Estado da Arte

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Estado da Arte episodes

  • OrderedDict([('small', '– Adriano Machado Ribeiro - Luiz Eva - Roberto Bolzani'), ('#text', 'Ceticismo')])
    “É um bom exercício matutino para um cientista pesquisador” dizia Konrad Lorenz “descartar uma hipótese de estimação todos os dias antes do café da manhã”. Mas por que restringir o exercício aos cientistas? Acaso o espetáculo de mentiras no mundo e em nosso coração não nos impõe o dever diário de adicionar um tanto de ceticismo à nossa vida? Não será o melhor antídoto contra as incoerências em nossa mente e as inconsistências em nossa conduta?

    O ceticismo é popularmente associado à descrença e ao pessimismo. Tecnicamente, porém, é antes uma filosofia da dúvida ou da incerteza. O termo grego “scepsis” significa originalmente “exame”, “indagação”, “ponderação”. Na concepção radical dos céticos pirrônicos antigos, para termos alguma certeza absoluta seria preciso ao menos uma dentre três coisas: compreender o todo para compreender as partes; separar nessa compreensão o que vem do sujeito e o que vem do objeto; e um critério para solucionar as antíteses entre nossas ideias e sentimentos, ideias e ideias e sentimentos e sentimentos. Dessas incertezas aparentemente insuperáveis, vêm a pluralidade de leis, mitologias, costumes e crenças, ante as quais o filósofo deve suspender seus juízos e seguir interrogando em busca de um olhar lúcido e um coração imperturbável. O espírito cético é ilustrado pelo lema de Montaigne, “Que sei eu?” e pela resposta de Lagrange “Não sei”. Nesse sentido, parece mesmo uma filosofia da humildade; do reconhecimento da nossa falibilidade; da razão em luta contra o racionalismo. Para David Hume o ceticismo nada mais é que “o senso comum submetido ao método e à correção.”

    Curiosamente, nos tempos modernos, o ceticismo seria associado ao libertinismo, ao niilismo, ao anarquismo, e logo visto como um fator de perturbação social. As críticas filosóficas mais contundentes, porém, acusam na sua irresolução resoluta precisamente o contrário: a letargia moral e o quietismo político. Mas é um fato que ao questionar tradições obsoletas e crenças ossificadas o ceticismo foi um lubrificante inestimável para o progresso da ciência e da democracia. Mas não será igualmente inestimável quando a própria modernidade adotar seus dogmas de estimação, cercados de mitos e ritos, como o “Progresso”, a “Ciência” e a “Democracia”? E mesmo quanto ao maior dos lugares comuns em torno ao ceticismo, o que o antagoniza à religião, não será necessário suspender o juízo? O próprio Montaigne, um magistrado católico, resumia assim o valor do pirronismo:

    Não há nada entre as invenções do homem que tenha tanta plausibilidade e utilidade: ele apresenta o homem nu e vazio; reconhecendo sua fraqueza natural, pronto a receber do alto alguma força exterior; despido do conhecimento humano, e tanto mais apto a alojar em si o divino; aniquilando seu juízo para dar mais espaço para a fé; nem desacreditando nem estabelecendo qualquer dogma contra os usos comuns; humilde, obediente, disciplinável, zeloso; um inimigo jurado da heresia, e consequentemente livre das opiniões vãs e irreligiosas introduzidas por falsas seitas. Ele é um papel em branco preparado para tomar do dedo de Deus as formas que ele quiser gravar.

    Convidados

    Adriano Machado Ribeiro: professor de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos.

    Luiz Eva: professor de filosofia da Universidade Federal do ABC e autor de Ceticismo e Subjetividade em Montaigne.

    Roberto Bolzani: professor de História da Filosofia da Universidade de São Paulo e autor de Acadêmicos versus Pirrônicos.

    oferecimento



    Fontes em O Grande Teatro do Mundo



    No Acervo Café Filosófico - Instituto CPFL 

    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/

    http://www.
    59 min
  • As ‘Críticas’ de Kant
    Georg Wilhelm Hegel disse em suas Lições sobre a História da Filosofia que toda grande filosofia é sua própria época exprimida em pensamento. Na auto-proclamada “Era da Razão”, Immanuel Kant foi a um só tempo seu clímax e sua superação. Ninguém justificou tão completamente as ambições das ciências naturais a um conhecimento objetivo do mundo; ninguém teve tanta fé no poder da razão e por essa razão ninguém traçou com tanta determinação os seus limites; poucos amaram tanto a liberdade e, por isso, ninguém demonstrou com tanto rigor que o homem livre é aquele que se submete aos imperativos da razão.
    Publicada em 1781, A Crítica da Razão Pura é considerada o tratado filosófico mais importante de seu tempo. A ela se seguiram a Crítica a Razão Prática e a Crítica ao Juízo. Na década seguinte a ‘filosofia crítica’, como Kant chamava seu sistema, se tornou a orientação filosófica dominante na Alemanha. Nos anos subsequentes a influência da filosofia de Kant se estendeu para a França, a Inglaterra e além. Em uma geração ele seria visto, mesmo por seus oponentes filosóficos, como o pensador moderno mais significativo desde Renée Descartes. Outros filósofos de ponta, como Hegel, Marx, Schopenhauer, Nietzsche prestariam a Kant a homenagem de discordar dele em grande escala. Estes pensadores se deram conta de que a filosofia crítica de Kant é um divisor de águas na história do pensamento. É um corpo de ideias que nenhum pensador que veio depois pôde ignorar. Kant teve o poder de determinar vitalmente mesmo a obra de seus antagonistas intelectuais.
    Convidados
    Andrea Faggion: professora de teoria do conhecimento da Universidade Estadual de Londrina e secretária geral da Sociedade Kant Brasileira.
    Daniel Perez: professor de história da filosofia moderna na Universidade Estadual de Campinas e autor de Kant e o problema da significação.
    Maurício Keinert: professor de história da filosofia moderna da Universidade de São Paulo.
    oferecimento

