África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle

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África em Destaque – DW em português | Deutsche Welle episodes

  • Guiné-Bissau: Oposição sai à rua para protestar contra o processo eleitoral
    Para quatro partidos da oposição, o primeiro-ministro Aristides Gomes não tem condições para organizar as presidenciais a 24 de novembro. E isso é uma das coisas que pretendem afirmar na marcha de sábado (26.10).De acordo com o porta-voz do grupo dos manifestantes, Joaquim Batista Correia, a marcha deste sábado (26.10) servirá "para exigir o regresso à legalidade. Porque somos de opinião que este processo [eleitoral] foi organizado de forma torta. E, quando é assim, o resultado será também torto. Estamos fartos dessas ilegalidades e irregularidades."
    A oposição acusa o Governo de envolvimento no tráfico de droga para financiar a votação de novembro: "Não é admissível que um Governo com muitas situações de envolvência no processo de tráfico de droga organize eleições", afirma Batista Correia. O Executivo rejeita as acusações dos opositores.
    Mas este deverá ser um dos temas da marcha, que começa às 10 horas de sábado (hora local) na sede do Partido da Renovação Social (PRS), a terceira força política mais votada, passando pela sede da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e terminando em frente ao Palácio da República.
    A marcha colocará na avenida principal da capital guineense, militantes e simpatizantes do maior partido da oposição, o Movimento para a Alternância Democrática (MADEM-G15), do PRS, e da Assembleia Povo Unido - Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), um partido que faz parte do Governo, mas cujo líder contesta as ações do Executivo.
    Retirada das forças da CEDEAO?
    O grupo de partidos da oposição vai exigir também a retirada das forças militares da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), estacionadas na Guiné-Bissau, e que, por estes dias, patrulham as ruas e protegem as principais instituições do país. Além disso, os opositores vão pedir uma auditoria externa ao banco de dados dos eleitores.
    A oposição suspeita que o Governo tenha introduzido no banco de dados mais 25 mil eleitores, que teriam ficado de fora das listas nas eleições legislativas de março.
    Batista Correia, deputado do PRS, acusa o Governo de preparar uma fraude eleitoral para favorecer o candidato do PAIGC nas presidenciais: "Depois de ter feito a correção dos dados eleitorais, aconselhámos o Governo a não introduzir essa correção no sistema, mas introduziu. E sincronizou também esses dados. Portanto, estamos perante a iminência de um controlo remoto do processo eleitoral", entende Correia.
    CNE alvo de desconfiança
    A CNE disse que, para evitar desconfianças, vai usar apenas os cadernos eleitorais das eleições legislativas de março, deixando de fora os cerca de 25 mil eleitores. Mesmo assim, não convence a oposição, que não reconhece sequer o sorteio dos candidatos para os boletins de voto.
    "A própria CNE também já não merece a confiança da nossa parte", afirma Batista Correia em entrevista à DW África. Revoltado, o deputado do PRS questiona: "Como é possível não participamos no sorteio dos lugares? A CNE escolheu arbitrariamente as pessoas para nos representar. Por isso, não reconhecemos nada. Nem vamos enviar os nomes e fotos para os boletins de voto."
    O político pede à CNE para ser o mais imparcial possível e deixar de tomar partido no processo eleitoral.
    Governo distancia-se das acusações
    O primeiro-ministro guineense minimizou a situação, tendo avançado que esses partidos deveriam protestar nas reuniões da plenária da CNE. Aristides Gomes diz que o Governo não tem nada a ver com as reclamações da oposição.
    "Eles sabem que a CNE é quem decide quem vota e quem não vota. Não é uma decisão do Governo. O Executivo faz o recenseamento e corrige aquilo que estiver errado. Depois, damos esses elementos à CNE", diz Aristides Gomes.
    Para o primeiro-ministro, não basta só fazer reclamações nas rádios. É preciso também reclamar junto das instituições competentes, nomeadamente a CNE.
    Gomes nega que o Governo tenha introduzido mais 25 mil eleitores no banco de dados, e sublinha que o Governo entregou apenas 5 mil cartões de eleitor à plenária da CNE, para decidir se serão introduzidos no sistema, ou não.
