uma vasta oportunidade de trabalhos para jovens", destaca.
    O sonho de ter uma casa
    O sonho de ter casa própria é outro calcanhar de Aquiles para a juventude angolana. Augusto Báfuabáfua explica que é preciso apostar em políticas habitacionais "sérias e sustentáveis". "Há uma necessidade de o Executivo pensar grande, pensar que Angola é um país vasto com 1.246 e 700 km2 e nós somos somente 30 milhões", lembra.
    "A grande luta para as habitações acontece mais nas grandes cidades, principalmente nas cidades de Luanda, Benguela e Lubango. Isso quer dizer que não há políticas sérias e sustentáveis, não há empenho suficiente no sentido de sair fora das grandes cidades", conclui o analista.
    Durante muito tempo, Angola registou uma luta de gerações. Augusto Báfuabáfua diz que nos últimos tempos a situação inverteu-se. O analista aponta a introdução de jovens no Governo de João Lourenço como um sinal do desaparecimento deste conflito.
    "Não há propriamente um conflito de gerações. O Presidente João Lourenço é relativamente mais novo [em relação a José Eduardo dos Santos] e no seu Executivo há gente tendencialmente mais jovem do que ele aos e isso vai amenizando esse tão propalado conflito de gerações", afirma.
    4 min
  • Sissoco: “Sou uma aposta dos jovens para refundar o Estado da Guiné-Bissau”
    O principal partido da oposição na Guiné-Bissau, MADEM-G15, designou o terceiro vice-presidente para ser seu candidato nas próximas eleições presidenciais marcadas para 24 de novembro. Analista discorda com a escolha.O Movimento para a Alternância Democrática (MADEM-G15) vai concorrer ao primeiro pleito presidencial com o antigo primeiro-ministro, Umaro Sissoco Embaló, deliberou o órgão máximo do partido. Sissoco superou nesta sexta-feira (09.08) José Mário Vaz, atual Presidente da Guiné-Bissau e o constitucionalista Carlos Vamain nas primárias do Movimento para a Alternância Democrática, a segunda força política no Parlamento guineense.
    Em entrevista à DW África, Sissoco disse que a votação decorreu de forma livre e transparente: "Os membros do Conselho Nacional do MADEM-G15 expressaram de forma livre e transparente com 70% dos votos a favor do general Umaro Sissoco Embaló e 25 % contra. Isto demonstra democracia interna de um partido. Sinto-me um homem que será suportado pelo grande partido que é o MADEM-G15 ”.
    Sissoco único candidato votado
    De acordo com o partido, Sissoco Embaló acabou por ser o único candidato escrutinado pelo Conselho Nacional, uma vez que as outras duas pessoas que estavam em liça nas primárias, o atual Presidente guineense, José Mário Vaz, e o advogado Carlos Vamain, não se encontravam fisicamente na sala da reunião.
    Nascido em Bissau, em setembro de 1972, Umaro Sissoco Embaló, general na reserva, foi primeiro-ministro guineense entre novembro de 2016 e janeiro de 2018. Agora pretende ser Presidente da República para "refundar o Estado guineense".
    " Vou respeitar e fazer respeitar a Constituição da República, refundar o Estado, fazer cumprir todas as normas da República, no âmbito das prerrogativas do Presidente. Pretendo promover a coabitação entre o Presidente e os demais órgãos de soberania e garantir a justiça para todos”, disse o também terceiro vice-presidente do MADEM.
    "Acabar com indisciplina e repor autoridade do Estado”
    Enquanto candidato às presidenciais, Sissoco promete aos guineenses que, se for eleito Presidente do país a 24 de novembro, vai usar toda a sua influência para mobilizar fundos para o Governo, e acredita que pode fazer a diferença.
    "Comigo o país tem a ganhar. É uma nova era e sou de uma nova geração. Se olharmos para as grandes potências mundiais, todos os líderes são jovens. Sou um homem muito conhecido nas relações internacionais e vou usar a minha influência para atrair investimentos para o país”.
    Sissoco, que se afirma como uma aposta da juventude, pretende dar à Guiné-Bissau uma nova imagem, se for eleito: "Construir uma Guiné que seja respeitada na cena internacional porque perdemos o rumo. Hoje, sempre que temos que tomar uma decisão ficamos dependentes do que a CEDEAO decide, o que a CEDEAO pensa... comigo será diferente... tenho que perguntar o que os guineenses pensam e querem. Vou acabar com tanta indisciplina que existe neste país”.
