Pergunta Simples

E se a empatia fosse obrigatória? Rui Marques


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Susan Sontag escreveu no seu livro “A doença como metáfora”
E se a empatia fosse obrigatória? Rui Marques
“A doença é o lado noturno da vida, uma cidadania mais onerosa. Todos que nascem têm dupla cidadania: no reino dos sãos e no reino dos doentes.”
E se a empatia fosse obrigatória? Rui Marques
Quando Susan Sontag escreveu isto, em 1978, estava a falar de cancro. Mas podia estar a falar de solidão. De ressentimento. Daquela dor difusa de quem se sente por dentro fora de lugar. Porque a verdade é esta: há uma doença que não aparece nas radiografias, que não se vê ao microscópio, que não se trata como as outras.
Ao questionar: E se a empatia fosse obrigatória? Rui Marques, somos levados a refletir sobre a importância das relações humanas.
É a doença da falta de relação. E essa, está em todo o lado.
Vivemos cercados de tecnologia, mas cada vez mais distantes.
Na abordagem de Rui Marques, E se a empatia fosse obrigatória?, destaca-se a necessidade de fortalecer nossas conexões.
Nunca estivemos tão ligados — e nunca estivemos tão sós. A produtividade sobe, os gostos digitais disparam, mas o silêncio entre duas pessoas que vivem na mesma casa, escritório ou aldeia, vai crescendo. Chamamos-lhe esgotamento, chamamos-lhe ansiedade, chamamos-lhe stresse crónico — mas muitas vezes é só isto: défice relacional. Falta de cuidado. Falta de olhar.
Rui Marques chamou-lhe saúde relacional. E dá-lhe corpo. E nome. E método.
Não é uma metáfora. É literal.
Há pessoas que adoecem porque não têm com quem falar.
Há pessoas que saram porque alguém lhes sorriu no momento certo.
E não é só uma intuição: é ciência. Um estudo de Harvard que há mais de 80 anos acompanha centenas de pessoas chegou à conclusão mais simples e mais desarmante de todas: o que mais contribui para uma vida feliz — e mais longa — é a qualidade das relações. Não o dinheiro. Não o estatuto social. São As relações.
É fácil esquecer isto. Sobretudo num mundo que corre. Que empurra. Que valoriza o fazer mais do que o estar. Que trata as pessoas como recursos. Como números. Como peças. Mas a verdade volta sempre. E a verdade é esta: sem relação, não há saúde.
As crises que vivemos — na educação, nas organizações, nas instituições públicas — são provavelmente e antes de tudo, crises relacionais. Não se resolvem somente com planos, orçamentos ou reformas estruturais. Resolvem-se na qualidade do vínculo entre as pessoas. No modo como se escutam. No modo como se respeitam. No modo como se reconhecem.
Rui Marques fala de literacia relacional. Como quem diz: isto aprende-se. Treina-se. Trabalha-se. Há oficinas. Há modelos. Há maneiras de regenerar relações que foram danificadas. Porque o que nos adoece não é só o conflito — é o conflito não resolvido, mal digerido, ignorado. E isso, sim, tem impacto direto na saúde física, mental e social. Há relações que nos elevam. E há relações que nos esvaziam.
E depois há o digital. Que entra na equação como uma espécie de perturbação crónica. Crianças que nunca treinaram o conflito real, que não subiram árvores nem discutiram cara a cara, e que agora são adolescentes ansiosos, hiperconectados e emocionalmente frágeis. Adultos que se refugiam a percorrer, com o dedo no écran, infinitivamente as últimas novas das redes sociais, para não ter de lidar com o desconforto do silêncio. Relações filtradas, encenadas, mediadas — mas raramente inteiras.
A saúde relacional também passa por aqui: por reaprender o toque, o olhar, o tempo partilhado sem agenda. Por aceitar o silêncio sem o preencher com barulho. Por ter conversas difíceis sem medo do erro. Por construir confiança — esse oxigénio invisível que sustenta qualquer equipa, qualquer família, qualquer sociedade.
E passa, claro, pelo cuidado. Cuidar não é uma palavra delicodoce. É uma palavra difícil. Cuidar exige tempo, exige atenção, exige compromisso. Não é um botão que se carrega — é um caminho que se percorre. E nesse caminho, todos falhamos. Todos tropeçamos. Todos erramos. Mas também todos temos a possibilidade de voltar. De pedir desculpa. De escutar melhor. De tentar outra vez.
A saúde relacional é isto: não é sobre relações perfeitas. É sobre relações vivas. Com tensão, com conflito, com sombra — mas com vontade de permanecer.
A metáfora da doença que Sontag combateu — a de que o doente é culpado, ou fraco, ou castigado — precisa de ser substituída por outra: a de que o humano é relacional por natureza. E que, quando nos afastamos disso, adoecemos. Por isso, mais do que nunca, é tempo de reaprender o básico: ver o outro. Estar com o outro. Reconhecer o outro.
LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO
00:00:00:00 - 00:00:32:11
por vir. Rui Marques é uma daquelas pessoas que nunca descansa e olha que para para a vida do Rui Marques é desde ir a Timor no navio desmontar academias de liderança, desde que criada, pois há refugiados a uma missão. Claramente. E é um gosto estar aqui, Primeiro que tudo, agradecer este convite, saudar quem nos ouve, enfim, uma frase que às vezes me inspira.
