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Or


O Universo é imenso,
infinito,
o dinheiro,
o sexo,
a vida,
tudo é finito,
os homens não passam de formigas
que conspiram intrigas internacionais,
são pedaços de barro aos quais “Deus” deu vida,
todos eles vaidosos,
prostram-se pomposos,
crendo-se imortais,
mas a vida uma hora se finda,
Canções em sueco,
filmes em inglês,
palavrões em espanhol,
obscenidades em francês,
pensamentos em italiano,
frases em japonês,
versos em napolitano
ou no dialeto romano,
o idioma do cotidiano
é o bom e velho português,
mas não acaba por aí,
de tudo há,
de ditados em tupi
a cantigas em iorubá
As línguas se mesclam na minha cabeça,
lambem meus ouvidos,
se perdem na minha boca,
se despem diante dos meus olhos
e eu me desencontro com as letras,
não sei que ortografia é de quem,
que palavra é de uma ou de mais alguém,
que expressão é de onde,
se é uma ideia nativa
ou traduzida,
cidadão cosmopolita,
os meus lábios são poliglotas,
poligâmicos,
entregam-se vadios a todas elas,
mulheres por quem me interessei
e pude conhecer,
mulheres que amei
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
as palavras tinham valor,
eram a única coisa que eu tinha
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
o mundo era grande e minha vida era pequena,
a realidade era feita de suposições,
os meus casos de amor eram inventados
e as minhas amizades eram hipóteses
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
ficava o tempo todo olhando para cima
e não me olhava no espelho,
eu pensava bem de mim
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto,
eu era mais alegre,
apesar de ser apenas um fantasma
que não foi ejaculado
Quando eu tinha um quarto,
casa e comida,
nada que era meramente material tinha valor
Hoje pernoitado em muitos quartos,
abraçado com estranhos,
descobri que não sou nem um quarto
do que eu queria ser
Quantos quartos eu deixei,
para nunca a mais voltar,
quantos quartos de mim ficaram por aí,
um quebra-cabeça a se desmantelar
Hoje os meus olhos vagam pelo teto,
cabisbaixos
e com as mãos nos bolsos,
Está cega
e não me ouve;
está surda
e não vê;
suas palavras,
como soam severas
Ela fala,
sou todo ouvidos;
eu falo,
ela é todos ecos
da própria voz
Não sei se ela é o meu amor
ou meu algoz,
um colo acalentador
ou uma armadilha atroz,
uma mulher que me acaricia
ou que me arranha feroz
Tem dias que eu desejo ser imune,
nunca mais amar,
pois o amor é uma fábrica de traumas
é uma emoção que nos faz idiotas e nos pune
soterrando as nossas almas,
e nos sufocando até não termos mais ar
Você me toca doce
e eu perco o controle;
você me fala azedo
e no meu peito se faz um destrambolhe;
mas não me descomponho,
você insiste,
palavras acres
por lábios ocres;
com deboche rebato,
com afeto reinvisto,
com meu jeito te reconquisto;
eu me deságuo,
você se inunda;
mão na nuca
mão na bunda,
mãos e línguas por todos os lugares;
meu espezinhar é uma arapuca,
tu negas, mas sempre serei mais do que desejares;
esquece-te daquilo que sonhares,
nós só sonhamos amores perfeitos,
outras pessoas com os nossos jeitos,
não conseguimos imaginar o contraste,
um amor de brigas e sexo selvagem,
a gente não sabe do que gosta,
tem que descobrir
e eu me descubro em ti todos os dias,
você é o meu mundo sem mapa,
meu livro sem capa,
Deitado no colchão exposto pelo piso gelado
observo o caminhar das baratas
e já não me levanto num ímpeto assassínio,
continuo deitado e as olho com fascínio,
admirando a rendição do meu espírito sociopata;
a verdade é que eu nunca quis ser diplomata,
o meu lugar é aqui com as baratas,
onde não me alcança a vaidade
de querer mudar o mundo,
mas continuo tendo aquele sonho
em que eu acordo em Islamabad,
as pessoas me falam em língua urdu
e eu respondo em francês;
não tem aquele tom lúdico de sonho,
parece um resquício de sensatez,
um pedido que perdeu a vez,
o último eco de um clamor,
não, eu não vou poder ajudar vocês
Uma barata se esconde atrás do armário;
eu lembro daquele orgasmo insano,
o único instante em que eu a tive lucidez
de genuinamente desejar a paz mundial;
a loucura é um rebento,
um sopro contra o vento
que nos permite ver
Às vezes parece que tudo vai virar poesia,
que a inspiração se esconde em cada esquina,
que cada nuvem andeja
no céu veleja
pela força de compor um verso,
quem sabe até uma estrofe;
