as mesmas piadas na hora do cafezinho,
o que dá certo na cozinha,
o novo produto de limpeza,
como está engarrafado o trânsito,
aqueles papos de coach, com tantas palavras desnecessárias em inglês,
chegar a casa depois das sete,
e uma amante para os dias de hora extra;
renego todo esse projeto existencial que fizeram para mim,
no meio de vários outros engravatados,
que fazem amor de forma mecânica,
que tem certeza do significado da vida
e preenchem seu vazio com o inessencial,
um apartamento no metro mais caro da cidade,
pagar a faculdade que eles escolhem para os filhos,
uma aposentadoria segura,
e são tão vazios quanto eu
Sou visto como um homem sem aspirações
por não querer essa vida de plástico;
a diferença entre mim e eles
sem simplesmente aceitar as que me dão,
criar uma opinião própria
e enxergar algo além do chão;
eles vivem iludidos na ignorância
e eu, inquieto numa assustadora consciência,
eles não entendem as suas vontades,
além daquilo que é material;
sua masculinidade é estufada por orgasmos fingidos
e jovens com carência parental,
pode explodir com uma simples agulha,
deixar de existir com uma simples dedada;
me entedio de mulheres que não sabem conversar,
vivo sozinho com meus orgasmos múltiplos,
um único homem num cômodo esvaziado de calor humano,
Arte, História e Literatura;
exalam-se por todos os ecos das paredes,
aparecem em todos os espelhos
entram e saem pelas janelas,
diversos mundos se fazem na minha mente,
constroem-se diante dos meus olhos,
ganham vida pela minha voz;
é um calabouço enfeitado,
às vezes chego a esquecer da minha própria infelicidade,
eu não posso fugir da solidão,
não importa quantas pessoas estejam à volta,
ela está cerrada dentro de nós,
nos condenamos a esse estado,
seja tentando ser sozinhos
no fundo, todo mundo é diferente,
mas ninguém aceita os desiguais;
eu me contento em ser um infeliz criativo,
não engulo essa normalidade inócua,
uma lareira que aquece o corpo
cuspo essa fórmula mágica da felicidade
que me enfiaram goela abaixo,
como quando era menino e cuspia todo tipo de remédio;
essa prescrição nunca curou nenhum paciente de pular do
pois quando o fim do dia chega,
a cabeça no travesseiro se deita,
não importa se há uma pessoa do lado,
todos veem no teto a própria solidão
e se a tristeza é inevitável destino,
por isso me destrilho e busco encontrar alguma transcendência
antes de ser engolido pelo vácuo da inexistência