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/08/07/nova-serie-do-cafe-filosofico-cpfl-na-tv-cultura/
    http://www.institutocpfl.org.br/2013/04/04/etica-da-praxis-a-complexidade/
    http://www.institutocpfl.org.br/2011/10/18/filosofia-e-saber/
    http://www.institutocpfl.org.br/2009/12/01/subjetivacoes-contemporaneas/
    Referências

    * Kant e o problema da significação de Daniel Perez.
    * Kant et le kantisme de J. Lacroix.
    * Kant, the Architectonic and Development of his Philosophy de W.H. Werkmeister.
    * Etudes kantiennes de A. Philonenko.
    * Kant’s Transcendental Idealism de H.E. Allison.
    * The Origins and Implications of Kant’s Transcendental Philosophy de M. Glouberman.
    * Kant und das Problem der Gesetzmässigkeit der Natur de B. Thöle.
    * Kant über die menschliche Vernunft de G.B. Sala.
    * The Unity of Reason: Essay on Kant’s Philosophy de D. Henrich.
    * Kant und das Problem des metaphysischen Idealismus de D.H. Eidemann.
    * Subjektivität und Freiheit. Untersuschungen zum Idealismus von Kant bis Hegel de K. Düsing.
    * Immanuel Kant de O. Höffe.
    * Storia della filosofia moderna. Vol. II de Ernest Cassirer.
    * Metafisica e critica in Kant de G. Santinello.
    * Introduzione allo studio di Kant de S. Vanni Rovighi.
    * Esegesi e letture critiche kantiane de A. Banfi.
    * Kant – A Very Short Introduction de Roger Scruton.
    * The Cambridge Companion to Kant ed. por Paul Guyer.

    Apresentação: Marcelo Consentino
    Produção: Biancamaria Binazzi
    Ilustração: Retrato de Immanuel Kant de um autor anônimo (c. 1790). 
    19 de outubro de 2017
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Andréa Faggion - Daniel Perez - Maurício Keinert'), ('#text', 'As “Críticas” de Kant')])
    Georg Wilhelm Hegel disse em suas Lições sobre a História da Filosofia que toda grande filosofia é sua própria época exprimida em pensamento. Na auto-proclamada "Era da Razão", Immanuel Kant foi a um só tempo seu clímax e sua superação. Ninguém justificou tão completamente as ambições das ciências naturais a um conhecimento objetivo do mundo; ninguém teve tanta fé no poder da razão e por essa razão ninguém traçou com tanta determinação os seus limites; poucos amaram tanto a liberdade e, por isso, ninguém demonstrou com tanto rigor que o homem livre é aquele que se submete aos imperativos da razão.

    Publicada em 1781, A Crítica da Razão Pura é considerada o tratado filosófico mais importante de seu tempo. A ela se seguiram a Crítica a Razão Prática e a Crítica ao Juízo. Na década seguinte a ‘filosofia crítica’, como Kant chamava seu sistema, se tornou a orientação filosófica dominante na Alemanha. Nos anos subsequentes a influência da filosofia de Kant se estendeu para a França, a Inglaterra e além. Em uma geração ele seria visto, mesmo por seus oponentes filosóficos, como o pensador moderno mais significativo desde Renée Descartes. Outros filósofos de ponta, como Hegel, Marx, Schopenhauer, Nietzsche prestariam a Kant a homenagem de discordar dele em grande escala. Estes pensadores se deram conta de que a filosofia crítica de Kant é um divisor de águas na história do pensamento. É um corpo de ideias que nenhum pensador que veio depois pôde ignorar. Kant teve o poder de determinar vitalmente mesmo a obra de seus antagonistas intelectuais.

    Convidados

    Andrea Faggion: professora de teoria do conhecimento da Universidade Estadual de Londrina e secretária geral da Sociedade Kant Brasileira.

    Daniel Perez: professor de história da filosofia moderna na Universidade Estadual de Campinas e autor de Kant e o problema da significação.