o poeta sofre
com papel e caneta à mão,
craveja na folha a mais fustigante aflição
e costura a ferida
no corpo do lírico eu
que já não é mais seu
Às vezes parece que tudo vai virar poesia,
mas a vida é feita de tédio,
com intervalos de emoção;
às vezes parece que toda rima vai virar poema,
que todo riso vai virar cena
de livro e depois de filme no cinema,
às vezes parece que não haverá dilema,
que não importa o tamanho do problema,
que não pesará a mágoa
ou qualquer outra coisa que chateia;
longe da escória,
cidadão livre e cada sua estória,
mesmo que feia,
vai virar letra bonita;
mas de fastio fez-se a vida,
a trilha se entrava,
a mente trava
e tudo vira palavra não dita,
frase encardida,
ferrugem de memória
que para nada serve;
mas enquanto as palavras não faltam,
a percepção não se perde,
a memoração não falha,
e as estórias não deixam de acontecer,
sigo poeta,
de papel e caneta até o amanhecer,
as letras correm o papel apressadas
e nem veem a lua desaparecer,
os dias devoram a vida,
o tédio devora as horas,
e as horas vão nos comendo minuto a minuto sem
mas hoje não,
não neste dia,
nesta madrugada,
ela ficará,
e mesmo quando eu me for, ela ainda estará aqui,
será um clarão no escuro,
enquanto houver alguém para conhecê-la,
com os olhos,
com os ouvidos,
no seu sentimento perpassar o momento mais duro,
a resignação de que a maior parte da vida é antoja,
presencialidade de sentido vazia,
à transcendência é um ataque,
um verdadeiro baque,
saber que nem tudo vai virar poesia
Cabelos desgrenhados,
lençóis e fronhas desconjecturados,
o cheiro de corpos suados,
mesclados
com látex e lubrificante;
queria que o sexo fosse mais poético,
mas na falta do edificante,
escrevo a crueza que cabe no papel:
a irretirável pregnância do sêmen
que gera fetos,
gruda na pela,
mancha os tecidos
e empesteia o ar;
a hipocrisia que nos propicia os hormônios,
de noite casal,
de manhã dois estranhos que querem se livrar um do outro,
a nudez compartilhada,
vira nu vergonhoso,
na destransparência dos lençóis
se esconde o corpo a quem se o deu;
são os efeitos da intimidade migrante
que permeia o sexo ocasional;
dois desconhecidos
que se cumprimentam pelos genitais;
fossem mais que um o reflexo do desejo do outro,
necessidades rebatidas,
saciadas ou insaciáveis vontades carnais,
seriam fontes de calor
Liberto-me dum sono claustrofóbico,
sentindo as gotas de suor
que secam num colchão velho,
ao fundo, o bafo sonoro
de sons distorcidos,
é o ritmo da favela que arde,
o alarde
duma solidão coletiva,
de quem celebra a modo pagão
um feriado cristão;
nem tão bem, nem tão mal,
abandonei uma rodoviária
para ouvir fogos na noite de natal;
são os retrocessos da evolução
urbana e pessoal
na favela do Pavão
ou no Vidigal
Com a cabeça pesada
desço as escadas do beliche
e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo,
na cozinha mato a sede duma noite de calor,
na sala contemplo o esplendor,
duma tela de muitos matizes e pouca cor,
o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas,
luzes que alugam brilho à escuridão matutina,
constelação de formiguinhas lampejantes,
a amanhecer becos e vielas,
Andando pelas ruas de um passado que não me pertence mais,
notei a desimportância de tudo aquilo que deixei para trás,
uma concatenação de histórias poluía a minha cabeça
sofrimentos sem sentido dispostos numa cadeia,
como o amargo de se ressentir por não aproveitar um dia bonito numa cidade feia,
mas naquele tempo ainda me faltavam algumas peças para fechar o quebra-cabeça,
eu não podia saber,
mas para que eu nunca me esqueça,
quando ando por essas vielas presto muita atenção,
desapego do visco das feias e me orgulho da rejeição das belas,
pois ao menos coragem pude ter
e mostrei o meu tesão
Não são os fantasmas do passado que me assombram,
é como se eu fosse um fantasma do presente,
um vivo a caminhar no mundo dos mortos,
os conhecidos me olham com espanto
e os desconhecidos me dão olhares sem encanto,
são narcisistas de rostos tortos,
gente que está na miséria e nem sente,
vidas inócuas que se alambram
Eu queria não ter mais que voltar,
abandonar de vez esse emaranhado de faltas e cumplicidades,
viver uma vida só de sonhos e vantagens,
queria demais poder carregar
todas as doçuras dessa terra
para longe dessa gente que não se consterna,
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