Cafezinho

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By Luciano Pires & Café Brasil Editorial LtdaSociety & Culture
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Cafezinho episodes

  • Cafezinho-362- Na bala

    Cafezinho 362 – Na bala.

    “Maomé não é sagrado para mim. Eu vivo sob a lei francesa e não sob a lei do Corão”, afirmou o cartunista e editor-chefe do Charlie Hebdo, Stéphane Charbonnie, em 2011 após reação violenta de fanáticos à publicação de charges consideradas ofensivas ao islamismo. Quatro anos depois, ao que consta, ele foi o primeiro a ser morto quatro no atentado de 7 de janeiro de 2015. Na ocasião, escrevi assim:

    “Segurar um cartaz, usar um botão ou publicar um post dizendo ´Je Suis Charlie´ não quer dizer que você concorda com o posicionamento político ou ideológico do jornal Charlie Hebdo. Não quer dizer que você aprecia as charges que eles publicavam. Não quer dizer que você endossa as gozações e ataques que eles fazem a religiões, governos e personalidades. Nem mesmo quer dizer que você, se morasse na França, seria um leitor do jornal. Neste momento, nestas circunstâncias, quer dizer que você se solidariza com seres humanos que foram mortos por expressarem suas ideias.”

    Trago esse assunto de volta por conta do episódio envolvendo o Deputado Daniel Silveira. Por favor, POR FAVOR, guarde as proporções. Minha opinião é a seguinte: se aquele vídeo ofensivo que ele publicou foi iniciativa individual dele, o deputado foi muito burro. Subiu no ringue para lutar com Mike Tyson no auge. Não tinha a menor chance. Como os cartunistas do Charlie Hebdo, ele pagou a conta por falar o que quis, como quis.

    O vídeo foi ofensivo, excessivo, teatral e irresponsável, exatamente como os cartuns do Charlie Hebdo. Mas o deputado não poderia ser preso por expressar sua opinião.

    Os juízes do STF agiram como os terroristas: se as leis da França não proíbem que as piadas contra Maomé sejam feitas, eles resolvem na bala.

    Se a constituição brasileira não proíbe que o deputado ofenda quem ele quiser, eles resolvem na bala.

    Felizmente ainda não matam o corpo.   

     

    Versão no Youtube: https://youtu.be/iR9JCAg0zJ4

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    4 min
  • Cafezinho 361 – Big Brother Brasil-sil-sil

    A edição 21 do Big Brother Brasil parece recuperar os índices de audiência e de popularidade das edições mais antigas, com o povo gritando nas janelas a cada eliminação de um vilão. O BBB é um fenômeno POP impressionante.

    O músico Mauricio Pereira, disse assim no LíderCast: “o pop, ao mesmo tempo em que é muito comercializável, ao mesmo tempo que é vendável, ao mesmo tempo que é burro, idiótico, traz em si o sagrado. Porque tudo o que é possível e passível de ser tornado coletivo em grande escala, eu acho que traz o sagrado dentro de si. Então eu tenho orgulho de ser músico pop, é como se eu dissesse, eu sou um vira lata filósofo, guerrilheiro, poeta, mas vira-lata, sempre vira-lata, sempre. Eu quero que todo mundo entenda a minha música. E pop é isso, é veloz e não tem medo do comércio, muitas vezes o sagrado está no comércio, não está na academia.”  

    Aquela fala do Mauricio reforçou a ideia de que nenhuma manifestação humana capaz de mobilizar milhões de pessoas deve ser esnobada. Você que não suporta o BBB e nem quem fala sobre o BBB, não escapará da influência dele sobre quem gosta. Você pode se negar a ver, ler, ouvir ou falar a respeito, mas não pode negar que existe. E que é um fenômeno.

    No final do Cafezinho 313, que propõe uma reflexão sobre como ocupamos nosso tempo livre, escrevi assim:

    “Há uma decisão política quando decidimos que queremos nos afastar dos temas pesados, queremos nos aliviar da histeria e dos barracos que infestam a política nacional. Tomamos a decisão política de ficar de fora, o que é perfeitamente legítimo.”