    Maurício Keinert: professor de história da filosofia moderna da Universidade de São Paulo.

    oferecimento



    Fontes em O Grande Teatro do Mundo



    No Café Filosófico - CPFL

    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/

    http://www.institutocpfl.org.br/2017/08/07/nova-serie-do-cafe-filosofico-cpfl-na-tv-cultura/

    http://www.institutocpfl.org.br/2013/04/04/etica-da-praxis-a-complexidade/

    http://www.institutocpfl.org.br/2011/10/18/filosofia-e-saber/

    http://www.institutocpfl.org.br/2009/12/01/subjetivacoes-contemporaneas/

    Referências


    * Kant e o problema da significação de Daniel Perez.
    * Kant et le kantisme de J. Lacroix.
    * Kant, the Architectonic and Development of his Philosophy de W.H. Werkmeister.
    * Etudes kantiennes de A. Philonenko.
    * Kant’s Transcendental Idealism de H.E. Allison.
    * The Origins and Implications of Kant’s Transcendental Philosophy de M. Glouberman.
    * Kant und das Problem der Gesetzmässigkeit der Natur de B. Thöle.
    * Kant über die menschliche Vernunft de G.B. Sala.
    * The Unity of Reason: Essay on Kant’s Philosophy de D. Henrich.
    * Kant und das Problem des metaphysischen Idealismus de D.H. Eidemann.
    * Subjektivität und Freiheit. Untersuschungen zum Idealismus von Kant bis Hegel de K. Düsing.
    * Immanuel Kant de O. Höffe.
    * Storia della filosofia moderna. Vol. II de Ernest Cassirer.
    * Metafisica e critica in Kant de G. Santinello.
    * Introduzione allo studio di Kant de S. Vanni Rovighi.
    * Esegesi e letture critiche kantiane de A. Banfi.
    * Kant – A Very Short Introduction de Roger Scruton.
    * The Cambridge Companion to Kant ed. por Paul Guyer.


    Apresentação: Marcelo Consentino
    56 min
  • O Teatro do Absurdo
    “A vida é uma mera sombra errante, um pobre ator que desfila e desfalece em sua hora no palco e depois já não é mais ouvido: é um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, que não significa nada”. Nos anos 50, após Auschwitz e Hiroshima, esse célebre lamento de Macbeth parecia mais preciso do que nunca. Enquanto o Globo era dividido por uma cortina de ferro, um dramaturgo confessava:
    Jamais consegui me acostumar completamente à existência, nem à do mundo, nem à dos outros, nem, acima de tudo, à minha própria. Às vezes sinto que as formas são repentinamente esvaziadas de seu conteúdo, a realidade é irreal, palavras são ruídos despojados de qualquer sentido. . . . E não obstante, aqui estou, cercado pela aura da criação, incapaz de agarrar a fumaça, entendendo nada, desorientado, arrancado de não sei quê que me faz sentir que não tenho nada.
    Ao materializar o seu drama íntimo no palco, Eugène Ionesco, assim como Samuel Beckett, Arthur Adamov, Harold Pinter e outros de sua geração, criaram peças incendiárias para a cena teatral. Um jornalista reagiu assim:
    Se uma peça bem feita deve ter uma estória construída, essas não têm estória nem enredo; se uma peça bem feita é avaliada pela sutileza da caracterização, essas frequentemente não têm personagens reconhecíveis e oferecem à plateia quase marionetes mecânicas; se uma peça bem feita deve ter um tema explicável, exposto com nitidez e ao fim solucionado, essas não costumam ter começo nem fim; se uma peça bem feita ergue um espelho ante a natureza retratando as maneiras e maneirismos da época em cenas articuladas, essas com frequência parecem ser reflexos de sonhos e pesadelos; se uma peça bem feita se baseia em réplicas espirituosas e diálogos aguçados, essas muitas vezes consistem em balbucios incoerentes.
    Longe de desmoralizá-las como peças “mal feitas”, contudo, Martin Esslin pretendia despertar o público para uma poderosa linguagem poética, a mais capaz de exprimir os dramas de seu tempo e, por isso mesmo, de transcendê-lo. O termo que cunhou – “Teatro do Absurdo” – exerceria desde então um magnetismo irresistível em nosso imaginário cultural. E embora esses autores jamais tenham formado fila sob um manifesto ou programa comum, acabariam estereotipados como expoentes máximos do vanguardismo. Ironicamente, não há traço em suas obras do desprezo à tradição característico das contraculturas. Ao contrário: segundo Ionesco,
    O que as pessoas chamam vanguarda só interessa na medida em que marca um retorno às fontes, somente se se integra a uma tradição viva, atravessando um tradicionalismo esclerosado e um academicismo desgastado. . . . O trabalho de todo autêntico criador consiste em se livrar dos detritos, dos clichés de uma linguagem degradada, a fim de encontrar uma linguagem recém nascida, simplificada, essensializada, capaz de exprimir realidades novas e velhas, presentes e passadas, vivas e permanentes, particulares e, ao mesmo tempo, universais. As obras de arte mais jovens e novas são reconhecíveis, e falam a todas as idades. Sim, é o Rei Salomão o meu verdadeiro líder, e Jó – esse contemporâneo de Beckett.
    Convidados
    Fábio de Souza Andrade: professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo e autor de Samuel Beckett: o silêncio possível.
    Luiz Fernando Ramos: professor de Crítica, História e Teoria do Teatro na Universidade de São Paulo e autor de O Parto de Godot e Outras Enceneções Imaginárias.
    Viviane da Costa Pereira: doutora em literatura francesa pela Universidade de São Paulo com a tese Ionesco crítico.
    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    Referências

