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Or


“Não tenhas medo de mim”,
é o que tento dizer com os meus olhos,
mas as suas retinas sempre me escapam
e as minhas palavras se despedaçam
antes de saírem pelos lábios
Eu ando pelas ruas
procurando a cor das suas
pupilas,
mas elas só refletem o asfalto,
pra você, eu sou apenas o fantasma de outros homens,
eu queria que você realmente pudesse me ver,
nem amigo, nem amante,
nem efêmero, nem importante,
só outro humano,
alguém perto de você
Na cidade há muitos carros,
muitas cores,
luzes,
outdoors,
todo aquele barulho,
toda aquela gente apressada,
na cidade tudo é magnífico e caótico,
não sobra tempo para a poesia,
a poesia é coisa do campo,
de quem vê passar o dia,
é para quem respira devagar
e não sente cheiro de maresia
Quando eu ouço os pássaros chilreando para anunciar a
eu me lembro do teu rosto,
tua voz acariciando meus ouvidos,
vinte mil poemas perdidos,
a cada segundo do nosso enlaço,
mas o destino é uma feiticeira
e ela soprou seu laço,
foste embora numa manhã de terça-feira,
que os anos já levaram para bem longe,
nas profundezas da minha solidão,
mas às vezes
parece que eu consigo escutar a tua alma cantando
dentro do meu coração
Se já não tivesses a tua ilha,
eu gostaria
de ser teu horizonte,
abrir os braços
e deixar o meu peito ser o teu mar,
que te afundasses em mim sem te afogar,
que procurasses meu confim
até não poderes mais nadar
Queria te fazer feliz
no vai-e-vem das ondas,
ouvir o teu suspiro de alegria
ao te jogares na beira da praia,
queria te ver dormir com o canto dos meus pássaros,
e nunca te deixar esquecer
o gosto do meu sal
Se eu pudesse escolher
um lugar para morrer,
nas geleiras da Noruega,
nas areias deserto do Atacama,
ou nas areias do caribe, diante do mar aberto;
me jogaria com total entrega,
me esqueceria dos desígnios da cama,
dispensaria o errado e o certo,
chegado o dia,
morreria de alegria,
detentor da certeza
Quando a caduquice vier,
não quero mais ter exigências
e mastigar rabujos como um ancião qualquer;
quero nos meus devaneios repletos de eloquências
perder todo o critério,
pois no dia em que eu for bem velho
e não puder mais quebrar ossos de frango com os dentes,
quero que a vida não seja mais feita de repentes,
que se instaure a calmaria,
que os dias passem como versos cantarolados duma doce
quero uma casa cheia de livros mofados pela maresia;
serão dias de descanso,
uma cadeira de balanço
para quem não aguenta mais,
sem mentiras, sem intrigas, sem ranço,
Nem todas as poses são para fotos,
nem todos os amores são para vida,
nem todas as dores são para remédios,
nem todos os tédios são para televisão,
Nem todas as flores são de primavera,
nem todos sonhos de verão,
nem todos os amores morrem no outono,
nem todo frio é de inverno
e nem todo inferno
é fruto da nossa ingratidão
Nem tudo na vida,
que é finita,
um mero diapasão,
vai durar,
tudo, na verdade, é efêmero,
as delícias e as dores,
os amigos e os amores,
os pomares e as flores,
a gente planta
Eu plantei uma semente na minha nuca,
esse caroço,
no meu pescoço
fez crescer mais que nunca,
crescia e não havia buraco, caçamba, caçapa ou sinuca,
não havia arapuca,
eu era areia e uma vez furado o saco,
me expandia pelo universo
como cada letra que expande meu verso;
minha mente explodiu sem regresso,
eu crescia e crescia, passava o teto,
o forro,
o telhado,
as pedras do Corcovado,
passava o Cristo Redentor,
crescia como a puta que para mim se despia sem pudor,
passei a atmosfera,
passei das estrelas,
dos outros planetas,
asteroides e cometas,
mais do que o homem conhecer pudera;
cresci e fui muito além daquilo que tinha de pior
velejei até encontrar o meu fim,
morri cremado abraçando o sol de outra galáxia
Não era um pássaro,
não era um avião,
não era um super-herói,
era um homem sem motor,
plumado de sonhos,
e pelado de razão,
tão consumido pelo rancor que ficou mais leve que o ar;
aquilo que não mata dói
e o que não te destrói,
te faz flutuar
Ressecado por dentro como se só bebesse água do mar,
às portas do Paraíso negado,
recusava-se a descer
e pelas nuvens ousava velejar;
sem morrer,
sem ser arrebatado,
era menos que homem,
uma carcaça navegante,
uma sombra de céu desimportante;
mesmo sem vida, não estava necrosado,
mesmo nu, não estava despido,
tinha flechas de paixão e não era desejado,
tinha charme e não era aprumado,
tinha voz e não era ouvido,
por todos os cantos atacado,
mas não ainda destruído,
tinha fama e era desconhecido,
tinha cama e não satisfazia a libido,
era vazio de pleno,
era divertido de tão sério,
inquieto de tão sereno,
enigmático de tão pouco misterioso,
tinha boca e não beijava,
um sexo que a outro não colava;
sozinho de homens e mulheres,
ficou com a companhia das nuvens,
tornou-se amante da chuva
e se sentia orgulhoso de ouvir seus trovões,
gozava com seus raios,
dissolvia-se no mar
e deixava sua pele morta virar coral
É uma fragata que não rouba peixes, mas pedaços de azul,
a cada pontada de maior vigor,
ele fica mais leve,
indelével, vai sobrevoando como um esquilo voador,
de canto em canto,
tentando fugir da própria dor
Os olhos, cegos do mundo,
afundam-se nas cavidades dum homem torto;
só conseguem ver o absorto,
a lembrança daquela mulher cheia de flerte,
coberta de charme,
encarnada de luxúria,
a coisa mais bela já vista nua,
se ela ainda fosse sua,
“se ela ainda fosse minha”,
“se ela ainda
repete com os dentes fazendo rinha,
rastejando serpentoso pelo calçadão
beija pedras portuguesas como se fossem os pés da sua
engole a poeira do chão
como se fosse favos de mel
como se pelo favor dum prazer bel,
no asfalto da rua São Clemente,
ele deixasse de ser penitente
e encontrasse o céu
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