África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle

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África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle episodes

  • O "coração da redação" bate mais forte na hora da despedida
    Uma "amiga com A grande". Para muitos, uma mãe. Beatriz Brücken, a colega mais querida da redação, despede-se depois de 32 anos na DW. Só deixa saudades e um lugar especial no coração de todos os que se cruzaram com ela."Quem quer café, quem quer chá?" Uma frase que muitos se habituaram a ouvir bem cedo na redação, acompanhada de bolos, boa disposição e uma palavra amiga. Porque a generosidade da Beatriz entrava na redação logo pela manhã, reconfortante como o cheiro de pão quente.
    "A Beatriz tem aquele dom de melhorar os nossos dias, todos os dias sem exceção. Seja com o bom dia acompanhado daquela leveza que contagia toda a gente, ou com um gesto que pode parecer muito simples, mas que para nós é muito especial, que é quando ela traz um pãozinho de leite para quem está a trabalhar na DW desde madrugada", lembra Maria João Pinto.
    "Vou sentir falta, de manhã, de levar um café ou um bolinho", confessa "a nossa kolega", como também é conhecida na redação Português para África. "É uma amiga com A grande. Todos aprendemos muito com ela ao longo destes anos. Ficamos felizes porque sabemos que vai para uma nova fase, de descanso merecido, novas aventuras, mas também ficamos tristes porque a DW sem a nossa kolega não será mais a mesma", lamenta Maria João, que não é a única com o coração dividido por estes dias.
    Também Nádia Issufo já sente saudades da "mãe" de todos os colegas. "É um amor de pessoa. Vivo cá na Alemanha há cerca de 14 anos e a única pessoa que para mim é como uma mãe é a Beatriz. Ela cuida, ensina, dá carinho, é meiga, é tudo de bom. E ela é assim com toda a redação", destaca.
    Já para não falar das muitas gargalhadas e da alegria contagiante de Beatriz. "É só boa disposição. Com a saída da Beatriz, desconfio que vamos morrer um pouco", diz a jornalista moçambicana. "Mas fico feliz porque a kolega, como ela nos chama, vai poder txilar e descansar mais!"
    Regresso a África através da DW
    Descanso que chega agora, depois de 32 anos na Deutsche Welle, onde durante muito tempo foi o principal elo de ligação entre a redação e os ouvintes e leitores.
    Beatriz Brücken tinha 10 anos quando deixou Portugal para viver em Angola, onde ficou até à independência. Voltou para Lisboa em 1974, com muitas recordações e saudades de Luanda na bagagem.
    Em 1986, emigrou para a Alemanha e África volta a entrar na sua vida. "Foi um presente que alguém me deu ou uma grande oportunidade de voltar outra vez, por outras palavras, a África", diz Beatriz com a voz embargada, como acontece cada vez que recorda Angola.
    "Quando comecei a trabalhar na DW, alguns colegas que vinham de África diziam: tu estiveste em Angola. Por causa da pronúncia. Eu lamento e tenho pena porque já perdi uma grande parte dessa pronúncia. Foi a única coisa que trouxe de Angola."
    Beatriz recorda-se bem do seu primeiro dia de trabalho na DW. "Lembro-me, estava meio com medo. Foi em abril de 1988. E lembro-me de alguns colegas, agora já não está lá nenhum. O último que fechou a porta, e que estava lá comigo, era o nosso colega Rocha."
    "A Beatriz é uma pessoa muito aberta, muito divertida", recorda António Rocha, que foi vice-chefe da redação até 2019 e trabalhou mais de 30 anos com a Beatriz. "De vez em quando, quando tínhamos aquele stress no trabalho, a Beatriz chegava com uma história, uma piada ou uma notícia que ouviu e era um momento relaxante para todos."
    "Tínhamos uma equipa muito sólida, muito solidária na altura, que era a malta dos africanos - nomeadamente o Juvenal Rodrigues, o Pedro Neto, o Gil Guimarães. E a Beatriz queria ter filhos, mas parece que não estava a conseguir. Então, surgiu o pau de Cabinda. E ela deve saber a história do pau de Cabinda…", recorda Rocha, com o riso maroto de quem partilhou muitos episódios e peripécias de outrora.
    Tal como António Rocha, também Cristina Krippahl, outra colega de trabalho e amiga "de décadas", só guarda boas memórias dos muitos anos de convívio com a Beatriz. "A Beatriz sempre foi a Beatriz. É uma pessoa na qual todos os colegas sempre puderam confiar, sempre teve um ouvido aberto para os colegas, sempre tentou animar e encorajar os colegas. Acho que não há ninguém, em toda a Deutsche Welle, entre todos os 3.000 colaboradores da DW, que possa encontrar alguma coisa negativa para dizer. Duvido!"
    "O coração da redação"
    "A Beatriz não aparece nas nossas emissões, mas ela faz parte do coração da nossa redação. E como o coração, que pode não se ver à primeira vista, ela esteve sempre presente, a fazer a redação funcionar e sem ela não seríamos o que somos", assegura Guilherme Correia da Silva.
    Além disso, diz o atual número dois da redação, "a maneira que a Beatriz tem de ver a vida, apesar das adversidades", é algo que o fascina, "porque trazia sempre um raio de sol mesmo nos dias mais cinzentos".
    "É o bálsamo da nossa redação", concorda Cristiane Vieira Teixeira, que vai sentir muitas saudades do lado humano que a Beatriz trazia à redação. "É aquela colega que te dá um abraço nos dias mais difíceis. Entrar na sala da Beatriz era ter a certeza que havia um chocolate ou um biscoito à tua espera, um chá e palavras de conforto e de carinho."
    Ouvintes de "olhos molhados"
    Beatriz Brücken também trabalhou alguns anos como assistente de produção na redação Português para África. Ia com os colegas para o estúdio, contactava os correspondentes e escolhia músicas para os programas. "Tive muita pena de acabar esse trabalho por causa do contacto com os colegas no estúdio", recorda.
    Depois começou o contacto com os ouvintes. "No princípio eram as cartas, não havia e-mails. As cartas, os selos, a caligrafia… o contacto era mais pessoal", conta Beatriz.