    * O Teatro do Absurdo (The Theatre of the Absurd) de Martin Esslin.
    * The Grove Companion to Samuel Beckett editado por Ackerley, C. J. e S. E. Gontarski.
    * Reassessing the Theatre of the Absurd: Camus, Beckett, Ionesco, Genet,
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Fábio de Souza Andrade – Luiz Fernando Ramos – Viviane da Costa Pereira'), ('#text', 'O Teatro do Absurdo')])
    “A vida é uma mera sombra errante, um pobre ator que desfila e desfalece em sua hora no palco e depois já não é mais ouvido: é um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, que não significa nada”. Nos anos 50, após Auschwitz e Hiroshima, esse célebre lamento de Macbeth parecia mais preciso do que nunca. Enquanto o Globo era dividido por uma cortina de ferro, um dramaturgo confessava:

    Jamais consegui me acostumar completamente à existência, nem à do mundo, nem à dos outros, nem, acima de tudo, à minha própria. Às vezes sinto que as formas são repentinamente esvaziadas de seu conteúdo, a realidade é irreal, palavras são ruídos despojados de qualquer sentido. . . . E não obstante, aqui estou, cercado pela aura da criação, incapaz de agarrar a fumaça, entendendo nada, desorientado, arrancado de não sei quê que me faz sentir que não tenho nada.

    Ao materializar o seu drama íntimo no palco, Eugène Ionesco, assim como Samuel Beckett, Arthur Adamov, Harold Pinter e outros de sua geração, criaram peças incendiárias para a cena teatral. Um jornalista reagiu assim:

    Se uma peça bem feita deve ter uma estória construída, essas não têm estória nem enredo; se uma peça bem feita é avaliada pela sutileza da caracterização, essas frequentemente não têm personagens reconhecíveis e oferecem à plateia quase marionetes mecânicas; se uma peça bem feita deve ter um tema explicável, exposto com nitidez e ao fim solucionado, essas não costumam ter começo nem fim; se uma peça bem feita ergue um espelho ante a natureza retratando as maneiras e maneirismos da época em cenas articuladas, essas com frequência parecem ser reflexos de sonhos e pesadelos; se uma peça bem feita se baseia em réplicas espirituosas e diálogos aguçados, essas muitas vezes consistem em balbucios incoerentes.

    Longe de desmoralizá-las como peças “mal feitas”, contudo, Martin Esslin pretendia despertar o público para uma poderosa linguagem poética, a mais capaz de exprimir os dramas de seu tempo e, por isso mesmo, de transcendê-lo. O termo que cunhou – "Teatro do Absurdo" – exerceria desde então um magnetismo irresistível em nosso imaginário cultural. E embora esses autores jamais tenham formado fila sob um manifesto ou programa comum, acabariam estereotipados como expoentes máximos do vanguardismo. Ironicamente, não há traço em suas obras do desprezo à tradição característico das contraculturas. Ao contrário: segundo Ionesco,

    O que as pessoas chamam vanguarda só interessa na medida em que marca um retorno às fontes, somente se se integra a uma tradição viva, atravessando um tradicionalismo esclerosado e um academicismo desgastado. . . . O trabalho de todo autêntico criador consiste em se livrar dos detritos, dos clichés de uma linguagem degradada, a fim de encontrar uma linguagem recém nascida, simplificada, essensializada, capaz de exprimir realidades novas e velhas, presentes e passadas, vivas e permanentes, particulares e, ao mesmo tempo, universais. As obras de arte mais jovens e novas são reconhecíveis, e falam a todas as idades. Sim, é o Rei Salomão o meu verdadeiro líder, e Jó – esse contemporâneo de Beckett.

    Convidados

    Fábio de Souza Andrade: professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo e autor de Samuel Beckett: o silêncio possível.

    Luiz Fernando Ramos: professor de Crítica, História e Teoria do Teatro na Universidade de São Paulo e autor de O Parto de Godot e Outras Enceneções Imaginárias.

    Viviane da Costa Pereira: doutora em literatura francesa pela Universidade de São Paulo com a tese Ionesco crítico.