    Só os representantes dos partidos na plenária da CNE é que teriam competência para tomar uma decisão final, acrescenta o primeiro-ministro.
    4 min
  • Angola: Que recado quis passar Moscovo ao convidar Isabel dos Santos para Sochi?
    Juntar o Presidente de Angola, João Lourenço, e a empresária Isabel dos Santos no mesmo evento "cheira a provocação", diz especialista em relações Rússia-PALOP. Tencionará Moscovo projetar a cidadã russo-angolana?Terminou na quinta-feira (24.10) a cimeira Rússia-África, em Sochi, um evento em que estiveram o Presidente angolano, João Lourenço, e a filha do seu antecessor, a empresária Isabel dos Santos.
    A presença dos dois no mesmo evento gerou controvérsia. Isabel dos Santos foi afastada da presidência da petrolífera estatal angolana, a Sonangol, pouco depois de João Lourenço tomar posse. E outros investimentos de grande envergadura no país também lhe foram retirados. O Presidente chegou a acusar a empresária de desencorajar o investimento no seu próprio país.
    Os dois não são vistos extamente como "bons amigos". Sobre este caso, a DW África falou com José Milhazes, historiador e especialista sobre relações Rússia-PALOP.
    DW África: Qual terá sido a intenção de Moscovo ao juntar os dois na mesma cimeira?
    José Milhazes (JM): Nesse caso, Moscovo não esquece os amigos. Primeiro, quero lembrar uma coisa: Isabel dos Santos é russa, não é só angolana. Por parte da mãe, é russa. E deve ser a russa que mais fez pela entrada da Rússia em África. Agora, efetivamente, cheira um bocadinho a provocação o facto disso ser feito no momento em que o Presidente angolano está na Rússia. Mas penso que isto foi realizado porque o Presidente angolano não se manifestou contra, porque se se quisesse manifestar contra não iria à cimeira ou daria a entender... Mas quem cala, consente, como se costuma dizer.
    DW África: Acha que há uma intenção de Moscovo de projetar Isabel dos Santos para o cargo de Presidente de Angola?
    JM: Isso nunca se pode excluir, porque os jogos políticos são sempre muito complicados. Agora, é evidente que Isabel dos Santos é uma mulher muito importante para a realização da política russa, não só em Angola, mas também em África. Ela tem muitas ligações em África, e não só. Agora, isso vai depender da forma como o Presidente João Lourenço conduzir os destinos do país, porque, se nesse jogo complicado se colocarem em perigo os interesses da Rússia, a Rússia pode efetivamente apostar numa pessoa que é da sua inteira confiança.
    DW África: Politicamente, qual é o impacto que a projeção de Isabel dos Santos nesta conferência pode ter para o Presidente João Lourenço? Foi uma situação constrangedora para ele?
    JM: Eu penso que sim. Vai depender de como isso for apresentado. Agora, penso que os russos não vão deixar o Presidente João Lourenço ficar para trás. Até porque não nos podemos esquecer que João Lourenço tem boas relações com o Governo russo. Boa parte da formação militar de João Lourenço foi feita na União Soviética, ele sabe russo, e, pelo que sei, até agora não tem havido problemas nas relações entre a Rússia e Angola devido ao Presidente. Pelo contrário, este Presidente parece incentivado em motivar as relações bilaterais.
    DW África: Mas a atuação de Moscovo neste caso não parece amigável para João Lourenço...
    JM: Se for assim, dessa forma, claro que não. Agora, depende da visibilidade que Moscovo der a Isabel dos Santos. Mas eu acho aue os russos neste momento não querem ferir o orgulho do Presidente angolano em nome da elevação de Isabel dos Santos. Penso que isso, por enquanto, não seria bom, e nem penso que a Rússia tenha esse objetivo...
    DW África: Nem sequer isso representa uma ameaça, ou seja, esta homenagem a Isabel dos Santos não representa uma ameaça a João Lourenço?
    JM: Não, por enquanto não.
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  • Oposição acusa: Polícia condicionou fiscalização eleitoral em Moçambique
    Os dois maiores partidos da oposição em Moçambique, a RENAMO e o MDM, dizem que a grande aposta nestas eleições era a fiscalização para evitar a fraude. Mas a estratégia falhou por culpa da polícia, acusam.A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) dizem que, se a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) tinha preparado a fraude eleitoral, a oposição também estava preparada para evitar tal fenómeno. A aposta da oposição para estas eleições era a fiscalização para evitar a derrota.