    "A Beatriz tem um cuidado especial com os ouvintes", elogia o atual chefe da redação, Johannes Beck. "Ela sempre respondeu com muito cuidado e com muito carinho às notícias dos ouvintes, às cartas que eles escrevem e com alguns até desenvolveu uma amizade à distância ao longo dos tantos anos que ela fez este serviço aqui na DW."
    "Desde que entrei nesta redação, há quase 15 anos, ela sempre esteve aqui e é tão difícil imaginar a redação sem a Beatriz, como foi e continua a ser difícil imaginar a redação sem o António Rocha", que se reformou em 2019, diz Johannes Beck.
    E a DW já confirmou que há pelo menos um ouvinte na Guiné-Bissau com uma lágrima no canto do olho. "Ela vai deixar-nos saudades", afirma o desolado Lafu Balde. "Sempre prestou um bom serviço à rádio. Mas a vida não acaba aqui. Vou sempre tentar entrar em contacto com ela."
    "Um ouvinte muito especial, como todos sabem, é o Lafu Balde, que está sempre em contacto connosco", lembra Beatriz Brücken.
    "Uma kota fixe"
    Episódios que a tenham marcado em mais de 30 anos na DW? "O ambiente que tenho com os meus colegas, que é cinco estrelas. A nossa camaradagem, quando íamos à cantina. Era só risos, era uma alegria!", responde Beatriz. "Ou quando vinham novos estagiários. Sou a mãe, quase!"
    "Um episódio muito engraçado, e não há muito tempo, foi quando fui buscar o nosso colega Borralho ao comboio. Lá vinha ele, passo a passo, com a sua mochila, como se nada fosse. E eu perguntei-lhe: pô, Borralho, tu és tão viajado e agora a tua colega tem de te vir buscar ao comboio?", recorda.
    "A Beatriz é uma kota fixe – é assim que nós tratamos os mais velhos aqui em Angola", explica Borralho Ndomba, que estagiou na redação em Bona, em 2019. "Também foi uma boa mãe para mim quando estive aí na Alemanha. Sempre cuidou bem de mim e acredito que tenha cuidado também de outro pessoal que passou na redação. E é assim que ela cuida dos colegas, é uma pessoa amável", elogia o correspondente em Luanda.
    "A kota Beatriz é uma pessoa excecional e uma figura indelével da nossa redação", concorda Braima Darame. "Tem um coração enorme, recebe todo o mundo como se fosse um familiar." O jornalista guineense lembra-se como se fosse hoje da primeira vez que se cruzou com Beatriz na DW. "Eu vinha para a formação de correspondente na altura, ela chamou-me logo colega e eu senti-me tão à vontade. Esta é uma amizade que vai continuar para o resto da vida", garante.
    Também o colega Thiago Melo se recorda muito bem do seu primeiro dia na redação. "Foi ela que me recebeu e me apresentou aos colegas. Sempre nos tratou com muito carinho e claro que nos vamos lembrar dela exatamente assim, porque afinal de contas o carinho, o respeito, o companheirismo e a amizade que ela nos ofereceu nesta redação com certeza vão ser as características que vamos lembrar sempre", diz.
    Agora, os colegas terão de aprender a sobreviver na redação sem a Beatriz, como sugere Raquel Loureiro: "Não sei o que é estar na DW sem a Beatriz. E por muito que saiba que começa agora uma nova fase, cheia de coisas boas, também não posso mentir e dizer que não estamos tristes, porque estamos."
    "Nem acredito que se vai embora! ", diz também Nuno de Noronha, que vai sentir muito a falta dos cafés, das brincadeiras e acima de tudo do "espírito sempre alegre" da kolega. E só espera que Beatriz aproveite esta nova fase da sua vida "como aquelas kotas alemãs que sabem tratar de si."
    Projetos futuros: Regresso a Luanda?
    Quanto a projetos futuros, Beatriz já tem pelo menos um na manga. "Há uma organização aqui na Alemanha que acolhe crianças de vários países, em especial de Angola. Vêm doentes, são aqui tratadas, ficam durante um tempo e depois regressam outra vez ao seu país. E isso, já há muito tempo, é o que gostaria de fazer. Se tiver sorte, lá vou eu outra vez: África, Angola", sonha já Beatriz.
    "Esse vai ser o meu projeto. Gosto de trabalhar com os meus colegas, que são adultos, mas também gosto de crianças. E agora deixo os adultos e vou para as crianças!"
    Borralho Ndomba sugere que Beatriz escreva um livro de memórias, com "todas aquelas histórias engraçadas que sempre nos contou", oferecendo-se desde já para escrever o prefácio. E deixa outro convite: "Estarei aqui à tua espera, para passares uma temporada aqui na banda, conhecer o teu antigo bairro, ver como mudou. Comemos um funge, um mufete, vamos conhecer as praias lindas de Angola. Sucesso e tenha boa saúde, minha kota! Te amo!"
    "Agora vamos ter muito mais tempo para nos encontrarmos e tomar o nosso cafezinho e comer o nosso pastel de nata!", convida também Cristina Krippahl.
    Na hora do adeus, ninguém se quer despedir, mas todos se desfazem em elogios à colega mais querida da redação. "A nossa 'kota Bia' vai fazer muita falta e deixar muita saudade", sublinha António de Deus.
    "Eu vou-me embora e não vou", promete Beatriz, não sem antes deixar uma mensagem "aos seus fãs", em especial em África. "Eu vou partir, mas eles vão ficar sempre comigo!"
    20 min
  • Moçambique: “Ossufo Momade foi erro de 'casting' da RENAMO”
    Em entrevista à DW África, o analista moçambicano Lourenço do Rosário avisa que as contestações à liderança da RENAMO têm que ser levadas a sério, caso o partido não queira “ditar o seu próprio fim”.O académico moçambicano Lourenço do Rosário acredita que as críticas internas no maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), à liderança do Ossufo Momade não podem continuar a ser ignoradas pelo maior partido da oposição. Do Rosário, que foi mediador nas negociação de paz entre a RENAMO e o Governo que se saldaram pelo acordo de 6 de agosto de 2019, diz que Momade não tem o carisma necessário para unificar o partido. A DW conversou com o académico.