    Sobre o recenseamento eleitoral, que Umaro Sissoco contestou nas legislativas de março, o candidato do MADEM faz duas propostas:
    "Como o Governo tem a noção clara que serei o candidato vencedor, com o atual recenseamento ou não, penso contudo ser melhor um recenseamento de raiz ou uma atualização dos cadernos eleitorais”, afirma o candidato em entrevista à DW África a partir de Bissau.
    Sissoco foi uma boa escolha
    Ouvido também pela DW África, o analista político Luís Petit diz que o MADEM não fez uma escolha acertada ao eleger Sissoco como candidato para as presidenciais, porque não tem o peso exigido para enfrentar outros nomes, como José Mário Vaz e Carlos Gomes Júnior.
    "Ele não tem uma grande experiência política e não a demonstrou enquanto primeiro-ministro. Além disso, não granjeou grande simpatia ao nível do país. José Mário Vaz, que foi o Presidente, tem uma experiência política vantajosa em relação a Sissoco. O que aconteceu nas primárias, a sua desvantagem, tem a ver com a questão da militância e a ligação com o partido [MADEM]”.
    Nesta primeira entrevista à DW África, enquanto candidato, Umaro Sissoco Embaló pede aos guineenses para acreditaram nele, porque, segundo disse, o "homem é que faz a função".
    428 dos 617 conselheiros votaram
    Segundo Rui Nene Djatá, presidente da comissão eleitoral que presidiu às primárias do MADEM, Umaro Sissoco Embaló recolheu o voto favorável dos 297 membros do Conselho Nacional (órgão máximo entre congressos), 107 contra e 24 conselheiros abstiveram-se.
    Participaram no processo das primárias do MADEM 428 conselheiros, dos 617 que compõem o órgão.
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  • RENAMO contesta quatro candidaturas da FRELIMO e CNE analisa o caso
    A RENAMO contesta as candidaturas de Júlio Parruque, para a província de Maputo, Francisca Domingos, para Manica, Manuel Rodrigues, Nampula, e Judite Massangela, Niassa. A FRELIMO aguarda pela decisão da CNEO maior partido da oposição moçambicana, Resistência Nacional Moçambicana [RENAMO] considera que estas quatro candidaturas não têm qualquer probabilidade de passar sob o ponto de vista, tanto legal, como da filosofia da descentralização.
    Segundo o mandatário do partido, Venâncio Mondlane, a lei eleitoral para as Assembleias e o Governador provincial define o sufrágio eleitoral, nomeadamente a capacidade eleitoral activa.
    "Ser residente e segundo estar recenseado na circunscrição territorial da província”, esclarece Mondlane apontando que "temos cabeças de lista que foram recenseados em províncias diferentes daquelas em que eles querem concorrer. Nós achamos que isso é uma daquelas irregularidades insanáveis”, considera o mandatário da RENAMO.
    Lei eleitoral
    A lei eleitoral estabelece que "o sufrágio universal constitui a regra geral de designação dos órgãos de governação descentralizada provincial.”
    E acrescenta que "o sufrágio universal é um direito dos cidadãos eleitores na província recenseados na respectiva circunscrição territorial.”
    Entretanto, a chefe da brigada central da Frelimo em Maputo e Ministra da Administração Estatal, Carmelita Namashulua entende que existe diferenças entre a lei para eleição dos membros das autarquias locais e assembleias provinciais.
    "Enquanto uma obriga [eleição dos membros das autarquias locais] que o cabeça de lista tenha-se recenseado no local e seja residente a outra lei não obriga que, efectivamente, o cabeça de lista seja recenseado naquele local, basta ter sido recenseado em qualquer parte e tenha capacidade eleitoral”, considera Namashulua.
    Descentralização (...) poder para o nível local
    Venâncio Mondlane, da RENAMO discorda com as interpretações da ministra anotando que todo o quadro legal da legislação autárquica e da governação provincial está dentro de uma filosofia geral de descentralização.
    "A descentralização tem como pressuposto levar o poder para o nível local para dar oportunidade as pessoas locais de se recensearem localmente, concorrerem localmente e o poder ser localizado na circunscrição territorial onde a população estiver”, analisa Venâncio Mondlane.
    Mondlane defende que a receção dessas candidaturas pelas comissões provinciais de eleições foi ilegal.