    Mas a estratégia da oposição falhou. Os dois maiores partidos da oposição moçambicana apontam o dedo àquilo que consideram ser a "má atuação da polícia", que escorraçou e deteve os seus delegados de lista nas mesas de voto, menos os do partido no poder.
    "Não houve espaço para que a tal fiscalizacão acontecesse porque a polícia estava lá para correr com os nossos [delegados de lista] e a prendê-los", afirma o secretário-geral da RENAMO, André Majibire.
    Portanto, "não se pode dizer que falhou alguma coisa do nosso lado. Não falhou nada", afirma. Segundo Majibire, a polícia é que não permitiu que a estratégia da oposição se concretizasse.
    Polícia condicionou fiscalização
    A RENAMO disse que as armas da polícia, na boca da urna, falaram mais alto e o maior partido da oposição estava de olho para evitar esse cenário. Majibire explica que o que aconteceu "foi uma violência jamais vista sobre os fiscais dos partidos da oposição, sobretudo os da RENAMO".
    "O que podíamos fazer perante pessoas com armas a disparar e com gás lacrimogéneo?", questiona Majibire.
    Analistas em Moçambique consideram que a oposição perdeu estas eleições por causa da desorganização e despreparação, o que é refutado pelo secretário-geral da RENAMO. Majibire acusa esses analistas de serem "fiscais da FRELIMO" e, como tal, "não há nenhum analista da FRELIMO que vai admitir que houve fraude, que houve polícias que correram com os fiscais da oposição."
    O MDM também justifica o descalabro eleitoral com a má atuação da polícia.
    O porta-voz do partido, Sande Carmona, diz que, do lado do MDM, tudo estava preparado para fiscalizar estas eleições. Mas essa fiscalização "era condicionada pela vontade daqueles que tinham recebido instruções a partir do Comité Central da FRELIMO: estamos a falar dos presidentes das mesas de votação e da polícia, que foi alocada para as mesas de voto."
    Delegados da oposição impedidos de reclamar
    A DW África questionou o MDM sobre o que fez no terreno para evitar que essas situações acontecessem. Sande Carmona responde que os delegados dos partidos foram "impedidos de fazer alguma participação, alguma reclamação e correção daquilo que não era de lei na mesa de assembleia de voto."
    O MDM nega também que esteve desorganizado e despreparado para participar nestas eleições. O porta-voz do partido refere mesmo que, se isso fosse verdade, a FRELIMO não precisaria de encher urnas, preencher editais ou "preencher um caderno que tem apenas 800 eleitores registados".
    Mais ainda, segundo Carmona, a FRELIMO não precisaria de "ter medo [e] colocar muitos polícias para controlar os delegados de lista da oposição."
    O partido no poder já disse que a oposição é livre de contestar os resultados eleitorais, que considera fraudulentos.
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  • Cimeira de Sochi: Uma nova página nas relações entre Rússia e África
    O Presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que a cimeira Rússia-África passará a realizar-se de três em três anos. No encerramento do encontro, voltou a frisar que quer duplicar as trocas comerciais com o continente."Fazendo o balanço destes dois dias, podemos dizer desde já que este evento abriu, de facto, uma nova página nas relações da Rússia e os Estados do continente africano", disse Vladimir Putin no final da primeira cimeira Rússia-África. Um encontro que reuniu, na cidade russa de Sochi, mais de 40 chefes de Estado e de Governo de países africanos.
    E para que esta nova página comece a ser reescrita, o Presidente russo fez saber que a cimeira Rússia- África é para continuar e passará a realizar-se de três em três anos. Nos próximos cinco anos, a Rússia espera que as trocas comerciais com o continente africano cheguem aos 40 mil milhões de dólares.
    Um objetivo ambicioso, diz Olga Kulkova, investigadora do Instituto de Estudos Africanos da Academia de Ciências da Rússia: "A Rússia quer encontrar o seu nicho e a sua direção com parcerias em África. O objetivo é ambicioso: nos próximos cinco anos, o volume do comércio deverá duplicar de 20 mil milhões de dólares americanos (2018) para 40 mil milhões."