    DW África: Como avalia as contestações internas dentro da RENAMO ao líder do partido, Ossufo Momade?
    Lourenço do Rosário (LdR): Verificamos que não só nas matas, com Mariano Nhongo, mas alguns militantes na cidade de Tete, já se manifestam contra o atual presidente. Portanto, a RENAMO está a cair aos bocados. E não é, neste momento, uma força, que possa, por si só, resolver este problema. É preciso que haja um movimento de coesão interna. A coesão exige que os órgãos sociais que saíram do congresso da RENAMO, que elegeram Ossufo Momade, tenham a capacidade de reunir e tentar encontrar um roteiro para poder resolver os problemas que a RENAMO está a ter neste momento.
    Leia também: Elias Dhlakama: "RENAMO tornou-se uma formiga"
    DW África: O que está por detrás destas contestações?
    LdR: Por aquilo que eu conheço do discurso de Afonso Dhlakama, por aquilo que eu conheço do pouco contacto que tive com Mariano Nhongo, por aquilo que eu conheço de alguns líderes que não estão nas matas, mas que contestam a liderança de Ossufo Momade, não se trata de um líder que consiga neste momento, congregar uma unanimidade dentro da RENAMO.
    DW África: Na zona centro do país ocorrem ataques armados atribuídos à Junta Militar da RENAMO de Mário Nhongo. Que análise faz destes ataques?
    LdR: Eu sempre desconfiei, depois da assinatura do acordo de paz de 6 de Agosto [de 2019], que este processo fosse líquido, na medida em que nem todas as coisas estavam tranquilas. E do ponto de vista do processo eleitoral, depois da morte de Dhlakama, quando Ossufo Momade é apresentado como coordenador para preparar o partido para o congresso, houve nitidamente um erro de "casting”. Ossufo Momade não era carismático de modo a poder dominar, como dominava Afonso Dhlkama, a ala militar e a ala política.
    DW África: Como devem ser tratadas as reivindicações de Mariano Nhongo?
    LdR: Acho que os órgãos sociais da RENAMO devem ter a coragem de convocar um conselho nacional e refletirem sobre esta questão; e não continuarem a assobiar para o lado, como se o problema não fosse deles. O problema é deles. Se a RENAMO civil continuar a dizer que o Nhongo é desertor, que não é problema deles, e por aí diante, e se o Presidente da República ou o Governo de Moçambique resolverem começar a conversar com o Nhongo, é o fim da RENAMO civil. Fica completamente desacreditada. E o Nhongo pode ganhar uma dimensão política que neste momento não tem. Acho que a RENAMO está numa encruzilhada bastante grande, e que pode, perfeitamente, ditar o seu próprio fim.
    4 min
  • Cabo Delgado: Mueda é o próximo distrito a ser ocupado pelos terroristas?
    Sim, acredita Joseph Hanlon. E o académico prevê que o Governo moçambicano possa ficar muito nervoso se Mueda for ocupado. "Estão a subir a montanha, para longe das áreas muçulmanas e a lutar contra os Makondes".Mueda poderá ser o próximo distrito a ser ocupado pelos terroristas, depois de Mocímboa da Praia e Muidumbe. Foi neste último distrito onde os terroristas fizeram a sua demonstração de força. Aí, em finais de outubro, decapitaram, destruíram e ocuparam. Ferosa Zacarias, diretora do Fórum das Rádios Comunitárias (FORCOM), conhece o terreno e conta que "das 26 aldeias que compõem o distrito de Muidumbe, 24 foram tomadas ou invadidas. Só temos informações de que os insurgentes não atacaram duas".
    Mas o início do domínio insurgente começou antes, em março tomaram o porto e aeroporto de Mocímboa da Praia e em agosto os terroristas anunciaram a tomada do distrito. Conversámos sobre a tendência expansionista dos terroristas com o académico e jornalista Joseph Hanlon.
    DW África: Mocímboa da Praia está nas mãos dos terroristas desde agosto passado e Muidumbe segue pelo mesmo caminho. Está mais do que claro que a intenção dos insurgentes é de uma ocupação da província...
    Joseph Hanlon (JH): Não, mas está claro que querem ocupar boa parte da província, particulamente a região norte de Cabo Delgado, que lhes possa permitir manter uma ligação com os insurgentes do sul da Tanzânia. O que estamos a ver no momento é literalmente uma subida. Os Makondes estão baseados no planalto de Mueda e Muidumbe é a descida do planalto em direção a Mocímboa da Praia, que já está sob seu controlo. O que eles estão a fazer é subir a montanha, para longe das áreas tradicionalmente muçulmanas, e a lutar contra os Makondes para tentar ocupar Mueda.
    DW África: Há gente em Mueda que reporta que os terroristas já estão à porta...
    JH: Se isso acontecer, poderá ser muito dramático, porque Mueda é o "forte", é a partir daqui que a guerra se está a travar. E se os militares e a polícia forem tão fracos a ponto de perderem Mueda, acho que o Governo vai ficar muito nervoso. E há todas estas declarações de ajuda internacional a Moçambique, mas a primeira coisa que os estrangeiros podem fazer é ajudar a liderança a entender que está perante os seus próprios cidadãos a lutar contra ela e que deve responder aos seus problemas.
    DW África: A demora e dificuldade do Estado moçambicano em recuperar essas regiões deixa mais do que evidente a sua incapacidade de travar os insurgentes. Que medida urgente o Estado deve tomar?
    JH: O mais importante é reconhecer que a causa da guerra não é uma insurgência islâmica externa. A causa da guerra é que a maioria das pessoas em Cabo Delgado está a ficar cada vez mais pobre e a desigualdade está a aumentar. As pessoas em Cabo Delgado não estão a beneficiar do gás, dos rubis e dos outros minerais porque os oligarcas da FRELIMO basicamente apoderaram-se dessa riqueza. A insurgência islâmica diz que impor a Lei de Sharia traria mais igualdade. Primeiro, a FRELIMO tem de entender que não pode continuar a culpar forças externas quando as pessoas estão a juntar-se aos insurgentes porque veem o seu próprio Governo como inimigo.
