Num mundo onde a palavra “igualdade” já faz parte do discurso oficial, o que falta para que ela se torne realidade? Como comunicamos o que ainda não foi alcançado? E, mais importante: como comunicar de forma eficaz num contexto de resistência, desconfiança ou mesmo hostilidade?
Neste episódio, na semana que assinala em semana do Dia Internacional da Mulher, refletimos sobre o papel da comunicação pública na promoção (ou bloqueio) da igualdade de género.
Neste contexto, a questão que se coloca é: Como se comunica a igualdade de género? Sara Falcão Casaca e o seu papel nesse processo.
O papel da comunicação na igualdade de género: Como se comunica a igualdade de género? Sara Falcão Casaca
A convidada deste episódio é Sara Falcão Casaca, professora catedrática no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), socióloga, investigadora, especialista em desigualdade de género, mercado de trabalho e políticas públicas.
Atualmente, lidera o Observatório Género, Trabalho e Poder, e coordena a recém criada comissão de prevenção do assédio no ensino superior, um espaço onde a comunicação — ou a falta dela — pode fazer toda a diferença.
Este é um episódio sobre comunicação. Comunicação que pode ser uma ferramenta de transformação ou, se mal usada, um mecanismo de bloqueio. Falamos sobre como os media continuam a construir imagens públicas das mulheres em lugares de liderança. Falamos sobre os estereótipos que ainda marcam as narrativas políticas, empresariais e mediáticas. Falamos sobre o desafio de comunicar dados difíceis de compreender, como o fosso salarial entre homens e mulheres, sem que se tornem somente mais um número a circular sem impacto real.
Mas também refletimos sobre o papel das redes sociais, que democratizam a comunicação, mas que são palco de ataques dirigidos a mulheres que ousam ocupar o espaço público. Como se constrói uma narrativa de igualdade num ambiente polarizado? E como se lida com o discurso de ódio sem abdicar do espaço público?
Este episódio passa ainda pela comunicação invisível nas organizações: como se falam — ou não se falam — os problemas de assédio, as desigualdades salariais, a falta de mulheres em posições de topo. E pela linguagem silenciosa das escolhas institucionais, desde a escolha das lideranças até à ausência de mulheres em debates, painéis ou cargos de poder.
Falamos também de um desafio central na comunicação pública da igualdade: como envolver os homens neste debate? Como evitar que a igualdade de género seja comunicada como um “tema de mulheres para mulheres”?
Num país onde se registam avanços importantes — desde a maior participação de mulheres na política até à adoção de códigos de conduta para a igualdade — ainda falta uma narrativa pública consistente, que traduza em palavras, exemplos e políticas o que se diz defender.
Por isso, este episódio não é apenas sobre o que falta fazer em termos de igualdade de género, mas sobre o como comunicar tudo o que falta fazer, sem desistir de tentar, mesmo quando a comunicação se torna difícil.
Porque a comunicação pública, quando bem-feita, não é só uma descrição do mundo como ele está. É uma ferramenta para o mudar.
A conquista de qualquer direito social implicou sempre alguma forma de luta.
A cultura, a tradição, o fizemos sempre assim, será sempre um obstáculo.
Mesmo nas coisas mais óbvias, mudar demora sempre tempo. Muito tempo.
Qualquer mudança substantiva é lenta e gradual.
A comunicação pode ajudar a criar entendimentos e coligações.
Mas não resolve tudo. Ajuda, mas não resolve.
A resistência à mudança é um valor cultural intrincado.
E quando tema gravita à volta da questão do poder e da sua divisão equitativa, quem o tem não gosta de o perder.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
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Viva Sara Falcão Casaca, professora catedrática do ISEG e uma especialista em sociologia económica e das organizações, dedica muito do seu tempo e da sua investigação a investigar esta coisa da desigualdade de género no mercado de trabalho e as questões das políticas de igualdade.
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E porque se me perguntar e tu, onde é que estão as mulheres? Estamos a falar dos mesmos para o público e o mesmo falam as mulheres falam muito pouco no espaço, têm muito pouca visibilidade ainda no espaço público. E porque há uma coisa que nós podemos contar às pessoas, Quando nós estivemos a combinar esta conversa e eu confidenciei que é sempre muito mais difícil convencer uma mulher, neste caso a Zara, me convencer facilmente.
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É verdade. Mas vamos, vamos lá, vamos gravar uma coisa, vamos gravar um programa, porque parece que aqui há uma limitação a um não, não apetece aparecer, Não quero ir. O que que o que faz com que, entre outras coisas, podemos fazer Um desfilar de argumentos, sim, faz com que as mulheres não apareçam no espaço público ou pareçam menos simples.