    CNE com a "faca e o queijo"
    A reclamação da RENAMO já foi recebida pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), conforme deu a conhecer esta semana o porta-voz do órgão, Paulo Cuinica.
    "Essa reclamação vai em devido tempo ser analisada pela nossa Comissão dos Assuntos legais e Deontológicos e posteriormente submetida ao plenário para decidir sobre essas situações”, garantiu Cuinica.
    A FRELIMO espera que a CNE possa pronunciar-se sobre o assunto, mas para o mandatário da RENAMO, o partido no poder só tem uma alternativa de fazer passar essas candidaturas.
    "Essas quatro candidaturas não têm nem sob o ponto de vista legal nem sob o ponto de vista da filosofia de descentralização absolutamente nenhuma probabilidade de poderem passar”, afirma Venâncio Mondlane para quem "só podem passar se o regime, como tem feito em muitas outras ocasiões, recorrer a [ditadura] maioria que eles têm nos órgãos eleitorais, mesmo pontapeando a Constituição da República e as leis.”
    4 min
  • Guineenses indignados com mau atendimento nos serviços públicos
    Os guineenses queixam-se que é cada vez mais complicado obter o bilhete de identidade. Para adquirir o documento básico tem que se contar com longos tempos de espera nas repartições públicas.Os serviços da identificação civil da Guiné-Bissau têm com seis centros de produção nas regiões do país. Mas não são os centros que imprime os bilhetes de identidade. A impressão é assegurada por um único centro localizado na capital, Bissau. E aqui juntam-se diariamente várias centenas de pessoas que precisam deste documento básico de identificação pessoal.
    A DW foi ao Centro de Produção de Bilhete de Identidade falar com guineenses presentes, que se mostram- insatisfeitos com o serviço prestado aos cidadãos. As queixam vão desde a demora no atendimento, passam pela fraca capacidade de produção e terminam na discriminação no atendimento dos cidadãos: "Estou aqui desde as sete horas da manhã em busca do formulário, mas até agora não consegui”, diz um cidadão que realça estarem presentes cerca de duzentas pessoas desde as oito horas da manhã. Por vezes, diz, falta a eletricidade.
    Cidadãos indignados
    Outro guineense presente confirma: "É um pouco aborrecido; estou aqui desde a manhã para preencher um formulário. Preciso de um novo documento. Mas nada se resolve, está a ser difícil, e, como pode ver, há esta a fila e há dificuldades”.
    Entre os entrevistados, há quem peça mais centros de produção do bilhete de identidade como forma de evitar as multidões nos serviços da identificação civil: "Que descentralizem os locais da produção do bilhete de identidade, pelo menos que haja um em cinco ou seis bairros, assim não nos agrupamos aqui”.
    Uma cidadã revoltada denunciou a conduta imprópria dos funcionários e o tratamento desigual dos utentes: "Hoje faz três dias que venho aqui. Vou e venho sem conseguir nada. Nós esperamos na fila, aí chega alguém, passa à frente, entra, resolve e vai embora”, queixa-se à DW África. Acresce que muitas vezes pessoas passam à frente na própria fila de espera.
    Prioridade para alguns
    A DW tentou, sem sucesso, obter um comentário da Diretora-Geral dos Serviços da Identificação Civil.
    Está ainda a causar polémica no país um despacho da Ministra da Justiça e dos Direitos Humanos, Ruth Monteiro, que reserva prioridade para de atendimento em todos os serviços do Ministério, inclusive no centro de produção de bilhete de identidade, a magistrados e advogados. Grávidas e idosos constam na última posição de prioridades e pessoas com deficiência não são mencionadas.
    O jurista Luís Peti considera que o despacho em causa não é discriminatório, mas devia levar em conta as pessoas com deficiência: "Por causa do seu estado, as pessoas com deficiência não conseguem ficar em filas por longas horas”.
    Milhões de africanos sem cartão de identidade
    Mais de 500 milhões de africanos não têm cartão de identidade e cerca de 120 milhões de crianças vivem sem registo de nascimento, segundo dados divulgados hoje pela Comissão Económica para África das Nações Unidas (ECA)."Mais de 500 milhões de pessoas em África não têm cartão de identidade. Deste número, cerca de 120 milhões são crianças sem registo de nascimento", adiantou a ECA.
