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Or


Um homem passa a ver a vida diferente
quando tem as costas doídas dum sofá,
as noites mal dormidas o fazem pensar,
os raios invadem o ambiente pelas frestas da cortina,
nos seus olhos já acordados vai se pintando a tela,
suas malas e trouxas que desarrumam a sala-de-estar,
naquele ninho de casal
ele é a coisa fora do lugar,
nessas horas lhe fere a dor das tardes não vividas,
em que deixou o sol do lado de fora da janela,
suas escolhas mal decididas,
memórias duma vida
que agora parece tão antiga;
o som abafado duma cantiga,
No deque
admiro a infinitude das águas,
me sinto pequeno,
mas não penso na minha solitude
nem nas minhas mágoas,
contemplo
o canto dos pássaros,
o encanto das cores,
as minhas opiniões rígidas sendo desfeitas,
a dissolvência dos meus dissabores;
tudo é tão belo na Lagoa Rodrigo de Freitas
Eu me sento no banco
por onde passaram das mais belas aves sul-americanas,
onde se amaram dois turistas franceses,
onde um pedinte teve uma noite de frio,
tento redesenhar em versos a beleza in natura,
o contraste entre o urbano e o magnífico,
abro mão de ser vadio
e de postergar os verdadeiros amores
a uma vida futura
Um dia vou voar,
mais que os biguás do Campo do São Bento,
suas asas negras como meu destino,
um desatino sem alento,
de todos os lados tentam me enganar,
com a dose de verdade que há em todo falseio
tento montar um quebra-cabeça
com os pedacinhos de cada mentira que me contam
Chorei pelos dias de sol que passei dentro de casa,
pois agora não sou mais criança e não posso mais brincar,
minha vida é tão vazia de esperança
que perdi o brilho no meu olhar,
uma lágrima escorre para cada dia doce
que eu não soube aproveitar
Sou um homem pós-enclausurado,
nada sei da vida
e dela só posso lamentar,
um menino mais feliz,
faz um homem menos triste,
mas além da memória
Sonhei que morri,
contemplei o universo sem a minha presença,
tateei com os dedos cada diferença,
a maioria das pessoas mostrou indiferença,
mas os que sentiram a minha falta,
os que choraram a minha saudade,
choraram um pranto despido de ninharias e de vaidade,
até alguns que não me viram,
minhas palavras nunca ouviram,
perderam-me sem nunca me conhecer,
sem sentir o meu calor,
debulhavam-se em lágrimas por dentro,
numa hemorragia chorosa,
sentindo a pontada duma dor que não conheciam a causa,
latejava num órgão que nunca tiveram,
grandes estórias descritas,
desfeitas em pó num estalar de dedos,
num sopro nebuloso de outono
Sonhei que morri
e percebi
Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos
você é maior de idade,
pela lei você já é autossuficiente,
mas na verdade você ainda não é ninguém
Você se olha no espelho,
tem 20 anos,
não tem mais que ir à escola,
aturar professores babacas,
aturar colegas escrotos,
estudar toda a matéria de álgebra na véspera da prova;
o seu martírio acabou,
mas esse fim não foi tão prazeroso quanto você esperava,
querendo ou não, o colégio era um castigo e ao mesmo tempo um alívio,
você podia continuar procrastinando as suas decisões
Você se olha no espelho,
tem 20 anos,
não tem emprego,
nem começou a faculdade,
nem sabe o quer da vida,
o seu único patrimônio é a incerteza
Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos,
está velho demais para ser um adolescente
e jovem demais para ser um adulto,
as revoltas de antes já não fazem mais sentido,
não têm lugar,
a independência que você tanto sonha está muito distante,
parece que nunca vai chegar;
você tem 20 anos
e não era assim que você se imaginava,
os seus sonhos de infância se desmancham a cada dia
agora você sabe
que não vai ser jogador de futebol,
não vai ser astronauta,
não vai ser fotógrafo da Playboy,
você não é genial como imaginava,
se você tem algum talento,
não faz ideia para que
Você se olha no espelho
e puta que pariu,
você já tem 20 anos,
continua virgem,
e as punhetas não mais são suficientes para satisfazer o
você tem 20 anos
e nunca viveu nada,
não consegue enxergar algo que vá além da janela do seu
Você se olha no espelho
e vê que tem 20 anos,
dizem que você ainda tem uma vida inteira pela frente,
você pensa: caralho, tem mais dessa merda?
O teto não é seu
e você tampouco tem chão,
você navega num bote sem remo,
numa noite vadia
de pura escuridão,
uma ferrenha tempestade,
no meio do oceano,
sem qualquer sinal de terra à vista;
seria você um náufrago
ou um afogado?
o seu pai até queria,
mas você não tem tino para ser advogado
Você se olha no espelho,
você tem 20 anos,
o seu futuro é um céu escuro de nuvens nebulosas,
a sua vida,
um limbo contínuo,
você sabe que precisa dessa tempestade,
abraçar o caos,
saber o que será
enfrentar o que há
a existência inteira é grande demais para caber entres as
larga de ser um esquisito,
larga o KY,
toma coragem e beija os lábios de Calipso
Você tem 20 anos,
você se olha no espelho,
fita nos seus próprios olhos e diz:
“Dançando com o vento me perdi”,
esse foi o verso que não escrevi,
nas rodas do tempo, inerte me deixei estar,
não deixei o vento no meu rosto tocar,
neguei ser livre,
perdi a hora de brincar
Minha carne é dual,
meu coração é igual;
o meu destino não tem seta
e as quatro letras da palavra amor,
rearranjam no meu coração um ramo
que se quebrou antes de brotar flor,
ando perdido por vielas esguias sem nenhuma meta,
não tenho a força de Rambo,
nem a métrica de Rimbaud,
de brios escasso,
meu grande valor é o fracasso
Minha cabeça é pequena para tantas informações,
este aparelho é pequeno demais para tantas distrações;
como podem tantas coisas caberem no meu bolso?
Como podem tantas coisas cobrirem os meus olhos?
Como pode o mundo estar na palma da minha mão
e eu não estar no mundo?
Ruídos desconcertantes,
telas hipnóticas,
vidas umas das outras distantes,
mesmo tão perto,
tecnologias despóticas,
se fosse o homem esperto, destruiria a sua própria invenção,
recriaria a humanidade sem algoritmos,
sem baladas com trap e seus poucos ritmos;
eu gostaria,
a vida seria
muito melhor sem manipulação
Os teus braços de mãe e de labor,
a pureza do teu amor,
eu queria existir para sempre no teu abraço,
foste a única que não teve embaraço,
já de cara acreditando em mim,
tanta gente te humilha,
perdendo a chance de beber da tua enorme sabedoria,
que não é de seus estudos incompletos,
vem dos seus gestos repletos
de ternura,
é sabedoria de quem tem no peito candura,
em quem o amor fala mais alto,
transborda e vai além,
de quem possui muita experiência em praticar o bem
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