    Para alguns, o BBB é uma fuga, para outros, uma válvula de descompressão, para alguns é só entretenimento, para outros é uma lição. Para uns é uma desgraça, para outros é redenção.

    Para mim é uma curiosidade que precisamos estudar.

    Até para entender o que é que o brasileiro é.

     

    Versão no Youtube: https://youtu.be/uBmc67wG3DU

     

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    4 min
  • Cafezinho 360 – Sobre políticos e educadores

    Começo a semana com uma deliciosa mensagem de uma aluna: "Bom dia Pessoal produtivo! Realizei 100% do nosso curso #produtividadeantifragil e agora estou revisitando todas as aulas. Consegui perceber o quanto me desenvolvi e quanto mudei meu olhar sobre a produtividade, procrastinação e entender que a responsabilidade é minha e de mais ninguém de resolver e fazer bem feito o que precisa ser feito no tempo certo. Eu decidi ser tripulante, e não passageiro, um dia de cada vez , combatendo todos os dias a primeira, a segunda, terceira e quarta desculpa ... como Luciano ensinou no ensaio da produtividade e assim tem sido. Muito Obrigada pelo excelente conteúdo e pela dinâmica que você aplicou. Recomendo e seguirei recomendando!"

    Essa perspectiva de ter contribuído com a evolução de alguém é o que me faz continuar lutando. E vira e mexe alguém me sugere entrar na política, dizendo que eu poderia contribuir ainda mais se fosse um deputado ou senador. Para esses eu tenho uma resposta padrão, que Guimarães Rosa deu quando lhe perguntaram se se considerava um político:

    “Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade… Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem.”

    Eu até veria com simpatia a ideia de entrar na política, se pudesse pensar em eternidades. Mas está muito claro que é impossível. Em política, quem pensa em eternidades é atropelado pelos que pensam em minutos.

    Ao invés de agir como político, sinto-me muito mais útil como uma espécie de educador. No ensinamento que aquela aluna levará consigo pelo resto da vida, e que continuará com quem ela ensinar, tem um pouquinho de mim.

    É assim que me farei eterno.

     

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    No Youtube: https://youtu.be/-kj5hE5aSRw

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    4 min
  • Cafezinho-359 - Quem são os negacionistas

    No módulo Liderança de meu curso on-line CAMP, eu discorro sobre indicadores de performance. E falo de três áreas distintas. Primeiro das coisas que dá pra medir: custo, produtividade, lucro, absenteísmo, coisas que cabem na planilha e que são fundamentais para entender o que está acontecendo.

    Depois falo das coisas que podemos sentir, que têm a ver com energia, com excitação, com você estar vendo brilho no olho, sentindo o clima do ambiente.

    E, por fim, as coisas que podemos observar. As pessoas trabalhando bem, saindo para almoçar, indo no boteco, todo mundo junto, animado e demonstrando alegria.  

    Coisas que podemos medir, coisas que podemos sentir, coisas que podemos observar. Você tem de olhar as três se quiser entender o que realmente está acontecendo.

    O que conseguimos medir é importante, mas é só um pedaço. Muitas vezes o número está muito bom, mas o clima não está legal. Talvez esse número não seja sustentável.

    Agora vou arrumar incomodação. Por favor, ouça até o final. Se cair o disjuntor, é só religar.  

    Trazendo para a esfera da ciência, também tem o que dá pra medir, o que dá pra sentir e o que dá pra observar. E nas esferas do sentir e observar, existem centenas – milhares, até - de profissionais tarimbados, com anos de experiência, médicos reconhecidos, adotando diversas formas de tratamento precoce para a Covid 19, apoiados em evidências de que deu certo com seus pacientes. Olha, quando é um ou dois, a gente tem de ficar desconfiado mesmo. Mas quando são centenas, milhares, é para - no mínimo – observar com muito cuidado em vez de prontamente acusar de curandeirismo, negacionismo ou seja lá o que for. Quem afirma categoricamente que não funciona, não pode provar que não funciona e não aceita que não pode, é o verdadeiro negacionista.  