    Os dados foram avançados na véspera do Dia Africano do Registo Civil e das Estatísticas Vitais, que se assinala no sábado (10.08.) pelo segundo ano consecutivo.
    A efeméride pretende sublinhar a importância de ter documentos de identificação na proteção dos direitos dos cidadãos ao longo da vida e na promoção da sua inclusão nas sociedades.
    Registo de nascimento universal
    Numa declaração a propósito, o diretor do Centro Africano de Estatística da ECA, Oliver Chinganya, sublinhou a necessidade de aumentar a perceção pública da importância de "tornar todos visíveis através do registo de nascimento universal".
    "Infelizmente, em África a procura pelos serviços de registo mantém-se fraca porque muitas pessoas não têm a real consciência da importância do registo civil para si e para as suas famílias, bem como das implicações que isto tem na melhoria do acesso a serviços públicos essenciais" como escolas, serviços de saúde ou benefícios sociais, disse.Oliver Chinganya lembrou a meta da "identificação legal para todos, incluindo o registo de nascimento, até 2030", prevista nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, bem como o reconhecimento do registo civil como um pré-requisito para o crescimento e o desenvolvimento de África pela Agenda 2063 da União Africana.
    Reconhecimento perante a lei
    "O registo universal de nascimento fornece a cada criança um certificado de nascimento, um documento exigido para garantir o direito básico a um nome, identidade e nacionalidade. É um documento legal essencial para garantir o reconhecimento dos cidadãos perante a lei e para salvaguardar os seus direitos", enfatizou.
    Como documento legal e prova da idade, ajuda a prevenir as violações dos direitos das crianças, incluindo casamentos forçados, tráfico, trabalho infantil e uso de crianças soldado, especialmente entre as populações vulneráveis ou marginalizadas, prosseguiu.
    Oliver Chinganya considerou ainda essencial a existência de um sistema de registo civil e de estatísticas vitais para a construção de sistemas administrativos modernos e para a promoção da boa governação.
    "O registo civil aumenta a credibilidade das administrações nacionais e locais e melhora a capacidade de fornecer serviços sociais, ajudando a definir quais os serviços necessários, onde e por quem", disse.
    Entre os países lusófonos, metade da população de Angola, pelo menos 14 milhões de angolanos, não tem registo de nascimento ou bilhete de identidade, enquanto em Moçambique apenas 47% da população registou as crianças à nascença.
    Na Guiné-Bissau, os dados mais recentes apontam que menos de um quarto das crianças até aos cinco anos estão registadas.
    3 min
  • António Marcos: de pugilista a músico de marrabenta
    Pugilista no tempo colonial, António Marcos é hoje um músico de referência a nível nacional e internacional. É um promotor da marrabenta, ritmo e dança tradicionais moçambicanas que quer passar às novas gerações.Foi pugilista entre 1967 e 1980. Conquistou o título de campeão nacional. Desse período não gosta de falar, mas confessa com orgulho que só sabia bater. Batia dos 59 a 64 quilos. Também foi empregado doméstico no tempo colonial.
    O gosto pela música começa aos oito anos.
    António Lodingue Matusse, mais conhecido como António Marcos, diz que não gostava dos trovadores, "porque um trovador era aquele que pegava na viola, ia e nunca mais regressava". A mãe, Rosa Mugabe, não queria que ele fosse um trovador.
    "Cada vez que eu fazia uma guitarra de lata de azeite de oliveira de um litro a minha mãe partia. Eu fazia e a minha mãe partia", recorda o músico, natural da cidade de Gaza.
    A viola que "fabricava" com persistência acabou por ser útil porque servia para espantar os macacos que se aproximavam da horta da família à procura de alimento. Era ao som desse instrumento que os afugentava.
    "Com aquela viola de lata, corria à volta da machamba a tocar, espantando os macacos, antes de ir para a escola ou quando regressava", conta António Marcos.
    Da inspiração ao primeiro disco
    Mais tarde, a sorte bateu-lhe a porta. O tio, Carlos Mugabe, que trabalhava nas minas da África do Sul, aposta nele. Ofereceu-lhe uma viola em 1962. No ano seguinte, foi a Lourenço Marques (atual Maputo) e entrou em contacto com outros músicos.
    "Um deles, que me dava ânimo de fazer música, chamava-se Feliciano Bendá", diz. "Esse homem descobriu-me quando eu trabalhava como empregado doméstico. Veio ter comigo e disse 'vamos continuar'. E continuámos a tocar. Foi-me ensinando cada vez mais sem eu me aperceber que ia ser um músico. Tocava aquilo por divertimento."
