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Or


Perdi meu amor,
antes de sentir no peito ardor
antes de provocar com meu toque calor
antes de encontrar nos seus braços fulgor,
perdi meu amor antes de ter
o que se ter
para sentir dor
Perdi meu amor,
e o que me invade
é a saudade do que não vivi
daquilo que não senti,
mas que poderia ter sentido,
se algum houvesse nas suas desculpas
Perdi meu amor,
antes do sabor,
antes do despudor,
antes do meu corpo em sudor
rolar com o seu na cama,
antes de ouvir que ela me ama;
perdi meu amor antes mesmo de amar,
dentro de mim, um desejo se recusa a calar
o beijo que nunca hei de provar
Com uma mentira branca
que no bem-me-quer a pétala se arranca,
fingi te conhecer
para fingir te desconhecer
se bem que não deixa de ser verdade,
pois desde a faculdade,
os meus olhos te conhecem,
minhas lentes jamais te esquecem,
sentada no outro lado da rua,
tua pele alva, cor de lua,
que eu queria que brilhasse,
e iluminasse
a minha madrugada,
que fosse na minha escuridão alvorada,
que de noite pudesse te amar,
sem pensar
em mais nada
Yasmin,
teu cheiro de jasmim,
com meu olfato queria sentir,
os teus sussurros na minha orelha ouvir,
a minha pele tingir
com teu batom cor de carmim,
o teu sabor do desejo que arde em mim,
queria nós dois assim,
queria uma noite sem fim
Na minha cabeça eu te amo
e desamo,
fantoche duma alucinação que tolo sendo,
de presunção estupendo,
acredito poder controlar,
evito pensar
e às vezes até me esqueço da minha paixão,
inutilmente me agarro à negação,
não sei por que se dá a esse esforço minha mente,
talvez seja só para que eu,
vítima indefesa
do amor teu,
tenha sempre a deliciosa surpresa,
de redescobrir o meu amor por ti
numa inesperada hora,
momento que percebo onde fica o aqui,
desconfio,
pois a paixão é vadia,
desejo sem fio,
e um dia
vai embora,
sai de casa sem deixar aviso,
sem se importar com o prejuízo
não se despede nem se demora,
mas enquanto ela volta,
enquanto me envolta,
enquanto não se desfaz em pedaços,
quero abrir os braços
e brincar no paraíso
Andamos pelas ruas nos esbarrando
como se houvesse um ímã entre nós,
somos bastante íntimos com as palavras quando estamos a
dois corpos que não conseguem ficar longe um do outro,
você abusa da nossa intimidade,
na presença de todos passa a mão na minha bunda,
me puxa pelo braço,
me exibe como um namorado postiço,
a nossa relação é íngreme,
não respeita fronteiras;
veleja entre a amizade e a ousadia
e já não se sabe o que é piada e o que é insinuação,
se é amor puro ou combinado com tesão,
a gente não sabe que passos dar nesse samba
mas nenhum dos dois quer descer da corda bamba
Minha madrugada é viva
na companhia dessa mulher altiva,
Eduarda,
menina carinhosa que no peito se guarda,
criatura amável,
admirável,
a sua coragem de dizer
aquilo tudo que sabe fazer;
é mulher que se imposta,
diz do que gosta,
o que é gostoso,
o que leva no seu gozo
e que não quer esposo;
é mulher independente
de atitude, pra frente;
ela é ao mesmo tempo anjinho e capeta,
com o seu corpo de silhueta
faz qualquer coração dar pirueta
Sedutora,
dominadora,
submissa,
que a luxúria atiça,
do prazer, afeita,
mulher que vicia,
mulher plena que nunca sacia,
mulher recatada,
mulher desvairada,
mulher refeita,
mulher complicada e perfeita
A sua voz é doce,
sai mansinha
lambuzando os lábios que eu tanto quero provar;
nos teus divinos olhos verdes quero mergulhar
e na sua infinitude,
o seu mundo,
o quanto mais eu me aprofundo,
posso cada vez mais me esquecer,
ser um homem refeito em você,
me tornar um semideus,
a quem não importa nem o tempo ou o espaço,
desfazer todo tipo de embaraço
na quentura do teu abraço,
desconhecer as mazelas do mundo
ouvindo seu sotaque pernambucano sussurrando no meu
acreditar em tudo que eu duvido
Ah se você fosse mais que um sonho distante, lá de
desejo que me excite,
que da minha cabeça a muito custo se dissipe,
você não seria só detentora destes versos,
seria dona de mim,
uma mulher tatuada por afagos diversos e prazeres sem
seríamos dois amantes curiosos como Adão e Eva,
perdidos no próprio universo,
dois vadios no jardim,
mas desta vez sem cobra, espada ou fogo,
sem “Deus” e seus moralismos
sem qualquer tipo de anjo, sejam guerreiros ou querubins
O que será que tenho para te dizer?
O que posso te oferecer?
Por que decidi este poema te escrever?
Seria amor à primeira vista
ou apenas um ardor oportunista?
Seria um admirador altruísta
ou apenas a falta de pudor que há em todo artista?
Qual será o sabor
dos teus lábios, à distância tão doces?
Queria provar esse frescor,
queria sentir o teu calor
e te amar no despudor,
que ao mundo dos delírios comigo fosses,
menina por quem perco meus olhos no bistrô
Essa foi a minha primeira noite sem pesadelos, em dois meses;
a vida urbana por si só já é um risco de morte,
a vida familiar é um emaranhado de intrigas sem solução
dia após dia perigas na beira do abismo
e nessa desventura,
matura a ideia de que os idealismos são sem razão
Hoje é 16 de fevereiro,
sexta feira,
2024,
e a única coisa que desejo,
no fundo do meu peito,
é paz
Para dizer a verdade,
percebo que esse caminho de linhas tortas
não me levou a lugar nenhum,
longe ou perto dos meus sonhos,
continuo distante da realização,
o caminho em si não me ensinou nenhuma lição
Faz um ano que cheguei;
a mulher por quem me apaixonei
não é mais a mesma,
Ipanema perdeu o vislumbre;
a Lagoa
a praia,
o morro Dois Irmãos,
são retoques de uma lembrança
que exige novas demãos
para não esmorecer com o tempo,
como uma pintura em afresco;
a clausura do apartamento já não parece desperdício,
as aves exóticas já não me inspiram mais que os
as amendoeiras têm menos encanto que as casuarinas;
a minha terra é feia,
mas lá ainda é permitido se olhar nos olhos;
eu sigo aqui,
de pupilas perdidas,
ando pelas ruas sem me encantar,
observando tudo com a pachorrência cotidiana
que percorria as vias esburacadas de Santo Amaro;
vendedores e pedintes já não me abordam,
sequer me notam;
talvez tudo esteja a mesma coisa,
eu é que mudei,
Ipanema me ensinou a admirar exibindo a sua beleza
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