    DW África: A população de Muidumbe, por exemplo, relata que os terroristas estão muito bem armados e preparados isso pode revelar que há um apoio muito grande. Não acha estranho que até hoje o Governo não saiba exatamente quem apoia esses indivíduos?
    JH: Lembro-me dos tempos da RENAMO, no começo [o Governo] dizia exatamente a mesma coisa, não sabemos quem está por trás deles para podermos negociar. E quando Chissano se tornou Presidente disse que queria negociar e mandou encontrar as pessoas para negociar. E se Nyusi estiver seriamente interessado em negociar, pode encontrar as pessoas [por trás dos insurgentes] para negociar. Tenho a certeza que há gente em Pemba que falaria de bom grado. Se seria bem sucedida, não sei, mas a primeira coisa é chegar às pessoas para negociar. Toda a história sobre como lidar com uma guerra civil no final exige uma negociação.
    DW África: Qual é a sua opinião sobre a relação entre Moçambique e a Tanzânia no que concerne o terrorismo?
    JH: Até agora, não parece ter havido muita cooperação. Mas parece-me que a Tanzânia vai olhar para isto com mais cuidado, porque isso está a afetar o sul da Tanzânia. É preciso lembrar que o norte de Cabo Delgado tem mais contacto com a Tanzânia do que com o sul de Moçambique. Se olharmos para história da luta pela independência iniciada pelo povo de Mueda, olhando para os Makondes da Tanzânia, Julius Nyerere.... Primeiro, é preciso reconhecer que é um problema interno e não externo.
    DW África: Nota-se que as decapitações são executadas apenas em certos momentos. O que determina isso?
    JH: Se olharmos para a guerra com a RENAMO, ela também usou também essas táticas, queimando pessoas, cortando orelhas, seios das pessoas, etc. Precisavam de fazer isso para se estabelecerem como uma força que tinha de ser levada a sério e que a população tinha de temer. O que estamos a ver em Muidumbe é dizerem bem alto "tenham medo" e é o que um movimento de guerrilha tem de fazer. E todo o mundo deixou Mueda, todos os oligarcas aparentemente retiraram-se com as suas famílias de Mueda e isso é aterrorizar as pessoas. E usam essa tática na Síria, Iémen e noutros lugares, é uma tática de guerra.
    4 min
  • Cabo Delgado: Quando o coração é maior que a casa, cabe sempre mais um deslocado
    "Ter amor ao próximo" é tudo o que faz Awage Afido ao abrir as portas da sua casa a 20 deslocados que nunca viu antes. Esta é apenas uma entre centenas de pessoas bondosas de Pemba. E os hóspedes não escondem a gratidão.Chegaram à praia de Paquitequete aos milhares, hoje chegam menos. Os deslocados internos que fogem das atrocidades dos terroristas desembarcam desnorteados e desprovidos de quase tudo. Mas aqui os espera um abraço caloroso, um prato de comida, roupa e até um teto.
    "Ter amor ao próximo. Recebê-los aqui é uma ajuda, amanhã pode acontecer o mesmo connosco. O que a gente consegue é o que partilha. E somos mais de 20 pessoas nesta casa", diz a jovem Awage Afido, que abriu as portas da sua casa aos deslocados.
    "São família"
    Consegue acomodar tanta gente porque a casa dos pais é grande, conta. Mas, pelo gesto, percebe-se que o coração é maior que a casa. Dão significado ao adágio popular "onde come um comem dois".
    "Passamos a refeição todos juntos que nem [família], cozinhamos numa única panela", conta.
    A hospitalidade é uma das marcas de Paquitequete, bairro onde vive Awage. Quem conhece Pemba, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, sabe que os seus residentes praticamente nasceram de braços abertos. Contam que aqui as portas não se trancam, um gesto que merece gratidão de Zainaba, uma das hóspedes de Awage.
    A deslocada proveniente de Matemwe não esconde: "Sinto-me muito bem aqui e estou grata, agradeço pela hospitalidade e agradeço a Deus por ter conseguido chegar até aqui"
    Paquitequete, um novo lar
    Em Paquitequete, muitos são da etnia Kimwani, tal como muitos deslocados que chegam. Awage e Zainaba são Kimwanis. E a afitriã de 27 anos garante que o ambiente é de harmonia em sua casa, afinal os deslocados são "família", como diz. Na conversa com a DW, nunca os trata como estranhos.
    Garantir o pão a mais de 20 pessoas não é fácil. Mas a solidariedade é algo que em Pemba não para de florir: "Como trabalho na praia como ativista, há parceiros que fazem contribuição, porque lá na praia há pessoas que dormem ao relento. É [uma situação] muito triste, estamos a receber mortos, pessoas doentes."
    Awage é ativista da Kuendeleya, o coração de um amigo solidário, associação ainda em formação. Um gesto de humanismo que nasceu de um grupo de jovens no Whatsapp face à crise humanitária. O terrorismo, que começou em outubro de 2017, já fez aproximadamente 435 mil deslocados, empurrando-os para a miséria.
    "Há pessoas que estão a doar roupas, porque há crianças que chegam sem roupinhas, as mães contam que queimaram-lhes tudo e não têm nada para vestir. Mas há pessoas de bom coração que ajudam essas pessoas", revela ainda a ativista.
    "Não gostaria de depender de ajuda"
    Tal como a própria Awage, um poço de generosidade. Apesar de usufrir dela e estar grata à sua anfitriã, Zainaba, quer a sua independência e continuar a correr atrás dos seus sonhos:
    "Gostaria de ter o meu próprio teto e para a minha família e não gostaria de depender constantemente de apoios e mendigar apoios. Gostaria de voltar a ter o meu negócio, como antigamente."