    A sorte coloca-o noutro patamar quando é identificado por um empresário que procurava novos talentos. Acaba por ser recrutado e levado para os estúdios de gravação das Produções Golo, onde gravou o seu primeiro disco (single) em vinil.
    "Veio depois o Fernando Ferreira, das Produções 1001. Rebocou-me também, fui gravar. É aí que começou a música. Senti-me já músico. Lancei o primeiro disco em 1970. Faço agora 49 anos de carreira profissional."
    António Marcos, a caminho dos 70 anos de idade, foi evoluindo com o tempo, como ele próprio afirma. Mas não se lembra quantos discos single gravou. Lembra-se sim do seu primeiro concerto na África do Sul.
    "Depois fui para a Suazilândia, no festival suazi. E começou aí a festa…"
    Daí nunca mais parou. Até 2005, integrou o projeto Mabulu, do qual foi um dos fundadores. Para lá do norte de África, que conhece como as palmas das mãos, também guarda muitas referências de vários países europeus por onde passou, entre os quais a Alemanha, Áustria, Polónia, França, Itália, Holanda, Suíça, Inglaterra e Portugal.
    "A música planta-se no coração"
    Este natural da província de Gaza canta sempre em changana, a sua língua materna. E não vacila em relação à linha das canções que compõe, suportadas pela força da marrabenta.
    "Quero manter a marrabenta, porque a marrabenta é aquilo que me identifica. Não só a mim. Identifica também Moçambique", afirma António Marcos.
    Para ele, este estilo de música dançável "não é coisa passageira como o vento que passa. Nasceu para ficar", reforça. Por isso, com a idade que tem, decidiu passar a sua experiência aos mais jovens, em defesa da preservação da marrabenta original feita à guitarrada e com bateria manual.
    "Eu trabalho com os meus filhos, meus netos e filhos dos outros conterrâneos", diz. "É o caso de Domingos Honwana. Temos o Bernardo Domingos [filho do popular músico moçambicano Xidiminguana]; tenho o Sérgio Marcos, meu filho, e o meu neto também, o Joaquim. Todos são jovens."
    "Estou a semear, a plantar tudo aquilo, porque a música não se planta no chão, planta-se na mente de cada um de nós ou no coração", acentua António Marcos.
    É com coração e humildade que retrata os problemas sociais, assim como também fala da paz em Moçambique. Sente essa paz mais na região sul e centro. No norte, existem "algumas confusões", algo que não sabe explicar. Refere-se aos ataques terroristas que abalam a vida das populações.
    "Tem essa confusão, mas cedo ou tarde tudo vai se acalmar. Nós rogamos para isso", afirma.
    António Marcos regressou a Moçambique depois de ter participado na última edição do Festival Músicas do Mundo de Sines, em Portugal. Sobre novos concertos não fala. É assunto que está nas mãos do seu agente, também músico, Joni Schwalbach. Nem sequer revela quais os novos projetos futuros - são ideias que guarda a sete chaves e só divulga no momento certo. Apenas insiste que a marrabenta vai expandir-se, porque há músicos como ele que a estão a semear.
    5 min
  • Cheias na Serra Leoa fazem mortos e desalojados
    As chuvas torrenciais que têm assolado a Serra Leoa desde a semana passada fizeram já sete vítimas mortais. Inundações na capital, Freetown, e noutras partes do país também deixaram oito mil pessoas desalojadas."Sou professor, perdi todos os meus materiais da escola, o meu certificado. A maior parte da minha propriedade não dá para recuperar, foi destruída com as cheias", conta à DW um dos muitos cidadãos que perderam tudo nas cheias.
    Outra vítima das cheias também relata que perdeu tudo: a cama, as roupas, tudo o que estava dentro da sua casa. "Neste momento não sei como recomeçar", confessa.
    Esta não é a primeira vez que as cheias deixam um rasto de destruição na Serra Leoa. Em 2017, as chuvas fortes que caíram sobre o país deixaram mais de 1000 vítimas mortais, 100 das quais morreram na sequência de um deslizamento de terra.
    Habitações precárias
    Na altura, tal como desta vez, a maioria das vítimas vivia em habitações precárias. Depois do sucedido em 2017, as autoridades pediram às pessoas para que abandonassem as áreas de risco.