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo



    Referências


    * O Teatro do Absurdo (The Theatre of the Absurd) de Martin Esslin.
    * The Grove Companion to Samuel Beckett editado por Ackerley, C. J. e S. E.
    53 min
  • Realismo Mágico
    Os cânones literários apontam que Dom Quixote foi o primeiro romance moderno justamente ridicularizando a magia dos romances de cavalaria. Desde então o romance de costumes nos ensinou a ver a vida como ela é, sem feitiços, superstições, milagres. Ora nos conduzindo sobre grandes panoramas históricos ora por entre labirintos psicológicos, os romancistas nos abriram o mistério da realidade apesar da ausência do sobrenatural, ou melhor justamente por causa dessa ausência, como entenderam realistas e naturalistas no século XIX.
    Não que a literatura fantástica tivesse sumido. Como diz Borges, ela “nasceu com o homem e está no primeiro capítulo do Genesis”. Mas na era da ciência, da indústria e do positivismo, parecia destinada à periferia das fábulas infantis, do terror gótico ou da ficção científica. Porém as atrocidades do século XX intensificaram a noção de “fantástico” além do imaginável. No entre-guerras o mundo do racionalismo iluminista se despedaçava visivelmente nas telas cubistas e expressionistas, e o dadaísmo e o surrealismo levaram a ruptura ao paroxismo. Mas na narrativa literária algo misterioso acontecia, parafraseando T.S. Eliot, “não com um bum, mas com um suspiro.” Aparições inquietantes surgiam aqui e ali, como o nariz ambulante de Gogol ou o homem-barata de Kafka. Logo começaram a se proliferar no novo mundo hispânico: fantasmas, loopings temporais, coincidências impossíveis viraram rotina nas páginas de Borges, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Miguel-Angel Asturias. Com críticos como Angel Flores, Uslar-Pietri e Luis Leal essa atmosfera ganhou um nome: “realismo mágico” ou “real maravilhoso”. Com Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Márquez ganhou um ícone, e com o Nobel para ele, foi canonizada. Menos interessados em destruir o realismo do que em burlá-lo, esses autores pareciam ora expandir nossas categorias do real (induzindo-nos à fé nas possibilidades do invisível) ora rompê-las por completo. Após o “Bum” latino-americano, a mágica se espalhou por toda parte, e a vislumbramos não só em estórias como as de Saramago, Italo Calvino ou Salman Rushdie, mas também nas entrelinhas do cinema de Tim Burton, Woody Allen, Terry Gilliam, entre outros.
    Mas o que é o Realismo Mágico? Os críticos disputam: “vemos Homi Bhabha se referindo [a ele] como ‘a linguagem literária do mundo pós-colonial emergente’, enquanto para Jean Franco é ‘pouco mais do que um rótulo para o exotismo’. De acordo com Matei Calinescu, pode ser ‘um grande, talvez o grande, componente da ficção pós-moderna.” (C. Warnes). Para muitos ele o é justamente como ponto de convergência entre o pós-modernismo e pós-colonialismo. Como diz Wendy Faris:
    O Realismo mágico. . . . ‘re-plenifica’ o modo dominante do realismo no Ocidente, desafiando sua base de representação a partir de dentro. Esta desestabilização. . . . significa que ele serviu como um agente descolonizador. . . . O Realismo mágico combina o realismo e o fantástico de modo que o maravilhoso parece agora crescer organicamente do ordinário, borrando a distinção entre eles. Além disso, a combinação da narrativa fantástica e realista, junto com a inclusão de diferentes tradições culturais, significa que o realismo mágico reflete. . . . a natureza híbrida de muitas sociedades pós-coloniais.
    O que será, então, o realismo mágico? Uma vanguarda artística? um gênero literário? uma contradição em termos? E poderá ele solucionar a “terrível pergunta” não respondida por Borges, “a pergunta que não é meramente literária, mas que todos alguma vez sentimos ou sentiremos. O universo, nossa vida, pertence ao gênero real ou ao gênero fantástico?  
    Convidados
    Ana Cecilia Olmos: professora de literatura latino-americana da Universidade de São Paulo.
    João Cezar de Castro Rocha: professor de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Cultures latino-américaines et poétique de l’émulation.
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Ana Cecilia Olmos - João Cezar de Castro Rocha - Sergius Gonzaga'), ('#text', 'Realismo Mágico')])
    Os cânones literários apontam que Dom Quixote foi o primeiro romance moderno justamente ridicularizando a magia dos romances de cavalaria. Desde então o romance de costumes nos ensinou a ver a vida como ela é, sem feitiços, superstições, milagres. Ora nos conduzindo sobre grandes panoramas históricos ora por entre labirintos psicológicos, os romancistas nos abriram o mistério da realidade apesar da ausência do sobrenatural, ou melhor justamente por causa dessa ausência, como entenderam realistas e naturalistas no século XIX.

