Estado da Arte

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Estado da Arte episodes

  • OrderedDict([('small', '– João Carlos Nogueira - Moacyr Novaes - Pedro Monticelli'), ('#text', 'A “Cidade de Deus” de Agostinho')])
    Santo Agostinho é não só um dos raros escritores da Antiguidade consumidos popularmente em nosso tempo, mas segundo algumas estimativas é o autor mais traduzido e comentado em todo o mundo. Nascido no norte da África 300 anos após a crucificação de Cristo, quando a comunidade cristã já deixara de ser uma seita palestina perseguida e se tornara a religião hegemônica do Império romano, Aurélio Agostinho fez carreira como professor de retórica e depois bispo, conquistando uma autoridade até hoje sem par entre os chamados Padres da Igreja latina. Suas Confissões da juventude pagã são tidas por muitos como a matriz das autobiografias ocidentais e suas reflexões teológicas estão entre os principais pilares do pensamento filosófico e político da Cristandade.

    Quando o saque de Roma pelos visigodos em 410 desencadeou uma atmosfera pessimista sobre o mundo mediterrâneo, Agostinho sacou sua pena afiada para defender a Igreja dos que a acusavam pela degeneração do Império. Após 13 anos de trabalho, vinha à luz sua obra prima. Muito além de uma apologia contra os pagãos, a Cidade de Deus se abre a uma especulação sobre a História Universal sem precedentes no mundo clássico e sem descendentes no medieval, possivelmente só igualada em fôlego e amplitude pelas epopeias metafísicas modernas de filósofos como Vico, Hegel, Comte ou Marx. Em sua visão, toda existência humana, individual ou social, está, do princípio ao fim, tensionada, quando não dilacerada, entre dois amores – dois amores que fundaram duas Cidades. Nas suas palavras:

    O amor de si levado até o desprezo de Deus gera a cidade terrena; o amor de Deus levado até o desprezo de si gera a cidade celeste. Aquela aspira à glória dos homens, esta põe acima de tudo a glória de Deus. . . . Os cidadãos da cidade terrena são dominados por uma estúpida ambição de predomínio que os induz a subjugar os outros; os cidadãos da cidade celeste se oferecem um ao outro em serviço e espírito de caridade e respeitam docilmente os deveres da disciplina social.

    Convidados

    João Carlos Nogueira: professor de ética e filosofia antiga da Pontifícia Universidade de Campinas e tradutor da Cidade de Deus (no prelo).

    Moacyr Novaes: professor de Filosofia Medieval na Universidade de São Paulo e autor de A razão em exercício. Estudos sobre a filosofia de Agostinho (Ed. Paulus).

    Pedro Monticelli: professor doutor de filosofia patrística, escolástica e contemporânea da Faculdade de São Bento e da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação.

    oferecimento



    Fontes em O Grande Teatro do Mundo



    No Acervo Café Filosófico - CPFL

    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/

    http://www.institutocpfl.org.br/2017/08/07/nova-serie-do-cafe-filosofico-cpfl-na-tv-cultura/

    http://www.institutocpfl.org.br/2014/10/07/cafe-filosofico-cpfl-serie-7-prazeres-capitais-pecados-e-virtudes-hoje-curadoria-leandro-karnal/

    http://www.institutocpfl.org.br/2011/12/02/o-retorno-do-sabio-a-ciencia-do-ser-e-as-discrepancias-dos-estoicos-–-jose-arthur-giannotti-3/