    5 min
  • Moçambique: "Sustenta" e os dois lados da moeda
    Especialista elogia o ambicioso projeto agrícola, considerando que representa uma mudança em relação à política agrária. Contudo há também quem considere o "Sustenta" mal concebido. Monitoria é o que também se pede.Em Moçambique, o "Sustenta" é atualmente a estrela mais brilhosa do Governo do Presidente Filipe Nyusi. Na imprensa moçambicana o projeto agrícola mais audaz do país tem todas as atenções e comprova conquistas.
    De acordo com a página online do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, "o Sustenta é um programa nacional de integração da agricultura familiar em cadeias de valor produtivas, que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida dos agregados familiares rurais através da promoção de agricultura sustentável (social, económica e ambiental)."
    Lançado oficialmente em 2017, o programa ganha agora grande visibilidade, com ações como atribuição de meios aos agricultores.
    O que há de bom no "Sustenta"?
    Sobre o projeto nacional mais mediatizado do momento, o académico Elísio Macamo entende que "o que é positivo na iniciativa é a preocupação que se revela da parte do Governo de apostar na agricultura, de voltar a atacar o problema da insegurança alimentar. Isso é sempre bem-vindo, é bom".
    Embora Moçambique tenha um potencial agrícola imensurável, ele é pouco explorado.
    Já se propagandeou que a agricultura é o polo de desenvolvimento, mas muitos projetos nacionais que pretendiam alavancar o setor não sobreviveram, como por exemplo o do anterior Governo de Armando Guebuza dos "Sete Milhões", que revelaram problemas na atribuição e devolução de crédito no meio rural.
    Daí o ceticismo de alguns em relação a um dos programas agrícolas mais ambiciosos do país.
    "Sustenta" representa uma mudança
    Contudo, "o menino dos olhos bonitos" do "super-ministro" Celso Correia merece um voto de confiança pelo que tem de diferente na sua concepção.
    João Mosca é especialista em economia agrária e sociologia rural e destaca essa viragem.
    "O programa Sustenta, em termos de discurso, representa uma mudança fundamental em relação a prática anterior da política agrária em Moçambique. Dá um enfase diferente, mais acentuado sobre o setor familiar, pequenos produtores, e a sua interação em cadeias de valores, com o setor privado que tem um conjuntos de funções de dissiminação de técnica, de comercialização, de prestação de serviços", explica.
    Há dois anos, o norte da província central da Zambézia foi o berço do "Sustenta", mas ainda não foram analisados os resultados e duas campanhas agrícolas não são o suficiente para conclusões definitivas, sublinha Mosca.
    "Sustenta" e os seus erros de concepção
    Além disso, começando pela gênese do "Sustenta", também há motivos para se apontar o dedo ao projeto do momento em Moçambique.
    Elísio Macamo defende que "agora, é preciso ter também abertura de espírito suficiente para reconhecer que o programa não está bem elaborado, porque define mal o problema da agricultura no país".
    Para o académico, "o problema da agricultura não é a produtividade agrícola do setor familiar, mas sim do emprego no meio rural. Então, não adianta nada dar insumos, empréstimos a pessoas que vivem da agricultura de subsistência, se elas vivem da agricultura de subsistência porque não têm opção. Essa pessoa precisa de emprego, de reorientação profissional. são problemas muito sérios no programa que podem vir a prejudicar os resultados."
    Ou seja, há cautelas paralelamente às expetativas em relação ao Sustenta. A sociedade civil tem acompanhado a par e passo a implementação do projeto, fazendo o contra-peso.
    A ONG CDD questiona, por exemplo, sobre a interligação e coordenação do "Sustenta" com outras iniciativas de desenvolvimento rural para evitar a sobreposição de projetos e dispersão de recursos.
    De olho no "Sustenta"
    Enquanto as dúvidas não são devidamente esclarecidas os apelos são para a sua monitoria.
    O especialista em economia agrária e sociologia rural entende, contudo, que "há aqui uma esperança de ser diferente daquilo que tem sido até ao momento, porém, repito, há muitos riscos e por isso é preciso monitorar com muita atenção e monitorar persistentemente a implantação do projeto".
    E Mosca alerta ainda que é preciso "procurar sempre avaliar e informar a quem de direito para que medidas corretivas possam ser tomadas em tempo antes de acontecer uma situação crítica que possa comprometer a implementação do projeto."
    O "Sustenta" abrange o centro e norte do país, concretamente as áreas de grande potencial produtivo agrícola em termos de solo, clima e infraestrutura já existentes e ainda rede de pequenas empresas e emergente no meio rural. Conta com o financiamento do Banco Mundial de 40 a 80 milhões de dólares.
    4 min
  • Covid-19: Suspeita de sobrefaturação de obras em escolas moçambicanas
    Adjudicações milionárias para a melhoria das condições de saneamento nas escolas secundárias de Inhambane foram destinadas a uma única empresa de Maputo, sem concurso público. CIP denuncia falta de transparência.As escolas na província de Inhambane, sul de Moçambique, iniciaram as aulas sem ter melhorado as condições de saneamento.
    Em setembro deste ano, o Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos escolheu a empresa MHL Construções e Logística para a construção de 14 blocos sanitários, um sistema de abastecimento de água e a reabilitação de 30 sanitários nas seis escolas secundárias na província de Inhambane. 
    O contrato de quase 160 milhões de meticais (o equivalente a quase 1,9 milhões de euros) com a empresa de Maputo foi celebrado diretamente, sem concurso público. Até ao momento, no entanto, a empresa contratada não conseguiu entregar nenhuma obra combinada. E as aulas iniciaram nas escolas sem as mínimas condições de receber os alunos.
    Incuprimento prejudica escolas
    Domingos Chibindji, porta-voz da Direção Provincial de Educação em Inhambane, disse à DW África que falta água para a lavagem das mãos nas escolas, pois a empresa ainda não arrancou com as obras.
    "O maior constrangimento neste processo é a disponibilidade de água. Até ao momento, não há nenhum sanitário concluído e verificamos que ainda estamos um bocadinho atrasado neste processo", sublinhou.
    Paulito Pereira de Goveia, diretor da Escola Secundária 29 de Setembro, na cidade de Maxixe, critica o atraso nas obras. "Neste momento, não beneficiamos da reabilitação anunciada ao nível do ministério para garantir o arranque das aulas. Tivemos que fazer algumas atividades de melhoramento dos nossos sanitários via fundos da própria escola", afirmou.