    Em alguns casos, explica Claudia Anthony, correspondente da DW na Serra Leoa, o governo cedeu alguns terrenos em zonas propícias à habitação, que as pessoas acabaram por vender. Muitas delas estão agora de regresso a Freetwon, diz.
    Mas este não é o único motivo. Na opinião da correspondente da DW há uma outra questão, não menos importante: o dinheiro. "Os terrenos na Serra Leoa são muito caros. A maioria das pessoas que chega a Freetown vem das províncias. Procura empregos, melhores oportunidades e melhores escolas. Então, quando alguém com dinheiro lhes propõe comprar os terrenos, eles vendem", explica.
    É "urgente" intervenção do governo central
    No país, há quem aponte o dedo ao governo no que diz respeito à prevenção deste tipo de desastres. No entanto, Claudia Anthony afirma que tem havido alguns progressos na capital, por exemplo, ao nível dos esgotos e limpeza. "Hoje, a cidade está muito mais limpa do que há um ano atrás", garante.
    Ainda assim, a correspondente da DW na Serra Leoa diz que é "urgente que haja uma ação ao nível do governo central" nestas zonas de risco. "O Governo tem de agir e intervir. Deve tomar uma decisão, informar [a população] e mover essas pessoas. Garantir que elas passam a viver nos sítios que forem designados ", defende.
    O Instituto de Meteorologia já alertou que não são esperadas melhorias no tempo nos próximos dias e as chuvas fortes vão continuar. O governo, em parceria com várias organizações, está já a avaliar os danos e a distribuir ajuda aos mais afetados. E continua a aconselhar as pessoas que vivem nas áreas de maior risco a deixar as suas casas.
    4 min
  • Projetos de exploração ameaçam Parque de Bazaruto
    Operadores turísticos e residentes pedem interrupção de exploração de areias pesadas, gás e petróleo, em prol da proteção do Parque de Bazaruto. Governo diz que ainda não emitiu qualquer autorização de exploração.População e operadores turísticos no norte da província de Inhambane reclamam da destruição do ecossistema marinho, supostamente protagonizada pela multinacional sul-africana Sasol.
    Yassine Amugy, presidente da Associação de Turismo de Vilankulo, afirma haver mortes de golfinhos desde 2008, quando a empresa começou pesquisas de exploração de petróleo, alegadamente, sem autorização do Estado.
    "Em outubro, tivemos 22 golfinhos [mortos]. Este processo de perder animais [cresce] por ambição nossa", diz.
    Impacto ambiental e violação da lei
    Pouco mais de dez anos depois, durante as auscultações públicas no início de julho deste ano, o projeto apresentado pela Sasol foi chumbado pelos participantes, que apontaram impactos negativos para o futuro do meio ambiente.
    Por isso, Yassine Amugy apela às autoridades para que não aprovem o projeto e diz que as mensagens pela preservação do ecossistema já foram dadas.
    Entretanto, segundo Amugy, a Ilha de São Sebastião, no Parque Nacional de Bazaruto, já foi entregue a uma empresa chinesa para a exploração de areias pesadas. O Centro de Integridade Pública (CIP) de Moçambique prometeu juntar-se à população para defender a região.
    Enquanto isso, Nelson Alfredo, porta-voz do Centro Terra Viva, vocacionado na proteção do meio ambiente, diz que as empresas e o Governo estão a violar a lei, o que no futuro poderá resultar na devastação do ecossistema.
    "É proibido a realização de pesquisas nas zonas de conservação, viola a legislação moçambicana. Se avançar um projeto desta natureza, as consequências serão devastadoras", alerta.
    Licenças não foram concedidas
    No entanto, de acordo com o governo, nenhuma empresa recebeu licença para a exploração de petróleo e areias pesadas no Parque Nacional de Bazaruto.
    Salomão Mujoi, diretor provincial dos Recursos Minerais e Energia em Inhambane, afirma que, só depois que as empresas receberem as licenças é que irão avançar com o estudo do impacto ambiental para obter o direito à exploração. "Primeiro será feita a identificação das medidas de mitigação para, depois, avançar para fase da exploração", explica.
    A DW África tentou ouvir a Sasol sobre as acusações, mas a empresa não quis prestar esclarecimentos.
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  • Fome e seca no sul de Angola: Estado de emergência já devia ter sido declarado?