    Anos atrás, a disciplina da Economia sofreu um abalo quando surgiu a Economia Comportamental, que rendeu até prêmio Nobel. A Economia Comportamental trouxe a observação, a experiência, a psicologia, o relacionamento humano para dentro da economia tradicional e deu um nó na cabeça dos tradicionalistas. Ela provou que só números não conseguem representar a complexidade de nossas vidas.

    Talvez estejamos precisando de mais Ciência Comportamental. Ou coragem.

    Ouviu? Muito bom, agora pode voltar a gritar.

     

     

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    Versão do Youtube: https://youtu.be/6ZIJymfEuK0

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    5 min
  • Cafezinho 358 – Só sei que nada sei

    Eu fico olhando aquela molecada que está no youtube dando opinião sobre qualquer assunto e me lembrando de uma fala do jornalista Reinaldo Azevedo:

    -Não confio numa religião mais nova que o uísque que eu bebo.

    Como confiar num garoto de 28, 30 anos, que vem me ensinar como viver uma vida com propósito, como gerenciar negócios? Não, não é preconceito, é conceito! Se alguém vem me ensinar a andar de moto, a primeira pergunta que farei é: quantas vezes você caiu? Me mostra a cicatriz. Deixa eu ver as rugas, as marcas do tempo! Cara, tem até garoto de 14 anos dando conselhos sobre como viver uma vida plena!

    Eu não sei o que acontece. Eu mesmo deixo de comentar um monte de assuntos simplesmente por me sentir incompetente! Sei que não sei, tenho de mergulhar profundamente no tema, morro de medo de passar vergonha quando abrir a bocarra e falar uma bobagem. Por isso me recolho!

    Mas essa moçada não quer saber, manda bala. E tem milhões de seguidores os estimulando, ouvindo e reproduzindo as bobagens que ouvem.

    Preste atenção: quem é que você está seguindo? Que opiniões você está ouvindo? Que credenciais tem quem dá essa opinião? É só um curioso que grita e fala por ouvir falar? Esse sujeito a quem você está dando seu tempo de vida tem cicatrizes? Viveu o assunto que comenta? Ou é só orelhada? Tenha um filtro, meu caro, minha cara. Para o bem do mundo, do Brasil, de sua família, seu mesmo, bote na cabeça: não dá para ser mestre sem antes ser discípulo.

     

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    Versão do Youtube: https://youtu.be/JEDjdd1ll34

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    4 min
  • Cafezinho 357 – Big Brother Brasil Educa

    “Numa discussão sobre o Big Brother provoquei caretas ao dizer que o programa é uma oportunidade fantástica de aprendizado. Quase apanhei. Mas expliquei que tudo depende de como o espectador encara o programa.

    Se você procura mais que simples entretenimento (...) tem ali uma inestimável aula de antropologia, sociologia e política, com exemplos claros de como funciona a vida em sociedade. Verá os conflitos, as intrigas, a dissimulação, as mentiras, a manipulação, a generosidade, o medo, todos aqueles pequenos truques, pecados e atitudes com os quais convivemos no dia-a-dia. Está tudo ali, exposto pra quem quiser ver. E aprender. Assistindo o Big Brother Brasil como uma vitrine de comportamento você aplicará seu tempo em aprendizado.”

    Esse é um trecho de um artigo meu de 2009, que deu o que falar. Mas nunca foi tão atual, especialmente durante esta edição do BBB de 2021, que se transformou na vitrine da lacração. A Globo está fazendo um favor à sociedade ao apresentar, de forma concentrada, todos os chavões do politicamente correto que, diluídos aqui fora, estão corroendo os pilares morais da nossa sociedade. E o que está sendo visto ali é feio, muito feio. Ao retirar as máscaras dos justiceiros sociais, o BBB mostra todo o ódio, inveja, preconceito, hipocrisia, falsidade embalados pelo ódio do bem e o discurso hipócrita da defesa dos oprimidos, por parte de quem no fundo só quer garantir o seu.