    Não que a literatura fantástica tivesse sumido. Como diz Borges, ela “nasceu com o homem e está no primeiro capítulo do Genesis”. Mas na era da ciência, da indústria e do positivismo, parecia destinada à periferia das fábulas infantis, do terror gótico ou da ficção científica. Porém as atrocidades do século XX intensificaram a noção de “fantástico” além do imaginável. No entre-guerras o mundo do racionalismo iluminista se despedaçava visivelmente nas telas cubistas e expressionistas, e o dadaísmo e o surrealismo levaram a ruptura ao paroxismo. Mas na narrativa literária algo misterioso acontecia, parafraseando T.S. Eliot, “não com um bum, mas com um suspiro.” Aparições inquietantes surgiam aqui e ali, como o nariz ambulante de Gogol ou o homem-barata de Kafka. Logo começaram a se proliferar no novo mundo hispânico: fantasmas, loopings temporais, coincidências impossíveis viraram rotina nas páginas de Borges, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Miguel-Angel Asturias. Com críticos como Angel Flores, Uslar-Pietri e Luis Leal essa atmosfera ganhou um nome: “realismo mágico” ou “real maravilhoso”. Com Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Márquez ganhou um ícone, e com o Nobel para ele, foi canonizada. Menos interessados em destruir o realismo do que em burlá-lo, esses autores pareciam ora expandir nossas categorias do real (induzindo-nos à fé nas possibilidades do invisível) ora rompê-las por completo. Após o “Bum” latino-americano, a mágica se espalhou por toda parte, e a vislumbramos não só em estórias como as de Saramago, Italo Calvino ou Salman Rushdie, mas também nas entrelinhas do cinema de Tim Burton, Woody Allen, Terry Gilliam, entre outros.

    Mas o que é o Realismo Mágico? Os críticos disputam: “vemos Homi Bhabha se referindo [a ele] como ‘a linguagem literária do mundo pós-colonial emergente’, enquanto para Jean Franco é ‘pouco mais do que um rótulo para o exotismo’. De acordo com Matei Calinescu, pode ser ‘um grande, talvez o grande, componente da ficção pós-moderna.” (C. Warnes). Para muitos ele o é justamente como ponto de convergência entre o pós-modernismo e pós-colonialismo. Como diz Wendy Faris:

    O Realismo mágico. . . . ‘re-plenifica’ o modo dominante do realismo no Ocidente, desafiando sua base de representação a partir de dentro. Esta desestabilização. . . . significa que ele serviu como um agente descolonizador. . . . O Realismo mágico combina o realismo e o fantástico de modo que o maravilhoso parece agora crescer organicamente do ordinário, borrando a distinção entre eles. Além disso, a combinação da narrativa fantástica e realista, junto com a inclusão de diferentes tradições culturais, significa que o realismo mágico reflete. . . . a natureza híbrida de muitas sociedades pós-coloniais.

    O que será, então, o realismo mágico? Uma vanguarda artística? um gênero literário? uma contradição em termos? E poderá ele solucionar a “terrível pergunta” não respondida por Borges, “a pergunta que não é meramente literária, mas que todos alguma vez sentimos ou sentiremos. O universo, nossa vida, pertence ao gênero real ou ao gênero fantástico?  

    Convidados

    Ana Cecilia Olmos: professora de literatura latino-americana da Universidade de São Paulo.

    João Cezar de Castro Rocha: professor de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Cultures latino-américaines et poétique de l'émulation.
    59 min
  • A Revolução Copernicana
    Em nosso tempo há mais revoluções na terra que estrelas no céu. Noite e dia as mídias alardeiam qualquer coisa revolucionária e nossa vida atravessa suas pequenas revoluções. Mas de todas, nem as políticas foram capazes de revolucionar literalmente o mundo inteiro como a primeira, desencadeada em 1543 por um livro que trazia seu destino no nome: A Revolução das Esferas Celestes. Ironicamente, seus cálculos intrincados nada têm da rebeldia e verborragia revolucionária, e seu autor, um pacato cônego polonês, só o publicaria no último ano de vida com relutância, talvez menos pelo temor da perseguição que do ridículo.
    A ideia da Terra girando em torno do Sol afrontou a um só tempo o senso comum, as escolas milenares de Aristóteles e Ptolomeu, e astrônomos competentes como Tycho Brahe. Em seu poema A Anatomia do Mundo John Donne desabafava:
    O sol está perdido, e a terra, e a sabedoria de nenhum homem
    Pode bem orientá-lo a onde encontrá-la.
    Nisso concordavam os chefes das facções religiosas como Calvino e Lutero. Para Melanchton, homens como Kepler “por amor à novidade, ou para expor sua ingenuidade, concluíram que a terra se move. . . . É falta de honestidade ou decência afirmar tais noções publicamente, e o exemplo é pernicioso”. Por fim a Igreja católica se uniu à luta, e a condenação do velho Galileu em 1633 passou para a história como o seu momento mais constrangedor. Durante o século e meio seguinte “uma crença no universo centrado na terra se transformou gradualmente de um sinal essencial de sanidade para um indício, primeiro de inflexível conservadorismo, depois de excessivo paroquialismo, e finalmente de completo fanatismo” (Thomas Kuhn). Na época de Newton a revolução astronômica já se propagava em ondas às esferas da filosofia e da cultura elevando a ciência ao seu papel atual de suprema autoridade sobre os saberes.
    Mas o que olho nu de Copérnico viu que nenhum outro vira? Como seus correligionários puseram a Terra toda para rodar? Como a transformaram de centro do universo num planeta entre planetas girando ao redor de um Sol que virava uma estrela entre estrelas perdidas no infinito? Como entendiam a relação entre a fé e a ciência? E como nos ensinam a pensar duas vezes antes de ridicularizar uma hipótese à primeira vista lunática?
    Convidados
    Claudemir Tossato: professor de Epistemologia e Filosofia da Ciência na Universidade Federal de São Paulo e autor de O conhecimento científico. 
    Eduardo Kickhöfel: professor de História da Filosofia da Renascença na Universidade Federal de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa La Fabrica delli Strumenti de Galileu Galilei .
    Pablo Mariconda: professor de História e  Filosofia da Ciência da Universidade de São Paulo, tradutor e editor do Diálogo de Galileu Galilei.
    oferecimento