    Se Angola declarar o estado de emergência pode ter mais apoios da comunidade internacional e assim ter mais meios para combater o problema da seca e da fome no sul do país.Mais de dois milhões de angolanos são afetados pela fome e seca, indica relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Entre as vítimas há mais de 500 mil crianças com menos de cinco anos. ONU estima que o ano de 2020 a situação poderá vir a piorar.
    Angola também tem sido atingida pelos efeitos das alterações climáticas. Isso tem afetado as populações mais a sul, sobretudo a nível económico e a agricultura. Os criadores de gado por exemplo sofreram algumas perdas e têm sido aliciados a vender os seus animais abaixo do valor de mercado. Milhares de famílias têm sofrido com a situação e inclusive as aulas já tiveram de ser interrompidas em algumas alturas.
    Contudo o maior problema é mesmo a escassez de alimentos, que já levou a uma grande onda solidária por todo o país. Em maio passado o Presidente angolano João Lourenço visitou duas das províncias mais afetadas pela seca, Namibe e Cunene. Nessa visita foram anunciados avultados montantes financeiros para combater a seca na região.
    Situação deve ser encarada com maior preocupação
    Em declarações à DW África Lindo Bernardo Tito, jurista e deputado independente, diz que o Estado deve encarar a situação alimentar e da seca nas províncias da Huila, Namibe, Cunene e Cuando Cubango com maior preocupação."A crise é de tal maneira profunda que está a levar a ocorrência de mortes em números surpreendentes em algumas localidades e é óbvio que o Estado devia encarar essa situação com alguma preocupação”, diz Lindo Bernardo Tito.
    Nas zonas afetadas também há relatos de morte de pessoas e de gato por falta de água e alimentação. O jornalista e analista angolano Ilídio Manuel não esconde a sua preocupação.
    "Muitas populações estão a viver de frutos silvestres. Isso quer dizer que estão a se alimentar dos mesmos frutos que os animais”, relata Ilídio Manuel.
    Calamidade pública
    Segundo a lei angolana a " verificação ou iminência de calamidade pública” é um dos pressupostos para se declarar estado de sítio ou de emergência.
    Ilídio Manuel não tem dúvidas de que uma eventual atitude do género por parte do governo de Luanda ajudaria no combate a crise alimentar que assola a região sul do país.
    "Uma situação de emergência traria vantagens para o país (porque haveria) uma mobilização da comunidade internacional no sentido de ajudar o país. O que está em causa são vidas humanas e seria bom que enterrássemos um pouco esse orgulho”, esclarece o jornalista angolano.
    Lindo Bernardo Tito concorda com "medidas excecionais " são necessárias e diz o seguinte. "A questão da fome e da pobreza já merecem uma intervenção mais profunda do Estado com medidas excepcionais por ser hoje uma questão que atinge a dimensão de uma catástrofe de natureza mais profunda e de amplitude nacional”.
    Porém, para se declarar estado de sítio ou de emergência, o Presidente angolano João Lourenço deve ouvir os membros do seu Executivo "mediante autorização da Assembleia Nacional”. A seca afeta mais um milhão de habitantes em todo o país.
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  • Urge reformar o sistema alimentar global, alerta relatório
    Um relatório do IPCC, órgão científico da ONU, destaca a forte ligação entre o uso da terra e as mudanças climáticas. Só reformas fundamentais poderão garantir que ninguém mais passe fome no mundo.O mais recente Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), publicado a 8 de Agosto fala de uma espécie de círculo vicioso: solos e florestas insalubres exacerbam a mudança climática. Por seu lado, o aquecimento global tem efeitos negativos sobre as florestas e a saúde dos solos.
    As conclusões do IPCC são o resultado de dois anos de trabalho de 103 especialistas de 52 países. O relatório foi aprovado pelos países membros do painel. A crer no documento, o futuro é sombrio. Se o aquecimento global ultrapassar os dois graus centígrados estabelecidos no Acordo de Paris, é muito provável que terras férteis se transformem em desertos, a infraestrutura se desmorone quando derreter a camada permanente de gelo, o chamado permafrost, e a seca e os eventos climáticos extremos coloquem em risco o sistema alimentar.
    Os autores do IPCC recomendam medidas passíveis de evitar os piores danos. Alisher Mirzabaev , um dos co-autores, disse à DW ter esperança que o relatório tenha algum impacto sobre "as políticas que promoverão a gestão sustentável da terra e sistemas alimentares sustentáveis".