    Referências


    * Santo Agostinho, Uma Biografia (Augustine of Hippo: A Biography) de Peter Brown.
    * Agostinho (The Cambridge Companion to Saint Augustine) editado por E. Stump e N. Kretzmann.
    * Introduction à l’étude de Saint Augustine e Les Métamorphoses de la Cité de Dieu de E. Gilson.
    * Augustine of Hippo: Life and Controversies de Gerald Bonner.
    * Augustine de Harry Chadwick.
    * “The Status of Politics in St. Augustine’s City of God” de P.J. Burnell em History of Political Thought 13/1, 13-29.
    * Augustine de M.T. Clark.
    53 min
  • Melancolia
    Na Grécia antiga, Aristóteles (ou um discípulo) se perguntava: “Por que todos os indivíduos excepcionais, na atividade filosófica ou política, artística ou literária, têm um temperamento melancólico e atrabiliário, sendo mesmo afetados pelos estados doentios que derivam disso?”
    Segundo a medicina da época, todos os nossos estados de ânimo seriam regulados pelo fluxo dos quatro humores ou fluidos vitais: o sangue, a fleuma, a bile amarela e a bile negra (em grego: melàina cholé). Para Hipócrates, o “pai da medicina”, o excesso de líquido negro levava a uma permanência aberrante do “medo” e do “desânimo”, e daí os sintomas do melancólico: a lenteza de gestos, o comportamento penseroso, o abatimento, a genialidade criativa irritadiça. Dali em diante, essa misteriosa “tristeza sem causa” seguiu seu curso oscilante na história humana, enviesando-se pelos campos da espiritualidade, da filosofia, da vida moral e das artes e letras, e desencadeando ora um quietismo desesperado ante as misérias do mundo, ora a abertura das portas da percepção. Mas desde Galeno, passando por Robert Burton até Freud, toda vez que se tentou traçar rigorosamente os limites conceituais da melancolia, esses mesmos limites foram, ato contínuo, borrados pela fluidez de seu objeto. E mesmo hoje, na era da moderna neuropsiquiatria e dos psicofármacos sintéticos, não é diferente.
    Afinal, acaso estamos mais perto de solucionar o enigma da melancolia do que Aristóteles há 2.500 anos? De lá para cá, não terá o humor negro se disseminado sempre mais, se não por nosso corpo ao menos por nosso espírito, na tragédia existencial da multidão anônima de neurastênicos, apáticos e depressivos, mas também nas obras dos artistas, filósofos e poetas que amamos? Parafraseando um deles, não terá toda a história universal sido escrita com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”? E o que é afinal a melancolia? Será uma condição universal ou a cifra de um quadro psicopatológico? Será um pecado mortal (o “Demônio do Meio-Dia”) ou um furor criativo? Será um traço de temperamento ou o sinal de alguma perda irreparável? Será um mergulho místico em nosso coração na presença – ou ausência – do Ser absoluto ou será, enfim, um transtorno mental que pode levar à morte dos suicidas?
    Convidados
    Ivan Frias: pós-doutor em Historia da Filosofia pela Universidade de Nantes na França, médico, e autor de Doença do Corpo, Doença da Alma – medicina e filosofia na Grécia Clássica.
    Lilian Wurzba: professora doutora do Instituto Jungiano e autora de Natureza irreal ou fantástica realidade? Reflexões sobre a melancolia religiosa e suas expressões simbólicas na obra de Hironymus Bosch.
    Rodrigo Petronio: doutor em Literatura Comparada (UERJ), escritor, filósofo e professor titular da Fundação Armando Alvares Penteado.
    oferecimento

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No acervo Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/24/arquivo-serie-do-cafe-na-tv-sobre-melancolia/
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/04/27/cafefilosoficocplf-de-abril-novos-horizontes-da-responsabilidade/
    http://www.institutocpfl.org.br/2017/05/27/modulo-pilulas-e-palavras-as-sextas-no-instituto-cpfl/

