Felipe Simão - Poesias

Felipe Simão - Poesias

By Felipe SimãoArtsBooks
Download on the App Store

Felipe Simão - Poesias episodes

  • 39 - Sem direção

    Não sei se me entrego

    ou se só aceito o mau gosto da sorte,

    a caminhos predefinidos não me apego,

    expectativas não rego,

    ando sem um norte,

    uma bússola é tão inútil quanto a prudência,

    o quão fútil é a aparência;

    meu horizonte é traçado por linhas tortas,

    vejo meras tábuas de madeira

    que todos insistem em chamar de portas,

    todo esse grande valor,

    a propaganda dum predial esplendor,

    são ideologias de paisagem,

    acho tudo uma grande bobagem,

    oportunidades não te encerram num cubo;

    eu apenas me masturbo,

    pois não faço sexo sem amor;

    as verdadeiras chances são aquelas que a gente se nega a

    ver,

    são os sonhos que a gente se priva de ter,

    o lúdico não é digno,

    a arte não é labor,

    o tédio é fidedigno

    e por isso tem valor,

    então a gente rasga o poema

    e se condena

    a uma vida sem calor

    2 min
  • 38 - As palavras voaram

    Quando eu me tornei escritor,

    as palavras foram perdendo o valor

    pra mim.

    Eu percebi que as palavras são como

    as sensações,

    só são eternas no papel.

     

    Quando eu me tornei ator,

    notei que o que as pessoas me

    dizem,

    não tem tanta importância,

    a gente se treina a agir de

    determinadas maneiras

     

    Quando eu me tornei comediante,

    cheguei à conclusão

    de que o maior erro que se pode cometer é levar a vida a sério demais.

     

    O mais estranho

    é que agora que estou quase me tornando uma pessoa,

    o sentido se inverteu

    completamente,

    no início dessa jornada,

    eu queria conseguir dizer o que sentia,

    hoje eu sinto que nunca precisei dizer nada.

    1 min
  • 37 - Aquele dia na Lagoa

    Sentado no cais da Lagoa,

    à frente, uma estátua,

    às minhas costas, a Cruz de Malta,

    pela primeira vez meditei de olhos abertos,

    pois me recusei a fechar as pálpebras diante de tanta

    beleza,

    o ar era mais puro,

    o vento mais brisa,

    o céu mais azul,

    as folhas mais verdes,

    e nada disso é exagero,

    pois nada era ficção

     

    Naquele dia na Lagoa,

    venci todos os meus medos,

    embebido de toda coragem e de toda pureza,

    virei um novo homem,

    andei até a beirada,

    sorri espontaneamente e proclamei:

    “Cidade Maravilhosa, abro os meus braços para ti

    serás minha e juntos venceremos”

    1 min
  • 36 - Equilíbrio desconhecido

    Não sei quem sou,

    o que gosto de fazer,

    o que gosto de comer,

    qual é o meu habitat natural,

    se rodeado de gente

    ou sozinho no meu quarto,

    com quem ter,

    se com mulheres ou com homens,

    talvez unido aos dois pronomes,

    talvez com todos os pronomes,

    que depois eu nem consiga lembrar de todos os nomes,

    uma loucura que me faça esquecer meus sobrenomes;

    seria eu comedido ou desvairado?

    Um sujeito incompreendido ou um espécime a ser

    erradicado?

    Sento no divã

    ou pego papel e caneta?

    Seria eu ambos,

    maníaco e terapeuta?

    Um homem de senhos brandos

    e desejos bambos,

    racional e intuitivo,

     levando

    a vida aos trancos e barrancos;

    seja com palavras ou com a pele,

    não sei ao certo o que sentir,

    na boca, o gosto do suor ou o da lágrima?

    Respirar de peito aberto ou forçando o diafragma?

    São muitos dilemas para um só homem;

    escolho os meus rumos ou deixo que eles me tomem?

    Parece que se desprendem as minhas costas,

    estou a ermo;

    com tantos contrastes é difícil encontrar o meio-termo

    2 min
  • 35 - La douleur

    Je pense

    toujours à ma douleur.

    Qu’est-ce que

    dois-je faire avec ma douleur ?

    Évidemment, je

    dois faire quelque chose,

    frapper le mur,

    vivre un amour,

    écrire un

    livre,

    méditer,

    m’éditer ;

    je dois

    transformer la haine, l’angoisse, la désillusion

    en autre chose

    que me va faire renaître

    Je m’ai trop

    haute

    En vérité, je

    ne me permets pas

    être sans

    réponse ;

    je pense que je

    dois dire quelque chose au monde,

    je suis en

    dette

    cars, je pense

    que le monde est en dette avec moi

    je ne suis

    aussi importante,

    je ne me

    permets oublier,

    pour marcher à

    la rencontre du destin

     

    La douleur

    existe,

    ça n'est pas un

    vrai problème,

    la douleur est

    là

    laisse tomber,

    le soleil se

    lève tous les jours

    se ci sont

    encore des jours pour me lever,

    rien à faire,

    la douleur se

    doit seulement sentir.

    C’est ça.