    Com vista ao cumprimento desta meta, foram assinados, durante a Cimeira, acordos de cooperação em várias áreas. Em matéria nuclear, a Rússia acordou com a Etiópia a construção de uma central nuclear e, com o Ruanda, a construção de um centro de investigação.
    Venda de armas vai continuar
    A venda de armamento a países africanos continuará a ser uma aposta de Vladimir Putin. O que não surpreende, uma vez que África representa, atualmente, 40% do volume das vendas de armas e equipamentos militares deste país.
    "Atualmente, contamos com cerca de 12 mil milhões de dólares em contratos assinados e já pagos. Vinte países africanos estão atualmente a cooperar connosco", confirma Alexandre Mikheev, presidente da empresa pública de venda de armamento da Rússia, Rosoboronexport.
    Entre estes 20 países estão Angola e Moçambique. Alguns analistas dizem que Moscovo tem sabido usar habilmente o seu conhecimento em segurança e a sua influência no que toca à exportação de armas para o país para ganhar terreno na política e economia do continente.
    No final dos dois dias de conversações na cidade de Sochi, foram vários os líderes africanos que se mostraram satisfeitos e esperançosos com o aumento do investimento da Rússia no continente africano.
    Amigos de longa data
    O Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, foi um deles."Podemos aprender muito com a experiência das reformas em curso na Rússia com vista à transição de uma economia dependente do petróleo para uma economia moderna, diversificada e inclusiva", declarou.
    Também Cyril Ramaphosa, Presidente da África do Sul, se mostrou confiante. "É nossa esperança que esta cimeira abra o novo e promissor capítulo sobre as relações entre a Federação Russa e o continente africano. O povo russo é nosso amigo de longa data, apoiou as nossas lutas pela libertação e independência", disse.
    Na primeira cimeira Rússia-África, esteve também em destaque a exploração de recursos minerais. Neste domínio foram assinados acordos com o Ruanda, o Sudão do Sul e a Guiné Equatorial. Segundo o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, empresários russos também manifestaram interesse em investir no setor dos recursos minerais e nos transportes.
    Ainda na quinta-feira (24.10), Vladimir Putin ofereceu-se para mediar o impasse para a construção da barragem no Nilo que, nos últimos dias, tem feito aumentar a tensão entre o Egito e a Etiópia.
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  • O que leva Moçambique a uma guinada acentuada para a Rússia?
    Será a Rússia a nova China para África? Há quem entenda que sim. O interesse é mútuo, no caso de Moçambique. O Governo precisa de apoio no combate ao terrorismo e Moscovo quer o gás. E com isso vem o comércio de armas.De 23 a 24 de outubro, Moscovo foi anfitrião da cimeira Rússia-África, um encontro que lembra bastante a cimeira Sino-África de 2000, o marco da guinada de África para o financiamento chinês. Era uma alternativa ao Ocidente, que impunha inúmeras condições de natureza política. Hoje vive-se uma réplica com a Rússia.
    José Milhazes é historiador e especialista sobre relações Rússia e os PALOP e explica o que desperta o interesse de Moscovo: "Acho que é um processo mútuo. Primeiro, temos que ver que a Rússia está a querer entrar em força em África. Este é um projeto do Presidente Vladimir Putin, que ganhou força depois de 2014, quando a Rússia foi alvo de sanções por ter invadido a Crimeia, e [a Rússia] precisa de novos mercados e parceiros e tenta entrar no continente [africano]."
    Moçambique é um dos países que consolidou as relações com a Rússia nos últimos anos. O que está na origem dessa guinada acentuada de Moçambique na direção de Moscovo?
    José Milhazes lembra que "a Rússia está interessada em investir em campos de gás [em Moçambique]. A ofensiva russa coincide com a possibilidade dos países africanos terem mais este parceiro e jogarem entre os grandes parceiros internacionais, que são a China, os EUA e a Europa."
    Rússia proporciona fôlego
    De forma quase intransigente, os tradicionais parceiros de cooperação do Ocidente fecharam os cordões à bolsa a Moçambique, por causa do escândalo das dívidas ocultas, avaliadas em cerca de 2 mil milhões de euros.