    Referências

    * A tinta da Melancolia: Uma história cultura da tristeza (L’encre de la mélancholie); A melancolia diante do espelho (La mélancholie au miroir) e outros de Jean Starobinski.
    * Metáfora e Melancolia: Ensaios médico-filosóficos; La Maladie de l’âme : étude sur la relation de l’âme et du corps dans la tradition médico-philosophique antique; Melancholia : le malaise de l’individu e outros de Jackie Pigeaud. 
    * Doença do Corpo, Doença da Alma – medicina e filosofia na Grécia Clássica de Ivan Frias. 
    * Natureza irreal ou fantástica realidade? Reflexões sobre a melancolia religiosa e suas expressões simbólicas na ob...
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Ivan Frias - Lilian\xa0Wurzba - Rodrigo Petronio'), ('#text', 'Melancolia')])
    Entrevista com Ivan Frias, Lilian Wurzba e Rodrigo Petronio - Rádio Estado da Arte - Na Grécia antiga, Aristóteles (ou um discípulo) se perguntava: “Por que todos os indivíduos excepcionais, na atividade filosófica ou política, artística ou literária, têm um temperamento melancólico e atrabiliário, sendo mesmo afetados pelos estados doentios que derivam disso?”. . . .
    56 min
  • Psicofármacos
    No ano de 2.540 depois de Cristo o Administrador do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley explicava a origem da droga soma:
    Dois mil farmacologistas e bioquímicos foram subsidiados no ano 178 depois de Ford… Seis anos depois estava sendo produzida comercialmente. A droga perfeita… Eufórica, narcótica, agradavelmente alucinante… Todas as vantagens do cristianismo e do álcool, nenhum dos seus defeitos… Tire um feriado da realidade sempre que quiser, e volte sem tanto quanto uma dor de cabeça ou uma mitologia.
    A história da psicofarmacologia é a “história da intersecção entre drogas, loucura, ordem social e a experiência do eu” (David Healey). Há pelo menos 10 mil anos, substâncias psicoativas como ópio, coca, mescalina, e, claro, o álcool, têm sido ingeridas para alterar a consciência em busca de recreação, experiências religiosas, ampliação sensorial e cognitiva ou anestesia. Surpreendentemente, até meados do século passado, seu uso no tratamento de transtornos mentais era praticamente nulo, a tal ponto que em 1888 um alienista como Heinrich Neumann podia anunciar: “É chegada a hora de deixarmos de buscar a erva, sal ou metal que em doses homeopáticas ou alopáticas curará a mania, a degeneração, os delírios ou a excitação. Não serão encontradas antes que encontrem as pílulas que farão um grande artista de um palerma ignorante ou uma criança bem comportada de um moleque mimado”. Mas em 1949, quase por acaso, um psiquiatra australiano descobria o poder tranquilizador do sal de lítio sobre maníaco-depressivos. Logo se seguiria o mais bem sucedido dos antipsicóticos, a clorpromazina, e também o primeiro antidepressivo. No final dos anos 50, dois terços dos pacientes com esquizofrenia passavam a maior parte de suas vidas em hospitais psiquiátricos; já nos anos 80, 95% dos esquizofrênicos eram tratados em regime de não internação. Mesmo que aí influam outras causas, como o movimento antimanicomial, o triunfo dos psicotrópicos sintéticos é inegável. É verdade que já nos anos 60 e 70 um certo mal-estar era diagnosticado por críticos que acusavam num “culto à droga”, tanto entorpecente quanto medicamentosa, um fenômeno social de evasão face às atividades quotidianas normais. Mas após as épocas de euforia com a psicanálise, o behaviorismo e outras ondas do mundo Psi, a neuropsiquiatria tinha seu momento de coqueluche quase ao ponto da mania: “Tão grande é o nosso conhecimento e comando sobre os neurotransmissores”, declarava em 1993 o Doutor Peter Kramer no best-seller Ouvindo o Prozac, “que estamos entrando na era da neurofarmacologia cosmética, tal que seremos capazes de projetar nossas próprias personalidades: um pouco mais de autoconfiança aqui, um pouco menos de irascibilidade ali. Poderemos ser exatamente quem quisermos ser, não pelos meios tradicionais da disciplina e do autocontrole, mas antes tomando uma mistura judiciosa de pílulas”. Apesar disso, muitos céticos veem nesse triunfo uma mistura promíscua entre terapia e engenharia humana, e por trás dele as mesmas forças que borraram a distinção entre o laboratório e a fábrica, ou seja: a indústria farmacêutica inflacionando doenças para vender a cura. Qual será a verdade sobre os psicofármacos?
    Convidados
    André Negrão: colaborador do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Hospital das Clínicas de São Paulo com pesquisa sobre marcadores genéticos e influência ambiental no consumo de substâncias psicoativas.
    Christian Kieling: professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenador do Grupo de Pesquisa em Depressão na Adolescência do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.
    Valentim Gentil Filho: professor titular de psiquiatria da Universidade de São Paulo e membro permanente do Conselho Diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
    oferecimento