    Empresas locais foram excluídas
    Nenhuma empresa ao nível local foi contratada para a reabilitação dos sanitários nas escolas secundárias de Inhambane. Isso levou empresários da região a manifestarem indignação contra o Governo numa carta dirigida à Secretaria do Estado na província.
    Inocêncio Bambo, presidente da Associação dos Empreiteiros da Província de Inhambane, diz que as empresas locais esperam assumir algumas obras, pois estão capacitadas para executar o trabalho. 
    "Nós fizemos uma carta à Secretaria do Estado com conhecimento de outras instituições a fim de manifestar isso, e estamos à espera. Os empreiteiros locais já mostraram que têm capacidade de fazer essas obras", afirmou.
    Falta de transparência
    As adjudicações diretas estão a trazer enormes prejuízos. Segundo o Centro de Integridade Pública (CIP) de Moçambique, a reabilitação de uma casa de banho na escola secundária chega a custar ao Estado moçambicano cerca de 7 milhões de meticais (o equivalente a mais de 80 mil euros), 24 vezes mais do que o preço normal.
    Egas Jossai, investigador do CIP, afirma que as adjudicações que o Governo fez não foram transparentes e carecem de fiscalização da sociedade civil. Jossai diz que o Governo está a colocar em risco a vida dos professores e alunos neste tempo de pandemia.
    "Desde o início, este processo não foi transparente. O Estado devia ter alocado as obras às empresas locais como forma de garantir celeridade de reabilitação. Nós, como  pais e encarregados, não vamos aceitar colocar os nossos filhos numa situação de risco para contrair a Covid-19", sublinhou.
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  • Cabo Verde: PAICV reforça presença nas autárquicas
    Nas autárquicas deste domingo (25.10), o maior partido da oposição conquistou oito câmaras municipais, mais seis do que em 2016. Já o MpD perdeu a liderança em cinco das 18 câmaras que detinha, incluindo a da capital.Foi a grande surpresa das oitavas eleições autárquicas cabo-verdianas realizadas este domingo (25.10): a derrota do partido no poder Movimento para a Democracia (MpD) e do presidente da Câmara Municipal da Praia, Óscar Santos, que se mostrou desapontado: "Não era o resultado que estávamos à espera, mas temos ainda até amanhã para ver o que aconteceu com calma, esperar pelo apuramento geral, mas em qualquer das circunstâncias nós aceitamos os resultados, a democracia é assim mesmo quando o povo fala tem sempre razão", afirmou.
    Óscar Santos vai ser substituído na Câmara Municipal da Praia por Francisco Carvalho, quadro do Ministério dos Negócios Estrangeiros que já foi Diretor Geral das Comunidades.
    "É uma vitória de todos os praienses"
    Reagindo aos resultados das eleições, o novo presidente da Câmara Municipal da Praia afirmou apenas que "esta é uma vitória da Praia e de todos os praienses". Francisco Carvalho falava ao lado de Janira Hopffer Almada, a líder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), que conquistou oito dos 22 municípios, ganhando assim novo fôlego para as eleições legislativas de 2021.
    Janira Hopffer Almada não escondeu a satisfação: "Quero realçar a importância desta vitória em oito câmaras municipais - entre as quais na capital do país, na Câmara de São Filipe, que sempre foi muito simbólica para o PAICV, e na Câmara da Boa Vista pela sua dimensão do ponto de vista turístico e do impacto que tem. Mas também não posso deixar de realçar as câmaras do Tarrafal e de São Domingos (ilha de Santiago), que nunca foram governadas pelo PAICV, e a nossa vitória em Ribeira Grande de Santiago pela primeira vez desde que estão a ser feitas eleições", disse Janira Hopffer Almada, realçando ainda o facto "do MpD - ter perdido a maioria absoluta em duas câmaras importantes: a Câmara Municipal de São Vicente e a de Santa Catarina de Santiago".
    O PAICV manteve ainda as câmaras municipais de Santa Cruz, na ilha de Santiago, e Mosteiros no Fogo.
    "Maioria votou MpD", diz coordenador do partido
    O MpD perdeu para o PAICV a liderança em cinco das 18 câmaras mas mantém o comando nos municípios do Sal, Maio, Brava, São Vicente, Tarrafal de São Nicolau, Porto Novo, Paul e Ribeira Grande de Santo Antão, Santa Catarina de Santiago, São Salvador do Mundo, São Lourenço dos Órgãos e São Miguel. Ou seja, lembrou António Maurício Santos, coordenador autárquico do Movimento para a Democracia, "pelos dados provisórios já publicados, o MpD venceu 14 das 22 câmaras do país. Continua a ser assim o maior partido autárquico cabo-verdiano. Uma maioria clara dos cabo-verdianos votou nos candidatos do MpD. Funcionou a democracia, perdemos algumas câmaras, ganhamos outras".
    A taxa de abstenção situou-se em 41%. Para esta votação estavam inscritos 337.083 eleitores, distribuídos por 864 mesas de voto em todo o arquipélago, um aumento de 34.073 eleitores (+11%) face às eleições municipais anteriores, em 2016.
    Nas eleições deste domingo concorreram 65 listas às assembleias municipais e 64 às câmaras municipais, das quais 53 de partidos políticos (de quatro partidos) e 12 de grupos de cidadãos, segundo dados da Comissão Nacional de Eleições.
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  • Guiné-Conacri: Oposição denuncia mortes e fraudes nas eleições
    Líder da oposição intensifica tensão na Guiné-Conacri após declarar unilateralmente a sua vitória nas eleições. Autoridades eleitorais desqualificam alegações de fraude e comunidade internacional pede calma a políticos.A União das Forças Democráticas da Guiné (UFDG), principal partido da oposição na Guiné, denunciou fraudes em "grande escala" nas eleições presidenciais de domingo (18.10). Por outro lado, as principais organizações regionais africanas consideraram as eleições regulares.