    Para além da China, com quem Moçambique já está altamente endividado, Maputo encontra em Moscovo mais uma chance para sair do sufoco.
    "O facto de os mercados financeiros estarem secos para Moçambique" torna a cooperação com a Rússia atrativa, refere o jornalista Fernando Lima, até porque, "ao contrário do Ocidente, [Moscovo] não faz aquelas perguntas sobre direitos humanos e determinados desempenhos."
    O jornalista sublinha também os interesses de Moscovo: "Moçambique tem coisas que interessam à Rússia, nomeadamente minerais e outras coisas importantes".
    Para Lima, a "dívida ideológica" entra também para a jogada, recordando que "Moçambique tem um contencioso com a Rússia que ainda não foi solucionado, que é uma enorme dívida decorrente dos primeiros anos de independência relacionado com material militar. E ambas as partes têm uma aproximação diversa sobre esse assunto."
    E como fica o Ocidente?
    Apesar de tudo, Moçambique ainda tem muitos dos seus projetos de desenvolvimento financiados pelo Ocidente. Também muitas iniciativas pela transparência, integridade e democracia são financiadas pelo Ocidente.
    Como é que esta aproximação Maputo-Moscovo poderá ser entendida pelos europeus e americanos?
    "Moçambique tem de agir com alguma prudência para que esta reaproximação não signifique ostracizar outros parceiros e dar uma preferência à Rússia", alerta Lima.
    Redução dos estandartes do Ocidente em África
    Os direitos humanos, um dos cavalos de batalha do Ocidente em África, não constituem preocupação para a Rússia, tal como para a China. Mas os perigos da cooperação Rússia-África vão para além desse estandarte do Ocidente, sublinha Milhazes.
    Nomeadamente, a possibilidade dessa cooperação "não ser aproveitada devidamente para o desenvolvimento do próprio país", comenta o especialista.
    "Nós sabemos, por exemplo, que, no caso das dívidas ocultas, um dos bancos que está por trás é um dos maiores bancos russos, o VTB, que pertence ao Governo russo", acrescenta.
    Milhazes defende que "tem de haver democratização interna nos países africanos. Caso contrário, a Rússia não vai levar nada de novo para África, porque uma das grandes componentes dessa cooperação bilateral vai ser a exportação de armas. Ora, armas em África já existem mais do que o suficiente."
    Porquê a Rússia em Cabo Delgado?
    Os ataques armados no norte de Moçambique são uma das maiores preocupações do Governo local.
    Nos últimos meses, a imprensa moçambicana tem reportado sobre a presença de homens e equipamento militar russos na província de Cabo Delgado, facto até aqui não devidamente esclarecido por Maputo.
    E a escolha da Rússia para apoiar neste caso tem uma motivação relativamente sustentada, de acordo com Milhazes, que acredita que "o exemplo da intervenção da Rússia na Síria pode levar dirigentes africanos a pensar que a Rússia pode selecionar os problemas de terrorismo nos seus países, e digo isso principalmente a Moçambique."
    8 min
  • Ataque em Sofala: Polícia suspeita de dissidentes da RENAMO
    Polícia confirma a morte de um agente da corporação num ataque ocorrido na quarta-feira, na região de Mecombezi, província de Sofala.A polícia confirma a morte de um agente da corporação num ataque ocorrido na quarta-feira (24.10), na região de Mecombezi, na província de Sofala, centro do país.
    A polícia suspeita que os autores do ataque são dissidentes do maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO).
    O porta-voz do comando provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM), Daniel Macuácua, disse que o ataque "foi protagonizado por indivíduos armados, que se presume pertencerem à [autoproclamada] Junta Militar da RENAMO, que é liderada por Mariano Nhongo."
    A polícia garantiu que, depois do ataque, foi enviada uma equipa para o local e o "trabalho realizado terminou com a detenção de um indivíduo, suspeito de pertencer a este grupo."
    Macuácua garantiu que foi apreendida uma viatura e duas motorizadas que teriam sido usadas pelos atacantes.
    Testemunhas viram ataques a dois veículos
    Testemunhas ouvidas pela DW contam que os homens armados dispararam, na quarta-feira de manhã, contra um camião de mercadorias e contra um veículo da polícia, junto ao posto administrativo de Púngué, entre os distritos de Nhamatanda e Gorongosa.