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Quer dizer, eu acho que há vários, a vários fatores. Não é porque na verdade os homens continuam. E, aliás, não sou eu que digo, é a Entidade Reguladora da Comunicação, quando faz os seus relatórios, que os homens, quando aparecem no espaço mediático e designadamente na comunicação, na comunicação social, tendem a ser ainda os protagonistas, não é ou fonte ou fonte de informação.
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Os protagonistas, os especialistas. Não é que quem se convida para comentar matérias da vida económica, política, de segurança, etc. E esse efeito de visibilidade vai se reforçando. Alguém que parece sistematicamente, por exemplo, num jornal, ao que parece, na televisão, todos os outros meios de comunicação, quando pensam em alguém para falar daquele tema, convidam, convidam. Essa pessoa dá visibilidade a uma força, visualidade, uma espécie de.
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Normalmente, como é habitual, ser aqui na televisão, aparecer na telefonia. Então vamos convidar aquela pessoa e, por força dos enviesamentos de género do estereótipo de género, pensa se mais facilmente no homem, que também são aqueles que têm estado mais disponíveis para o espaço mediático, para o espaço público. Pensa se mais facilmente no homem e se o homem não pode e se pedem para sugerir a alguém mais facilmente, também sugere um outro homem que provavelmente também conhece um outro homem com outro homem, já que no fundo não fugimos às pessoas que estão no nosso mundo, que estão mais perto, já que não têm o enviesamento de proximidade e aquilo que efetivamente acontece.
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E depois, quando vão, as mulheres, muitas vezes também são convidadas a duas coisas que podem acontecer, creio eu. Por um lado, alguma preguiça da parte de quem convida, porque se leva, Se a pessoa não está disponível, se calhar desiste logo, não é? E pensando num homem que que? Mas há uma questão que é o cronómetro, Lá está, eu fui agora às 15h00 já ter tudo e tudo e tudo para logo e tudo para amanhã.
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Se calhar uma outra organização diminuía. Atenuaria esta, esta pressão não é insistir mais até encontrar. Se fosse mesmo uma intenção ter mesmo mulheres no mundo, num debate, num programa de televisão, que é um debate público sobre determinado tema, não existiria a primeira? Não. E, portanto, acho que essa insistência seria uma boa, seria uma boa e uma boa prática.
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Depois as mulheres é assim. Esse é o lado, digamos assim, do ponto de vista organizacional, estrutural, a mecânica das coisas. Portanto, nós estamos todos cheios de pressa. Conhecemos algumas pessoas, não conhecemos outras. É algo inviável. É uma vida. Pensa se no homem, mas no homem ou na associação do homem saber poder. Não é essa a protagonista numa determinada área?
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O especialista numa determinada área é mais facilmente nós fazemos essas associações simbólicas, Então, mas por que isso acontece quando? Quando se pensar em mulheres portuguesas qualificadas nos vários campos do saber? É que há muitas e que há muitas em muitos campos e é nalguns campos perceber, até com muito mais mulheres do que homens. O que faz que haja essa parte do pressuposto que a ideia de enviesamento é uma ideia negativa, que é uma inclinação não positiva, o que fará com que quando eu vou fazer uma escolha, quando eu vou ligar a alguém?
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Escolha a escolha ou escolha B. É uma pergunta para mim próprio. Mas, mas, mas o que é que está no nosso racional para para o que estamos a pensar aqui entrevistados? Mas eu posso pensar em escolher um Presidente, República ou um Primeiro-Ministro. Estamos em pré campanha para as presidenciais que aí vão. Portanto, os candidatos começam a aparecer e então não há nenhuma mulher que queira concorrer à Presidência da República?
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Aparentemente não. Até agora. Exato. Exacto. Isso leva me. Isso leva a uma outra questão porque é que as mulheres que há pouco que eu ia referi tem exatamente a ver com isso? Porque é que as mulheres se retraem também? Uma maior exposição na vida mediática e na vida e na vida pública? E as mulheres sabem uma coisa? Sabem que essa exposição é uma exposição sujeita a um escrutínio muitas vezes impiedoso e que muitas têm mesmo mais que fazer do que pensar porque é que ia ser enxovalhado?
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Mas o escrutínio, porque o escrutínio? Porque na verdade, socialmente, nós somos muito mais tolerantes e mulheres e homens porque nós bebemos dos mesmos estereótipos sexistas. Na verdade, há uma maior tolerância social perante uma situação, um debate, por exemplo, em que um homem que está ali como especialista e que diga generalidades é um especialista. Mas a tolerância social será muito maior.
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Não é porque ele é socialmente de acordo com as nossas perceções. Incumbi ente do saber e, portanto, está ali convidado,