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No acervo do Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.br/2012/06/14/100-anos-de-evolucao-da-ciencia-1912-a-2022-carlos-alberto-aragao-de-carvalho-filho/



    Referências

    * A Revolução Copernicana (The Copernican Revolution) de Thomas Kuhn (Edições 70).
    * The History of Astronomy – A Very Short Introduction de M. Hoskin.
    * Galileo’s Intellectual Revolution de W.R. Shea.
    * Novità celesti e crisi del sapere, vários autores, editado por P. Gallluzzi.
    * Galilei e Keplero. Filosofia, cosmologia e teologia nell’età della Controriforma de Massimo Bucciantini.
    * Galileu Galilei e la cultura scientifica nell’età della Controriforma de M. Camerota.
    * The Reception of the Galilean Science of Motion, vários autores, editado por J.M.M.H. Thijssen.
    * En Torno a Galileo de José Ortega y Gasset.
    * “Astronomia”, “Cosmologia”, “Nicolaus Copernicus”, “Johannes Kepler”, “Galileo Galilei” na Enciclopedia Filosofica Bompiani.
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Claudemir Tossato - Eduardo Kickhöfel - Pablo Mariconda'), ('#text', 'A Revolução Copernicana')])
    Em nosso tempo há mais revoluções na terra que estrelas no céu. Noite e dia as mídias alardeiam qualquer coisa revolucionária e nossa vida atravessa suas pequenas revoluções. Mas de todas, nem as políticas foram capazes de revolucionar literalmente o mundo inteiro como a primeira, desencadeada em 1543 por um livro que trazia seu destino no nome: A Revolução das Esferas Celestes. Ironicamente, seus cálculos intrincados nada têm da rebeldia e verborragia revolucionária, e seu autor, um pacato cônego polonês, só o publicaria no último ano de vida com relutância, talvez menos pelo temor da perseguição que do ridículo.

    A ideia da Terra girando em torno do Sol afrontou a um só tempo o senso comum, as escolas milenares de Aristóteles e Ptolomeu, e astrônomos competentes como Tycho Brahe. Em seu poema A Anatomia do Mundo John Donne desabafava:

    O sol está perdido, e a terra, e a sabedoria de nenhum homem
    Pode bem orientá-lo a onde encontrá-la.

    Nisso concordavam os chefes das facções religiosas como Calvino e Lutero. Para Melanchton, homens como Kepler “por amor à novidade, ou para expor sua ingenuidade, concluíram que a terra se move. . . . É falta de honestidade ou decência afirmar tais noções publicamente, e o exemplo é pernicioso”. Por fim a Igreja católica se uniu à luta, e a condenação do velho Galileu em 1633 passou para a história como o seu momento mais constrangedor. Durante o século e meio seguinte “uma crença no universo centrado na terra se transformou gradualmente de um sinal essencial de sanidade para um indício, primeiro de inflexível conservadorismo, depois de excessivo paroquialismo, e finalmente de completo fanatismo” (Thomas Kuhn). Na época de Newton a revolução astronômica já invadia em ondas as esferas da filosofia e da cultura elevando a ciência ao seu papel atual de suprema autoridade sobre os saberes.

    Mas o que olho nu de Copérnico viu que nenhum outro vira? Como seus correligionários puseram a Terra toda para rodar? Como a transformaram de centro do universo num planeta entre planetas girando ao redor de um Sol que virava uma estrela entre estrelas perdidas no infinito? Como entendiam a relação entre a fé e a ciência? E como nos ensinam a pensar duas vezes antes de ridicularizar uma hipótese à primeira vista lunática?

    Convidados

    Claudemir Tossato: professor de Epistemologia e Filosofia da Ciência na Universidade Federal de São Paulo e autor de O conhecimento científico. 

    Eduardo Kickhöfel: professor de História da Filosofia da Renascença na Universidade Federal de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa La Fabrica delli Strumenti de Galileu Galilei .

