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Or


Não sei se me entrego
ou se só aceito o mau gosto da sorte,
a caminhos predefinidos não me apego,
expectativas não rego,
ando sem um norte,
uma bússola é tão inútil quanto a prudência,
o quão fútil é a aparência;
meu horizonte é traçado por linhas tortas,
vejo meras tábuas de madeira
que todos insistem em chamar de portas,
todo esse grande valor,
a propaganda dum predial esplendor,
são ideologias de paisagem,
acho tudo uma grande bobagem,
oportunidades não te encerram num cubo;
eu apenas me masturbo,
pois não faço sexo sem amor;
as verdadeiras chances são aquelas que a gente se nega a
são os sonhos que a gente se priva de ter,
o lúdico não é digno,
a arte não é labor,
o tédio é fidedigno
e por isso tem valor,
então a gente rasga o poema
e se condena
Quando eu me tornei escritor,
as palavras foram perdendo o valor
Eu percebi que as palavras são como
só são eternas no papel.
Quando eu me tornei ator,
notei que o que as pessoas me
não tem tanta importância,
a gente se treina a agir de
Quando eu me tornei comediante,
cheguei à conclusão
de que o maior erro que se pode cometer é levar a vida a sério demais.
O mais estranho
é que agora que estou quase me tornando uma pessoa,
o sentido se inverteu
no início dessa jornada,
eu queria conseguir dizer o que sentia,
hoje eu sinto que nunca precisei dizer nada.
Sentado no cais da Lagoa,
à frente, uma estátua,
às minhas costas, a Cruz de Malta,
pela primeira vez meditei de olhos abertos,
pois me recusei a fechar as pálpebras diante de tanta
o ar era mais puro,
o vento mais brisa,
o céu mais azul,
as folhas mais verdes,
e nada disso é exagero,
pois nada era ficção
Naquele dia na Lagoa,
venci todos os meus medos,
embebido de toda coragem e de toda pureza,
virei um novo homem,
andei até a beirada,
sorri espontaneamente e proclamei:
“Cidade Maravilhosa, abro os meus braços para ti
Não sei quem sou,
o que gosto de fazer,
o que gosto de comer,
qual é o meu habitat natural,
se rodeado de gente
ou sozinho no meu quarto,
com quem ter,
se com mulheres ou com homens,
talvez unido aos dois pronomes,
talvez com todos os pronomes,
que depois eu nem consiga lembrar de todos os nomes,
uma loucura que me faça esquecer meus sobrenomes;
seria eu comedido ou desvairado?
Um sujeito incompreendido ou um espécime a ser
Sento no divã
ou pego papel e caneta?
Seria eu ambos,
maníaco e terapeuta?
Um homem de senhos brandos
e desejos bambos,
racional e intuitivo,
levando
seja com palavras ou com a pele,
não sei ao certo o que sentir,
na boca, o gosto do suor ou o da lágrima?
Respirar de peito aberto ou forçando o diafragma?
São muitos dilemas para um só homem;
escolho os meus rumos ou deixo que eles me tomem?
Parece que se desprendem as minhas costas,
estou a ermo;
com tantos contrastes é difícil encontrar o meio-termo
Je pense
Qu’est-ce que
Évidemment, je
frapper le mur,
vivre un amour,
écrire un
méditer,
m’éditer ;
je dois
en autre chose
Je m’ai trop
En vérité, je
être sans
je pense que je
je suis en
cars, je pense
je ne suis
je ne me
pour marcher à
La douleur
ça n'est pas un
la douleur est
laisse tomber,
le soleil se
se ci sont
rien à faire,
la douleur se
C’est ça.
Hoje, depois de acordar, me olhei no espelho e eu não estava lá,
era outro no reflexo,
irreconhecivelmente igual,
nem quem eu fui e nem quem eu quero ser,
era alguém que se perdeu
e foi parar em Icaraí,
alguém que não tinha o que era meu
e esqueceu de si,
que das próprias virtudes se desprendeu
e apagou tudo que vivi,
largou tudo que aprendi,
largou sua cidade para viver um sonho,
uma fagulha no breu;
descobriu na irmã um demônio,
e agora o próprio destino não é mais seu,
talvez nunca tenha sido,
e se da raiva tivesse se desprendido,
deixado-a partir,
se além disso alguma coisa conseguisse sentir,
se é só esquisitice ou de fato escondo o meu verdadeiro
se fosse mais eu
ou menos eu,
estaria ainda aqui
ou teria sido jogado aos leões do Coliseu?