    2 min
  • 34 - Sacola vazia

    Hoje, depois de acordar, me olhei no espelho e eu não estava lá,

    era outro no reflexo,

    irreconhecivelmente igual,

    nem quem eu fui e nem quem eu quero ser,

    era alguém que se perdeu

    e foi parar em Icaraí,

    alguém que não tinha o que era meu

    e esqueceu de si,

    que das próprias virtudes se desprendeu

    e apagou tudo que vivi,

    largou tudo que aprendi,

    largou sua cidade para viver um sonho,

    uma fagulha no breu;

    descobriu na irmã um demônio,

    e agora o próprio destino não é mais seu,

    talvez nunca tenha sido,

    e se da raiva tivesse se desprendido,

    deixado-a partir,

    se além disso alguma coisa conseguisse sentir,

    se é só esquisitice ou de fato escondo o meu verdadeiro

    eu,

    se fosse mais eu

    ou menos eu,

    estaria ainda aqui

    ou teria sido jogado aos leões do Coliseu?

     

    Sou uma sacola vazia

    que ficou por aí,

    com o vento a me levar,

    se tivesse algo para dar

    trocaria por um coração fértil de amor

    e a sabedoria de perdoar

    2 min
  • 33 - O mundo

    Sofá,

    pipoca,

    um filme em preto e branco,

    uma tarde de domingo,

    o descanso merecido,

    um recanto de amor por nós construído,

    quatro lábios colados que nada parte,

    Casablanca já não é no Marrocos,

    agora fica em Marte

     

    Dissolvido na cor dos teus olhos,

    eu me sinto encasulado num segundo,

    como uma borboleta prestes a voar

    pela primeira vez,

    os sonhos tomam conta do ar

    e o teu rosto fica mais lindo a cada vez,

    a tua pele me cobre como feitiço,

    é a razão da minha vida,

    a causa do meu sumiço,

    perdido há tanto tempo em ti,

    o mundo já não sente mais a minha falta

    e eu já não sinto falta do mundo

    Porque eu te amo

    e não consigo deixar de te amar

    1 min
  • 32 - Harmonização facial

    A gente se amava tanto,

    o primeiro a amor é sempre o mais latente,

    a eternidade da adolescência

    cada aula matada pela conveniência do nosso romance

    o primeiro amor tudo permite

    tudo fica ao nosso alcance

    quantas lições perdidas

    que hoje nada importam nas nossas vidas

    quantas vontades repentinas correspondidas

    que o hoje o impulso a gente não se permite

    a vida de adulto só admite sensatez

     

    Ainda lembro de você me esperando na porta da sala

    tomando Coca-cola,

    eu que tanto sonhava em ser jogador de futebol,

    quando aprendi a amar, esqueci de jogar bola;

    nós dois na praia,

    você em cima de mim,

    o seu cabelo me protegia do sol,

    o verão é bom demais para quem ama pela primeira vez,

    nós dois no chuveiro

    o medo, o desejo incalável de fazer amor,

    nós dois na casa de praia

    nós dois o tempo inteiro,

    vieram outonos, invernos e o meu mundo crescia com você

    vieram primaveras e a minha vida se desabrochava com você

     

    A gente se amava tanto,

    e hoje aquele quarto está a mais de 400 quilômetros,

    esse amor há mais de quatro anos,

    o sol secou o nosso beijo molhado de chuva

    e a minha memória parece ter sido convertido em grão de

    areia

    que o vento fez questão de varrer

    eu tento me lembrar de tudo,

    não fazer da lembrança uma história que eu contei pra mim

    mesmo,

    como minha mãe me contou as histórias da minha primeira

    infância;

    eu quero uma memória real,

    mas as suas fotos do Instagram só remontam um falso

    retrato

    você não era assim,

    excesso de maquiagem,

    preenchimento na boca,

    nariz operado,

    harmonização facial

    eu queria poder redesenhar as suas imperfeições com

    palavras,

    e beijar com meus versos

    pela última vez

    a mulher que eu amei

    3 min
  • 31 - Vida de plástico

    O emprego dos sonhos,

    estável,

    bem remunerado,

    almoços,

    reuniões,

    gráficos,

    relatórios,

    e-mails,

    férias na praia,

    palestras,

    discursos motivacionais,

    as mesmas trivialidades,

    as mesmas piadas na hora do cafezinho,

    os mesmos assuntos,

    tempo,

    família,

    o que dá certo na cozinha,

    o novo produto de limpeza,

    como está engarrafado o trânsito,

    imóveis,

    aluguel,

    contas a pagar,

    ter que trabalhar,

    aqueles papos de coach, com tantas palavras desnecessárias em inglês,

    futebol,

    política,

    nenhuma profundidade,

    chegar a casa depois das sete,

    jantar,

    mulher,

    filhos,

    e uma amante para os dias de hora extra;

    eu não quero nada disso

    renego todo esse projeto existencial que fizeram para mim,

    ser mais um engravatado

    no meio de vários outros engravatados,

    que só mudam de nome,

    de endereço,

    de escritório,

    de perfume,

    de cor de gravata,

    que fazem amor de forma mecânica,

    que tem certeza do significado da vida

    e preenchem seu vazio com o inessencial,

    dinheiro,

    um novo cargo,

    um apartamento no metro mais caro da cidade,

    a casa na praia,

    o carro do ano,

    pagar a faculdade que eles escolhem para os filhos,

    viajar para Europa,

     ir a Disney,

    uma aposentadoria segura,

    uma esposa troféu,

    eles têm tudo isso

    e são tão vazios quanto eu

     

