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A meta 20 do Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024) trata do financiamento da educação, que tem relação direta com a qualidade e as condições de ensino no Brasil. “[Essa meta define que deveríamos] sair dos 5% do Produto Interno Bruto, até atingir 10%, ou seja, dobrar. Como estados e municípios já estão no limite, a grande condição para realizar o PNE era exatamente o protagonismo federal”, analisa o professor da Universidade de São Paulo (USP) José Marcelino de Rezende Pinto.
No entanto, ele salienta que, em vez de repasses de verba, a União tem sujeitado os recursos da educação à Emenda Constitucional nº 95, de 2016, que traz limites e paralisa o financiamento da educação básica por 20 anos. “Temos que questionar a Emenda 95. O Plano Nacional de Educação, em um contexto desse, fica completamente comprometido. Nós estamos congelando o futuro das crianças e jovens do Brasil. Isso é inaceitável”, acredita.
No áudio, o especialista prevê que o quadro só poderá ser revertido com a mobilização de toda a sociedade em debates como o que envolve a evolução do Custo Aluno Qualidade (CAQ), que pode ter impacto decisivo para a mudança na forma como acontece o financiamento da educação.
Criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) funciona como um indicador nacional para o monitoramento da educação, por meio de dados que podem servir de baliza para políticas públicas. O índice é composto por duas variáveis: o desempenho dos alunos, avaliado pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), e as taxas de aprovação. Para a presidente da Associação Nacional de Educação Básica Híbrida (ANBHI), Maria Inês Fini, o Ideb é importante para gestores da educação, mas não deve orientar, por exemplo, famílias que procuram avaliar as escolas para escolher onde matricular seus filhos.
“Houve uma época em que as escolas particulares, principalmente, fizeram um movimento pra colocar o Ideb na porta da escola. Eu acho isso um absurdo, porque o Ideb se refere a um contexto de outros fatores de uma determinada escola. Então, ele serve para o monitoramento dos gestores. A família tem que ir além do Ideb e ver a qualificação do corpo docente; as instalações físicas; os esquemas de segurança da escola; o projeto pedagógico”, enumera a especialista, que foi presidente do Inep entre 2016 e 2018.
No áudio, Fini explica como o índice pode orientar políticas pública e revela os riscos que enfrenta diante das mudanças n o Ministério da Educação, que diminuíram a força do Inep e passaram a liderança do Ideb à Secretaria de Educação Básica.
O interesse pelo breakdance, assim como aconteceu com o skate nas Olimpíadas de Tóquio, deve aumentar até os próximos jogos. Em Paris-2024, a dança, também chamada de breaking, vai se tornar a mais nova modalidade esportiva. Consequentemente, a educação física na escola também deve voltar ainda mais as atenções para os movimentos corporais que têm origem na cultura hip hop.
“Alguns [alunos] têm um pouco mais de dificuldade, mas eu procuro encorajá-los, elogiar as evoluções que eles fazem, para justamente adquirirem cada vez mais autoconfiança, melhorar a autoestima deles com a prática da dança. A ideia principal, quando eu coloco também o break, é valorizar esse aspecto emocional”, afirma o professor de educação física Edson Júnior, que atua em escolas da rede pública do Rio de Janeiro.
Para ele, o breakdance deve ser trabalhado de maneira interdisciplinar. “Com cada [professor] pegando um dos elementos da cultura: eu ficando com a dança; a professora de artes trabalhando a parte de grafite; a professora de português se incumbindo de fazer a parte da prosa e do verso, da poesia pra desenvolver o rap; e o professor de história, na parte do desenvolvimento do conhecimento das raízes histórico-culturais do movimento hip hop, no passado e atualmente”, exemplifica com os projetos que participa.
No áudio, Edson e alguns alunos que tiveram aula com ele relatam como o breakdance e a proximidade com a cultura urbana ajudam no desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo, social e cultural.
Durante a CPI da Pandemia, depoentes e parlamentares trouxeram conceitos distorcidos em relação aos cuidados paliativos. Diante da confusão gerada, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) se posicionou para explicar o real papel dessa atividade, que visa a melhoria da qualidade de vida do paciente e de seus familiares. “É um conjunto de profissionais que cuida do sofrimento das pessoas que convivem com doenças mais graves”, resume o médico geriatra, paliativista no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e atual presidente da ANCP, Douglas Crispim.