Sou uma sacola vazia
que ficou por aí,
com o vento a me levar,
se tivesse algo para dar
trocaria por um coração fértil de amor
e a sabedoria de perdoar
Sofá,
pipoca,
um filme em preto e branco,
uma tarde de domingo,
o descanso merecido,
um recanto de amor por nós construído,
quatro lábios colados que nada parte,
Casablanca já não é no Marrocos,
agora fica em Marte
Dissolvido na cor dos teus olhos,
eu me sinto encasulado num segundo,
como uma borboleta prestes a voar
pela primeira vez,
os sonhos tomam conta do ar
e o teu rosto fica mais lindo a cada vez,
a tua pele me cobre como feitiço,
é a razão da minha vida,
a causa do meu sumiço,
perdido há tanto tempo em ti,
o mundo já não sente mais a minha falta
e eu já não sinto falta do mundo
Porque eu te amo
e não consigo deixar de te amar
A gente se amava tanto,
o primeiro a amor é sempre o mais latente,
a eternidade da adolescência
cada aula matada pela conveniência do nosso romance
o primeiro amor tudo permite
tudo fica ao nosso alcance
quantas lições perdidas
que hoje nada importam nas nossas vidas
quantas vontades repentinas correspondidas
que o hoje o impulso a gente não se permite
a vida de adulto só admite sensatez
Ainda lembro de você me esperando na porta da sala
tomando Coca-cola,
eu que tanto sonhava em ser jogador de futebol,
quando aprendi a amar, esqueci de jogar bola;
nós dois na praia,
você em cima de mim,
o seu cabelo me protegia do sol,
o verão é bom demais para quem ama pela primeira vez,
nós dois no chuveiro
o medo, o desejo incalável de fazer amor,
nós dois na casa de praia
nós dois o tempo inteiro,
vieram outonos, invernos e o meu mundo crescia com você
vieram primaveras e a minha vida se desabrochava com você
A gente se amava tanto,
e hoje aquele quarto está a mais de 400 quilômetros,
esse amor há mais de quatro anos,
o sol secou o nosso beijo molhado de chuva
e a minha memória parece ter sido convertido em grão de
que o vento fez questão de varrer
eu tento me lembrar de tudo,
não fazer da lembrança uma história que eu contei pra mim
como minha mãe me contou as histórias da minha primeira
eu quero uma memória real,
mas as suas fotos do Instagram só remontam um falso
você não era assim,
excesso de maquiagem,
preenchimento na boca,
nariz operado,
harmonização facial
eu queria poder redesenhar as suas imperfeições com
e beijar com meus versos
pela última vez
O emprego dos sonhos,
estável,
bem remunerado,
almoços,
reuniões,
gráficos,
relatórios,
e-mails,
férias na praia,
palestras,
discursos motivacionais,
as mesmas trivialidades,
as mesmas piadas na hora do cafezinho,
os mesmos assuntos,
tempo,
família,
o que dá certo na cozinha,
o novo produto de limpeza,
como está engarrafado o trânsito,
imóveis,
aluguel,
contas a pagar,
ter que trabalhar,
aqueles papos de coach, com tantas palavras desnecessárias em inglês,
futebol,
política,
nenhuma profundidade,
chegar a casa depois das sete,
jantar,
mulher,
filhos,
e uma amante para os dias de hora extra;
eu não quero nada disso
renego todo esse projeto existencial que fizeram para mim,
ser mais um engravatado
no meio de vários outros engravatados,
que só mudam de nome,
de endereço,
de escritório,
de perfume,
de cor de gravata,
que fazem amor de forma mecânica,
que tem certeza do significado da vida
e preenchem seu vazio com o inessencial,
dinheiro,
um novo cargo,
um apartamento no metro mais caro da cidade,
a casa na praia,
o carro do ano,
pagar a faculdade que eles escolhem para os filhos,
viajar para Europa,
ir a Disney,
uma aposentadoria segura,
uma esposa troféu,
eles têm tudo isso
e são tão vazios quanto eu
Sou visto como um homem sem aspirações
por não querer essa vida de plástico;
a diferença entre mim e eles
é que busco respostas,