    Fontes em 
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– André Negrão - Christian Kieling - Valentim Gentil Filho'), ('#text', 'Psicofármacos')])
    Entrevista com André Negrão, Christian Kieling e Valentim Gentil Filho para a Rádio Estado da Arte - No ano de 2.540 depois de Cristo o Administrador do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley explicava a origem da droga soma: Dois mil farmacologistas e bioquímicos foram subsidiados no ano 178 depois de Ford... Seis anos depois estava sendo produzida comercialmente. A droga perfeita... Eufórica, narcótica, agradavelmente alucinante... Todas as vantagens do cristianismo e do álcool, nenhum dos seus defeitos… Tire um feriado da realidade sempre que quiser, e volte sem tanto quanto uma dor de cabeça ou uma mitologia. . . .
    55 min
  • Édipo
    Imagine descobrir que seus pais não são seus pais, que seus filhos são seus meio-irmãos, frutos de seu casamento com sua verdadeira mãe, a viúva de seu pai, que foi assassinado por você – o mesmo pai e mãe, diga-se, que tentaram matá-lo quando bebê. Seria o despertar para um pesadelo? Incesto, infanticídio, parricídio são abominações desde que o homem é homem, porém um homem veio ao mundo não só para sofrer essas calamidades, mas ainda para ver o enforcamento suicida de sua mulher-mãe e, muito depois, velho, mendicante, sem os olhos que cegara com as próprias mãos, o rapto de suas filhas-irmãs e a guerra civil em sua Cidade precipitada por seus filhos-irmãos, aos quais por fim amaldiçoou, profetizando seu fratricídio.
    Édipo vem de uma dinastia de personagens que, como Dom Juan, Dom Quixote, Fausto e Hamlet, transcendem, segundo Lowell Edmunds, “as suas origens nacionais e as obras da arte, da música e da literatura que contaram sua história. Cada um atingiu um status especial na imaginação do Ocidente, capaz de falar poderosamente da condição humana. Dos cinco, Édipo, outrora rei de Tebas, pode conclamar o maior dos reinos no pensamento dos nossos tempos”. Na verdade, não só dos nossos, pois, 2500 anos mais velho, Édipo é de longe o mais reinterpretado no grande teatro do Mundo. Muito antes que poetas épicos como Homero e Hesíodo cantassem a sua agonia, Édipo já era cultuado como um espírito tutelar sagrado e seu corpo era objeto de sacrifícios rituais em sepulturas reivindicadas por povos de toda a Grécia. Ancestral dos heróis de Troia, ele magnetizou como nenhum outro os corações da trindade dramatúrgica helênica: Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. O Édipo Rei deste último era estimado por Aristóteles como a tragédia por excelência, incomparável em seu poder de purificar nossa humanidade pelas emoções do pavor e da piedade. Com ela em mente, Hölderlin dedicou seu epigrama a Sófocles:
    Mais de um tentou em vão dizer o mais alegre com alegria.
    Aqui o encontro exprimido por fim na dor.
    Além da Grécia, Édipo reviveria nos dramas de outras nações, desde a Roma de Sêneca, até a França de Corneille e a Áustria de Hofmannstahl. E além do palco, o seu enigma desafiou filósofos como Hegel, antropólogos como Lévi-Strauss e psicólogos como Lacan.
    Mas quem terá sido Édipo? A maior vítima do Destino ou o maior responsável por sua desgraça? Um maldito soterrado em tormentos ou um herói elevado à condição divina? Será o seu drama uma excrescência macabra da imaginação, um pedaço do inferno na terra destinado a uns raríssimos eleitos para o espetáculo de muitos, ou será um destino que pesa sobre todos nós antes do nascimento, o desejo de fazer sexo com nossa mãe e de castrar e assassinar nosso pai, como sugere o Complexo de Freud – e porventura de matar nossos filhos, como desejou Édipo e seu pai? E podemos nos maravilhar de que as testemunhas anônimas do coro concluíssem assim: “Não ter nascido é a melhor de todas as coisas; mas quando um homem viu a luz do dia, a segunda melhor de longe é voltar o quanto antes ao lugar de onde veio”? Por outro lado, poderemos não nos maravilhar quando um Édipo moribundo diz às filhas resgatadas: “Uma palavra nos livra de todo peso e dor da vida. Esta palavra é amor…”
    Convidados
    Adriane Duarte: professora de letras clássicas da Universidade de São Paulo e autora de Cenas de reconhecimento na poesia grega.
    Flávio de Oliveira: coordenador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Campinas e tradutor do Rei Édipo.
    Lúcia Rocha: professora de Filosofia Antiga da Federal de São Paulo e autora de Édipo Rei, a vontade humana e os desígnios divinos na tragédia de Sófocles.
    oferecimento