    O BBB subverteu a lógica de que narciso acha feio o que não é espelho. No caso, o espelho está revelando monstros, e a sociedade não está gostando do que está vendo.

    Não sei se era essa a intenção ou o tiro da Globo saiu pela culatra. O que eu sei é que o Big Brother Brasil educa.   

     

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    Versão do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=qXScZ5c0lZI&feature=youtu.be

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    4 min
  • Cafezinho 356 – O problema são os outros

    Algum tempo atrás circulou uma pesquisa que perguntava se o Brasil é um país racista. A maioria respondeu “sim”. Mas quando a pergunta era “você é racista?”, a resposta era “não”. Racistas são os outros. Se em vez de racismo a pergunta fosse sobre preguiça, ignorância, desonestidade e outros atributos nada elogiosos, eu tenho certeza que a resposta seria a mesma: o problema são os outros. Isso leva a uma reflexão sobre a esperteza individual contra a estupidez coletiva. Como indivíduos somos ótimos. Honestos, estudiosos, aplicados, respeitosos, competentes... mas como um coletivo somos um desastre!

    Afinal, se o coletivo é a soma dos indivíduos, como é que 200 milhões de pessoas honestas formam um país corrupto? O problema são os outros. E mesmo quando mostramos exemplos de pessoas extraordinárias, que brilham por suas virtudes, parece que não adianta. Esses exemplos nunca são seguidos. E as desculpas são ótimas. É sempre algo como “ele ou ela tiveram... sorte, família, pais honestos, ambiente bom, oportunidades, estudo. Eu não tive!”

    Os cidadãos exemplares sempre tiveram algo a mais que parece que não está ao alcance dos demais, você já reparou nisso? Por isso são tão poucos. Talvez seja necessário parar para pensar um pouco: bons exemplos não são suficientes, o que precisamos é mudar a forma como vemos os outros. Sair dessa que “o Brasil tem futuro, mas com esse povo que tá aí, não sei, não.” Bom, “esse povo que tá aí” é você. Mude essa sua visão preconceituosa, desconfiada e limitadora sobre a natureza humana. 

    Mas não espere que os outros mudem, mude você! Sem querer nada em troca. É assim que começa. O problema nunca são os outros. Somos nós.

     

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    7 min
  • Cafezinho 355 – A burrice

    Num podcast Café Brasil de muito tempo atrás usei um texto de Guto (vulgo Carlos Magalhães), que falava de Burrice. Vale lembrar uns trechos: “... o que é a burrice? O Aurélio apenas cruza sinônimos. Não esclarece nada.

    Em primeiro lugar, a burrice não pode ser confundida com falta de informações. Isso é ignorância. Há pessoas ignorantes muito inteligentes. E há pessoas muito informadas e muito burras. Em segundo lugar, a burrice também não pode ser confundida com doença mental. Terceiro, burrice não é sinônimo de desrazão. E razão não é sinônimo de inteligência. Na minha opinião, a burrice é uma questão de escolha. Penso que todos os humanos nascem com o mesmo equipamento cerebral. O uso ou o não-uso daquilo que a evolução nos deu é opcional. Muitas pessoas optam por não usar. Esses são os verdadeiros burros.

    Pensamentos complexos só podem prosperar quando a "memória de trabalho" está amplamente disponível. Quando essa memória é muito pequena, o indivíduo não é capaz de trabalhar com mais de duas variáveis, com sinais sempre opostos (se A é verdade, logo B é falso). É próprio do pensamento monofásico a desconexão entre os diferentes blocos de ideias. Por isso os burros caem sempre em contradição, embora nunca percebam esse detalhe. Ou pior, acreditam-se muito coerentes.

    Os burros gostam muito de frases peremptórias. Em geral são muito sérios. E quanto mais sérios, mais burros. Mas a principal característica de todos os burros é a crença inabalável. São crentes. Acreditam em uma realidade externa, objetiva e estável que pode ser fielmente representada pelas palavras. Acreditam que as palavras são etiquetas que se colam a coisas reais. Desconfiam de todos que não usam as etiquetas que consideram corretas. Se a burrice é opcional, a crendeirice não o é. É efeito colateral da escolha. E esse efeito, depois de acometer aquele que optou pela parvoíce, não o abandona mais.