    Um morador disse que estava na sua machamba quando ouviu vários tiros, seguidos de fumo. O carro patrulha, de marca Mahindra, foi incendiado.
    A região já foi alvo de quatro ataques armados protagonizados por homens não identificados. Segundo os populares, a zona tem sido fortemente patrulhada pela PRM.
    3 min
  • "Fez-se justiça": RENAMO aplaude condenação por enchimento de urnas
    Tribunal de Nampula condenou duas pessoas a 9 meses de prisão por terem tentado introduzir boletins falsos nas urnas durante as eleições gerais de 15 de outubro. RENAMO congratula-se com decisão da Justiça.A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) considera que foi feita justiça, depois de dois cidadãos serem condenados à prisão, por encherem urnas com boletins pré-votados, nas eleições da semana passada, na cidade de Nampula. Foi o primeiro ilícito eleitoral a ser julgado em Moçambique.
    O maior partido da oposição em Moçambique diz que a sentença é a "prova inequívoca" de que houve mesmo enchimento de urnas.
    O Tribunal Judicial de Nampula, a maior cidade do norte de Moçambique, condenou, na quarta-feira (23.10), dois cidadãos por introduzirem boletins falsos em urnas de uma mesa de voto da Escola Primária Completa 7 de Abril, na cidade de Nampula.
    O tribunal condenou os réus a uma pena de nove meses de prisão e uma multa equivalente a quatro meses de salários mínimos.
    "Prova inequívoca"
    O caso tinha sido denunciado pela RENAMO. Ossufo Ulane, mandatário do partido na cidade de Nampula, está contente com o desfecho do julgamento, por considerar que foi feita justiça.
    "Parcialmente, a justiça a foi feita, só pelo facto de o tribunal reconhecer que houve ilícito eleitoral e ter condenado os arguidos. Eu acredito que esta é a prova inequívoca de que o partido RENAMO mostra que houve enchimento nas urnas", afirmou.
    Tribunal pode "ter medo de represálias"
    Ainda assim, Ossufo Ulane considera que o tribunal poderia ter ido mais longe: "Faltou ainda o juiz pedir a presença da polícia, que neutralizou os boletins. [...] Mas acredito que o tribunal não quis um trabalho rigoroso, porque o tribunal pode estar a ter medo de represálias. Mas, para o partido RENAMO, e eu como mandatário, fiquei feliz por saber que a justiça foi feita."
    O advogado dos réus recusou prestar declarações à imprensa. Adiantou apenas que pensa recorrer da decisão do tribunal dentro de oito dias, como está previsto na lei.
    Os réus não estiveram presentes no julgamento, sendo representados pelo advogado. Ambos estão em liberdade, por terem pago caução, enquanto se aguarda pelo resultado do recurso que a defesa tenciona remeter.
    A RENAMO pediu a anulação das eleições da semana passada em Nampula, onde a FRELIMO saiu vitoriosa, por considerar que houve "várias irregularidades".
    3 min
  • Alemanha distingue queniana Juliana Rotich com Prémio África
    Juliana Rotich foi galardoada pelo seu trabalho na área da tecnologia, não só no Quénia, mas mundialmente. Prémio África 2019 foi entregue pela chanceler alemã, Angela Merkel, que considerou a queniana uma inspiração."O sucesso de Juliana Rotich encoraja muitas outras mulheres. Mostra o que e o quanto se pode alcançar com boas ideias e determinação. Precisamos de pessoas como ela, que tenham coragem para fazer algo novo e que, com isso, consigam inspirar outros", disse Angela Merkel.
    Juliana Rotich é consultora de Tecnologias da Informação e dedica-se ao desenvolvimento de inovações tecnológicas. Aos 42 anos, conta com um vasto currículo. Fundou a BRCK, que é hoje a maior fornecedora de Wi-Fi na África Subsaariana. Criada com o objetivo de colmatar as falhas de energia, tão recorrentes em Nairobi, a BRCK comercializa um router alimentado por bateria que funciona até oito horas sem energia elétrica.