    Principais conclusões do relatório:
    O uso da terra é responsável por cerca de 23% das emissões globais de gases de efeito estufa. As emissões de CO2 provêm principalmente do desmatamento de florestas para novas terras agrícolas, das emissões de metano do gado e dos campos de arroz.
    Se as emissões continuarem a aumentar ao ritmo atual, a segurança alimentar estará gravemente ameaçada por fatores como a perturbação das cadeias alimentares resultante de fenómenos meteorológicos extremos, uma diminuição do rendimento das culturas e um teor mais baixo de nutrientes nos alimentos que cultivamos.
    Num cenário de aquecimento de 1,5 graus, prevê-se que 178 milhões de pessoas sofram de falta de água e de desertificação até 2050. Num cenário de aquecimento de dois graus, esse número aumenta para 220 milhões de pessoas em todo o mundo durante o mesmo período de tempo.
    Se os esforços globais conseguirem uma mudança para uma utilização mais sustentável do solo, os solos e as árvores poderão desempenhar um papel determinante na redução das consequências das alterações climáticas.
    Juntar forças com solos e florestas
    Os solos e as florestas são aliados perfeitos contra as alterações climáticas. Atuam como sumidouros de carbono e reservatórios naturais que impedem que o CO2 chegue à atmosfera. Barron Joseph Orr, cientista principal da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, diz que a gestão insustentável transforma solos e florestas no oposto: ambos passam a contribuir de forma significativa para a mudança climática.Da área terrestre do mundo não coberta por gelo, cerca de 70% já estão a ser usados para a produção de alimentos, têxteis e combustíveis. Ecossistemas como prados, embora muitas vezes ignorados, são fundamentais para um clima estável.
    Estas vastas paisagens, em grande parte desprovidas de árvores e arbustos, funcionam como enormes sumidouros de carbono. Permitem ainda que o gado possa pastar sem derrubar árvores. Mas a tendência para o desenvolvimento desta terra para as culturas significa uma maior libertação de CO2 para a atmosfera.
    Consequências desastrosas
    João Campari, líder global de práticas alimentares na organização não-governamental WWF International lamenta que a grande parte da atenção do mundo se concentre nas florestas. "Savanas e pradarias são paisagens que precisamos de abordar com urgência. Mais de 50% da conversão para produção frutífera ocorre em pradarias e savana", disse Campari à DW.O relatório mostra como o nosso sistema alimentar contribui grandemente para as alterações climáticas, mas é também fortemente afetado pelas suas consequências.
    Prevê-se que as colheitas diminuam devido às alterações climáticas, causando um aumento dos preços dos alimentos. Os preços mundiais dos cereais poderão subir até 23% até 2050, diz o relatório do IPCC.
    Acresce que o aumento dos eventos climáticos extremos ameaça perturbar as cadeias alimentares, o que também terá um impacto sobre os preços. Um terço dos alimentos produzidos anualmente já é perdido ou desperdiçado.
    O desperdício e a perda de alimentos - desde a energia que vai para a produção de alimentos até aos alimentos que apodrecem em aterros sanitários - são responsáveis por 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa.
    Chegou o momento de passar à ação
    O relatório descreve medidas para ajudar os solos a absorver mais carbono e evitar a sua erosão, como a substituição de monoculturas - uma única cultura, como soja ou milho, cultivada em uma grande área de terra - por uma variedade de culturas. Solos mais saudáveis produzem mais, são menos vulneráveis a condições climáticas extremas e levam a um fornecimento de alimentos e renda mais estáveis.
    Os especialistas dizem que essa mudança não vai acontecer sem a participação dosgovernantes e políticos. Chegou o momento de passar da fase das promessas para a acção, diz o relatório. Até agora, quando o objetivo é o desenvolvimento económico, a proteção da biodiversidade não consta nos planos. Mas essa abordagem já não é viável.
    Também os cidadãos não devem ficar de braços cruzados, avisam os investigadores. Mas nem sempre é fácil escolher o caminho certo, porque tudo tem um impacto; comer carne ou não comer, comprar fruta ou não comprar.
    "Não há receita mágica", diz Campari. Mas um passo importante é uma maior conscientização sobre o que consumimos e como o consumimos, além de uma dieta mais diversificada: 75% dos alimentos do mundo vêm de apenas 12 plantas e cinco espécies animais.
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