    O vice-presidente da UFDG, Fode Oussou Fofana, disse que o Presidente Alpha Condé, da Assembleia do Povo da Guiné (RPG), está "a fazer de tudo para alterar os resultados a seu favor". Fofana tinha anteriormente acusado a imprensa de usar todos os meios "para alterar os resultados".
    "Os administradores territoriais, as forças de defesa e segurança, ministros, altos funcionários do governo central e alguns magistrados estão todos mobilizados para levar a cabo esta fraude em grande escala", disse.
    O candidato da UFDG, Cellou Dalein Diallo, proclamou unilateralmente a sua vitória na segunda-feira (19.10), causando temores de uma escalda da violência pós-eleitoral no país. A Guiné-Conacri assiste há meses protestos violentos devido ao possível terceiro mandato do Presidente Alpha Condé.
    Fofana revelou que pelo menos quatro jovens morreram durante confrontos com as forças de segurança nos últimos dois dias em manifestações a favor do líder da oposição. "Estamos em luto pela morte de quatro adolescentes pelas forças de defesa e segurança sob as ordens de Alpha Condé", declarou.
    O Governo da Guiné-Conacri não confirmou as mortes e "lamentou profundamente" a declaração de vitória feita pelo líder opositor.
    "Prematura e nula"
    Segundo os representantes da oposição, a contagem paralela realizada pela UFDG indicaria a vitória de Cellou Dalein Diallo. Alpha Condé, por seu lado, quebrou o silêncio com uma pequena mensagem no Facebook: "#Você e eu. Saúdo a maturidade política dos nossos concidadãos. A Guiné é única e indivisível".
    A Comissão Eleitoral Nacional Independente (Ceni) anunciou na noite desta terça-feira (20.10) os primeiros resultados em quatro dos 38 círculos eleitorais da Guiné-Conacri, incluindo três na capital e nos seus arredores.
    Alpha Condé teria vencido por uma larga margem nos quatro círculos eleitorais, ultrapassando 50% na primeira ronda em três deles. Um funcionário da Ceni disse à agência de notícias AFP que, no entanto, era "impossível projetar" um resultado nacional apenas a partir destes primeiros números. A Ceni considerou "prematura" e "nula" a proclamação de vitória por Cellou Diallo.
    CEDEAO: "Justas e transparentes”
    Os observadores eleitorais da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da União Africana (UA) consideram que as presidenciais foram justas e transparentes.
    O chefe da missão da UA e ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo, Augustin Matata Ponyo, assinalou que "as eleições tiveram lugar num contexto político e eleitoral tenso, dando origem a receios legítimos de violência grave". Os observadores recomendaram aos partidos e atores políticos que preservem o clima atual de paz e espírito de conciliação, evitando discursos inflamados e provocações.
    Ponyo sugeriu que os representantes dos partidos demonstrem "espírito democrático e republicano, respeitando os resultados oficiais proclamados pelas autoridades competentes e utilizando os canais legais em caso de contestações".
    A ONU, em conjunto com a CEDEAO e a União Africana, apelou esta terça-feira à contenção na Guiné-Conacri enquanto se aguardam os resultados oficiais.
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  • Guiné-Conacri: Opositores falam em violência pós-eleitoral em caso de vitória de Condé
    Após votação sem "incidentes graves", oposição acusa Governo de "estratégia de fraude" para garantir terceiro mandato de Alpha Condé. Eleição na Guiné-Conacri é considerada de "alto risco" por observadores.A contagem de votos das eleições presidenciais começou na noite deste domingo (18.10) na Guiné-Conacri, após um dia calmo de votação. No entanto, já há temores de conflitos pós-eleitorais depois que o principal candidato da oposição sugeriu que o candidato à reeleição Alpha Condé, da Assembleia do Povo da Guiné (RPG), poderia fraudar o resultado do escrutínio.
    Mais de 5 milhões de eleitores foram chamados às urnas numa eleição considerada de alto risco, após semanas de protesto contra um possível terceiro mandato do atual Presidente.
    Falando a jornalistas este domingo, Condé apelou à paz. "Quero que as eleições sejam livres, democráticas e transparentes. Asseguramos que todas assembleias de voto estão protegidas. A Guiné-Conacri só pode se desenvolver se houver paz, segurança e unidade. Apelo a todos os candidatos a absterem-se da violência".
    O candidato da União das Forças Democráticas da Guiné (UFDG), Cellou Dalein Diallo - que pela terceira vez disputa a Presidência da República contra Alpha Condé – acusou o Governo de elaborar uma estratégia de fraude eleitoral.
    "Alpha Condé planeia a sua presidência vitalícia. Não quero desistir. No entanto, apelo a todos os meus apoiantes para que mostrem contenção e responsabilidade, para que esta eleição aconteça nas melhores condições", disse o líder da UFDG.
    Conflitos pós-eleitorais
    O líder da oposição disse temer conflitos pós-eleitorais caso o resultado seja favorável a Alpha Condé. "Tenho grandes preocupações com a paz e coesão se Alpha Condé tentar manter o poder através da violência, porque os meus apoiantes e as pessoas que votaram pela mudança não o aceitariam", disse Dialó.
    A Amnistia Internacional divulgou que, entre outubro de 2019 e julho de 2020, pelo menos 50 pessoas foram mortas pelas forças de segurança em protestos contra Alpha Condé. Mais de 200 pessoas ficaram feridas e muitas foram detidas arbitrariamente.
    O movimento de oposição Frente Nacional para a Defesa da Constituição estima que 92 pessoas foram mortas desde junho de 2019, mas o Governo contesta estes números.
    "Pequenos incidentes"
    Logo após o encerramento da votação e antes do início da contagem, os apoiantes da oposição disseram que os seus observadores encontraram várias obstruções nas assembleias de voto. O primeiro-ministro da Guiné-Conacri, Ibrahima Fofana, disse à imprensa local que houve "pequenos incidentes aqui e ali", mas nada grave.
    As autoridades da segurança informaram que não houve "incidentes graves” durante a votação no domingo, mas que temiam as declarações da oposição sobre o contexto pós-eleitoral.