    Ushahidi em mais de 160 países
    Também a plataforma Ushahidi tem a sua assinatura. O projeto que surgiu quando a violência eclodiu no Quénia, após as eleições de 2007, e permitia que os cidadãos denunciassem casos de violência nas suas regiões através da aplicação.
    Mais de uma década depois, a Ushahidi é utilizada em mais de 160 países como ferramenta de resposta a crises. A plataforma já foi usada para denunciar crimes de ódio durante as eleições nos Estados Unidos e apoiar o trabalho humanitário após desastres naturais em países como o Chile e o Nepal.
    Em 2010, serviu de ajuda após o terremoto no Haiti. "Foi o primeiro grande destaque da plataforma Ushahidi numa crise humanitária. A ajuda humanitária usou a aplicação para recolher informação inicial antes de avançar para a área do desastre, tendo conseguido avaliar a situação previamente", explica Juliana Rotich.
    Para quando novas empresas e empregos?
    Esta quarta-feira (23.10), em Berlim, Juliana Rotich agradeceu a distinção e afirmou que o prémio - atribuído pela Fundação Alemã para a África desde 1993 - não é apenas uma honra para ela.
    "Este prémio também distingue o potencial das economias digitais em sítios onde não se esperaria que elas existissem. Por isso, estou muito grata. Significa muito para mim, mas também para outros jovens", disse na capital alemã.
    No futuro, a empresária queniana quer continuar a contribuir para a resolução de problemas sociais em África através de inovações tecnológicas. E por isso, esta quarta-feira, chamou a atenção para uma das realidades que a preocupa: o crescimento demográfico.
    "Cada vez mais jovens estão a entrar nos mercados de trabalho, mas não estamos a criar novas empresas e empregos com a rapidez suficiente. Não estamos a recuperar o atraso", alertou.
    4 min
  • Vitória esmagadora da FRELIMO pode gerar "arrogância"
    O alerta é de um analista, em entrevista à DW África. A FRELIMO venceu em todos os círculos eleitorais com larga vantagem. O Niassa era a única província por apurar e o partido conseguiu aqui mais de 65% dos votos.A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) venceu as eleições presidenciais, legislativas e provinciais no Niassa (a única onde faltava terminar a contagem), confirmando, assim, a vitória do atual partido no poder em todo o país, com larga vantagem.
    Naquela parcela do país, nas legislativas, a FRELIMO obteve 67,38% dos votos, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) obteve 27,83% e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) 2,92%.
    Nas presidenciais, o candidato da FRELIMO, Filipe Nyusi, venceu com 68,42% dos votos, Ossufo Momade, da RENAMO, obteve 27,82%, Daviz Simango, do MDM, 3,2% e Mário Albino, do partido Ação de Movimento Unido para Salvação Integral (AMUSI) obteve 0,57% dos votos.
    Os representantes da RENAMO na Comissão Provincial de Eleições no Niassa não assinaram a ata por não concordar com os resultados. Aliás, tanto a RENAMO, como o MDM e o AMUSI já vieram a público contestar os resultados eleitorais no país, alegando terem sido fraudulentos, e exigem a repetição do escrutínio.
    FRELIMO pode terminar com 62% dos votos
    Entretanto, o Instituto Eleitoral para Democracia Sustentável em África (EISA), estima no seu relatório preliminar das eleições ao nível do país, que, se a tendência se mantiver, a FRELIMO vai terminar com cerca de 62% dos votos, a RENAMO com cerca de 22%, e o MDM com cerca de 4,5%.
    Segundo o oficial de programas do EISA, Domingos do Rosário, a FRELIMO pode ter conquistado a maioria de dois terços nos assentos do próximo Parlamento, a avaliar pelas projeções realizadas com base numa contagem paralela provincial.
    Estima-se que a FRELIMO conquistou 179 assentos, a RENAMO 62, o MDM oito e o AMUSI, um partido baseado em Nampula, apenas um.
    Democracia sai prejudicada?
    O analista Alexandre Chiure disse que esperava que saísse destas legislativas um Parlamento equilibrado, onde entrariam outras vozes, "que não sejam só a RENAMO, o MDM e a FRELIMO, ou que os que lá estão [na oposição] reforçassem a sua posição."