sem simplesmente aceitar as que me dão,
criar uma opinião própria
e enxergar algo além do chão;
eles vivem iludidos na ignorância
e eu, inquieto numa assustadora consciência,
eles não entendem as suas vontades,
seus sentimentos,
suas necessidades
além daquilo que é material;
sua masculinidade é estufada por orgasmos fingidos
de esposas ressentidas
e jovens com carência parental,
cheia como um balão
pode explodir com uma simples agulha,
deixar de existir com uma simples dedada;
já eu,
me entedio de mulheres que não sabem conversar,
vivo sozinho com meus orgasmos múltiplos,
um único homem num cômodo esvaziado de calor humano,
mas cheio de sonhos,
projetos,
Cultura,
Arte, História e Literatura;
invenções pairam no ar,
exalam-se por todos os ecos das paredes,
aparecem em todos os espelhos
entram e saem pelas janelas,
ocupam as telas,
os papéis,
a mesa,
invadem os aparelhos;
diversos mundos se fazem na minha mente,
constroem-se diante dos meus olhos,
ganham vida pela minha voz;
esse quarto
é um calabouço enfeitado,
às vezes chego a esquecer da minha própria infelicidade,
mas assim como eles
eu não posso fugir da solidão,
não importa quantas pessoas estejam à volta,
ela está cerrada dentro de nós,
nos condenamos a esse estado,
seja tentando ser sozinhos
ou ser iguais,
no fundo, todo mundo é diferente,
mas ninguém aceita os desiguais;
eu me contento em ser um infeliz criativo,
não engulo essa normalidade inócua,
emprego,
burocracia
casamento,
crianças batizadas,
uma lareira que aquece o corpo
e congela a alma;
cuspo essa fórmula mágica da felicidade
que me enfiaram goela abaixo,
como quando era menino e cuspia todo tipo de remédio;
essa prescrição nunca curou nenhum paciente de pular do
pois quando o fim do dia chega,
a cabeça no travesseiro se deita,
não importa se há uma pessoa do lado,
todos veem no teto a própria solidão
e se a tristeza é inevitável destino,
quero errar diferente,
por isso me destrilho e busco encontrar alguma transcendência
Parece cocaína, mas é só Itaperuna,
numa ressaca da festa de Medicina,
um café vagabundo que deixa na boca um gosto de
é o sabor amargo
da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro
no apartamento, terceiro andar,
abro a janela e fumo o meu prensado
para esquecer do meu futuro mal planejado,
que no passado nem penso mais;
eu só lembro do cheiro do seu condicionador
cabelos afagados,
um odor de carinho malcriado,
os traços dela desapareceram da minha vida como passos na
a gente só lembra quando bebe,
a gente só lembra quando não deve,
só lembra quando não pode mais,
coloca o telefone na bochecha
e profere com a voz embriagada um monte de frases sem
Parece cocaína, mas é só Itaocara,
talvez Campos dos Goytacazes,
em setembro,
nem lembro mais
das histórias de quando eu morava com meus pais,
das tantas vezes em que eu quebrei a cara,
já fui despejado de tanta casa
que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa,
vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador;
esses filhos da puta não conhecem a minha dor,
eles não sabem como é morar no interior;
e as ondas violentas de Ipanema
me levam nesta tarde cinzenta,
para aquela vidraça em Itaperuna,
vejo a vagarosidade da gente que passa
e os julgo da minha Tribuna,
julgo toda aquela gente que como eu
nunca aprendeu,
que não sabe amar
eu grito para o mar,
eu grito
para expurgar
o amor maldito
da festa fantasia de Bom Jesus
grito
blasfemeio,
taco pedra na Cruz,
que alívio é mandar "Deus" à merda
ele e toda aquela vida de merda
que “Ele” planejou para mim
grito o mais alto que posso,
grito sem pudor,
proferindo ofensas ao Cristo Redentor
grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia
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