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No acervo do Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.
    57 min
  • OrderedDict([('small', '– Adriane Duarte - Flávio de Oliveira - Lúcia Rocha'), ('#text', 'Édipo')])
    Entrevista com Adriane Duarte, Flávio de Oliveira e Lúcia Rocha para a Rádio Estado da Arte - Imagine descobrir que seus pais não são seus pais, que seus filhos são seus meio-irmãos, frutos de seu casamento com sua verdadeira mãe, a viúva de seu pai, que foi assassinado por você – o mesmo pai e mãe, diga-se, que tentaram matá-lo quando bebê. Seria o despertar para um pesadelo? Incesto, infanticídio, parricídio são abominações desde que o homem é homem, porém um homem veio ao mundo não só para sofrer essas calamidades, mas ainda para ver o enforcamento suicida de sua mulher-mãe e, muito depois, velho, mendicante. . . .
    57 min
  • A Revolução Russa
    O centenário da Revolução se foi sem celebração oficial. “Por que deveríamos comemorar um evento desse tipo?” disse o porta-voz do Kremlin. Mas que tipo de evento é esse?
    Nascido enquanto astrônomos como Copérnico revolviam o universo, o termo “revolução” debuta na política com o parlamento inglês submetendo o rei na Revolução Gloriosa e retorna com a Revolução americana celebrando a autodeterminação de sua nação e de seus cidadãos. Se essas revoluções buscavam preservar direitos políticos, a primeira a ambicionar a criação de uma nova ordem social foi a francesa. Daí em diante, “Revolução” passou a denotar planos grandiosos para transformar o mundo. Com efeito, do Ártico ao Mar Negro, do Báltico ao Extremo Oriente, a Revolução russa cobriria um sexto do globo com seu Estado socialista. Ela “se mostrou o mais consequente evento do século XX, inspirando movimentos comunistas e revoluções pelo mundo, notavelmente na China, provocando a reação na forma do fascismo, e depois de 1945 tendo uma profunda influência em muitos movimentos anticoloniais e moldando a arquitetura das relações internacionais através da Guerra Fria.” (S.A. Smith). Gerações à esquerda professaram a fé na visão milenarista bolchevique da abolição da propriedade privada, do lucro, do mercado e da sociedade civil. Conforme o seu catecismo marxista, a sociedade capitalista estava colapsando por contradições internas e este colapso (a “revolução”) seria consumado pelos operários industriais (o “proletariado”). Paradoxalmente, a revolução soviética foi executada num país agrário por uma vanguarda de elite que via a classe trabalhadora como mera massa recalcitrante. Pode-se até perguntar se tudo não passou da autocracia mudando tudo para que tudo permanecesse como era. O filósofo Berdiaev via uma relação tão íntima entre o novo regime e o velho que chegava a negar ter havido uma “revolução russa”: “todo passado está se repetindo a si mesmo e age somente por trás de novas máscaras”. De fato, o patrimonialismo imperial se fundava em quatro pilares: o autocrata; a sua posse dos recursos da nação; o seu direito ao serviço irrestrito dos súditos; e o seu controle da informação. “Em todas estas instâncias” constatou Richard Pipes “os bolcheviques encontraram modelos não em Marx, Engels ou nos socialistas ocidentais, mas no czarismo”. Ante o terror vermelho, ele concluía: “A revolução russa levantou a mais profunda das questões morais sobre a natureza da política – ou seja o direito dos governos de tentar refazer seres humanos e remodelar a sociedade sem o seu mandato e mesmo contra a sua vontade: a legitimidade do velho slogan comunista, ‘Conduziremos a humanidade à felicidade pela força!’”
    Sete décadas e dezenas de milhões de vítimas depois, o sucessor de Lenin e Stalin na Rússia, Boris Yeltsin, declarava ante o Congresso americano: “O mundo pode respirar aliviado. O ídolo do Comunismo que disseminou por toda parte conflito social, animosidade, e brutalidade sem precedentes, que instilou o medo na humanidade, colapsou. Colapsou, para jamais se erguer de novo”. Será? Terá sido a Revolução Russa a última grande revolução ou só o primeiro tremor de uma revolução total, como um espectro que ronda o mundo?
    Convidados
    Daniel Aarão: professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense e autor de A Revolução que mudou o Mundo.
    Bolívar Lamounier: cientista político, diretor da Augurium Consultoria e autor de Tribunais, Profetas e Sacerdotes: intelectuais e ideologias no século XX.
    Vinícius Müller: professor de História Econômica do Instituto de Ensino e Pesquisa e da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado.
    Oferecimento 

