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Or


Quando matamos nosso amor precocemente, ela resolveu fazer uma lista de tudo que mais odiava em mim. Duas folhas preenchidas, frente e verso. Sempre aceitei minhas imperfeições, apenas não sabia que a lista era maior que a Schindler.
Incrédulo, tomado por profunda mágoa, perguntei porque não havia uma lista das coisas boas - por que me importam apenas os motivos para te esquecer - disse sua voz seca, cortando-me como navalha.
Durante nossas conversas inúteis de reconciliação, quando uma raiva súbita tomava sua alma, tirava as duas folhas amassadas de sua bolsa. Suas mãos tremulavam. Lábios mordidos. Olhos cerrados. Palavras escritas em letras quase ilegíveis, eram repetidas em sussurros mântricos. Estava decidida, nosso amor seria assassinado!
Morreu com requintes de crueldade. Esquartejado. Destruímos todas nossas lembranças. Subvertemos os fatos. Ceifamos tudo que nos prendia, elo por elo. Mas esquecemos, naquele momento, que a dor do luto une e unidos permanecemos pela eternidade.
Paulo Curió
Deitados na rede, vestidos apenas de abraços, confundimos nossos corpos. No entrelaçar das coxas, te penetrei. Tua mão agarrou-me a nuca – nos encontramos no olhar. Naquela noite nossas línguas perderam o sossego.
A sacada, que fora tomada pelas flores de verão, da trepadeira que a circunda e envolve suas vigas de jacarandá, compunha o cenário. Os tijolos maciços, num tom de terracota, tinham sua sobriedade quebrada pela grande porta de madeira colorida de verde lunar.
Acima de nós, apenas a luminária, feita de chita e bambu, e o céu. Ao fechar os olhos, o balanço ritmado da rede nos dava a impressão de estarmos à deriva pelo espaço, ao encontro de novas constelações. Desbravaríamos os zodíacos?
Ali na rede, como num poema de Drummond, éramos, apenas, eu, ela, elaeu.
Dezembro estava mais chuvoso que o de costume. O calor e a umidade tornavam o tempo abafado. A sensação térmica nas alturas aquecia o corpo, fervilhava os hormônios.
Pouca roupa, pele exposta, desejos aflorados.
A cintura anunciada pela cropped, o contorno das coxas, a silhueta da bunda naquele short jeans, roubavam meu olhar por onde ela passava. Minha nuca arrepiava, meu coração disparava – quando o tesão toma conta, saciar-se milhões de vezes é o único intuito.
Olhou-me fixo, enquanto prendia elegantemente seus cabelos em um coque, apontou-me o indicador e disse – Vem – sua voz era firme, decidida. Gritava em sussurro. Era a ordem de uma predadora.
Mal passava das 15, um vento forte anunciava um temporal. Já havia um equilíbrio térmico entre o excessivo calor lá fora e os corpos febris aqui dentro.
Roupas não haviam mais ali.
Puxão no cabelo. Tapa na bunda. Coxas que prendem. Bocas que beijam, chupam, mordem. Gemer era inevitável. A cama batendo na parede, seus pés rangendo no chão – Como vou olhar na cara dos vizinhos – ela disse, mesmo sabendo que no fundo, eles estavam morrendo de inveja.
O temporal desaba. Os trovões roncam, estremecem os céus. O sexo, ligação sagrada entre os seres, recebia a benção divina do universo. A natureza é sabia e sabe que o prazer não se cala.
As águas caem. Rios descem do céu e a chuva abafa os gemidos.
Paulo Curió
ALGODÃO DOCE
Nunca soube se o amor chega como um soco na cara ou em pequenos fragmentos, ela veio como um grande quebra-cabeças, ganhando forma ao encaixe de cada peça.
Primeiro seu jeito de menina, inquieta, falastrona, com seus assuntos que não acabam nunca e seus áudios que mais parecem podcasts. Delícias e delírios ao ouvi-la. A voz sempre animada e seu sotaque interiorano que encanta, criam uma atmosfera única. Enquanto a ouço, me transporto.
Então chegaram os olhos, cintilantes e sutis, como o brilho da primeira estrela apontando no horizonte. Num fração de segundos, atraiu-me a boca, perfeita, delineada, sorridente. Meus sentidos confundem-se, quero admirá-la enquanto fala e sorri. Quero beijá-la. Quero tocá-la com a ponta dos dedos, decorando a perfeição do seu contorno.
O amor foi se achegando lentamente, esvoaçando seus cabelos, fazendo caras e bocas. Chegou como um domingo de sol no parque, com seu rosto de algodão doce, que adocica a mão de quem a toca, que derrete na boca de quem a beija.
O amor vem fazendo morada de mansinho e ainda aguardo o que está por vir!
Paulo Curió
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