00:00:32:11 - 00:00:55:12
Noutros dias nem tanto, Mas para descansar tenho a eternidade. Agora é tempo de cumprir aquilo que estiver ao meu alcance, com todas as minhas limitações, falhas e imperfeições, mas para dar o meu contributo para a construção de um mundo melhor e em cada momento, em cada circunstância, isso foi tendo configurações diferentes, foi tendo aspetos diferentes, Mas acho que essa é a linha condutora.
00:00:55:14 - 00:01:14:09
O que é que eu posso fazer perante os desafios que vivo e que o contexto em que estou, o tempo em que vivo me apresentam? O que é que eu posso fazer? É procurar diferentes respostas, o que o quis num mundo melhor, sendo que olhando para o mundo hoje a gente já descobriu o que é que é um mundo pior, um mundo mauzinho, o que é um mundo melhor?
00:01:14:13 - 00:01:40:19
Eu acho que é o mundo onde a dignidade humana é respeitada como sagrada neste sentido de cada pessoa e todas as pessoas e o mundo onde a justiça é um valor que rege os atos humanos e o mundo onde o horizonte de esperança se abre. É, nesse sentido, esperança, justiça e dignidade são traços essenciais daquilo que possa ser a configuração de um mundo melhor.
00:01:40:21 - 00:02:00:20
Na verdade, hoje nós vivemos um mundo que tem pouca esperança e, nesse sentido, se aproxima do inferno de Dante, o inferno na Divina Comédia. A Porta. Ele está lá escrito que perde toda a esperança. Quem aqui entre nós? Nós estamos a passos largos. Aproximamos de um contexto de inferno, de ausência de esperança. Essa é uma condenação radical. Não passas desta porta e não voltarás aqui.
00:02:00:20 - 00:02:25:04
Será pior do que isso. E sobretudo, esta ideia de que o inferno é a ausência total de esperança e por isso, constitui hoje uma luta de fundo não deixar desaparecer a esperança e construir todos os dias razões de esperança. Mas também um mundo melhor tem que ser caracterizado por este esta luta radical por maior justiça, sendo que ser bom é fácil, difícil é ser justo?
00:02:25:06 - 00:02:51:18
É também é também. Como é que isso vamos? Podemos fazer aqui um bocadinho da natureza disso. Vamos a isso. O que é isto ser bom? E o que é que isto de ser do ser está fazendo? Pascal e diz nos Isto quer dizer, a justiça. Não se trata de um simples exercício de bondade, porque tem um conjunto de ponderações, de avaliações, de equilíbrios, de de sabedoria, que não é um puro exercício de bondade, de um de bondade.
00:02:51:18 - 00:03:14:23
É mais fácil objetivar e eu percebo que dentro um determinado código de ética o que é que é ser bom? Mas ser justo é mais do que ser bom neste sentido, é não só ser bom, mas procurar encontrar o o equilíbrio certo, Procurar e encontrar a resposta certa a cada circunstância, cada dilema, cada dúvida. E isso é muito difícil em muitas circunstâncias.
00:03:14:23 - 00:03:41:03
É muito difícil. O que imagino que neste momento esteja angustiado, porque uma das perguntas que eu me faço amiúde onde é que está o árbitro, não é? Onde é que está? Onde é, onde é que está isso, esse referencial de justiça em determinados momentos alguém disse É Deus. Noutros momentos alguém disse Não são os mercados, noutros são os eleitos, os os poderosos.
00:03:41:05 - 00:04:09:06
Olhemos o bocadinho à falta de referenciais dessa justiça, em quem confio eu para que me guie nesse caminho ou, se não me guiar, que pelo menos vá alumiando algumas possibilidades desse exercício da justiça, da bondade do mundo de amanhã melhor do que hoje. Eu acho que a primeira armadilha que temos que evitar exteriorizar essa responsabili dade quer dizer, o referente no primeiro sítio onde tem que mudar é dentro da nossa cabeça, dentro do nosso coração.
00:04:09:07 - 00:04:37:20
Somos responsáveis. É somos nós e não aliarmos ou não transferimos para outros a responsabilidade desse exercício tão difícil, por exemplo, da justiça e, portanto, a consciência. Esta noção de que eu sou responsável perante a minha consciência é um algo que temos que recuperar rapidamente. Neste sentido, e depois, evidentemente, na esfera pública, diferentes expressões podem ter essa responsabilidade claro, prejudicial e evidentemente, uma das respostas.
00:04:37:20 - 00:04:55:22
Mas muito mais do que isso, eu direi mesmo que todos aqueles que têm responsabilidades públicas, quaisquer que elas sejam, têm a responsabilidade de ser essa referência, sendo que, e este é um ponto muito importante, que ser referência não é sinónimo de ser perfeito. E esse é um ponto que eu acho que nós precisamos introduzir no nosso tempo. E nós toleramos a imperfeição.
00:04:56:02 - 00:05:13:19
Precisamos de tolerar, porque às tantas não dizemos assim não. Mas eu confio naquela pessoa, aquela que merece o meu apoio, o meu voto, o que for. Mas depois, às tantas, quando há nesse momento da falha,
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Pergunta SimplesBy Jorge Correia


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