    Sou visto como um homem sem aspirações

    por não querer essa vida de plástico;

    a diferença entre mim e eles

    é que busco respostas,

    sem simplesmente aceitar as que me dão,

    criar uma opinião própria

    e enxergar algo além do chão;

    eles vivem iludidos na ignorância

    e eu, inquieto numa assustadora consciência,

    eles não entendem as suas vontades,

    seus sentimentos,

    suas necessidades

    além daquilo que é material;

    sua masculinidade é estufada por orgasmos fingidos

    de esposas ressentidas

    e jovens com carência parental,

    cheia como um balão

    pode explodir com uma simples agulha,

    deixar de existir com uma simples dedada;

    já eu,

    me entedio de mulheres que não sabem conversar,

    vivo sozinho com meus orgasmos múltiplos,

    um único homem num cômodo esvaziado de calor humano,

    mas cheio de sonhos,

    projetos,

    Cultura,

    Arte, História e Literatura;

    invenções pairam no ar,

    exalam-se por todos os ecos das paredes,

    aparecem em todos os espelhos

    entram e saem pelas janelas,

    ocupam as telas,

    os papéis,

    a mesa,

    invadem os aparelhos;

    diversos mundos se fazem na minha mente,

    constroem-se diante dos meus olhos,

    ganham vida pela minha voz;

    esse quarto

    é um calabouço enfeitado,

    às vezes chego a esquecer da minha própria infelicidade,

    mas assim como eles

    eu não posso fugir da solidão,

    não importa quantas pessoas estejam à volta,

    ela está cerrada dentro de nós,

    nos condenamos a esse estado,

    seja tentando ser sozinhos

    ou ser iguais,

    no fundo, todo mundo é diferente,

    mas ninguém aceita os desiguais;

    eu me contento em ser um infeliz criativo,

    não engulo essa normalidade inócua,

    emprego,

    burocracia

    casamento,

    crianças batizadas,

    uma lareira que aquece o corpo

    e congela a alma;

    cuspo essa fórmula mágica da felicidade

    que me enfiaram goela abaixo,

    como quando era menino e cuspia todo tipo de remédio;

    essa prescrição nunca curou nenhum paciente de pular do

    precipício,

    pois quando o fim do dia chega,

    a cabeça no travesseiro se deita,

    não importa se há uma pessoa do lado,

    todos veem no teto a própria solidão

    e se a tristeza é inevitável destino,

    quero errar diferente,

    por isso me destrilho e busco encontrar alguma transcendência

    antes de ser engolido pelo vácuo da inexistência

    5 min
  • 30 - Itaperuna

    Parece cocaína, mas é só Itaperuna,

    numa ressaca da festa de Medicina,

    um café vagabundo que deixa na boca um gosto de

    milho-torrado,

    é o sabor amargo

    da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro

    amor

    no apartamento, terceiro andar,

    abro a janela e fumo o meu prensado

    para esquecer do meu futuro mal planejado,

    que no passado nem penso mais;

    eu só lembro do cheiro do seu condicionador

    cabelos afagados,

    um odor de carinho malcriado,

    os traços dela desapareceram da minha vida como passos na

    neve,

    a gente só lembra quando bebe,

    a gente só lembra quando não deve,

    só lembra quando não pode mais,

    coloca o telefone na bochecha

    e profere com a voz embriagada um monte de frases sem

    sentido

     

    Parece cocaína, mas é só Itaocara,

    talvez Campos dos Goytacazes,

    em setembro,

    nem lembro mais

    das histórias de quando eu morava com meus pais,

    das tantas vezes em que eu quebrei a cara,

    já fui despejado de tanta casa

    que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa,

    vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador;

    esses filhos da puta não conhecem a minha dor,

    eles não sabem como é morar no interior;

    e as ondas violentas de Ipanema

    me levam nesta tarde cinzenta,

    para aquela vidraça em Itaperuna,

    vejo a vagarosidade da gente que passa

    e os julgo da minha Tribuna,

    julgo toda aquela gente que como eu

    nunca aprendeu,

    que não sabe amar

    eu grito para o mar,

    eu grito

    para expurgar

    o amor maldito

    da festa fantasia de Bom Jesus

    grito

    blasfemeio,

    taco pedra na Cruz,

    que alívio é mandar "Deus" à merda

    ele e toda aquela vida de merda

    que “Ele” planejou para mim

    grito o mais alto que posso,

    grito sem pudor,

    proferindo ofensas ao Cristo Redentor

    grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia

    3 min

About Felipe Simão - Poesias

From the publisher's feed

Todas as poesias publicadas de Felipe Simão.