    Enfim, burrice não tem cura.

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    7 min
  • Cafezinho 354 – Abaixo de zero

    Em maio de 1996, dezenas de alpinistas foram surpreendidos por uma violenta tempestade enquanto retornavam do cume do monte Everest. Um patologista norte-americano chamado Beck Weathers, viveu uma experiência inacreditável. Praticamente cego, a 8.200 metros de altitude, de noite, em meio a uma tempestade, ele se desprendeu do grupo e vagou pela montanha até cair na neve, congelando. A morte por congelamento é chamada de “morte suave”, a pessoa vai apagando aos poucos, lentamente, como uma vela. Quando tudo parecia perdido, Beck teve um lampejo de vida, levantou e continuou a caminhar, com um braço congelado, delirando, sem ter ideia de para onde estava indo. Chegou próximo a um acampamento onde foi visto por um alpinista e levado para dentro de uma barraca. Milagrosamente Beck sobreviveu até ser resgatado por um helicóptero. Perdeu dedos das mãos e dos pés e até o nariz. Mas sobreviveu. Ao ser perguntado sobre que força fez com que ele, mesmo virtualmente morto, levantasse para a salvação, Beck respondeu:

    - Pensar em minha família. Em meus filhos.

    Beck Weathers, em meio a uma situação desesperadora, focou no que dava sentido à sua vida. E algo lá no fundo de sua mente quase congelada acendeu, gerando calor suficiente para que ele lutasse pela vida. Aquela noite fatídica no Everest produziu uma dúzia de corpos. Menos o de Beck Weathers.

    Tem gente que se agarra à fé, Deus há de dar um jeito. Tem gente que se agarra a um ente querido. Tem gente – como eu – que se agarra a uma causa política, cultural ou social. Todos, de alguma maneira, buscando um propósito que dê sentido à pergunta que não quer calar: vale a pena lutar?

    Sem um propósito, não. E então, como um alpinista sem esperança, abaixo de zero, a saída é aguardar a morte suave chegar.

     

     

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    7 min
  • Cafezinho 353 – Confie desconfiando

    Sempre me fascina a capacidade que algumas pessoas têm de tratar sua visão do mundo como a única correta, com uma confiança que chega a ser comovente. Vira fé. E não adianta você trazer fatos, a pessoa simplesmente não ouve nem enxerga o que está sendo dito ou mostrado.

    Ela tem excesso de confiança nas próprias habilidades, excesso de confiança em que suas ideias e opiniões são as corretas, excesso de confiança de que é superior aos outros. Afinal, ela está certa, não é?

    Ter confiança nas coisas é o que nos faz seguir em frente. Não é ruim. Se eu não confiasse em minha capacidade de escrever as ideias, por exemplo, eu não me atreveria a fazê-lo. O problema não é a confiança, mas é o excesso dela.

    Olha, depois que eu me curei da juventude, aprendi a confiar desconfiando. Minhas opiniões são definitivas até a página três, por uma razão muito simples: é essa certeza definitiva que guiará minhas ações.

    Uma sociedade repleta de gente com excesso de confiança e com acesso aos canais de distribuição de ideias, corre o risco de não dar certo. Ou de mergulhar num cenário conflituoso onde se destrói mais do se constrói. E é aí que deveria tocar o sinal de alerta.

    O excesso de confiança é contagioso. Se você escolhe seguir alguém que sofra desse mal, provavelmente se contagiará com ele, sem perceber que se tornará cego e surdo para tudo aquilo que vá contra suas crenças. E tomará decisões baseadas exclusivamente em evidências que confirmam suas crenças pré-existentes. Você passa a viver numa bolha.

    E aí, dá nisso que estamos vendo.

     

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    Versão do Youtube: https://youtu.be/0nAwziiHHPI

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