“Essa pessoa é olhada em todo o seu espectro: a dor existencial, social, espiritual. Às vezes, o seu pior medo não é o de sentir dor física, mas de deixar alguém da família. Então, atuam ali em conjunto psicólogo, psiquiatra, assistente social”, completa a jornalista Juliana Dantas, criadora do podcast Finitude.
No áudio, Crispim relata a situação de uma paciente que teve a oportunidade de ser madrinha de casamento, mesmo com doença em estágio avançado. Já Dantas fala sobre a experiência de ver a avó e o pai receberem cuidados paliativos: “Chega um momento em que não é mais ‘que’ a pessoa vai morrer, mas ‘como’ ela vai morrer (...) e ver pessoas partirem com dignidade, nos dá dignidade também”.
Movimentos com o objetivo de espalhar desinformação e negar a ciência não são novidade, mas têm alcançado cada vez mais pessoas nos últimos anos. “Os negacionistas têm todos os canais possíveis para serem ouvidos com o advento da internet e redes sociais. E esse é um dos motivos para essa desinformação se espalhar exponencialmente”, acredita o professor do Instituto Federal de São Paulo e colaborador no programa de pós-graduação em Ciências e Matemática da Universidade Federal do Maranhão Aldo Aoyagui Gomes Pereira. Para ele, as aulas de ciências na educação básica podem ser uma forma de combater o problema. Especialmente, se elas forem baseadas no conceito de Alfabetização científica, ou seja, se apresentarem ferramentas aos alunos que permitam fazer conexões entre o conhecimento científico e o mundo real.
A professora da educação básica Camilia Aoyagui dos Santos, coautora de Pereira na pesquisa “Desinformação e negacionismo no ensino de ciências: sugestão de conhecimentos para se desenvolver uma alfabetização científica midiática”, cita algumas perguntas essenciais que considera importante de serem ensinadas aos alunos. “Esses supostos especialistas têm expertise? Ele estudou esse assunto? Ele tem livro publicado? Ele tem artigo publicado? Tem credenciais, ou seja, como que ele é aceito na comunidade científica? Será que ele tem uma especialidade nesse assunto?”, enumera.
No áudio, os pesquisadores trazem mais exemplos de como aplicar, na prática, a alfabetização científica e citam o documentário “Mercadores da dúvida”, baseado em livro da historiadora da ciência Naomi Oreskes, como uma boa maneira de entender como o negacionismo se constrói.
Em 2022, dois marcos podem ser abordados pelos professores na educação básica: o centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da independência do Brasil. Com as datas em mente, o “Portal 3x22” e o Projeto “3x22 na Escola” foram criados para estimular a consulta ao acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da Universidade de São Paulo. Além dos retornos a 100 e 200 anos atrás, o projeto propõe também uma reflexão sobre a contemporaneidade.
“Não é só atualizar aquilo que foi feito, é repensar efetivamente os temas de 1822 / 1922, à luz dos dilemas da nossa sociedade. A ciência precisa traduzir o que é feito para que seja valorizado pela sociedade”, afirma o coordenador do projeto, Alexandre Saes. Livros raros e primeiras edições com marcações dos autores foram digitalizadas para permitir estudos sobre a Semana de Arte Moderna. O módulo voltado à escola conta com uma grande variedade de material didático interdisciplinar formado a partir de temas centrais, como cidadania, meio ambiente, desigualdade e educação.
No áudio, os membros do projeto sugerem a obra da autora negra Ruth Guimarães, que é pouco estudada no âmbito do Modernismo, e a estudante Bruna Martins lê trechos de conteúdos presentes no Projeto 3x22.
Quando a pessoa com deficiência é vista como incapaz ou inapta para cuidar da própria vida, caracteriza-se o capacitismo. Trata-se, portanto, do preconceito que gera descrença na capacidade de uma pessoa em função de sua deficiência física ou mental. “Eu, por exemplo, passei por isso na minha adolescência, nos anos 1970. Tinha um tio que dizia: ‘Tira o Marquinhos da escola, é perda de tempo. Com essa visão que ele tem, não vai conseguir grandes coisas do ponto de vista profissional’. Essa é uma atitude capacitista!”, exemplifica o professor e radialista Marcus Aurélio de Carvalho, que atualmente é o responsável pela Comunicação da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB).
