O programa Ambiente é o Meio entrevistou o antropólogo, escritor e professor da USP Pedro Cesarino sobre seu novo romance, Os Urubus Não Esquecem, um thriller amazônico que explora as conexões entre povos indígenas, crime organizado e devastação ambiental na Amazônia.
Cesarino contou que sua trajetória literária se desenvolveu paralelamente à carreira acadêmica como pesquisador de cosmologias indígenas, especialmente junto ao povo marubo, no Vale do Javari, Estado do Amazonas. Segundo o autor, a inspiração para o livro surgiu após o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, episódio que intensificou suas reflexões sobre a violência na região amazônica.
A obra foi construída a partir de pesquisas sobre cidades de fronteira marcadas por atividades ilegais como tráfico de drogas, garimpo, desmatamento e corrupção, além do aliciamento de jovens indígenas. O romance contrapõe esse universo criminoso à visão indígena da floresta, na qual animais, árvores e seres humanos compartilham laços de parentesco e espiritualidade.
A trama acompanha Maia, mãe de um jovem desaparecido após uma chacina, que recorre à ajuda da xamã Noma para investigar o caso. A busca combina elementos policiais e espirituais, revelando as relações entre violência, destruição ambiental e cosmologia indígena.
Ao comentar o título da obra, o autor destacou simbolicamente o papel dos urubus como guardiões da memória e agentes de purificação. Apesar do tom sombrio da narrativa, Cesarino ressaltou que o livro também apresenta uma mensagem de resistência, inspirada na permanência dos povos indígenas e em obras como A Queda do Céu. Para ele, esses modos de vida oferecem alternativas ao modelo predatório de exploração da natureza e mantém viva a possibilidade de outras formas de relação com a existência.
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