    As eleições presidenciais em Conacri contaram com a presença de 25 observadores enviados pela União Africana (UA). A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) também enviou observadores.
    Além de Condé e Diallo, outros 10 candidatos concorreram no pleito deste domingo. Os resultados preliminares da votação devem ser anunciados em alguns dias. Caso necessário, a segunda volta está agendada para 24 de novembro.
    Alpha Condé foi o primeiro Presidente eleito democraticamente em 2010 após décadas de regimes autoritários na Guiné-Conacri, tendo sido reeleito em 2015 para um segundo mandato.
    O Presidente cessante, agora com 82 anos, tenta um terceiro mandato depois de uma reforma constitucional bastante contestada no país. A nova Constituição, segundo o Governo e os seus apoiantes, permite a Alpha Condé voltar a concorrer ao escrutínio. Mas, para os adversários, este foi um "golpe de Estado constitucional".
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  • Acusado de tentativa de fuga: Aristides Gomes impedido de sair da Guiné-Bissau
    "É uma aberração" do Ministério Público aplicar medidas de coação a Aristides Gomes, reage o seu advogado. Luís Martins diz que é mentira que o antigo primeiro-ministro da Guiné-Bissau tenha tentado fugir do país.O Ministério Público da Guiné-Bissau aplica medidas de coação ao antigo primeiro-ministro guineense, Aristides Gomes, que se encontra refugiado na sede da ONU, em Bissau, desde março do ano em curso. Por isso, o dirigente do PAIGC está impedido de sair do país.
    "É preciso referir que em nenhum momento o cidadão Aristides Gomes foi ouvido nos autos e nem comunicado que está a decorrer contra si um processo-crime, quanto mais que ele foi constituído suspeito de alguma coisa", diz em carta enviada ao Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público o antigo chefe de Governo guineense.
    Gomes foi demitido pelo atual Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, em finais de fevereiro e diz que corre risco de vida, desde que lhe retiraram o corpo de segurança e viu a sua residência invadida por grupos de homens armados e fardados.
    Para Aristides Gomes, a "usurpação de competências" do Tribunal de Relação é inconstitucional e indica "um interesse obscuro" contra si por parte do Ministério Público guineense.
    Em entrevista à DW África, um dos advogados de defesa do antigo primeiro-ministro guineense, Luís Vaz Martins, considera a medida uma "aberração num país onde o poder da força está acima do direito."
    DW África: Como avalia esta decisão do Ministério Público (MP)?
    Luís Vaz Martins (LVM): Em primeiro lugar, é uma decisão inconstitucional por quanto a Constituição da República da Guiné-Bissau não permite que, no que diz respeito às liberdades fundamentais, seja o Ministério Público a aplicar as medidas de coação. Havia uma disposição dúbia no nosso Código de Processo Penal que deixava uma brecha para uma leitura em como podia o MP aplicar, entre outras, duas medidas de coação restritivas de liberdades fundamentais, concretamente, a obrigação de permanência e a obrigação de apresentação periódica. E, neste caso concreto de Aristides Gomes, é a obrigação de permanência. Mas ficou claro no acórdão 1/2017, do Supremo Tribunal de Justiça, na sua veste do Tribunal Constitucional, que vem determinar de forma categórica que o Ministério Público não pode aplicar estas duas medidas de coação.
    Em segundo lugar, há aqui uma tentativa de o próprio MP forjar o timbrado do Tribunal da Relação, por quanto Aristides Gomes, indiciado enquanto primeiro-ministro, devia responder no Tribunal de Relação. E devia ser por via de um procurador da República. E o indivíduo que assinou aquele tal despacho que manda aplicar aquela medida de coação, é o coordenador da vara crime do MP, ou seja, não tem a competência para ouvir se quer Aristides Gomes. Daí, nós falarmos do crime de falsificação e de prevaricação. Não deve ser o Estado a cometer crimes em nome da perseguição política a indivíduos que exerciam funções neste país.
    DW África: O que é que o Ministério Público alega no seu despacho para aplicar medidas de coação a Aristides Gomes?
    LVM: Curiosamente, entre as várias passagens do suposto despacho forjado, eles terão dito que o Aristides Gomes não quer colaborar para provar a eventual transferência de um valor de cerca de 50 mil euros, que fez para os filhos na Europa, uma transferência inclusive que ele [Aristides Gomes] pediu autorização ao Banco Central para o fazer, com pareceres favoráveis das instituições competentes. Ou seja, o MP quer que Gomes prove que aquela transferência não saiu da conta do Estado da Guiné-Bissau, quando já ficou provado que o dinheiro saiu da sua conta pessoal. Aliás, pelo que se sabe, ainda não há inversão de ónus da prova. Portanto, o MP é quem deve trazer elementos para provar que, de facto, aquilo que se diz não aconteceu. Não se convinda um potencial suspeito para vir provar o contrário. Isto é uma aberração total.
    DW África: Segundo o despacho do MP, Aristides Gomes também é acusado de tentar fugir do país. É verdade?
    LVM: É daquelas histórias muito mal contadas que para até uma comédia. Segundo eles, se não fosse uma intervenção de forças de segurança ele teria fugido do país. Então, Aristides Gomes tenta fugir e no momento que o apanharam porque é que não o detiveram? O mais caricato ainda é que não há nada que imprensa o Aristides Gomes sair do país, não fosse um país onde o poder da força está em cima do direito. Não passa de mais uma mentira e em circunstância alguma houve uma tentativa de fuga. Se tentasse sair do país nem seria uma tentativa de fuga porque sobre ele não pende nenhuma ação criminal.
    DW África: Mas há neste momento condições para Aristides Gomes sair do edifício das Nações Unidas, onde se encontra refugiado, para exercer a sua vida profissional em Bissau?
    LVM: Do ponto de vista legal é possível. Porque sobre ele não há qualquer ação imposta pelas autoridades competentes, nem pelo MP, de forma legal. Mas nós vivemos num país atípico onde qualquer tentativa de poder exercer os seus direitos como cidadão pode ter consequências muito graves, do ponto de vista de possíveis atentados contra a sua integridade física, tal como aconteceu no passado.
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