O cenário econômico que aguarda o Brasil após o encerramento do atual ciclo eleitoral não permite ilusões. A recente e contundente análise publicada pelo Financial Times soa como um alerta estridente, que eu já dei várias vezes por aqui, para a classe política, para o mercado e para a população: o país enfrentará uma realidade econômica implacável no ano que vem. O preço de adiar decisões difíceis sempre chega, e a fatura exigirá pragmatismo e um freio de arrumação inadiável nas nossas contas públicas.
O Peso das Dificuldades
O diagnóstico central do jornal britânico aponta para a fragilidade da nossa arquitetura fiscal. Historicamente, anos eleitorais no Brasil são marcados por fortes pressões expansionistas e aumento de gastos públicos. A consequência inevitável dessa dinâmica é a deterioração das expectativas inflacionárias e a elevação da curva de juros futuros.
O grande desafio para o próximo ano é lidar com o esgotamento do modelo pautado essencialmente no aumento de arrecadação, com um correspondente e efetivo aumento estrutural de despesas. O peso da dívida pública, com mais de 81% do PIB, o engessamento quase total do Orçamento da União, com mais de 95% em despesas fixas, e o déficit persistente de 8,5% do PIB ameaçam asfixiar a economia. Sem espaço no orçamento, o Estado perde capacidade de investimento em infraestrutura básica e, ao mesmo tempo, pressiona o custo do crédito, com uma Selic de 14,25%, retirando a tração do setor privado.
O Remédio Amargo e Necessário
Para evitar que essa realidade implacável se transforme em uma estagnação profunda, a política fiscal precisará passar por ajustes imediatos. A agenda do ano que vem exigirá medidas impopulares para a sustentabilidade do país. É fundamental a revisão estrutural das despesas obrigatórias, o combate às ineficiências da máquina pública e a consolidação de regras fiscais que sejam, de fato, inquestionáveis para os agentes econômicos. O mercado global não tem tolerância para contabilidades criativas em economias emergentes. A reancoragem das expectativas só acontecerá mediante a demonstração de um compromisso político com a sustentabilidade e a estabilização da dívida pública.
Da Crise à Oportunidade
Contudo, a economia também é feita de janelas de oportunidade. O alerta do Financial Times não deve ser encarado como uma sentença de condenação, mas sim como um roteiro prático de ação. Se o Brasil tiver a maturidade institucional para implementar esses ajustes fiscais com celeridade no início do próximo ciclo, os efeitos macroeconômicos positivos serão formidáveis.
Um choque genuíno de credibilidade fiscal reduz de imediato o prêmio de risco exigido pelos investidores globais. Com o risco-país e a inflação em queda, o Banco Central ganha o conforto técnico necessário para aprofundar um ciclo consistente de redução da taxa básica de juros. Juros menores barateiam o crédito corporativo, destravam bilhões em investimentos privados que hoje estão represados na renda fixa e estimulam a engrenagem da geração de empregos reais.
Além disso, o Brasil possui vantagens comparativas singulares no cenário global — liderança absoluta na transição energética, uma agroindústria de altíssima eficiência e matriz elétrica limpa. Com a casa fiscal em ordem, o país deixa de ser uma promessa adiada e torna-se o destino natural e prioritário do capital estrangeiro em busca de estabilidade, produção de baixo carbono e crescimento.
O ano que vem será um divisor de águas. Teremos que escolher entre a inércia fiscal, que invariavelmente cobra seu preço em inflação e desemprego, ou a responsabilidade econômica, que transforma o remédio amargo de hoje no crescimento sustentável e inclusivo de amanhã. Aconteceu isso com outras economias emergentes que fizeram o dever de casa e está na hora do Brasil acordar para isso.