O nadador e campeão paralímpico Clodoaldo Silva traz o tema para um público amplo. Para ele, o esporte é uma forma de falar de maneira mais leve e instruir as pessoas. Tubarão, como é conhecido, ressalta a importância de eventos como as Paralimpíadas Escolares: “Essa questão de começar mais novo na competição e na escola vai passando e mostrando pra outras pessoas que não têm deficiência, que nós somos capazes, que nós não precisamos ser tratados como coitadinhos”.
No áudio, Clodoaldo afirma que a melhor forma de combater o capacitismo é ampliando a acessibilidade para todas as pessoas. “A partir do momento que nossas autoridades em âmbito municipal, estadual e federal puderem olhar de uma maneira mais séria para a questão da acessibilidade, o capacitismo, o preconceito e a discriminação vão diminuir muito no nosso país”, defende.
Muito se fala sobre os impactos do novo ensino médio para os estudantes, mas quanto a reforma vai alterar a atividade docente? “O novo ensino médio e as ações que têm sido feitas de indução à sua implementação, em articulação com a Base Nacional Comum Curricular[BNCC], buscam deslocar esses profissionais da posição de portadores de um conhecimento específico, com base em ciência de referência, para uma espécie de acompanhante de um aprendizado pré-definido”. A crítica é do pesquisador do Observatório do Ensino Médio e doutorando em educação Lauro Rafael Cruz.
No áudio, ele aponta as repercussões negativas para as condições de trabalho de professoras e professores. “Esses profissionais vão perder aulas nas instituições em que atuam. E, por isso, vão ter que complementar sua carga horária assumindo mais turmas, mais alunos e em escolas diferentes. Para além de todo o desgaste físico e mental, isso impede que o profissional estabeleça vínculos com a comunidade na qual está inserido”, analisa. Além da redução de carga horária, ele destaca aspectos como formação precarizada e falta de autonomia.
Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance em seu país. Em ‘Niketche’— que está na lista de livros do vestibular da Universidade de Campinas (Unicamp) em 2022 —ela apresenta a condição feminina e social que luta para desconstruir. “É muito importante a gente entender o quanto que essa mulher marca uma transição da literatura moçambicana – inclusive, [a partir dela] se passa a conceder a ideia de que mulheres participam da vida civil e se tornam profissionais de destaque.”, afirma o professor do Anglo Vestibulares Mauricio Soares Filho.
Entrevistado nesta edição do Livro Aberto, no áudio ele destaca como a literatura de Chiziane está ligada ao resgate da cultura local e aborda temas considerados tabus em uma região em que a atividade literária é exercida quase em sua totalidade por homens. Também no podcast, o professor explica o título da obra, que foi lançada no Brasil em 2004: “Niketche é uma dança sensual, que a gente pode entender quase como uma dança do acasalamento. As meninas são preparadas, principalmente no norte do país, pra esse momento da iniciação sexual, inclusive acompanhadas por professoras”.
Diante da atual crise climática, a sigla ESG entrou em evidência. Mas o que exatamente essas três letras traduzem na diminuição dos impactos sociais e ambientais de uma empresa? “ ‘E’, que tem a ver com uma palavra no inglês que significa meio ambiente; o ‘S’, que aí é fácil, é social; e o ‘G’, que quer dizer governança, faz parte de uma conceituação que hoje está super forte sobre critérios, exatamente, de respeito ao meio ambiente, preocupação com o social e de uma boa gestão”, explica o ambientalista e diretor do Instituto Escolhas, Sergio Leitão.
A primeira vez que a sigla ESG apareceu oficialmente foi em 2005, no relatório Who Cares Wins (em português, “ganha quem se importa”), resultado de uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). “Não adianta só você dizer que tem critérios ESG. (...) A pergunta é: como é que eu posso saber que uma empresa que está lá dizendo ‘eu tenho uma preocupação com esses critérios’, realmente está fazendo a diferença na prática?”, questiona Leitão.
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