Em entrevista à DW, deputado Olívio Quilumbo critica silêncio das instituições no caso Man Gena e acusa autoridades moçambicanas de "conivência" por não darem tratamento adequado ao cidadão angolano retido em Maputo.O cidadão angolano Gerson Eugénio Quintas, mais conhecido como Man Gena, continua refugiado em Moçambique com a família, após ter denunciado o suposto envolvimento de altas figuras da polícia de Angola em redes de tráfico de drogas. Man Gena está em Maputo desde fevereiro por alegadas ameaças de morte.
Em entrevista à DW, o deputado da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Olívio Quilumbo, tece críticas à forma como o caso tem sido tratado, tanto pelas autoridades angolanas como por Moçambique.
Quilumbo - que chefiou uma delegação parlamentar da UNITA numa visita a Maputo no final de março - defende que a Procuradoria-Geral da República de Angola conduza uma "investigação profunda" diante das "graves" denúncias feitas por Man Gena.
DW África: Qual o posicionamento da UNITA sobre o caso Man Gena?
Olívio Quilumbo (OQ): A UNITA advoga um Estado Democrático de Direito, onde os cidadãos têm direitos, liberdades e garantias. Isso significaria que, independentemente de as pessoas estarem ou não supostamente ligadas ao crime, merecem ser tratadas como cidadãos. E, como cidadãos, o que encontramos em Moçambique seria exatamente o contrário do que a UNITA faria.
DW África: Não tem havido pronunciamentos das autoridades governamentais em Angola sobre o caso. No seu entender, o que tem falhado?
OQ: Falha a comunicação, sobretudo. Falha a responsabilização e a proteção dos cidadãos. Falha também a relação bilateral, que ultrapassa o ambiente político-partidário - porque a FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique] e o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] são "siameses", são do mesmo espírito político e ideológico.
Este é um assunto muito sério em Moçambique. A sociedade civil está muito envolvida, e isso é muito bom, mas os partidos políticos homólogos à UNITA, ao nível de Moçambique, também estão muito envolvidos no assunto. Fomos [a Maputo] nessa perspetiva de busca de esclarecimento sobre a situação desses cidadãos angolanos, e foi também uma visita humanitária.
Nós não tivemos contacto com eles. Contactámos por telefone, e eles deram-nos um panorama geral do assunto.
As instituições não se pronunciaram até agora, mas foram notificadas, tanto em Angola quanto em Moçambique. O único pronunciamento público que temos é o do senhor embaixador de Angola em Moçambique [João Manuel]. Nós tivemos contacto com as autoridades moçambicanas. Tentamos solicitar um encontro com as autoridades, não foi possível. Solicitámos por escrito e indeferiram o nosso pedido. Não permitiram a visita, nem permitiram esclarecimentos. Portanto, só temos uma posição de silêncio das instituições públicas, o que complica ainda mais a situação do ponto de vista da proteção do cidadão, visto que o pior infelizmente acabou acontecendo, que é a perda da vida do recém-nascido.
DW África: Perante o que acabou de frisar, critica então também a forma como Moçambique tem lidado com o caso.
OQ: Absolutamente. As autoridades moçambicanas foram coniventes, não deram o tratamento adequado ao cidadão Man Gena e à sua família. [A esposa de Man Gena] não teve acesso a consultas pré-natal, como devia ter.
Eles estão retidos. Não estão nem detidos, nem presos. O cidadão retido é mais acessível do ponto de vista do contacto - e, mesmo que ele tivesse sido preso, julgado e condenado, tem direito a visita. Não deviam estar nessas condições. Nós fomos pressionar para que se desse a esses cidadãos o tratamento adequado nesse estágio de situação, o que não aconteceu.
[O que constatámos foi] pressão psicológica sobre a senhora, falta de tratamento pré-natal, a separação entre ela e o esposo durante quase um mês, a má alimentação - claro, para uma mulher grávida o resultado é fatal.
DW África: O ministro angolano do Interior, Eugénio Laborinho, já negou o envolvimento de altas patentes das forças de segurança em redes de tráfico de drogas. Defende a necessidade de uma investigação independente diante das denúncias de Man Gena?
OQ: Eu acho que sim. E solicitámos, enquanto parlamentares, que o Governo de Angola, em função das gravíssimas acusações que envolvem supostamente altíssimas patentes dos serviços castrenses em Angola, faça uma investigação profunda para esclarecer o assunto, para não ser mais um boato.
Eu acho que foram acusações muito fortes e devem ser as razões que levaram Man Gena a sair de Angola, por se sentir inseguro, e, a partir daí, o Estado, no caso, a PGR [Procuradoria-Geral da República], deve usar os seus mecanismos de investigação para aferir a veracidade dessas acusações, que são muito graves e comprometem tanto o combate à corrupção, quanto ao crime organizado, que tem sido a luta do MPLA - embora, deste ponto de vista, demonstre que está em contramão, porque há uma realidade trazida por um cidadão que deve ser investigada e esclarecida.