    Pablo Mariconda: professor de História e  Filosofia da Ciência da Universidade de São Paulo, tradutor e editor do Diálogo de Galileu Galilei.

    oferecimento



    Fontes em O Grande Teatro do Mundo



    No acervo do Café Filosófico - CPFL

    http://www.institutocpfl.org.br/2012/06/14/100-anos-de-evolucao-da-ciencia-1912-a-2022-carlos-alberto-aragao-de-carvalho-filho/

    https://vimeo.com/126937308

    https://vimeo.com/89912955

    https://www.youtube.com/watch?v=SmcUEvX4-ms

    Referências


    * A Revolução Copernicana (The Copernican Revolution) de Thomas Kuhn (Edições 70).
    * The History of Astronomy – A Very Short Introduction de M. Hoskin.
    * Galileo’s Intellectual Revolution de W.R. Shea.
    * Novità celesti e crisi del sapere, vários autores, editado por P. Gallluzzi.
    * Galilei e Keplero. Filosofia, cosmologia e teologia nell’età della Controriforma de Massimo Bucciantini.
    * Galileu Galilei e la cultura scientifica nell’età della Controriforma de M. Camerota.
    * The Reception of the Galilean Science of Motion,
    47 min
  • A “Cidade de Deus” de Agostinho
    Santo Agostinho é não só um dos raros escritores da Antiguidade consumidos popularmente em nosso tempo, mas segundo algumas estimativas é o autor mais traduzido e comentado em todo o mundo. Nascido no norte da África 300 anos após a crucificação de Cristo, quando a comunidade cristã já deixara de ser uma seita palestina perseguida e se tornara a religião hegemônica do Império romano, Aurélio Agostinho fez carreira como professor de retórica e depois bispo, conquistando uma autoridade até hoje sem par entre os chamados Padres da Igreja latina. Suas Confissões da juventude pagã são tidas por muitos como a matriz das autobiografias ocidentais e suas reflexões teológicas estão entre os principais pilares do pensamento filosófico e político da Cristandade.
    Quando o saque de Roma pelos visigodos em 410 desencadeou uma atmosfera pessimista sobre o mundo mediterrâneo, Agostinho sacou sua pena afiada para defender a Igreja dos que a acusavam pela degeneração do Império. Após 13 anos de trabalho, vinha à luz sua obra prima. Muito além de uma apologia contra os pagãos, a Cidade de Deus se abre a uma especulação sobre a História Universal sem precedentes no mundo clássico e sem descendentes no medieval, possivelmente só igualada em fôlego e amplitude pelas epopeias metafísicas modernas de filósofos como Vico, Hegel, Comte ou Marx. Em sua visão, toda existência humana, individual ou social, está, do princípio ao fim, tensionada, quando não dilacerada, entre dois amores – dois amores que fundaram duas Cidades. Nas suas palavras:
    O amor de si levado até o desprezo de Deus gera a cidade terrena; o amor de Deus levado até o desprezo de si gera a cidade celeste. Aquela aspira à glória dos homens, esta põe acima de tudo a glória de Deus. . . . Os cidadãos da cidade terrena são dominados por uma estúpida ambição de predomínio que os induz a subjugar os outros; os cidadãos da cidade celeste se oferecem um ao outro em serviço e espírito de caridade e respeitam docilmente os deveres da disciplina social.
    Convidados
    João Carlos Nogueira: professor de ética e filosofia antiga da Pontifícia Universidade de Campinas e tradutor da Cidade de Deus (no prelo).
    Moacyr Novaes: professor de Filosofia Medieval na Universidade de São Paulo e autor de A razão em exercício. Estudos sobre a filosofia de Agostinho (Ed. Paulus).
    Pedro Monticelli: professor doutor de filosofia patrística, escolástica e contemporânea da Faculdade de São Bento e da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação.
    oferecimento

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No Acervo Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/08/07/nova-serie-do-cafe-filosofico-cpfl-na-tv-cultura/
    http://www.institutocpfl.org.br/2014/10/07/cafe-filosofico-cpfl-serie-7-prazeres-capitais-pecados-e-virtudes-hoje-curadoria-leandro-karnal/
    http://www.institutocpfl.org.br/2011/12/02/o-retorno-do-sabio-a-ciencia-do-ser-e-as-discrepancias-dos-estoicos-–-jose-arthur-giannotti-3/
    Referências

    * Santo Agostinho, Uma Biografia (Augustine of Hippo: A Biography) de Peter Brown.
    * Agostinho (The Cambridge Companion to Saint Augustine) editado por E. Stump e N. Kretzmann.
    * Introduction à l’étude de Saint Augustine e Les Métamorphoses de la Cité de Dieu de E. Gilson.
    * Augustine of Hippo: Life and Controversies de Gerald Bonner.
    * Augustine de Harry Chadwick.
    * “The Status of Politics in St. Augustine’s City of God” de P.J. Burnell em History of Political Thought 13/1, 13-29.
    * Augustine de M.T. Clark.
    * A History of Philosophy II: Augustine to Scotus de F. Copleston.
    * The Political and Social Ideas of St. Augustine de H.A. Deane.
    0 min

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