    Com estes dados, que apontam para uma maioria de dois terços no Parlamento o analista não tem dúvidas: "Normalmente, os partidos que ganham maioria absoluta de dois terços tendem a ser arrogantes e, vezes sem conta, não respeitam as minorias, isso de uma forma geral.
    "Espero que isso não aconteça com a FRELIMO, e a FRELIMO faça valer a democracia", acrescenta.
    O EISA deixa várias recomendações para os próximos pleitos. Segundo Domingos do Rosário, será necessário fazer reformas para reforçar não só o quadro institucional, mas também "no sentido de tornar as estruturas provinciais e distritais de eleições responsáveis perante a Comissão Nacional de Eleições".
    Do Rosário recomenda ainda a CNE e o Secretariado Técnico da Administração Eleitoral (STAE) a reverem os procedimentos de acreditação dos observadores, para que possam observar as eleições sem grandes constrangimentos.
    4 min
  • Moçambique: Eleitores-fantasma não ressuscitaram para votar em Gaza?
    Prova dos nove no caso dos supostos 300 mil eleitores recenseados em Gaza foi feita nas eleições de 15 de outubro. Dados de plataformas de monitoria eleitoral indicam vazios inexplicáveis em várias assembleias de voto.Em agosto de 2019, o Instituto Nacional de Estatística (INE) contrariou o número de eleitores recenseados pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), este ano. Disse que 1,1 milhões de eleitores inscritos só poderia ser possível em 2040, um escândalo que desacreditou ainda mais os órgãos de administração eleitoral, embora nenhum gesto de peso tenha sido feito para esclarecer o caso.
    Nas eleições de 15 de outubro, os 300 mil eleitores a mais, denunciados pelo INE, votaram realmente na província?
    Guilherme Mbilana, especialista em direito e contencioso eleitoral e que trabalha em monitoria eleitoral, não responde taxativamente à questão, mas revela que, "nalgumas mesas, a ausência dos eleitores foi gritante, a ponto de, num universo de 500 eleitores [inscritos] nalgumas mesas, terem-se apresentado para votar apenas 20 a 30 eleitores."
    Onde estavam os eleitores registados pela CNE?
    Para Mbilana, "isso, de alguma maneira, cria comentários desencontrados, traz leituras desencontradas. Mas é o que, de facto, aconteceu."
    Este cenário foi reportado por várias plataformas que monitoram as eleições no país. Uma delas, o Centro de Integridade Pública (CIP), refere que, "nos cinco distritos onde supostamente existiam esses eleitores, eles não foram lá encontrados".
    "Não houve participação de tanta gente, as mesas de voto andavam meio vazias, o que é evidência de que essas pessoas efetivamente não estavam lá. Mas não podemos dizer que há provas", acrescenta o investigador do CIP, Borges Nhamire.
    Com que cara fica a CNE?
    Contudo, a confrontação dos números da CNE com o vazio de algumas assembleias de voto põe em cheque os órgãos de administração eleitoral. Mas a CNE prefere lavar as mãos e atirar a "batata quente" para a Justiça.
    Borges Nhamire lembra que "o CIP sugeriu fazer e se desponibilizou a financiar a realização de um auditoria para verificar se os eleitores alegadamente recenseados existiam ou não. E isso foi negado pela CNE, justificando que o processo já estava em tribunal e que tinha de se deixar a auditoria trabalhar."
    A par disso foi em Gaza, reduto da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder), onde observadores nacionais foram impedidos de trabalhar e até, nalguns casos, escorraçados pela polícia, debaixo de armas, contam observadores.
    Aumentam as suspeitas
    De qualquer forma, nem a intimidação impede a sociedade civil moçambicana de insitir que algo cheira mal na província.
    O pesquisador Borges Nhamire sublinha "que as suspeitas estarão sempre lá, porque o que aconteceu lá é atípico: seria Gaza a única província que tem maioritariamente uma população maior de 18 anos, o que não é verdade. O que aconteceu durante a votação aumenta as suspeitas de que houve manipulação do recenseamento em Gaza."
    De lembrar que o escândalo obrigou o diretor do INE, instituição pública, a demitir-se. A interpretação que se faz é de que Rosário Fernandes demitiu-se, numa clara negação a compactuar-se com ilícitos supostamente maquinados pelo regime.
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