    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    No acervo do Café Filosófico – CPFL
    http://www.institutocpfl.org.br/2009/12/01/os-fantasmas-da-perfeicao/
    0 min
  • OrderedDict([('small', '– Daniel Aarão - Bolívar Lamounier - Vinícius Müller'), ('#text', 'A Revolução Russa')])
    Entrevista com Daniel Aarão, Bolívar Lamounier e Vinícius Müller - Rádio Estado da Arte - O centenário da Revolução se foi sem celebração oficial. “Por que deveríamos comemorar um evento desse tipo?” disse o porta-voz do Kremlin. Mas que tipo de evento é esse? Nascido enquanto astrônomos como Copérnico revolviam o universo, o termo “revolução” debuta na política com o parlamento inglês submetendo o rei na Revolução Gloriosa e retorna com a Revolução americana celebrando a autodeterminação de sua nação e de seus cidadãos. Se essas revoluções buscavam preservar direitos políticos, a primeira a ambicionar a criação de uma nova ordem social foi a francesa. Daí em diante, “Revolução” passou a denotar planos grandiosos para transformar o mundo. . . .
    55 min
  • O Estado de Bem-Estar Social
    Em meados do século XIX cerca de 25% do orçamento dos Estados nacionais era destinado a gastos militares e 5% a programas sociais. Hoje estes programas ultrapassaram 50% das despesas e um resíduo sobra às forças armadas. O Estado “militar” se transformou num Estado de “bem-estar”, e nos habituamos a pensar na seguridade social como uma conquista irreversível e cumulativa da civilização. Desde que Bismarck projetou nos anos 1880 seus programas de seguridade compulsória, até William Beveridge implementar no Reino Unido da década de 40 a proteção universal do “berço ao túmulo” contra os cinco “Males Gigantes” – “doença, ignorância, dependência, miséria e ociosidade” –, o consenso se cristalizou em torno ao Estado do Bem-estar como um mecanismo eficaz na cobertura dos riscos da vida e na promoção da justiça distributiva. Entre o fim da Segunda Guerra e a Crise do Petróleo de 1973, a prosperidade, a igualdade e o pleno emprego estavam em harmonia e parecia estar em curso uma síntese ideal entre meritocracia e equidade, eficiência e solidariedade, como se o globo fosse envolvido por uma espécie de segunda natureza – ou Providência, como sugere da nomenclatura francesa de “Estado Providência” – cada vez mais pródiga na concessão de “padrões mínimos de renda, alimentação, saúde, habitação, educação, assegurados a todo cidadão não como caridade mas como direito político” (H.L. Wilensky). Mas será?
    Se os marxistas sempre acusaram no modelo uma “muleta” social-democrata para acomodar os interesses do capital, os liberais veem nele a substituição da mão invisível do mercado por uma mão tentacular e omnipresente; um paternalismo incompatível com o desenvolvimento econômico e as liberdades pessoais, que acarreta o ônus da degeneração da responsabilidade individual, sem o bônus da redução da pobreza. Independentemente das críticas ideológicas, os indicadores confirmam que na era da economia globalizada e pós-industrial os sistemas tradicionais de seguridade atravessam uma tripla crise de sustentabilidade. Primeiro financeira, ante o desafio de equilibrar a receita para servir populações mais longevas e exigentes; depois política, ante a necessidade de estruturas adaptáveis a riscos sociais e expectativas de consumo em mutação; e por fim moral, ante o desafio de estimular o empreendedorismo sem sacrificar o compromisso com os mais vulneráveis. Como alertava Norberto Bobbio na década de 80 “a crise fiscal do Estado é tida como um indício da incompatibilidade natural entre as duas funções do Estado assistencial: o fortalecimento do consenso social, da lealdade para com o sistema das grandes organizações de massa, e o apoio à acumulação capitalista com o emprego anticonjuntural da despesa pública. A particular relação que o Welfare state estabeleceu entre Estado e sociedade não é mais entendida em termos de equilíbrio, mas como elemento de uma crise que levará à natural eliminação de um dos dois polos.” – Será?
    Convidados
    Celia Kerstenetzky: Professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenadora do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento e autora de O Estado de Bem-Estar Social na Idade da Razão.  
    Eduardo Giannetti: Economista, escritor, filósofo e autor de O valor do amanhã.
    Ligia Bahia: Professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro e co-editora de Saúde, Desenvolvimento e Inovação.
    Oferecimento
     
     
    Fontes em O Grande Teatro do Mundo
    Confira no Acervo do Café Filosófico – CPFL



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    * Do paradigma da dominação ao do cuidado – Ciclo de 2017
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